Além da Receita

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A alma do homem com todas as correntes de água viva pura parece habitar as fáscias de seu corpo. Quando você lida com a fáscia, você lida e faz negócios com as filiais do cérebro, e de acordo com a regra geral da corporação, faz o mesmo com o cérebro em si, e porque não tratá-lo com o mesmo grau de respeito. Andrew Taylor Still, 1899

Ouvimos freqüentemente que Rolfing é um processo, não um evento. A orientação processual talvez seja uma das características da prática “holística”. Mas há níveis de holismo. O Rolfing formulista é holístico na medida em que considera o contexto estrutural de sintomas locaisaborda todo o corpo;vai um passo além ao interpretar o corpo no contexto da gravidade. Além disso, com o desenvolvimento dos Princípios de Intervenção do Rolfing, nós temos um paradigma para o trabalho reter seus aspectos holísticosao mesmo tempo ser não-formulista. A Integração pelo Movimento Rolfing leva o trabalho um passo adiante com seu foco na funçãono “Circulo do Ser”, que reconhece a necessidade de integrar os aspectos mental, emocionalespiritual no físico. Entretanto, o holismo do Rolfing ainda é limitado na medida em que não aborda formalmente outras dimensões do contexto (embora na prática muitos rolfistas o façam). Por exemplo, da mesma maneira que estamos continuamente expostos ao campo gravitacional, também estamos continuamente expostos aos campos socialcultural. Mas nem a receita nem o Circulo do Ser os consideram explicitamente, embora afetem a estrutural fascial.

O processo do Rolfing acontece dentro do processo maior da vida do cliente. Considerando-se que estes processos maiores acontecem em contextos que tem dimensões que não são consideradas explicitamente pelo Rolfing, o quanto o processo do Rolfing pode realmente ser integrado no processo maior de vida do cliente? Este tipo de integração requer um estilo de trabalho que abra espaço para estas outras dimensões do processo do cliente, enquanto ainda estrategiza cada sessão ou série de sessões de acordo com os Princípios.

AS ESTRUTURAS TÊM MUITOS NÍVEIS

Imagine que você – enquanto “terapeuta” da ponte Rio-Niterói – seja responsável por garantir sua segurança.(1) À medida que faz a leitura da ponte, você primeiro observa sua formaconfiguração. Numa análise estática, você poderia perceber a ponte enquanto uma rede de forças de tensãocompressão. Se o projeto básico estivesse em ordem, você poderia então inspecionar componentes físicos em particular. Estes poderiam incluir os componentes dos batentesdas fundações, cabos, colunas de sustentação das torres, soldas,revestimentos anti-corrosivos. Se apenas um único componente das fundações estiver corroído, será suficiente um conserto local. Mas se muitos membros mostram corrosão significativa ou outras condições que reduzam sua capacidade de suportar peso, a ponte ficará propensa a entortardesabar; assim, a condição geral das fundações é uma propriedade estrutural,qualquer intervenção precisa ser estrategizada de acordo.

Para um engenheiro holístico, consertar a torção da estrutura que estivesse surgindo aparentemente de um desgaste geral dos elementos, seria necessário algo além do simples que re-equilibrar forças contrárias para acomodar sua capacidade reduzida de suportar peso. Seria primeiro necessário perguntar porque as estruturas estariam se desgastando. Se a resposta fosse “idade”- desgaste proporcional com o tempo de vida da pontedas propriedades materiais do aço- talvez o engenheiro pensasse em reforçar ou trocar os componentes. Se o peso da carga real fosse acima do peso da carga do projeto (pense em práticas esportivas ou lesões por esforço repetitivo), poder-se-ia reforçar os membros existentes ou acrescentar mais deles (tornando a ponte mais forte)- ou reduzir a carga através da restrição do tráfego sobre a ponte (repouso). Masse a condição fosse originária de uma mudança das propriedades químicas, por exemplo, um aumento na qualidade ou na quantidade de corrosivos químicos no ar ou na água (pense em mudanças metabólicas)?

Levando este pensamento adiante:se a corrosão dos membros, embora existente, não seja a causa do entortar? Talvez uma mudança nas correntezas tenha comprometido as fundações das torres de apoio, as quais por sua vez alteraram a posição de suas colunas? E se um tremor afetou as bases nas quais os cabos foram ancorados? Focar somente nas fundações não resolveria o problema; resultaria apenas num “conserto cego”. Para ir além de um conserto cego você teria que considerar além das forças de tensãode compressão dentro da própria ponte. Isto porque qualquer coisa que mantenha ou influencie substancialmente a configuraçãoo comportamento da ponte ou de suas partes deveria ser considerada como estrutural.

Da mesma maneira, integraremos melhor nosso clienteevitaremos consertos cegos se reconhecermos os fatores que mantém ou influenciam substancialmente a configuração das fásciade outros elementos estruturais corporais. Isto significa que deveríamos olhar além do equilíbrio das forças na rede fascialpelo menos considerar restrições nos diferentes níveis estruturais alem da “coisa” fascial. Todos nós sabemos disto, mas a maneira tradicional de se apresentar o Rolfing exclui qualquer abordagem sistemática de inclusão destes outro níveis.

O objetivo deste artigo é oferecer algumas sugestões a este respeito. Primeiro descrevemos alguns níveis de estrutura que deveriam ser considerados. Então oferecemos algumas regras básicas que, se seguidas, deveriam aumentar as possibilidades do nosso trabalho afetar estes outros níveis.

NÍVEIS DE ESTRUTURA
Coordenação

“Você quer ter uma pélvis americana?”
Ida Rolf para uma mulher chinesa

Na década de 60, o biólogo prêmio Nobel Konrad Lorenz descreveu uma representação precisa do corpo físicode suas propriedades funcionais no córtex motor.(2) Desde então a pesquisa posterior deu suporte a este ponto de vista;(3)agora é comumente aceito que nosso cérebro não apenas “mapeia” nosso corpo, mas que também o cérebro trabalha ativamente para manter a forma do corpo congruente com o mapa. Na comunidade do Rolfing, a relação íntima da estrutura fascialdo córtex motor tem sido explorada por Hubert Godard no seu trabalho relativo a Função Tônica,por Robert Schleip. (4) Na verdade estas funções cerebrais são estruturais. Como Peter Schwind já comentou, “trabalhar com um corpo anestesiado é como trabalhar com um pneu murcho”; um rolfista tornar-se-á mais eficiente se reconhecer que a representação interna é afetada.

Sabemos durante as sessões que a representação interna mudou quando o cliente experiencia mudanças proprioceptivas maiores. Por exemplo, os clientes freqüentemente “descobrem” partes do corpo que antes estavam ausentes de sua consciência. Ou o cliente talvez tenha que re-mapear uma relação, como a mulher que exclama, “desde que você trabalhou nos meus ombrospescoço, não consigo mais encontrar os furinhos para os meus brincos sem usar um espelho!”

A importância estrutural da representação interna também pode lançar alguma luz no fenômeno de que formas corporais diferem com a geografia. Por exemplo, uma garota brasileira cujo lugar predileto seja a praia pode ter “aprendido” a anteversão com deslocamento posterior da pélvis para adaptar-se ao padrão cultural desejável. Uma vez que a atitude aprendida se estabeleceu tanto nas suas fáscias quanto no seu cérebro, ela se torna “estrutural”. Neste ponto, é difícil distinguir as preferências estruturais mecânicas das neurológicas. As mãos do rolfista irão tratar as questões fasciais; mas a menos que o componente neuromotor seja abordadoque o cliente adquira uma compreensão de como as preferências fasciais surgiram em primeiro lugar, o mais provável é que a cliente volte ao seu padrão anterior. Neste sentido, o “Rolfing não é uma técnica de manipulação. É um sistema de educação.” (5)

Emoções

A maioria dos rolfistas aceita que o músculosfáscias possam “conter” lembrançasemoções do passado. Assim naturalmente, os clientes às vezes experienciam emoções quando fixações antigas nas fáscias, articulações ou vísceras são liberadas. Freqüentemente os clientes parecem experenciar uma combinação de alíviotristeza ao encontrar o espaço que foi perdido há muito tempo. Por outro lado, porque os hábitos emocionais são estruturas, medo ou evitação das emoções pode levar a reversão às posturas habituais. Por outro lado, o reconhecimento pelo cliente, da correlação entre as estruturas físicaemocional pode tanto potencializar as mudanças físicas quanto evitar a reversão. Mas para o cliente conquistar este reconhecimento, é importante que o rolfista esteja alertoaberto em relação ao nível emocional. Isto significa reconhecer a importância deste componente estrutural “não-concreto”. Ao mesmo tempo devemos tratar as emoções apenas como um aspecto da estrutura ,não aumentar ou subestimar sua importância no todo. Isto, por sua vez, requer que o rolfista tenha algum grau de aberturacompreensão em relação ao seu próprio processo emocional.

Sistema Nervoso Autônomo

“Se você não atingir o sistema nervoso, você não terá sucesso.” Ida P. Rolf

O equilíbrio do tônus no sistema fascial corresponde ao equilíbrio entre os ramos do sistema nervoso autônomo. A dominação crônica do simpático gera musculatura esquelética hipertônica, respiração superficial, circulação periférica diminuídaperistaltismo inibido,a dominação crônica do parassimpático gera inflamações das articulaçõestendões,um esforço muscular aumentado para vencer a resistência do fluxo de ar aos pulmões. Conforme foi demonstrado pelo trabalho de Jeff MaitlandJohn Cottingham, (6) o Rolfing melhora o equilíbrio entre o simpáticoo parassimpático (embora freqüentemente isto aconteça acidentalmente ao invés de sistematicamente). Nós gostaríamos de obter estes resultados baseados na nossa compreensão do SNAna promoção dos objetivos estruturais, ao invés do mero acaso. (7)

Biossociologia

“Não estamos verdadeiramente eretos, de pé; estamos apenas a caminho de ficarmos eretos. Esta é uma consideração metafisica. Uma das tarefas do rolfista é acelerar este processo.” Ida P. Rolf

Nós humanos usamos nosso corpo, incluindo as estruturas fasciais, para transmitir uns aos outros mensagens sociais não verbais. Nossos ancestrais macacos viveram em grupos sociais por uma eternidade, o que sugere que a linguagem corporal é muito mais antiga do que a linguagem verbal. Foi apenas recentemente que o comportamento dos nossos parentes mais próximos em seus ambientes naturais tornou-se objeto da pesquisa cientifica (particularmente por Jane GodallFrans de Waal). (8) A linguagem corporal dos grandes símios, tanto em termos da intenção quanto do significado, assemelha-se com alguns comportamentos humanos,sua linguagem corporal é prontamente compreendida pelos humanos. Desta forma, os humanos carregam consigo não apenas o “cérebro reptiliano”, mas também aquilo que podemos chamar de “cérebro” dos grandes símios, pelo menos em relação a nossa comunicaçãocomportamento social.

A maneira como uma pessoa em particular pode usar a estrutura enquanto um meio de comunicação não é necessariamente congruente com a postura ereta ideal. Portanto, se ignorarmos a linguagem corporal poderemos perder ou interpretar erroneamente as questões estruturais relacionadas a ela. Por exemplo, se um cliente não consegue olhar diretamente nos olhos dos outros, as mudanças induzidas pelo Rolfing irão desafiar além do sistema fascial do cliente. Deveríamos ao menos contemplar a possibilidade de que as características estruturais ou funcionais possam ter um significado social para uma pessoa em particular,incluir consistentemente a linguagem corporal na nossa leituraestratégias. Embora possamos observar repetidas correlações entre questões estruturais particularesseus significados em pessoas de contextos culturais similares, não devemos esquecer que a semântica da linguagem corporal varia entre as diferentes culturas.

Sentido do Self

“O modo como você caminha através da sala é o modo como você caminha pela vida.”
Vivian Jaye

Uma pessoa mentalmente saudável tem uma definição internalizada do self. Erik H. Erikson mostrou que este senso do self relaciona-se com a auto-estimaindependência,influencia a habilidade de encontrar amortrabalho na sociedade (9). Parte da auto-identidade manifesta-se como uma sensação-sentida (felt-sense) no corpo. A discussão a respeito do que estabelece o senso do self evoluiu de algo puramente filosófico para algo mais concreto no campo da neurociência. Recentemente, neurocientistas como Antonio DamasioVilaynur Ramachandran têm explorado extensivamente esta questão,postulam que uma das coisas que estabelece o “self” é a sua “corpação”(i) específica; em outras palavras, o “self” sempre se relaciona com a imaginação de seu corpo particular. (10) Se a sensação-sentida (felt-sense) do corpo é alterada, a pessoa pode sentir-se temporariamente estranha ou não-natural. Mas como Myron Sharaf, um dos alunos mais brilhantes de Wilhelm Reich, costumava dizer em seus workshops, “Se dá a sensação de ser incomum, pode ser curativo”. (11)

As mudanças físicas induzidas pelo Rolfing apresentam desafios à auto-identidade física do cliente, que pode por sua vez afetar o senso do self noutros contextos. Precisamos estar conscientes do alcance potencial do desafioestar preparados para tentar ajudar o cliente a aceitardepois resolver quaisquer desconfortos, (tais como medo ou dor de crescimento)então integrar os insights noutras dimensões. Ao mesmo tempo, o Rolfing apresenta uma grande oportunidade porque o senso do self pode ser rápidafortemente desafiado no nível físico.

Energia

Usamos aqui o termo “energia” para descrever a intensidade, ou a densidade energética, de processos metabólicos. O nível energético geral de uma pessoa também pode ser chamado de “vitalidade” ou “força de vida”. É aquilo que tanto levacapacita a pessoa a lutar pelo sucesso, quanto para cultivar-se, para se movimentar, para desfrutar de alguma forma de arte, para brincar, para amarter sexo gratificante,para criar algo que vá durar além do seu tempo de vida. A densidade energética é claramente afetada por estados mentaisemocionais. Por exemplo, a energia envolvida é maior numa pessoa engajada, feliz, do que numa pessoa que é alienada, triste. Mas também é fortemente influenciada pelas funções dos sistemas hormonal, imunológiconeurológico; i.e., o grau de flexibilidade na musculatura está relacionado ao metabolismo, o qual por sua vez depende destes outros sistemas.

Biologicamente, uma densidade energética maior é geralmente uma coisa boa; mas isso não é necessariamente verdadeiro socialmente. A psicóloga Alice Miller fez um estudo convincente para a proposição de que quanto mais uma criança é vital, independenteexpressiva, tanto mais seu entorno social tenta compeli-la a suprimir sua própria vitalidade. (12). Esta supressão pode manifestar-se tanto como tensão ou retração psicológicas quanto como dissociação psicológica. Talvez sua influência em toda a estrutura possa manifestar-se como “doenças de retirada”, tais como dores nas costas, pescoço ou ombros, artrite, asma, alergias, fibromialgia, bruxismo, hipertensão, disfunção sexual,muitas outras, que freqüentemente fazem nossos clientes apresentarem queixas.
Tanto quanto o Rolfing possa endereçar os aspectos fasciaisfuncionais dos padrões de tensão ou de retirada, é pouco provável que os padrões se resolverão completamente a menos que o cliente ajuste o equilíbrio entre as demandas do entorno socialsuas necessidades individuais. Nestes casos, mudanças estruturais duradouras são menos prováveis de acontecerem sem as necessárias mudanças comportamentais.

GUIA PARA O ROLFING DE ORIENTAÇÃO PROCESSUAL

Como, então, os rolfistas poderão abordar outros níveis de estrutura alem do nível fascial? Embora não sejamos experts em química neuromotora, psiquiatras ou mentores espirituais, para integrar as estruturas físicas dos nossos clientes de forma verdadeira, podemosdevemos reconhecerrespeitar os níveis de estrutura além do equilíbrio fascialda função neuromotora. O que se segue são algumas linhas de orientação básica para como proceder dentro do campo de ação de nossas práticas enquanto rolfistas.

1ª regra do Rolfing de orientação processual: deixe o cliente definir os objetivos do processo.

Idealmente o cliente é o capitão,o rolfista é apenas o navegador, (pelo menos no final do processo do Rolfing.). Freqüentemente os clientes chegam nos nossos consultórios esperando que os consertemos. O primeiro desafio com estes clientes talvez seja o de engajá-lo como um associado. A autoridadea responsabilidade devem pertencer ao cliente pelo menos até o final da série, se não antes. Afinal de contas, apenas o próprio cliente pode curar-secrescer. No entanto, o rolfista podedeve ajudar o cliente a desenvolver objetivos adequados, expectativas razoáveisresponsabilidade por seu próprio processo.

Isto requer uma certa humildade por parte do rolfista, que não deve agarrar-se à tentação de fazer o papel de um “guru” ou pessoa “mágica” Precisamos entender que alguns clientes tentarão nos convencer a assumir tais papéis como um jeito para justificar sua própria passividade ou sua relutância de tomar para si a responsabilidade por seu próprio processo.

2ª regra do Rolfing de orientação processual: o processo de mudança estrutural revela-se a si próprio.

É claro que é uma boa idéia ter um plano. Mas deveríamos estar disponíveispreparados para abandonar os nossos planos por uma boa razão. Qualquer organismo vivo, incluindo um cliente de Rolfing, tem uma idéia do que deveria ser. Um rolfista não pode impor uma mudança, mas apenas educar o cliente para a possibilidade de uma mudançaoferecer um convite ao crescimento. E o crescimento não pode ser exatamente planejado porque a vida, se elarealmente “viva”, é cheia de surpresas. Comece cada sessão perguntando-se, “o que quer ser realizado aquiagora?” Observe quais das muitas questões, nas diversas camadas estruturais do cliente, apresenta a restrição mais óbvia, no sentido de que a atenção à esta camada trará o ser total do cliente a um nível de funcionamento superior. O cliente poderá revelar a resposta em qualquer um dos muitos níveis: por uma tensão fascial, um padrão de movimento incompleto, mudanças autonômicas, linguagem corporal, ou uma expressão verbal clara.

Uma observação potencialmente importante é a questão da “resistência”. Em conexão com a psicanálise, o conceito da “resistência” foi originalmente desenvolvido por Sigmund Freud; mas Wilhelm Reich percebeu a importância de “trabalhar com a resistência”. (13). Como provoca mudanças que desafiam a auto percepção do cliente, o Rolfing também pode produzir resistência. No contexto do Rolfing, a resistência pode se manifestar como uma contração muscular voluntáriacontrária à intenção do trabalho; cancelamentos de ultimo minuto; desvalorização do rolfista; sintomas de dor com a mensagem que é o rolfista que os está tornando piores, ou que o cliente está com medo do que poderia acontecer em seguida; inclinação para o sofrer; fuga nas drogas ou atividade frenética; incapacidade de se lembrar do que foi feito na sessão anterior ou não cumprir a “tarefa de casa”; ou medo de tornar-se mais forte, mais livre, mais feliz, ou de ter mais sucesso, ou ainda de tornar-se mais erótico. A resistência não é necessariamente um obstáculo; é um marco em direção ao progresso se ajudar o rolfista a perceber o próximo passo no processo de crescimento. E mais ainda, se o cliente se torna consciente de sua resistência, isto poderá ajudá-lo a conservar o trabalho feito.

3ª regra do Rolfing de orientação processual: equilibre suportedesafio.

Quando Alfred Adler, um dos estudantes mais famosos de Freud, foi indagado a respeito de como educar crianças, respondeu, “há uma coisa definitiva: o melhor que pode acontecer a uma criança é o surgimento de um obstáculo que ela quase não consiga transpor.” (14) Esta afirmação é comumente interpretada no nível psicológico, mas poderíamos nos perguntar se a metáfora estrutural/funcional de Adler deveria ser levada em considerada literalmente.

O insight de Adler certamente aplica-se ao Rolfing. Por outro lado, Rolfing com muito estímulo, desafioaté mesmo dor, mas pouco suporte, poderá gratificar aqueles clientes que desejam sentir qualquer coisa que seja. Chamamos este estilo de “Rolfing sado-masoquista”. Por outro lado, Rolfing com montes de apoiopoucos desafios poderá gratificar os clientes infantilizados ou “detonados”. Chamamos este estilo de “Rolfing nana-nenê”. Embora ambos os estilos possam produzir clientes satisfeitos, ambos podem render apenas resultados estruturais limitados.

A história do Rolfing tem mostrado uma tendência de distanciamento do primeiro estilo em direção ao segundo, que talvez corresponda a mudanças na sociedade como um todo, ou que talvez esteja surgindo do nosso desejo de fugir da reputação do Rolfing ser brutodoloroso. No entanto, o nosso trabalho deveria incluir o elemento do desafio. Ele não apenas enriquece o processo, mas também conserva um atributo fundamental ao próprio estilo da Ida Rolf. ElaMoshe Feldenkreis foram muito exigentes com seus clientes.

“Não preciso de um amigo que acene com a cabeça quando estou acenando. Minha imagem no espelho faz isto muito melhor.” Goethe

4ª regra do Rolfing de orientação processual: além de integrar os resultados do trabalho na gravidade, integre-os nos contextos funcionalsocial.

Se a fáscia fosse o único componente estrutural, o trabalho na mesa seria suficiente. Mas porque não é, torna-se crucial tirar o cliente da mesalevá-lo para o mundo. Precisamos ajudar o cliente a integrar o trabalho de mesa não apenas no campo gravitacional, mas algumas vezes também no âmbito do socialdo relacional. É claro, deveríamos ensinar o cliente a manter a liberação das restrições na gravidade; sentir os espaços internoexternoo aprofundamento da respiração recentemente adquiridos;a reconhecer as sensações de soltar-se através do assoalho pélvico para os pés ao mesmo tempo que se permite o lift para o alto. Aqui, o sentar, o ficar de péo andar podem tornar-se muito mais do que apenas ferramentas de avaliação. Empregados como parte da sessão, tornam-se tão importantes quanto o trabalho de mesa.

Ao mesmo tempo, podemos reconhecerdar suporte às expressões de incômodo, sentimentos ou medos que as mudanças físicasproprioceptivas possam induzir, por exemplo como o medo de perder o controle ou de firmar-se, de sentir-se feio por ter barriga, de sensações sexuais incomuns pelo relaxamento do assoalho pélvico, de vulnerabilidade por conta de um peito mais aberto,incontáveis outros.

Aqui é de grande ajuda alocar tempo no começono final de cada sessão,no final da série, para a integração verbal. Nós somos criaturas de linguagem,a verbalização nos ajuda a concretizara tomar posse de nossas experiências. Ela também pode ajudar o cliente a integrar a sua experiência física com outras camadas de seu ser,a assumir a responsabilidade por seu processo. Finalmente, a integração verbal pode ser usada para fazer o fechamento de uma série de sessões de Rolfing. Tudo isto requer habilidadeexperiência consideráveis do rolfista, mas uma escuta atentaum simples ?espelhar? já são um bom começo.

O ROLFING DE ORIENTAÇÃO PROCESSUAL AINDA É ROLFING?

O Rolfing pode tornar-se extinto de duas maneiras: pela adesão à ortodoxia estreita ou pela absorção exagerada de técnicas afins com conseqüente perda de limites. Podemos chegar ao equilíbrio entre estas duas possibilidades extremas através da generalização das idéias de Ida Rolf ao mesmo tempo que permanecemos enraizados no trabalho tradicional. Embora Ida Rolf tenha admitido que ?o reconhecimento compreensivo da estrutura humana inclui não apenas a pessoa física mas no fim também sua personalidade psicológica ? comportamento, atitudes, (e) capacidades? (15), muitos rolfistas entendem a ?estrutura? somente como a rede fascial. Esta visão limita tanto a compreensão quanto a eficiência. Nós acreditamos que o conceito de estrutura torna-se mais poderoso através da consideração de outros fatores além da fáscia, ao mesmo tempo que se mantém o foco no corpo físico que se move na gravidade (e aliás, também na inércia, que será objeto de um futuro artigo.).

Se por exemplo dizemos que as pernas estão congruentes com a coluna, estamos falando na linguagem do Rolfing clássico. Se acrescentamos que a estrutura fascial é congruente com o padrão de caminhada do cliente, nós incorporamos a linguagem da integração pelo movimento Rolf. Mas com o Rolfing de orientação processual, podemos ir além,discutir como sendo elementos da estrutura aqueles fatores que contribuem para a formação ou manutenção dos padrões fasciais, tais como configurações posturaisfuncionais aprendidas, auto-definição, linguagem corporal, hábitos emocionais,exigências do entorno social. Podemos então dizer que o comportamento do cliente também é congruente com sua estrutura fascial. Embora muitos rolfistas já teçam estas considerações, esta abordagem deveria ser sistemáticamente investigada.

Monica CaspariAdjo Zorn são rolfistas estruturaisde movimento.

NOTAS

(i) N.T. “corpação/corpar”: aprendemos com Regina Favre este neologismo que converge melhor´para o português a idéia do “embodyment/to embody” do que as palavras incorporação/incorporar. (Monica Caspari)

1. A discussão que segue é derivada da moderna Teoria dos Sistemas, que endereça-se às condições de estabilidade nos sistemas complexos. Como na medicina tradicional chinesa, conceitos de ?causaefeito? têm aplicabilidade limitada aqui. Na Teoria dos Sistemas, ?estrutura? significa aquilo que é quase-estável num sistema de ?caos ordenado?, tal como o corpo humano. ?Não existe tal coisa como causaefeito. Existem padrões de co-existência? Ida P. Rolf, conforme citada em Rolf Lines, Nov/Dez 1988, p.7.

2. Lorenz, Konrad, Über tierisches und menschliches Verhalten, Piper 1964.

3. Por exemplo, num número recente do The Journal of the British Medical Society, neurologistas reportaram pesquisa feita com praticantes experientes de meditação. A porção do cérebro que continha a representação interna ficava inativa durante a meditação, o que poderia explicar as experiências relatadas pelos sujeitos de ?deixar o espaçoo tempo?. Para referências, contate [email protected].

4. Veja Talking to Fascia ? Changing the Brain, Rolf Institute, Boulder, Co., 1994.

5. Ida P. Rolf, conforme citada em Rolf Lines, Spring 1992, p.62.

6. Cottingham, John, et al.: ?Effects of Soft Tissue Mobilization ? Rolfing Pelvic Lift on Parasympathetic Tone?, Am. J. Physiology, vol. 68(3), 352-356, 1988.

7. Para algumas idéias básicas de como equilibrar o sistema nervoso auntônomo, veja o artigo ?Rolfing, Estresseo SNA?, publicado em português nos números de abriljunho de 2001 do Rolfing Brasil,em alemão no site wwwB.de/stress.htm

8. Veja seu trabalho concernente ao comportamento dos chimpanzés, gorilasbonobos, i.e., Jane Goodall, Chimpanzee Family Book, North-South Books, 1997; Dian Fossey, Gorillas in the Mist, Houghton Mifflin, Wilmington, MA, 1988; Frans de Waal, Chimpanzee Politics, Power and Sex Among Apes, John Hopkins University Press, 1998.

9. Erikson, Erik H., Identity and Life Cycles, International University Press, Madison, CT, 1967.

10. Veja, V.RamachandramS. Blakeslee, Phantoms in the Brain: Probing the Mysteries of the Human Mind, 1998..

11. De memória por Adjo Zorn, que participou de vários workshops ensinados por Myron Sharaf.

12. Miller, Alice, The Drama of the Gifted Child, Harper Collins, New York, NY, 1996.

13. Reich, Wilhelm, Characteranalyse, S. Fischer, Frankfurt, Germany, 1928/1976.

14. Adler, Alfred, Vom Umgang mit Sorgenkindern, S. Fischer, Frankfurt, Germany, 1930/1979.

15. Rolf, Ida P., Rolfing: Reestablishing the NaturalAlignment and Structural Integration of the Human Body for Vitality and Well-being, Healing Arts Press, Rochester, VT, 1989.

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