Excertos de Entrevista com o Prof. Serge Gracovetsky

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Pages: 3-6
Year: 2004
Associação Brasileira de Rolfing

Rolfing Brasil – ABR

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Professor Gracovestky, o senhor pode descrever o caminho que o levou a devotar sua carreira ao estudo da coluna vertebral?

SG: Eu me formei como físico nuclear em 1968 na Escola Politécnica Federal de Lausannetambém obtive o Ph.D. da Universidade de British Columbia em 1971. O encontro com Harry Farfan em 1974 me deu a oportunidade de trabalhar no campo biomédico. Naquela época, Harry estava no centro de um grande esforço envolvendo muitos cientistas pesquisadores, como Alf Nachemson, que culminou com a fundação, em Montreal, de uma Sociedade Internacional para o Estudo da Coluna Lombar, que é hoje líder indiscutível neste campo. A atmosfera era elétricaeu fui levado por este ?brainstorm?. Depois passei por volta de dez anos tentando entender as características da coluna ?normal?, através de simulações matemáticasanálises no laboratório de patologias. As diversas contradições entre os dados experimentaisas teorias da época gradualmente me levaram a rejeitar muitas crenças largamente difundidas e, em 1983, me levaram à formulação de uma hipótese combinando aspectos essenciais do trabalho de muitos autores, numa teoria coerente capaz de explicar o desenvolvimento estruturalfuncional do aparato locomotor. Esta teoria foi chamada ?Motor Espinhal?, objeto de muitas críticas, mas nunca realmente substituída. Parece portanto corresponder em parte à realidade. Esta teoria me levou a desenvolver instrumentos de medição clínica da função vertebral. Um destes instrumentos, chamado ?Spinoscope?, levou à criação de uma companhia que funcionou por alguns anos.

ASN: O senhor mencionou os Professores FarfanNachemson, com quem trabalhou. Qual era o contexto destas colaborações?

SG: Minha colaboração com o Professor Harry Farfan era de 7 a 8 horas semanaisdurou aproximadamente de 1974 a 1985. Nós conduzimos um grande número de estudospublicamos muitos artigos juntos. Harry tinha uma intuiçãovisão excepcionais, que se estendiam além dos limites da medicina convencional. Ele acreditava que os problemas vertebrais se deviam ao excesso de torção mecânica. Nachemson, um homem impulsivobrilhante, via a maioria dos problemas vertebrais em termos de compressão discal. Quando FarfanNachemson estavam no mesmo pódio de algum congresso organizado num canto do planeta, era certeza de uma batalha de opiniões ferozbrilhante. Meu próprio trabalho era fortemente influenciado pelo combate entre estas duas personalidades excepcionais. A teoria do motor espinhal representa de fato uma conciliação entre estes dois pontos de vista extremos sustentados por FarfanNachemson.

Esta teoria demonstra a ligação irredutível entre os fenômenos de compressãotorção, partes integrais do princípio da locomoção humana.

ASN: Quais são os princípios gerais da sua Teoria do Motor Espinhal?

SG: A idéia central é que a locomoção é uma atividade que tem precedência sobre todas as outras. Os indivíduos de uma espécie tem que se mover para sobrevivergozar de liberdade corpórea vital. Entretanto, precisamos definir certos limites para esta hipótese. De acordo com esta teoria, o animal tem que se deslocar do ponto A para o ponto B consumindo o mínimo de energia, num campo gravitacional constante, sendo que, como corolário, as várias estruturas (ossos, ligamentosmúsculos) devem ser submetidas ao mínimo de estresse durante o caminhar. A anatomia emerge como soluçãonão como um parâmetro do problema.

Todas as soluções possíveis deste problema levaram a muitas configurações anatômicas,nossa anatomia é somente uma expressão destas numerosas possibilidades. O corpo humano como o conhecemos hoje, é principalmente a conseqüência da necessidade de andar eficazmente sobre dois pés num campo gravitacional constante. O motor espinhal oscila dentro deste campo gravitacional.

ASN: Qual é, então, o papel da coluna vertebral na locomoção?

SG: Considero a coluna vertebral o motor ?primário?, no sentido etimológico da palavra. Este motor primário, tão óbvio nos nossos ancestrais peixes, não se deslocou em direção aos membros inferiores ao longo do tempo, embora seu papel tenha se tornado mais obscuropossa parecer secundário no desempenho dos membros inferiores.

Entretanto, esta lógica é falha, já que somos capazes de ?andar? nos nossos joelhos com uma adaptação relativamente pequena, o que demonstra que nossas pernas não são verdadeiramente essenciais à locomoção humana. Uma perna de pau é bastante eficiente. Seria concebível cortar o fêmur um centímetro acima do joelho sem alterar significativamente o caminhar. Isto levanta uma questão: até onde podemos cortar o fêmur antes de afetar a locomoção humana? A resposta é que a extremidade inferior pode ser completamente removida sem que haja interferência no movimento primário da pélvis. Esta afirmativa pode parecer algo excessiva, mas é confirmada pelos fatos.

Obviamente, é preferível ter pernas, mas elas só ampliam os movimentos da pélvis,seu papel funcional permanece secundário.

Neste ponto, o Prof. Gracovetsky nos mostrou um filme no seu computador, representando um homem sem pernassem cotos que caminhava avançando sucessivamente suas tuberosidades isquiáticas, como se tivesse pernas. A mecânica espinhal parecia ser o motor desta locomoção, que tanto se assemelhava com um caminhar normal.

ASN: O senhor pode descrever brevemente as relações entre a coluna vertebral, a pélvisos membros inferiores?

SG: O motor espinhal é bastante óbvio no caso das cobrasdos lagartos, mas quando um nível alto de força tem que ser desenvolvido, os músculos do tronco são insuficientes. Para aumentar o volume de músculos geradores de energia, eles tem que ser deslocados para fora da cavidade abdominal, para as pernas. O primeiro papel das pernas é de servir de suporte para as fontes de energia, o que nos capacita de nos deslocarmos em altas velocidades. Porém, a rotação da pélvis (a pélvis roda em torna de um eixo vertical enquanto caminhamos) com os músculos que puxam a pélvis para baixo, leva a um problema de eficácia. Esse problema é resolvido usando o campo gravitacional da terra como o lugar de armazenagem intermediário, no qual a energia muscular liberada pelas pernas em cada passo é temporariamente armazenadodepois recuperado durante a fase da postura monopodal. Este impulso energético depois sobeé filtrado pelas pernas, de maneira que alcança a coluna vertebral com a fasea amplitude apropriadas. A coluna vertebral pode então usar esta energia para mobilizar cada articulação intervertebralrodar cada vértebraa pélvis num modo apropriado. Os movimentos da coluna vertebral, especialmente seu movimento de rotação axial, são portanto derivados dos músculos extensores do quadril.

ASN: O que acontece na posição estática?

SG: As estruturas anatômicas que ligam a coluna aos membros inferiores são consideráveis. Tome o bíceps femural ou os isquiotibiais, por exemplo; a força gerada pelos isquiotibiais é canalizada pelo ligamento sacrotuberoso, que controla o longuíssimo lombaro latíssimo lombar situados de cada lado da coluna lombar. Parte do ligamento sacrotuberoso então controla o músculo iliocostal torácico até a parte superior da espinha dorsal. Dois planos transversos (o isquiotibial direito controla parte dos músculos ligados ao lado esquerdo do tóraxvice-versa) constituem outra ligação direta entre os isquiotibiaisa parte superior da coluna torácica. Outro elemento de ligação importante consiste no glúteo máximo, que cruza o aspecto medial da coluna para se juntar ao grande dorsal, que controla os movimentos do braço. Todas estas conexões foram uma espécie de pirâmide cruzada das costas, o que assegura uma integridade mecânica muito forte dos membros superiores aos membros inferiores.

ASN: O senhor pode localizar a configuração do aparato locomotor humano, como o conhecemos, no contexto da evolução?

SG: O provável ponto de partida (é somente uma hipótese) é que o peixe primitivo, há 450 milhões de anos, se movia do mesmo modo que o peixe moderno, i.e., através de um movimento de flexão lateral da coluna. O peixe que depois se aventurou no seco enfrentou diversos problemas, sendo o primeiro deles mover-se fincando as guelras na lama por meio de um movimento alternado. Este movimento de rotação axial combinado com o movimento de flexão lateral resultou nos movimentos de flexãoextensão. Portanto, a simples necessidade de se mover sobre seixos levou nosso peixe a inventar movimentos de flexãoextensão. Este mesmo movimento flexão-extensão permitiu em seguida galoparo desenvolvimento dos membros inferiores, já que os músculos pára-axiais gradualmente se deslocaram para fora da cavidade abdominal para se transformarem nos músculos isquiotibiais, a fim de aumentar a força bruta disponível para a locomoção. Alguns destes vertebrados acabaram voltarando para o mar, conservarando suas capacidades de flexão-extensão adquiridas durante a sua ?estada? em terra seca. Estes animais são os mamíferos marinhos, que também respiram de uma maneira bem diferente dos peixes. Hoje em dia é geralmente aceita a hipótese de que estes mamíferos marinhos são descendentes dos quadrúpedes terrrestres, que por sua vez descendem dos animais marinhos. O aumento inevitável da massa muscular das pernas tornou possível a postura ereta. Por fim, a necessidade de avançarportanto rodar a pélvis em duas direções alternadas, fez brotar a mecânica da coluna que conhecemos hoje.

ASN: O senhor não acha que sua teoria foi objeto de tantas críticas por que o senhor não pertence a nenhuma disciplina claramente identificada?

SG: Eu não estava tentando resolver o problema da locomoção humana. Muitos outros cientistas mais eruditos que eu possuíam os elementos necessários para convergir nesta visão do motor espinhal. Em 1898 Lowett (há um século!) chegou perto desta solução, mas não deu o último passo, que de fato parecia muito incongruente. Posso pensar também em gente como Farfan, Nachemson, Pope, Wintermuitos outros. Em suma, não era meu lugar de achar soluções, mas sim de todas essas pessoas que tinham infinitamente mais conhecimentoexperiência em relação à coluna. Senti a necessidadevi a falha na lógica do nosso conhecimento a tempo. Eu era muito jovem quando entrei neste campo (fui nomeado Professor na Universidade Concordia de Montreal em 1970), com uma certa independência de pensamento,comecei estudando tudo que meus predecessores tinham feito. Levei três anos consultando milhares de publicações a respeito do tema, dos quais selecionei 600 ou 700 trabalhos que considerei importantes. Havia papéis por todo o meu escritório: no chão, nas prateleiras. Me defrontei com opiniões fortesfreqüentemente divergentes, vindas de vozes honestas,me perguntei como poderia incorporar todas estas visões divergentes em uma teoria inclusiva, uma espécie de teoria unificadora, como acontece muitas vezes na Física. Então, num dia de janeiro de 1983, tive subitamente uma visão: vi a coluna vertebral caminhando, como num filme em câmera lenta. Depois tive que formular esta visão numa teoria que fosse matematicamente sólidapublicar, o que fiz pela primeira vez em 1985.

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