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O Rolfing e a Conquista do Chão: A Metáfora como Instrumento de Transformação

Pages: 7-11
Year: 2005
Associação Brasileira de Rolfing

Rolfing Brasil – ABR

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Este texto analisa algumas das mediações entre o corpo humano, reconhecido como um sistema complexo,o ambiente onde o corpo opera. Os fundamentos teóricos do trabalho foram estabelecidos através das idéias de Ida Rolf, Hubert GodardJeffrey Maitland, dos neurocientistas António DamásioVilaynur Ramachandran, dos lingüistasfilósofos George LakoffMark Johnsondo filósofo Michel Bernard.

A premissa básica da pesquisa é que existe comunicação entre os dois sistemas abordados: corpoambiente. Quando surge nesta relação algum tipo de interrupção no fluxo de informação, os processos de cognição são corrompidos (Greiner, 2005). Os juízos perceptivos também são alterados. O corpo deixa de ter uma comunicação na sua completude com o ambiente. Há silêncios, congelamentos, paralisias. Se o movimento está bloqueado em algum lugar do corpo, a percepção também está bloqueada ali (Godard, 2002).

O Rolfing pode ser descrito como uma maneira de facilitar a conquista do movimento bloqueado, ao possibilitar novas cognições perceptivas. Deste modo, o Rolfing pode funcionar como elemento restaurador da comunicação bloqueada entre corpoambiente.

METÁFORAS PERSISTENTES

Apesar de todos os avanços conceituais que nos permitiram, a partir da segunda metade do século XX, rever antigas metáforas que traduzem o corpo como máquina, este pensamento ainda é arraigado no nosso cotidianona nossa literatura. Nossas articulações devem estar bem lubrificadas, nossos ossos bem alinhados, as engrenagens em bom funcionamento, o motor do coração deve bater forte…

Ainda é fortese insere de maneira sub-reptícia, quase que sem nos darmos conta, esta tendência de se estudar o corpo através das suas partes, sem levar em conta o todo. No pensamento científico ocidental, ainda fortemente marcado pelo Iluminismo, por exemplo, esta tendência ainda é dominante. Se o que se quer é estudar a postura humana, por exemplo, estuda-se a anatomia de suas partessuas relações, sem levar em conta a pessoa com todas as suas singularidades psíquicas, afetivas, sócio-culturais. O corpo não passa de uma estrutura de órgãos justapostos, cujo entendimento operamos através de metáforas mecânicasonde partes que não funcionam podem ser eventualmente substituídas. Esta metáfora tem o efeito potente de separar corpomente, já que os problemas são tratados focando apenas aquelas partes específicas que apresentam problemas, deixando de lado as relações de comunicação, co-dependência, conhecimentopercepção intra-corpodo corpo com o ambiente.

Podemos estudar o corpo humano a partir de um outro nível de descriçãoentendimento: a relação de comunicação existente entre os dois principais sistemas envolvidos na configuração do corpo humano, o sistema corporalo ambiente gravitacional da Terra. Quando silêncios, congelamentos, adensamentos, ou outros tipos de impedimentos são instalados nesta relação entre o corpoo ambiente, começa um processo de lesão ou degradação do corpo. O movimentoa plasticidade são sempre a medida da boa comunicação, da saúdeda vida. Há portanto um processo co-evolutivo de comunicação entre o corpoo ambiente.

Estar centradoequilibrado não é uma mera questão da biomecânica corporal. Outros componentes fazem parte da dinâmica de equilíbrio do corpo no espaço-tempo. As emoções também estão nesta equaçãoreverberam no corpo junto com os outros sinais somatossensitivos, ajudando a constituir o complexo conjunto de estados que envolvem a imagem corporal. A postura do corpo humano está carregada de elementos emocionais, frutos de sua história pessoalde sua interação com o ambiente físico-social onde vive.

O PODER DAS NOVAS METÁFORAS

Para avaliar como se processa a transformação propiciada pelo Rolfing, fizemos um estudo de caso. E surgiu a dúvida: onde buscar o fundamento de análise para verificar a tal mudança na relação entre corpoambiente? Como seria possível suprir a necessidade científica de medir, constatar, verificar uma melhor comunicação, uma comunicação restaurada, entre corpoambiente?

Desnecessário dizer que medições biomecânicas localizadas não seriam uma solução congruente com esta linha de pesquisanem com a complexidade do fenômeno. A grade teórica proposta está focadadirige o olhar para além da mudança estrutural física devida ao Rolfing. Em última instância, o foco de interesse é a pessoasua relação com o ambiente,não a pessoasuas partes. Onde, então, buscar aparato teórico para esta confrontação?

Pensamos que uma chave possível para resolver esta questão estava nas idéias propostas pelos pesquisadores LakoffJohnson (2002). Na obra pioneira de 1980, Metáforas da Vida Cotidiana, os autores atribuem à metáfora um importante papel cognitivo na atividade científica, argumentando que a metáfora une razãoimaginação, é uma racionalidade imaginativa, essencial tanto para a ciência como para as artes.

Para LakoffJohnson, a exemplo de outros filósofoscientistas como os já citados DamásioRamachandran, corpomente não são mais vistos como separados: nossa corporeidadenossa mente são inequivocamente unas,só através desta unidade é que podemos dar sentido ao mundo. O que eles trazem de novo é a idéia de que compreendemos o mundo por meio de metáforas, construídas com base em nossa experiência corporal:

“Assim como tentamos encontrar metáforas para iluminartornar coerente o que temos em comum com alguém, também tentamos encontrar metáforas pessoais para iluminartornar coerentes nosso próprio passado, nossas atividades presentes, nossos sonhos, nossas esperançasnossos objetivos. Em terapia, por exemplo, muito da autocompreensão envolve reconhecer conscientemente antigas metáforas inconscientescomo vivemos por meio delas.”(2002: 351)

Essa teoria foi inspiradora por trazer a idéia de que o surgimento de novas metáforas seria o indício de uma nova relação entre o corpoo ambiente. Se essas novas metáforas traduzissem liberação, aprendizado, crescimento, seriam indício de uma comunicação mais eficiente entre corpoambiente.

O ROLFING E AS METÁFORAS

Uma parte fundamental das sessões de Rolfing é quando, após a liberação de restrições do tecido conjuntivo, o corpo começa a perceber-se de uma maneira diferente. O sistema sensório-motor funciona de maneira diferenteo movimento flui com uma facilidade desconhecida. O movimento do caminhar apresenta-se com uma estranheza desconcertantenovas sensaçõespercepções surgem. Não é incomum que as pessoas digam que parecem estar ?reaprendendo? a andar.

Este processo pode ser aprofundado quando, ao perceber estas novas sensações, começa-se a estabelecer as novas metáforas. Estas novas metáforas, nos dizeres de LakoffJohnson (2002: 352), é que vão possibilitar

“a constante construção de novas coerências em nossas vidas, coerências que dão novos sentidos a velhas experiências. O processo de autocompreensão é o desenvolvimento contínuo de novas histórias de vida para você mesmo.”(2002:351)

Daí a importânciao exercício constante da escutado entendimento das metáforas que surgem durante as sessões. Muitas metáforas são evocadas durante o processo. As primeiras associações são de imagens, aquelas mais simples: sinto (este lado do corpo) maior; (este lado do corpo) está mais pesado; este lado está mais claro; este pedaço está azul, do outro lado é preto; está limpo, do outro lado está cheio de sujeira; está cheio de seiva, o outro lado é um pau ressecado; está mais jovem, o outro lado é encarquilhado.

Num consultório de Rolfing é possível coletar incontáveis imagens. Muitas são surpreendentes, como a bailarina que sempre tinha a imagem de homens de chapéu ao ser tocada na membrana interóssea entre tíbiafíbula; a atriz que sentia uma águia presa abaixo das costelas; ou a fotógrafa que queria se ver livre do dragão que morava dentro do peito. Certamente todos vocês tem dezenas de outros exemplos fantásticos. Uma das teorias possíveis para explicar esse fenômeno é que a reorganização da rede de memóriatecido faz surgir tais imagens mentais, devaneiosreminiscências, que tanto surpreendem nossos clientes.

Uma senhora, secretária aposentada, ao ser tocada nos ombros, lembra-se subitamente que a mãe costumava amarrar seus ombros à cadeira, para que suas costas não ficassem arqueadaspara que mantivesse uma boa postura. Repentinamente, esta memória encarnada surge como trama no tecido. É exatamente essa REDE DE MEMÓRIA E TECIDO que pode ser transformada, reorganizada no corpo. Nesta ação de reorganizar-se, o corpo compreende suas razõessurgem novas metáforas. No caso da velha senhora, poderia arriscar dizer que uma dose de emoções conflitantes finalmente sentidaspercebidas, depois de tantos anos, aliados à uma nova organização nos ombros, forneceram nutrição para um novo bem-estar. Tecidomemória se enredaram numa outra organização.

No depoimento de outra cliente, uma jovem atriz:

“No Rolfing começamos a tentar {fazer com} que meu corpo unisse a parte de cimaa de baixo que atuavam separadamente. O esterno passou a derreter um pouco, penso que passei a usar o chão, percebi que havia algo entre os ossos, a musculatura, que eu poderia chamar de ?vontade?, ?de afeto?, ?de coração? – unindo as coisas muito internamente. Em outra ocasião perguntava como proteger o esterno,imaginamos um ungüento, depois o ?rabo do dinossauro?, ?o cabelão?…”

A relação que se cria com o cliente é única, a cada caso todo um referencial singular de imagens começa a surgir. No caso desta cliente, o tecido conectivo passou a ser entendido como um ?afeto?, uma ?vontade?. Mais adiante no seu depoimento ela se lembra de algumas imagens que surgiram nas sessões: o ?rabo de dinossauro?, o ?cabelão?. Estas imagens comunicam a nova metáfora do que foi percebido no corpo, são a elaboração da consciência perceptiva. É a busca de uma linguagem para se mostrar, para comunicar a experiência, para se apropriar da nova realidade. A metáfora é necessária como um outro tipo de linguagem, mais apta a comunicar a natureza da sensação-sentida do corpo.

Esta cliente tem dificuldade em obter um bom suporte dos pés, tem a estrutura organizada no apoio na ponta dos pés: não é a toa que sente-se ?avoada?, ?flutuando?. Ao perceber uma nova organização estrutural que lhe permite um bom apoio sobre os calcanhares, comunicou esta sensação como um ?rabo de dinossauro?. A metáfora evoca a postura, traduz a trama memória/tecido. Esta imagem, ao ser evocada posteriormente, permite a ela a memória de estabilidade, traz solidez ao osso do sacro, ajuda a liberar o peito sem esforço, etc.. A imagem do ?cabelão? foi minha,deu origem à seguinte, o ?rabo de dinossauro?. Note-se o deslocamento do peso no eixo corporal: a cliente desceu a imagem da cabeça para onde está a bacia, onde era mais visceralmente necessária.

E mais uma vez, ela prossegue:

“Ainda de vez em quando me deixo levar por essa minha tendência a ficar nas nuvens, de tirar os pés do chãoficar no mundo da cabeça. Quando isso acontece, fico uns dias desabitada, planando, mas aos poucos quando começo a voltar, as relações vão surgindo novamente. ? ?Claro! Estou assim porque tirei o pé do chão?. Aí começo a refazer as relações com o chãoentão o esterno se ergue, os adutores conversamtudo melhora. Acho que ainda terei outras possibilidades de descoberta através deste trabalho, pois cada vez que deixamos estabelecer este processo, ele nos alcança tão profundamente.”

A imagem de ?tirar os pés do chão?, ?ficar planando, desabitada? traduz uma sensação-sentida no corpo. A imagem corporal pode ser definida como um complexo conjunto de estados intencionais ? percepções, representações mentais, crençasatitudes. É através do exercício da consciência perceptiva que a cliente pode alterar a sensação-sentida do corpo: começa ?a fazer relações com o chão? lançando mão de imagens que a ajudam a construir outra estrutura mais estável. Talvez esse recurso, o de lançar mão de imagens estimulantes, seja uma das pequenas estratégias a que Ramachandran (2004) se refere para discutir a construção interiormodificação da imagem corporal.

Também a percepção, parte constituinte da imagem corporal, pode alterar-se. Novas ignições dadas a partir da percepção de um corpo ?novo?, ?desconhecido?, ajudam a alterar a imagem preestabelecida. Novas ignições perceptivas surgem reorganizando mapas corporais antes relacionados à mágoadepois à alegria, como no caso da velha senhora. Lembramos que para Damásio, mapas ligados à alegria significam estados de equilíbrio, enquanto que os mapas relacionados à mágoa estão associados a estados de desequilíbrio funcional, com a possível presença de dor, doença ou desacordo fisiológico.

UMA NOVA JANELA

O Rolfing procura tornar a pessoa adaptada às condições singulares do seu corpo em determinado ambiente, e, sempre que possível, possibilitar o reconhecimento desta mudança, através da consciência proprioceptiva.

Ida Rolf teve a visão de que o tecido conjuntivo era plásticopassível de transformação. Entendeu que o guia para que essa transformação transcorresse no mais alto nível de funcionalidade era o eixo gravitacional. E descobriu que essa transformação não se dava apenas no nível da estruturada funcionalidade, atingia todos os níveis do homem: psicológico, emocional, e, se quiser, espiritual. Ela dizia não saber porque isso ocorria, mas intuía a existência de diferentes níveis de descrição do corpo.

Transcorridos trinta anos, os novos entendimentos sobre o funcionamento do corpo-mente, dados pelas idéias de neurocientistas como António DamásioV. Ramachandran, esclarecem algumas questões levantadas por Rolf. No Rolfing, como em outras metodologias práticas, há muitas vezes problemas nos modos de descreveranalisar os processos, ao mesmo tempo em que muitas hipóteses acertadas são levantadas a partir dos procedimentos práticos. Assim, ao aproximar os procedimentos do Rolfing de algumas das novas teorias do corpo, sobretudo nas pontes propostas com as chamadas Ciências Cognitivas, esperamos abrir novas possibilidades de ação. Parece que uma pequena fresta foi abertauma nova luz ilumina o trabalho estrutural, trazida pelas novas teorias de como as emoções são percepções do que acontece nos estados corporais, de como a memória se enreda numa organização da trama do tecido físico. Tudo isso corrobora a idéia de que a organização funcionalestrutural do corpo é fundamental para uma nova organização da pessoa em todos os níveis de descrição.

BIBLIOGRAFIA

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? Ramachandran, V. S.Sandra Blakeslee. (2004) Fantasmas no cérebro, trad. Antonio Machado. São Paulo: Editora Record.

Este texto traz o resumo de um dos capítulos da dissertação de mestrado “O Rolfing como agente restaurador da comunicação entre corpo e ambiente: A conquista do chão”, apresentada no Programa de Comunicação e Semiótica da PUC de São Paulo. Uma cópia do texto integral está disponível para consulta na ABR ou no endereço eletrônico www.sapientia.pucsp.com.br

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