“Um corpo não transfigurado pela presença de outros é corpo coisa e não encontra meios de perceber subjetivamente a vida no mundo”
(Gilberto Safra)
Venho estudando a visão de psicanálise de Donald Winnicott com a finalidade de entender melhor a posição de meus clientes, ou seja de entender a historia contada por sua postura.
O grande diferencial da contribuição de Winnicott constituição do ser.; para ele, ao nascer ainda não somos humanos. Precisamos nos constituir para adquirir o status humano, que só pode ser ofertado ao bebê por outro humano (mãe ambiente), possibilitando que ele possa integrar-se ate atingir a maturidade constituindo uma unidade, um Eu.
A visão de ser humano, como uma experiência que se desenrola no tempo, traz a dimensão de uma trajetória e, como toda trajetória, traz consigo suas etapas: início, meio e fim. Olhar a postura como caminho percorrido traz, me baseando na visão psicanalítica de Winnicott, a ideia de que se houve falhas no percurso, essas falhas provocarão um bloqueio em determinada fase do amadurecimento motor, que não poderá ser incorporada. Ele diz que as falhas furtam experiências que a oferta dessas vivencias não experienciadas, sustentadas pelo terapeuta, pode trazer a integração do Eu.
A constituição do si mesmo tem seu ponto de partida nas relações que o corpo precisa fazer para existir: relações internas/externas, ou seja, uma visão do organismo do meio como um todo inseparável em que as relações adaptativas geram uma estruturação do organismo modificações no meio.
No desenvolvimento estrutural humano queremos ver o estabelecimento de um eixo que servira de referencia para a mobilidade de todo o corpo. Esse processo tem inicio a partir do reflexo de sucção, que vai opondo direcionalmente a cabeça do osso sacro. Essa oposição desenrola a espinha dorsal ate que se estabeleça um eixo. A partir desse eixo o bebe elabora uma forma de se relacionar com a gravidade, tece paulatinamente a Linha, ou seja, vai tecendo a organização que garante a totalidade.
Para Jean Piaget, todo o psiquismo começa com o exercício dos mecanismos reflexos de sobrevivência (2008, pg. 48), do que foi assimilado a partir dessas experiências; para Winnicott, no entanto esse processo significa o “alojamento da psique no corpo”, ou seja, o berço da psique se da através da “elaboração imaginativa do corpo”.
Em termos estruturais/funcionais, pode-se dizer a mesma coisa: essas primeiras experiências do bebe consigo mesmo com o meio geram determinadas adaptações que tecem suas coordenações motoras /autopercepções, que definem seu modo de estaragir no mundo. Ou seja, começam a ser criados padrões de relações internas/externas; temos portanto aqui também o berço dos padrões funcionais/comportamentais. Quero deixar em destaque o papel do movimento como força motriz dessas relações e, portanto, agente integrativo do si mesmo.
Esse processo da constituição do ser tem grande relevância na teoria de Winnicott: ele propõe que as patologias são provindas de falhas do ambiente durante o período de constituição.
Sendo assim, ele propõe uma clinica com base em experiências constitutivas que não aconteceram. Propõe uma clínica que ofereça condições de vivenciaamadurecimento daquilo que não foi desenvolvido por falta de experiência, por ausência de referencia, ou intrusão do meio ambiente.
Conforme texto da Professora Tania Corallo, “para Winnicott a saúde esta ligada a maturidadenão a inexistência de sintomas. O tratamento dos sintomas visa à maturidade mesmo que numa época posterior a normal. Os distúrbios psíquicos são interrupções no desenvolvimentose o bloqueio for afastado, então ocorre o crescimento, decorrente de poderosas forcas herdadas por cada ser humano (que impelem a maturação).
Portanto, dado que a natureza dos distúrbios esta ligada ao processo de amadurecimento, interessa saber em qual momento do processo ocorreu essa falha no ambiente: qual tarefa específica o bebê tinha que dar conta naquele momento; qual foi exatamente a qualidade específica dessa falhaqual era o grau de dependência em relação ao ambiente quando essa falha ocorreu.”
Esse modo winnicottiano de pensar a clinica, me fez pensar a minha pratica de rolfista, no sentido de tomar consciência de quantasque tipo de experiências estou oferecendo a meus clientes enquanto os alinho com a gravidade.
Fiz uma aproximação de minha atividade com a da “mãe suficientemente boa” descrita por Winnicott, referente à fase que ele chama de Dependência Absoluta (1ª.infância), no sentido de também dar sustentação para a tessitura da consciênciada significação de um corpo (ou partes dele). Isso aponta para o resgate de um eixo, a partir do qual se estabelece uma relação com a gravidade. Nesse processo, estou também sustentando o aprendizado de meu cliente de ter um referencial interno, de travar relações.
Concordo com Rolf, quando diz que, pelo alinhamento na gravidade, podemos conseguir a máxima eficiência do funcionamento de um corpo (1986, pg. 45). Mas penso que o alinhamento passa pelo aprendizado de usar a gravidade como aliada. Esse potencial de relacionamento com a gravidade a partir da entrega do peso uso do suporte (holding)tarefa básica da primeira infância durante o “desenrolar da Linha”: empurrar o suporte/colo para alcançar o seio, desenvolvendo um comportamento calcado na entrega (do peso)na confiança (no suporte/colo).
Nesse caminho começo a ver a organização corporal do ser humano como processual trabalhar com ela na direção de propiciar o que não foi vivenciado.
Mas qualnosso referencial do que idealmente deveria ter sido experienciado?
A teoria do amadurecimento de Winnicott que norteia todo o diagnósticoação na sua clínica aponta estágios de desenvolvimento do ser humano. Como escreve a prof. Tania Corallo a respeito da teoria de Winnicott “o amadurecimentoum processo de desenvolvimento marcado por diferentes graus de dependência, que vão desde a dependência em seu grau máximo; a dependência absoluta, passando pela dependência relativa ate alcançarmos a independência relativa” (para ele ninguémtotalmente independente). Nestes estágios ele postula tarefas ou aprendizados essenciais relacionados a cada fase, para que o ser humano alcance a integração.
Reuni organizei uma aproximação das tarefas básicas postuladas por Winnicott, no período de dependência absoluta com tarefas, ou aprendizados motores, que fazem parte do desenvolvimento neuromotor, envolvidos no “desenrolar da Linha” (incluindo exercícios orais), que pretendo mostrar num workshop.
Trazendo esse trabalho para o universo do Rolfing, estou enfocando que o processo de verticalização da Linha tem a mesma trajetória da constituição do si mesmo é a expressão da própria constituição.

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