Existe uma memória organizada no corpo? Quinze anos de atividade como terapeuta corporal, me levam a afirmar que sim, existe uma memória nodo corpo.
Trabalhamos com Integração Estrutural-Rolfing, exercemos uma espécie de terapia de reeducação proprioperceptiva. Ao abrir espaço para um novo “experienciar” de sensações antes adormecidas ou silenciadas, buscamos reorganizar padrões estruturaisfuncionais do sistema musculoesquelético, com mudanças na percepçãona sensação processada no corpo, no relacionamento com o ambiente, consigo mesmo,com o outro.
Em primeiro lugar, vamos levantar algumas definições de memória de teóricos como António DamásioHenri Bergson, observando que essas definições estão sempre atreladas às percepções do corpo, da postura corporaldas informações sensóriomotoras do corpo.
O neurocientista António Damásio descreve o que chama de arquitetura da memória, ou seja, a capacidade do nosso cérebro de fazer registros de visões, sons, sensações táteis, odorespercepções emocionais de um evento a ser lembrado. Com o tempoa imaginação, a evocação poderá perder a intensidadeser recombinada, enfeitada, recortada, transformada. A memória portanto seria a maneira como o organismo interage com objetoseventos,como o cérebro registra as várias consequências das interações do organismo com a entidade. De acordo com Damásio,
O que memorizamos do nosso encontro com determinado objeto não é só sua estrutura visual mapeada nas imagens ópticas da retina. Os aspectos a seguir também são necessários: primeiro, os padrões sensitivo-motores associados à visão do objeto (como os movimentos dos olhospescoço ou o movimento do corpo inteiro, quando for o caso); segundo, o padrão sensitivo-motor associado a tocarmanipular o objeto (se for o caso); terceiro, o padrão sensitivo-motor resultante da evocação de memórias previamente adquiridas relacionadas ao objeto; quarto, os padrões sensitivo-motores relacionados ao desencadeamento de emoçõessentimentos associados ao objeto. O que normalmente denominamos memória de um objeto é a memória composta das atividades sensitivasmotoras relacionadas à interação entre o organismoo objeto durante dado tempo. (2011, p 169)

Fig 1
É interessante notar como Damásio explicita a relação da memória com o corpo. A memória se constitui a partir das interações do objeto com o corpo, através das sensações do corpo. E a evocação da memória se dá também a partir de qualquer parte que compôs o evento:
um som, uma visão, um cheiro, um toque. Vamos acrescentar aqui o padrão de orientação do corpo na gravidade, como um destes elementos constituintes da rede de memória, fruto do encontro do corpo com o mundo. Se nossas memórias são organizadas a partir de um conhecimento prévio de objetos comparáveis, ou situações semelhantes, são memórias, no dizer de Damásio, preconceituadas pela nossa históriapor nossas crenças: a memória inclui fundamentalmente nosso passado, o passado de nossa espécie biológicade nossa cultura.
Como afirma Bergson (2006), “pensamos apenas com uma pequena parte de nosso passado, mas é com nosso passado inteiro, inclusive com nossa curvatura de alma original, que desejamos, queremos, agimos.” Segue dizendo que as lembranças pessoais constituem o mais amplo invólucro de nossa memória,que se materializam por acaso, por uma determinação acidental precisa de nossa postura corporal, por exemplo.
Se nossas memórias são preconceituadas pela nossa históriapor nossas crenças, assim também o é nossa percepção, moldada pelo corpo com seu tecido de memórias. E vamos além, afirmando que o que existe é uma via de mão dupla: se a memória é constituída pelas sensações vindas da interação do mundo com o corpo, esse mesmo corpo é constituído pelo fruto do encontro da rede de memória com o mundo.
No processo do Rolfing, a relação do aluno/cliente com o tempo é não-linear, isto é, não existe uma perspectiva cronológica. A trama tecida pelos acontecimentos do passado está registrada no corpo,quando essa trama é reorganizada, durante uma sessão de Rolfing, algumas memórias são evocadas, às vezes de forma consciente, através do fluxo de imagens, outras de modo inconsciente, através do fluxo de emoções que a pessoa não sabe explicar.
No corpo, esta trama de tecido está se refazendo de modo contínuo, a cada dia, em cada experiência. Esta memória se recria a cada dia.
Se a memória não é mais tomada como o retorno do sujeito ao passado,sim como atualização do vivido no presente, pelas condições do presente, então o depoimento pessoal torna-se a história pessoal recriadadelineada pelas especificidades técnicas de cada processo de criação. (Leonardelli, 2008, p8)
Um exemplo dessa recriação através da memória no corpo aconteceu numa sessão de Rolfing com uma velha senhora, secretária aposentada. Ao ser tocada nos ombros, ela lembra subitamente que a mãe costumava amarrar seus ombros à cadeira, para que suas costas não ficassem arqueadaspara que mantivesse uma boa postura. Repentinamente, essa memória encarnada surge como trama no tecido, a partir do toquedo que este toque provoca: uma reorganização do tecido da área dos ombrosde toda uma organização do sistema do corpo todo, a partir desta liberação. A evocação da memória de uma organização de ombros enrijecida, composta por um comando de rigidez, tensãorepressão é posta em cheque, cinquenta anos depois, como se fosse… agora. Aqui aparece o cone do tempo de Bergson, o fluxo da memória. E é exatamente esse fluxo de REDE DE MEMÓRIA E TECIDO que pode ser transformado, reorganizado no corpo. Nessa ação de reorganizar-se, a pessoa pode relembrar, compreender, processar, reorganizar-se: tecidomemória se enredam numa outra organização.
Bergson (2006) diz que se uma percepção evoca uma lembrança, é para que as circunstâncias que precederam a situação passada lancem alguma luz sobre a situação atualesclareça o ato em preparação. A rigor, afirma Bergson, essa lembrança poderia até não se manifestar: bastaria que evocasse, sem ela própria se mostrar, a compreensão do presente para poder antecipar ações futuras, sem que se manifestasse na consciência.
Alain Berthoz (1996), neurofisiologista francês, vai afirmar que a percepção não é somente uma interpretação das mensagens sensoriais: além de parceira da ação, é simulação interna, julgamentotomada de decisão, e, finalmente, antecipação das consequências da ação. O cérebro, para Berthoz, é essencialmente um comparador (que opera através da memória)não um transformador de estímulos em respostas motoras ou em sentimentos. Esta atividade de comparação é sempre ligada a um “projeto” de ação. Para Berthoz, não há mecanismos de percepção separados da ação, assim como não há mecanismos de atenção separados da seleção que o cérebro exerce permanentemente.
Mas Berthoz não fala da vida dos sonhos. Bergson observa que no estado de relaxamento funcional do sono, surgem lembranças que acreditávamos enterradas, relembramos detalhes de cenas de infância, falamos línguas que julgávamos esquecidas. Esses dois estados extremos, o sonho, de uma memória totalmente contemplativa, que só aprende o singular,o outro, de uma memória motora que imprime a marca da comparação para conduzir à ação, penetram-sese misturam na vida normal.
A percepção atualizada que tenho de meu corpo, do meu equilíbrio sensório-motor, da minha organização postural, opera em conjunto com uma superfície de base onde residem todas as minhas lembranças. O que chamo de meu corpo constituiria, segundo Bergson, um corte transversal do universal devir, é o lugar de passagem dos movimentos recebidosenviados, a sede dos fenômenos sensóriomotores. A memória do corpo seria portanto constituída pelo conjunto dos sistemas sensório-motores que o hábito organizou, e, ao mesmo tempo, o corpo forneceria às lembranças o meio de se materializar. Essa memória do corpo, esse conjunto de sistemas sensório-motores organizado pelo hábito, acaba constituindo uma postura corporal.
Essas impressões do mundo no corpo são registradas na musculatura tônica, organizando o que o pesquisador francês Hubert Godard (1994) chama de pré-movimento. O pré-movimento determina o estado de tensão do corpodefine a qualidadea cor específica de cada gesto humano. O prémovimento age sobre a organização gravitacional, isto é, sobre a forma como o sujeito organiza sua postura para ficar em péresponder à lei da gravidade. O sistema dos músculos gravitacionais, cuja ação escapa em grande parte à consciênciaà vontade, é encarregado de assegurar nossa postura. É o prémovimento, invisível, imperceptível para o próprio indivíduo, que acionará, simultaneamente, os níveis mecânicosafetivos de sua organização. Os efeitos desse estado afetivo que concedem a cada gesto sua qualidade, cujo mecanismo compreendemos tão pouco, não podem ser comandados apenas pela intenção. Talvez a resposta esteja na compreensão de que é a memória, fruto do encontro do corpo com o mundo, que vai tramando a cada instante esse registro no próprio corpo. O aprofundamento destes estudos poderá revelar mais a respeito desses processos.
Bibliografia
BERNARD, M. De la Création Choréographique. Paris: Centre National de la Danse, 2001.
BERGSON, H. MemóriaVida. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
BERTHOZ, A. Le sens du Mouvement. Paris: Odile Jacob, 1996.
DAMÁSIO, A. Em busca de Espinosa – prazerdor na ciência dos sentimentos. São Paulo: Companhia das letras, 2004. ___________ E o cérebro criou o homem. São Paulo: Companhia das letras, 2011.
GODARD, Hubert. Reading the Body in Dance – A Model. Rolf Lines, october 1994:36-41. Rolf Institute, 1994.
JOHNSON, M. The Meaning of the Body: a estetics of human understanding. Chicago: The University of Chicago Press, 2007.
LEONARDELLI, Patrícia. A memória como recriação do vivido: um estudo da história do conceito de memória aplicado às artes performativas na perspectiva do depoimento pessoal. Tese de doutorado. Universidade de São Paulo, 2008
MERLINO, M. L. O Rolfing como agente restaurador da comunicação entre corpoambiente: A conquista do chão. Tese de Mestrado. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2005.
ROLF, Ida. Rolfing: A Integração das Estruturas Humanas, trad. Marylene P. Michael. São Paulo: Livraria Martins Fontes Editora, 1990.
ROLNIK, Suely. Olhar cego. Entrevista com Hubert Godard. Para a exposição “Lygia Clark, do objeto ao contecimento: projeto de ativação de 26 anos de experimentação corporal.” Paris, 21 de julho de 2004.

Fig 2[:][:pb]MEMÓRIAS NO CORPO[:]
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