UM CADEIRANTE NO NAPER
RELATO DE CASO CLÍNICO/ 2013
ANA GILIOLI </center>
Paciente
JLF é um homem de 54 anos, administrador de empresas pós graduadoatualmente aposentado. Divorciadopai de 5 filhos.
Tomou conhecimento sobre o Rolfing® na sala de espera do consultório da dor no Hospital Albert Einsteinfoi indicado ao NAPER pelo Dr. Rafael, do próprio hospital.
JLF é hoje cadeirante, passou por 06 cirurgias de coluna entre 20092011. Em seu laudo clínico do Hospital Lucy Montoro em abril de 2012, consta que LJF possui diversos parafusos na coluna entre coluna cervicaltorácica, assim como sinais de laminectomia, de alterações fibrocicatriciais paravertebrais, protusões discais, abaulamentos denteando a coluna cervical, entre outras coisas. O laudo inclui espondilodiscartrose, abaulamentos, protusõeshérnias discais na coluna lombar.
Junto ao Hospital Lucy Montoro JLF vem desenvolvendo um trabalho para a realização de uma órtese de pernas que o permitirá ficar de pé, para isso submete-se a períodos de internação para adequação da órtese . Atualmente encontra-se internado para a segunda etapa do procedimento.
NAPER
O trabalho desenvolvido no NAPER ocorreu entre julhodezembro de 2013. Com sessões semanais até final de setembro, quando passaram a ocorrer duas sessões por semana. No total foram realizadas 26 sessões de Rolfing com uma hora de duração.
O paciente chegou ao NAPER sofrendo de dor constanteintensa na coluna lombar (6 na escala de 1 a 10) que aumentava quando movimentava-se. Buscava com o Rolfing aliviar as tensões geradas pelos espasmos musculares involuntários assim como a dor intensa na coluna lombar. Acreditava que suas dores tinham uma clara causa estrutural. Relatou ainda que seu intestino não estava ?saudável? , que estava muito pesadoque tinha uma hipersensibilidade cutânea a nível diafragmático, uma sensação de queimação bem desconfortável.
JLF relatou que a origem de seus problemas de coluna foi meramente postural. Vivia uma vida dedicada ao trabalhonos últimos dez anos, antes do incidente que ocasionou a lesão medular, com muita demanda de viagens, acabou abandonando-se fisicamente. Seu primeiro sintoma foi formigamento seguido de dormência no braço direito, seguida de fraqueza nas pernasda perda de massa muscular no braço. Daí para frente foi diagnosticado um deslizamento de C5a C7 gerando lesão na medula, quando iniciou o período de cirurgias de coluna, sendo a 1ªa 2ª, na coluna cervicala 3ª na torácica. A 5ª6ª cirurgias, foram procedimentos de limpeza visto que na 4ª, a qual já era procedimento de ?limpeza? houve infecção na medula. Hoje na condição de cadeirante, é impedido de andar entre outras coisas.
Em relação ao seu corpo sentia-se limitado, dizia manter ?a cabeça boa?acreditava que ainda podia melhorarsuperar-se. Buscava perceber onde estavapara onde iria. Suas dores o irritavampercebia-se com atitudes ?mal criadas?, perdendo o humor. A dor dominavaele tinha de enfrentá-la.
Até então, tratou-se com remédios alopáticos, acupuntura, fisioterapia (alongamento)hidroterapia sendo supervisionado por neurologistafisiatra. Entre seus medicamentos estão Gamapentina ( desenvolvido para o tratamento da epilepsiaeventualmente utilizado para o tratamento de dor ocasionadas pelos nervos periféricos)Amitriptilina, (antidepressivo tricíclico, também usados no tratamento de dor neuropática, dor por disfunção nos neurônios das vias da dor, que não responde a opióides.). Contava com acompanhamento nutricional para o funcionamento do intestinopara a perda de peso, que parecia ser um agravante para o caso.
Além dos tratamentos clínicos fazia acompanhamento xamânico, sugerido pelo filho, sem uso de substâncias psicotrópicasachava que contribuia para o seu bem estar.
Consta ainda em seu relato que sempre praticou esportes, foi faixa preta de karatê, praticou atletismo, hipismo, ciclismo motociclismo entre outros. Nesse momento fazia fisioterapia, hidroterapiamusculação.
Já submeteu-se a psicoterapia em outros momentos. Suas atividades favoritas de lazer então, eram: ler, ouvir músicasencontrar-se com seus amigosfamiliares.
Vale ressaltar que em 1986 sofreu um acidente de moto colidindo-se com um carroteve traumatismo craniano. Segundo ele sem sequelas.
Ao final de seu relato reforçou que o que de fato o que o limita é a DOR: ?Penso mais em tirar a dor do que andar?.
Rolfing- Leituras
A chegada de JLF requereu uma longa entrevista divida em duas partes. Era necessário permiti-lo deitar-serespirar a cada vinda ao NAPER. Os dados da entrevista que estão presentes na apresentação do paciente, ajudaram na leitura corporalpsicobiológica. Para o diagnóstico que me remetesse a estratégia adequada ao caso, utilizei instrumentos de leitura que evidenciaram o seguinte: G? posteriorizado; falta de palintonicidade vertical, com a estrutura colapsada; pelve retrovertida, sem dar suporte a vísceras; em padrão expiratório. O paciente utilizava uma cinta elástica com velcro para conter as vícerasaliviar as dores lombares.
JLF ainda apresentou evidencias de desequilíbrio no SNA pela hipersensibilidade cutânea, ?disfunção do intestino?contrações involuntárias tanto nas pernas, presentes quando se deslocava da cadeira para a maca, quanto no abdômen, evidentes quando se deitava na maca, como se fosse reação ao excesso de esforço. Segundo ele, pela ativação de algum nervo, involuntariamenteesperada segundo os médicos. Ainda me chamou atenção questões psicobiológicas pois apresentava uma incongruência entre seu estado físicoseu estado emocional que, embora fosse bem positivo, o que ajudou bastante em seu processo, demonstrava uma certa excitação.
Notei que JLF estava hiper estimulado corticalmente com fisioterapia , hidroginásticamusculaçãouma forte expectativa de superação. Apresentava a ?mente de esportista?, pensamento de superaçãometas a serem atingidasrecompensadas pelo esforçono entanto, os resultados estavam bem aquém do esperadoos movimentos involuntários ganhavam forçaespaço em sua vida. JLF estava visivelmente cansado.
Objetivo
Meu objetivo após conhecer o histórico de JLF foi encontrarmos um lugar onde pudéssemos saber o que de fato era possível para ele. Primeiramente recebê-lo.
Acomodar sua fascia nesse novo corpo, agora, depois de tantas cirurgias, espasmos, contrações involuntárias, doresdesejos. Ajuda-lo a respirar melhorsentar-se mais confortavelmente em sua cadeira de rodas, utilizando os princípios do Rolfing.
Estratégia
Escolhi para lidar com a demanda de JLF adaptar o foco da receita clássica não à funcionalidade da estrutura mas a percepção desta. Trazer o foco da integração a percepção de cada mínimo acontecimento durante as sessões, sejam estruturais, emocionais ou funcionais, tudo que se mostrar como movimento real. Utilizar a receita percorrendo todo território anatômico, sempre ouvindo a queixa do paciente. Dar bastante ênfase à nuca as costasao sacro em todas as sessões, considerando seu histórico de cirurgias de coluna.
O processo
Meu primeiro movimento diante do sofrimento que demonstrava em sua expressão facial ao deitar-se foi unicamente receber com toques suave sua nuca depois de acomoda-lo na maca. A cada ampla respiração seu corpo pesavadescansava demonstrando-o que seria possível enfim, ? relaxar?. Com toques suaves, muito suaves liberando seus nervos na fascialiberando músculosfáscias chaves para da primeira sessão, finalizamos-a com grande êxito. Desde esse momento o vínculo estava formado pois JLF sentia-se claramente aliviadorespirando, mesmo que por um momento.
A segunda sessão desci aos pés, que estavam inchados sem definiçãosem função, pareciam pendurados nas pernas. Seguia a receita. Sempre com toques suaves mas com permanência, em busca de contato. Queria despertar qualquer contato. Sua sensibilidade cutânea esteve sempre preservada. Foi quando o contato se estabeleceu, senti resposta ao comando de movimento dos pés pelo calcanhar, um micro movimento na articulação tíbiotalar, com resposta eferente, passando por sua medula! Alegria para ambos. No entanto não era esse nosso foco principal de atençãosim, como todo o seu corpo reagia a tal conquista.
Desta forma o processo avançava. O trabalho semanal permitia algum confortodiminuição da dor por alguns dias, em seus retornos isso era sempre pontuado por ele, que vinha em busca deste alivio. Tive a liberdade de permanecer algumas sessões no mesmo território anatômico, quando notei a necessidade de fazermos mais de uma sessão por semana, o que foi prontamente aceito com gosto por JLF. Neste momento as intervenções foram mais fortes, com manobras de
Reposicionamento Muscular, principalmente nas costas,na região diafragmática. O trabalho sobre as cicatrizes foi intenso, era necessário insistência para romper a barreira das cicatrizes em sua coluna. O ?back work ? sentado, ao final das sessões eram importantíssimosaos poucos o amparo anterior (sua cadeira com uma bola) foi se tornado desnecessário, JLF conseguia permanecer sobre os ísquios sem tombar para frentenem para trás!
JLF compreendeu a linguagem do Rolfing em seu corpo acompanhando todas as conexõestransmissões de força que ocorriam, como se mapeasse sua fascia descrevendo esses percursos. Desta forma contribuía bastante em direção a integração estrutural. Quando o corpo executava uma função por menor que fosse, sem gerar tensões, isso era olhadopercebido. Começou sozinho a trabalhar seu pré movimento, começou a ter mais calma em seu gestos , sem querer mandar nestes. Aos poucos JLF compreendia o pré movimentogerava novos movimentos alterando seus padrões de movimento. Tudo que lhe fora sugerido para que praticasse em casa foi feitoseus retornos foram sempre muito ricos.
Ora percebiademostrava que sua transferência da cadeira para a maca era mais fácil, ora contava que percebia mais equilíbrio, ora mostrava os ganhos com a lentasofrível flexão de pernas, ora contando com alegria que podia andar lateralmente na piscina apenas segurando no corrimão, ou mesmo mostrando a agilidade para portirar sua camiseta.
Neste momento percebi que eu utilizava a receita apenas como referência, haviam necessidades urgentes guiadas pela dor que traçavam a ordem dos fatores. Durante seu processo JLF não teve trégua com as dores, elas eram menos intensasmenos frequentes enquanto agudas, mas estavam sempre presentesno entanto, sempre sendo redimensionadas.
Quando íamos trabalhar o psoas, notei que estava com mais dordesanimado. JLF estava cansado. Seu empenho era grande suas conquistas também mas diante dele o percurso porvir parecia gigantescoo desanimo existiu. Reconheceu estar com medo, pois já havia passado por este lugar de quase andar outras vezes. Reposicionamos as metaso foco. Percebeu que o desejo de andar se sobrepunha às suas conquistas, era no fundo o seu grande desejo, agora maior do que diminuir as suas dores. Foi um momento importante em seu processo, recuarrecomeçar o seguinte anel da espiral. Andar é um desejosegundo seu neurologista uma possibilidade real porém, reconheceu que nosso trabalho o levava em sua própria direção. Seu lado emocional começou a poder existir. Reconheceu-se ao espelhar-se na iamgem de Mara Gabrilli (tetraplégica) na piscina; após sofrer uma queda da maca no NAPER,num movimento para acomodar?se em decúbito lateral, comentou que já não ligava mais para ?pagar mico?, que ele passara a ser mais importante para ele que os olhos dos outros.
Desde o início JLF trazia relatos de aprendizados, demonstrando bastante consciênciaatenção do que havia vivenciado na sessão anterior. Seu processo foi permeado de? feed-backs ? positivos. Ele sabia que no momento em que chegava para a sessão seguinte não sentia-se bem, que as tensões estavam presentes mas lembrava que conseguira sentir-se melhor por instantesestava disposto a vivenciar cada conquistaresgatar essa sensação. Pouco a pouco foi sabendo encontrar este estado de repousoalivio na intensidade das dores sozinho. Foi aprendendo a lidar melhor com sua situação de cadeirante físicaemocionalmente. Seus planos hoje são voltar a morar sozinhocomprar um carro para se locomover com mais independência. Pretende voltar a trabalhar em casa.
JLF expressou durante todo o processo a importância do Rolfing para ele. Sempre mostrou-se grato a essa oportunidade. Comentou ser o Rolfing a âncora de todas as suas terapiasque pela primeira vez tinha uma equipe (considerando todos os profissionais que o acompanhavam) ?redonda? onde os profissionais formavam uma orquestra, quando comentei que isso acontecia porque ele podia ser o maestro.
O trabalho seguiu, conquistamos através do trabalho de percepção do olhar numa sétima sessão um melhor posicionamento de cabeça. Seu primeiro comentário ao sentar-se após esta sessão foi: que delícia sentir o chão! Dando sinais de integração. Conquistou uma nova organização espacial na cadeira de rodas.
Por fim antes de seguir para sua internação comentou que vem reduzindo seus medicamentosque desde o início do processo, reduzira tanto a Amitriptilina quanto a Gamapentina à metade.
Reconheceu o Rolfing como um grande aliado deste processo.
Enfim, JLF habitava seu próprio gesto, seu ser.
JLF pretende continuar o Rolfing após a internação.
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