“Abertura para receber a diversidade
Confiança para acomodar o inesperado
Calma para navegar as tormentas
Intensidade para viver os afetos
Força para dar suporte aos projetos”
Adriana LernerGustavo Sanguinetti – Terapeutas argentinos
No âmago das visões de mundo ocidentaloriental encontram-se as diferenças culturais. Sociedades diferentes exibem diferentes padrões de pensamento, percepçãoorganização social, a última sendo provavelmente a origem das diferenças sociais de cognição. São apresentados um antropólogo americano (Csordas), dois filósofos, um francês (Merleau-Ponty)um americano (Clifford Geerz), mais um psicanalista winnicottiano brasileiro (Gilberto Safra), para elaborar a questão do “embodiment”para se conversar sobre como o “embodiment” se relaciona a diferenças culturais. Winnicott ensina que é em parte através do tônus da mãea maneira como ela segura o bebê, que é satisfeita a necessidade básica de todo ser humano de ser recebido por um mundo que lhe dá as boas-vindas. Nesta altura o texto descreve como os movimentos corporais são parte da estrutura de percepção de uma pessoa. O texto então elabora sobre a culturacomo ela influencia a linguagem corporala postura. Encerrando o artigo há uma discussão sobre o paradoxo da diversidade na unidadeum convite para a trans-formação.
I Introdução
Anos atrás fui assistente do Robert Schleip num treinamento multiculturalresidencial na Fazenda Jardim, São José dos Campos, no estado de São Paulo. É claro que tivemos algumas dinâmicas de classe difíceis, mas logo percebi que as questõesdificuldades entre os alunos não tinham origem no nível “pessoal”. Tendo um pé em cada uma das culturas presentes (brasileira, alemãamericana) eu conseguia ver que os desentendimentos eram devidos a diferenças culturais, mas as pessoas não tinham a mínima noção disso. Alguns anos mais tarde, eu já estava viajando bastante para ensinar em países como Austrália, Alemanha, Estados UnidosJapão. Notei que em cada país meu “felt sense” era ligeiramente diferente de quanto estou no Brasil. E assim, muito intrigada, tenho procurado pelas respostas para algumas perguntas que para mim são questões fundamentais:
– qual é uma boa definição para embodiment?
– o embodiment é o mesmo processo no Ocidenteno Oriente?
– como a cultura afeta a construção dos padrões de posturacaminhada?
E finalmente, surgiram as “grandes” perguntas:
– Como pode um integrador estrutural, enquanto trabalha com uma pessoa de uma cultura diferente, honrar suas diferençasco-criar novas possibilidades para o cliente andar, se movimentar?
– Serão as nossas/minhas idéias sobre Integração Estrutural, que foi criada no Ocidente, boas também para os orientais, com uma visão de mundopadrão de movimento muito diferentes?
– Como nós podemos , enquanto herdeiros de Ida Rolf, honrar nossas diferenças, reconhecer o nosso poder/qualidade individual, enquanto diferentes escolas de Integração Estruturalco-criar o futuro de nossa profissão?
II OrienteOcidente
No Japão, para onde viajei para coordenar vários cursos, encontrei a seguinte nota na parede do Mori Art Museum, na Exposição de MedicinaArte, em Tóquio, 2009:
“As culturas orientais vêem o corpo de modo diferente das visões tradicionais no Ocidente,esta divergência cultural levou ao desenvolvimento de diferentes abordagens na medicina. No oriente, a medicina pode ser classificada de modo geral em medicina chinesa, indianatibetana,foi o sistema chinês que forneceu a base a partir da qual desenvolveu-se a medicina japonesa. A medicina chinesa está baseada em manter o corpo em equilíbrio. Inclui o pensamento ying-yangas cinco fases, com o equilíbrio entre o ying-yango equilíbrio entre as cinco fases sendo vistos como essenciais para manter a saúde. Contrastando, a medicina indiana tem suas origens no pensamento ayurvédico, com cerca de cinco mil anos. O Ayurveda ensina a importância da medicina preventivaenfatiza que o equilíbrio deve ser mantido em todos os aspectos da vida de uma pessoa – corpo, mente, comportamento, ambiente – para que ela seja saudável. E a medicina tibetana, baseada nas medicinas Ayurvedachinesa, bem como na influência de outras culturas, enfatiza as relações entre a menteo corpoo universo como um todo.”
Ler este texto me fez pensar sobre a medicina no Ocidente, onde Hipócrates, o médico grego considerado o pai da medicina, criou o alicerce para uma abordagem racional da medicina, que combinava muito bem com a já então cultura analítica do Ocidente. O passo seguinte no desenvolvimento da medicina ocidental foi isolar o corpo em partes a serem tratadas. Este processo trouxe muito progressotambém conduziu à especialização contínua. E com a segmentação filosófica do corpo, não apenas a fascia foi desconsiderada, mas a nossa almaespírito foram isolados do corpo também. E este desalojamento, de acordo com os ensinamentos de Gilberto Safra, é a causa de muito do sofrimento psicológico, no Ocidente moderno.
Enquanto lia a nota na parede do museu Mori, ficou claro para mim que a maneira que o Ocidenteo Oriente pensavam sobre a saúde tinha muito a ver com a maneira como eles estruturam as suas sociedades.
Os psicólogos culturais têm encontrado padrões consistentemente diferentes de raciocíniopercepção em diferentes sociedades, com algumas culturas adotando um padrão mais holísticooutras um padrão mais analítico: o oriente adotando o coletivismo, sendo mais indiretoenfatizando o contexto de longo prazo;o ocidente, adotando o individualismo, sendo mais diretoenfatizando o contexto de curto prazo. As culturas também divergem nas suas orientações sociais (interdependênciaindependência). As culturas que aprovampermitem a interdependência tendem a enfatizar a harmonia, o relacionamentoo contato, enquanto que as culturas que aprovampermitem a independência tendem a enfatizar a autonomia, a auto-expressãoo autodirecionamento. Então me perguntei se na cultura oriental meu estado de saúde receberia o mesmo diagnóstico. Será que eu iria representar a Integração Estrutural da mesma maneira? Certamente não. A propósito, o que é exatamente o “embodiment” no contexto da integração estrutural? Porque algumas pessoas parecem mais embodied do que outras? Será que a cultura ocidental está ficando mais disembodied? Tal interrogação me levou a pesquisar na filosofia, na antropologia, na etnografia, nas ciências sociais, na ética, na cinésicanos textos psicoterápicos winnicotianos, para encontrar primeiramente mais informações sobre “embodiment”, uma palavra que não pode ser fáciladequadamente traduzida para o português (minha língua nativa) ou para outra língua latina.
III Um pouco de filosofia para compreender o embodiment
Thomas Csordas, que diz que “o embodiment é o fundamento da culturao corpo é a unidade básica a partir da qual experimentamos o mundo”, é um antropólogo contemporâneo, que tenta escapar da separação corpo/mente (no paradigma ocidental), uma vez que muitas culturas não consideram a experiência vivida desta maneira. Em seu artigo “Somatic Modes of Attention” (Formas Somáticas da Atenção), ele fala sobre nossas formas de pensamento, sobre como vivemos no mundocomo podemos compreender a realidade de outros povos. Ele pergunta:
– Como é possível compreender os limites transculturais ?
– Qual é o papel do corpo?
– Você pode simplesmente pressupor uma mente abstrata como se ela não estivesse ligada ao restante?
Isto nos leva ao conceito de pré-objetividade de Merleau-Ponty: todos nascemos em sistemas culturais que influenciam a maneira como nos movimentamos no espaço/vida/sentimento, mesmo antes que possamos refletir sobre estas coisas. Tudo isso acontece em um nível inconsciente.
Merleau-Ponty sustenta que, muito antes de nascermos, já existe tanto o mundo da Natureza, como o da cultura. Ele também diz que nascemos num sistema de significados (mundo cultural)num sistema de objetos (mundo natural),que não tem como escapar dos objetos da cultura ou da natureza. Esta teoria ensina que todos nós nascemos dentro de uma determinada matriz, que é física, culturalsocial. E que esta matriz molda aquilo sobre o que você pensa,como você pensase comporta em relação ao assunto.
Merleau-Ponty também diz que conhecemos o mundo apenas através do corpo,que ao tentar apreender o mundoseus objetos não conseguimos nos despojar dos pressupostosconceitos cognitivos com os quais pensamos. Para Merleau-Ponty, a percepção é um envolvimento ativo, ao contrário de Descartes, que dizia para não confiarmos nos sentidosficar apenas com a mente. Então, como é possível a comunicação se cada um de nós tem seu próprio mundo individual? (porque o conhecemos através de nosso corpo?) Isto traz uma compreensão do que fazemos na prática: quando nos comunicamos, ocorre uma mistura da subjetividade do outroa nossa própria subjetividade, resultando no envolvimento intersubjetivo. Mas, a ciência realistaobjetiva considera que o envolvimento do pesquisador está completamente separado do objeto de estudo. Não existe interação entre o conhecedoro objeto do conhecimento, entre Euo Outro. Para a sociologia, esta é uma questão crucial: qual é o relacionamento do indivíduo com os objetos no mundo? Qual é nosso relacionamento como integradores estruturais com os clientes, especialmente com os clientes que são “diferentes”? Qual é nosso relacionamento com as diferentes escolas de integração estrutural?
Clifford Geertz, que escreveu The Interpretation of Cultures (A Interpretação das Culturas), propôs que se tome a cultura como um texto, no sentido de que ela é facilmente interpretável, aproximando-a do ficcional, abordagem essa criticada por vários estudiosos, embora promovida por outros como se fosse um modelo interpretativo definitivo, o que realmente não é. Por outro lado, Csordas propõe que consideremos o embodiment, que pode nos oferecer uma forma mais rica de analisar a cultura. A proposta de Csordas foi essencial para a maneira de interpretarmos a análise transcultural, porque nos convida a perguntar:
– Que outras dimensões deveríamos considerar, além do nível narrativo, quando estamos tentando compreender a experiência vivida?
– Como discutimosanalisamos os relacionamentos entre pessoas?
– Como os terapeutas observam determinadas coisas?
– Como você descreve as outras dimensões que as pessoas usam para perceber coisas nos outros?
Ao propor estas questões, Csordas está tentando encontrar um caminho para explicar o fenômeno, que não caia na separação mente/corpo do paradigma ocidental. A resposta é o “embodiment”.
IV Embodiment
Logo no início de minha pesquisa descobri que o conceito de embodiment é vastoestá presente em vários campos, incluindo o pós-modernismo, o feminismo, a filosofia, a antropologia, as ciências cognitivas, apenas para mencionar alguns. Ele também aparece nas ciências da computação, na robóticana inteligência artificial, nos recursos econômicos, no teatro físico, na música, no direito. Gosto da definição de embodiment de D. Halprin (1999): “Embodied se refere à autopercepção através das respostas corporais do momento… basicamente, uma vida embodied seria aquela em que o corpo físico, os sentimentosa mente se expressam criativamente, em harmonia entre sicom a natureza mutante da realidade”. Na psicologiana filosofia, assim como na Integração Estrutural, o embodiment pode aludir à “cognição embodied” ou ao “conhecimento embodied”, enfatizando o papel que o corpo exerce na modelagem da mente. O mais importante para nossa discussão atual é que a ideia ocidental da separação total corpomente influenciou profundamente nossa maneira de ser no corponossa compreensão do mundo. Mas o conhecimento embodied contraria esta dualidade. E ela não existe no oriente. Portanto, é óbvio que a recepção de uma série de integração estrutural no oriente será diferente de país ocidental, devido às diferenças nos padrões de percepçãopensamento. “Um exemplo interessante das diferenças nos padrões de percepção está na arte, mais especificamente na posição do ponto de fuga (o ponto em perspectiva no centro do quadro em direção do qual todas as linhas que se originam no primeiro plano parecem convergir) em diferentes culturas: enquanto o ocidente geralmente coloca o ponto de fuga de frente para o expectador, numa perspectiva acelerada, o oriente quase sempre o coloca atrás, em uma perspectiva desacelerada”.
V Qualquer ser humano
O ser humano nascese forma em uma ou outra comunidade cultural. Não existe um ser humano sem uma comunidade. Isso é o mesmo que dizer, como lembra Carvalho, que a cultura é práxis cognitiva planetária engendrada por primatas, humanos de preferência, em sua curta passagem sócio-histórica no planeta Terra. A ciência do século XXI precisa então religar saberes dispersoscaminhar para um tipo “polifônico de cognição” (Carvalho:2003:17).
Assim, a futura mãe também necessita do apoio de uma comunidade. Winnicott, pediatrapsicanalista inglês, ensina que quando um bebê nasce, ele precisa ser recebido por um mundo que lhe dá as boas-vindas, abrindo um espaço para acomodar sua singularidade, permitindo que ele rompa a ordem que foi criada para recebê-lo. Isto significa que o bebê precisa ser recebido como uma pessoa,não como uma coisa ou uma tarefa. Ele precisa encontrar um lugar no corpo de outra pessoa; precisa conseguir permanecer (entregar-se) no corpo da mãe. Porém, o corpo materno está impregnado com a organização estáticafuncional da cultura em que está inserido,estas organizações se comunicam com o bebê através do tônus muscularde ritmos corporais diferentes. Desde muito cedo, o bebê interage com a linguagem corporal específica de uma cultura. Ele também precisa ser capaz de afetar o corpo materno, que por sua vez precisa se comunicar de forma amorosa com o bebê, já que é exatamente este tipo de comunicação que insere a criança na humanidade. Isto torna o bebê uma pessoalhe confere a qualidade de ser real. (Existem pessoas que não foram bem recebidas,por isso, mais tarde, não se sentem ligadas a uma família). Trata-se de comunicaçãosignificado. Desde sua origem o ser humano é uma criatura de significado; uma criatura que responde ao significado das coisas.
O ser humano também tem, desde sua origem, a necessidade de estar com os outros, de sentir-se bem-vindo no mundo humano. No início, isto é comunicado para o bebê através do corpo da mãe, pela tonicidade de seus músculos, temperatura, tom de voz, etc. No começo da vida o bebê se organiza através da organização de ritmos, o que quer dizer que desde então, o ritmo é uma experiência de vida. Minha hipótese é que estas diferenças podem começar a ser embodied enquanto o feto está em formação no útero da mãe, com o seu caminhar no ritmo de sua cultura. Mais do que qualquer outro relacionamento, é o relacionamento mãe-bebê que transmite cinésica (linguagem corporal) para a criança, que muito discretamente embodies it.
Ritmos diferentes promovem experiências de vida diferentes. O mais interessante é que experimentos indicam que o movimento corporal não é simplesmente uma reação à escuta dos ritmos, mas que a movimentação do corpo influencia a maneira como ouvimos os ritmos. Por exemplo, marcar com o pé afeta a maneira como eu escuto um determinado ritmo. Isto significa que o movimento corporal é uma parte da estrutura de percepção da pessoa. Nós aprofundamos a experiência de simetrias rítmicas através do movimento corporal em acordo com estas simetrias. Quando as primeiras ou últimas notas interrompem as simetrias, se estamos em movimento, experimentamos a frustração em nossos corpos com mais qualidade do que se estivéssemos desligados. Isto me faz pensar na hipótese de que a maneira como movimentamos nossos corpos é uma das coisas que influenciam os ritmos musicais folclóricos que criamos.
Também é interessante considerar que as maneiras como memorizamos os movimentos de nosso próprio corpo divergem, dependendo das preferências culturais específicas na concepção de relações espaciais. As pessoas de orientação autocêntrica usariam construções “esquerda, direita, para frente, para trás” para codificar, enquanto as pessoas de orientação mais alocêntrica responderiam com: norte de…, leste de…, sul de… Ao mesmo tempo, a pesquisa demonstra que a cultura ajusta os movimentos oculares perante novidades visuais: quando estão diante de cenas complexas, as pessoas do leste da Ásia prestam mais atenção no contexto, enquanto que os ocidentais prestam mais atenção nos objetos, refletindo as diferenças culturais no estilo holísticoprocessamento analítico, respectivamente.
Agora, vamos voltar um poucoverificar algumas definições. O que é cultura? Sara Boas (2004) responde: Não é uma nacionalidade ou um tipo de vida. Antes disso, ela é mais uma entre muitas outras lentes possíveis “através da qual podemos ver a vida; uma maneira de compreender nossas ações, idéiasexperiências. Podemos imaginar a cultura como um iceberg. Escondido sob a água está o sentido de realidade , as crençasos valores compartilhados, que estão na origem de um conjunto de ‘regras não-escritas’ sobre como agir, pensarsentir as redes de significadoa memória coletiva, que formam a base do ‘dar sentido’de outros fenômenos, que podemos pensar como inconsciente coletivo. Na superfície estão os padrões de comportamento observáveis, os códigos de conduta explícitos, o meio-ambiente os artefatos materiais que construímos”. (Sara Boas, 2004) Contrariando a afirmação costumeira, o mundo não é essencialmente uma aldeia global,tampouco as culturas nacionais serão uma coisa do passado daqui a cinquenta anosmais. Cultura nacional é o nome que damos aquilo que distingue as pessoas de um país, das pessoas de outro país. A cultura nacional é mais profunda”. Ela nos embala suavemente quando estamos nos desenvolvendo no útero materno. E está presente quando nascemos.
E continua presente no comportamento não-verbal da mãe (através do seu tônus) em relação ao recém-nascido, enquanto o bebê adquire o comportamento não-verbal (também conhecido como linguagem corporal ou cinésica). A teoria recente parece ser a mais plausível: antes de desenvolvermos a fala, já estamos nos comunicando através da linguagem corporal, assim como qualquer outro animal. Na verdade, a expressão não-verbal é inata, mas a cultura determina suas formasusos (existe uma distinção entre comportamento não-verbal comunicativonão-comunicativo). Ela pode ser afetiva (emocional), quando sua função se relaciona com o ego; sua função reguladora controla a interação face a face; sua função referencialinformativa diz respeito à adequação da mensagem. Além de desenvolver movimentos corporais interacionais (linguagem corporal), a criança também adquire os aspectos não-interacionais dos movimentos corporais, que reconhecem pessoas diferentes. Muitos mal-entendidos entre pessoas acontecem porque alguns gestos que são aceitáveis em uma cultura são totalmente inapropriados em outra, ou um gesto que tem um significado em uma cultura, não quer dizer nada em outra.
Cruzar os braços, mostrar as solas dos pés, tocar o queixo, sustentar o contato visualoutros gestos podem ser muito ofensivos em outra cultura. A postura é um aspecto da cinésica: a postura geralmente é usada para indicar posição, estado de ânimo, aprovaçãooutras emoções relacionadas à interação pessoal. EkmanFriesen sugerem até que a postura pode transmitir afeto ou preferência abrangente, enquanto que as emoções específicas são comunicadas por movimentos corporaisfaciais mais discretos. Entre eles estão aqueles designados pela cinésica como micro-movimentos. A pesquisa em cinésica cresceu significantemente desde os anos 70, mas a mídia popular enfatizou a interpretação das posturas defensivas, cruzar os braços, cruzar as pernas, etc. Alguns pesquisadores acreditam que 50-65% de toda comunicação é não-verbal. Outros estudos apostam em até 80%. Vários estudos demonstram que a comunicação facial é 4,3 vezes mais confiável do que a verbal. Albert Mehrabian é conhecido pela descoberta da regra 7% – 38% – 55%, que supostamente indica o tanto de comunicação conferida por palavras, entonaçãolinguagem corporal. Porém, ele se referia apenas aos casos de expressão de sentimentosatitudes. É uma concepção errônea a aplicação destas porcentagens a toda comunicação.
Mas independente do tipo ou qualidade de comunicação não-verbal, a linguagem corporal também está relacionada ao espaço. Nós nos movimentamos no espaço. É através do espaço que nos relacionamos com os outroscom as coisas. E, o potencial do espaço ao nosso redor para o movimento, também conhecido como quinesfera, é afetado pelos padrões de percepção da pessoa, que também está sob a influência dos padrões de percepção da cultura. Antes de qualquer movimento, consciente ou inconscientemente, temos que nos orientar, isto é, temos que encontrar as direções no espaço. Contudo esta ação necessita teoricamente da utilização perfeita dos sentidos, que necessariamente não ocorre, devido a fixações dos padrões de percepção, também chamadas de “inibições”, em contraste com “lesões” (ou fixações nos tecidos). Diferentes culturas valorizam diferentes planos espaciais, construindo desta forma padrões de movimento diferentes. Por exemplo, enquanto nos Estados Unidos prevalece o plano sagital, na África prevalece o plano horizontal. Sobre a preferência de um plano, a pesquisa revelou que existem quatro zonas de espaço interpessoal diferentes, todas afetadas por hábitos culturais. A primeira zona é chamada “distância familiar”, do toque até 50 cm,é reservada para parentes, amigos, namoradoscrianças. A segunda zona, chamada “distância pessoal”, vai da extensão do braço até 1,2 m. Este espaço é usado em conversas com amigos, colegasnos grupos de discussão. A terceira zona é chamada de “distância social”, começa em 1,2 mvai até 2,5 m,é reservada para estranhos,relacionamentosgrupos novos. A quarta zona, conhecida como “distância pública”, é usada para seminários, discursos, teatro, etc. As ideias para o que chamamos de “espaço interpessoal” para todas as zonas descritas acima variam de uma cultura para outra,é muito fácil perceber isto, observando como as pessoas se cumprimentam em diferentes culturas. Estamos conscientes disso, como integradores estruturais, quando atendemos pessoas de outras culturas?
VI Porque focalizar as diferenças entre culturas?
Porque focalizar nas diferenças culturais quando o título do IASI, nosso simpósio, é “Um mundo, um trabalho”?
Porque estamos lidando aqui com um paradoxo: a diversidade na singularidade.
Mesmo que toda a humanidade se organize de alguma forma em relação à gravidadeao espaço, a maneira como cada pessoa vivencia o relacionamento com o espaço circundanteo fluxo do tempo é único,de alguma maneira, específico em cada cultura. E por isso, A Receita, tão útil para todos, também tem um lugar onde não funciona para ninguém,aí, você terá que adaptá-la ao indivíduo. De outra maneira, “Um mundo, um trabalho” significaria um mundo sem diversidadeas pessoas seriam tratadas apenas superficialmente. Não se trata de tornar todos iguais, mas de “adquirir consciência das diferenças mútuas, conhecimento das variáveis culturais básicas, capacidade para se comunicar eficazmente além das fronteiraso desejo de fazê-lo” (Hofstede, Pedersen, Hofstede). Quando nós reconhecemos as diferençasas aceitamos, o trabalho não perde sua universalidade. Isto é, para ser bom para todos (para todos os clientes potenciais) é necessário ser bom para cada um deles em particular.
Como terapeuta de integração estrutural numa sociedade multicultural, quanto mais conscientes estivermos de nossos próprios padrõescontextos, mais eficienteético será nosso trabalho. Para isso precisamos tentar identificar como nossa herança pessoalprofissional modela nossos pensamentosações. “O desafio intelectual é compreender a essência da cultura nacional: as regras do jogo social que são diferentes além das fronteiras. O desafio emocional é ser capaz de se colocar no lugar de alguém de um país ‘estranho’.” (Hofstede, Pedersen, Hofstede)
Metaforicamente, cada cliente representa uma pessoa de uma cultura diferentea compreensão da essência de sua família/cultura de origem pode ser uma experiência enriquecedora, emocionalespiritualmente. “Todos temos a capacidade de nos comunicarcompreender outras pessoas, independentemente das diferenças”. (Hofstede, Pedersen, Hofstede)
As palavras nascemmorrem. A palavra relativamente nova, “transdiciplinaridade”, representa uma estratégia de pesquisa que focaliza problemas que ultrapassam as fronteiras de duas ou mais disciplinas,pode se referir a conceitos ou métodos que foram desenvolvidos originalmente por uma disciplina, mas agora são usados por várias outras, como a etnografia, um método de pesquisa de campo, desenvolvido originalmente na antropologia, mas amplamente usado por outras disciplinas. A transdiciplinaridade reúne especialistas acadêmicos, profissionais da área, membros da comunidade, cientistas pesquisadores, líderes políticosempresários, entre outros, para resolver alguns dos problemas urgentes que o mundo enfrenta, do local ao global.
O prefixo “trans” significa ‘ultrapassar’, ‘para além de’, ‘para o outro lado’. Ele não pode ser comparado com “multi” ou “inter”: que se referem a quando as pessoas se reúnem, entram em contato, mas permanecem separadas. O que me interessa é o prefixo “trans”, na palavra transcendente, ir além de, reconhecer primeiro nossas diferençasdepois transcendê-las, encontrando a unidade em nossa natureza humanaco-criando o futuro de nossa profissão.
VII Palavras finais
“Quando olhamos para uma folha de papel, a folha de papel é parte de nossa percepção. Sua mente está aquia minha também. Portanto, nós podemos dizer que tudo está dentro desta folha de papel. Você não pode indicar nada que não esteja aqui – o tempo, o espaço, a Terra, a chuva, os minerais do solo, a luz do sol, a nuvem, o rio, o calor… a árvore, o lenhador que cortou a árvorea levou para fábrica, para ser transformada em papel. E nós vemos o trigo… que se transformou em seu pão de cada dia…o paia mãe do lenhador, também estão aqui. Tudo co-existe nesta folha de papel… você não pode apenas ser sozinho. Você tem que “inter-ser” com todas as outras coisas. Esta folha de papel existe porque tudo o mais existe”.
Thich Nhat Hahn (1988)
Referências
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Sites interessantes:
Paul Ekman (nascido em 15 de fevereiro de 1934) é psicólogo, foi pioneiro no estudo das emoçõessua relação com as expressões faciais. Ele é considerado um dos 100 psicólogos mais importantes do século 20. O background da pesquisa de Ekman analisa o desenvolvimento das feiçõescondições humanas ao longo do tempo. (Keltner, 2007) – Wikipedia

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