Função tônica – orientação pela gravidade como o fundamento para a integração estrutural
Texto: Kevin Frank
Tradução: Fábio Sayão
Função tônica estrutura
Função tônica é o nome para um modelo de integração estrutural desenvolvido pelo professor de dança, pesquisadorrolfista, Hubert Godard. Função tônica conecta a integração estrutural com a pesquisa científica atualos estudos históricos sobre o movimentoo desenvolvimento. É uma tentativa de desmistificar a linguagem da gravidade e, tendo feito isso, aprimorar nossa capacidade de fazer mudanças duradourassignificativas na vida das pessoas.
O trabalho de tecido físico da integração estrutural endereça o modo como a fáscia moldou nossa formapostura. A condiçãodistribuição da fáscia nos conta muito sobre a história do corpo – como uma pessoa se moveu ou como se comoveu. A fáscia também nos conta uma estória sobre outros aspectos da estrutura, as outras forças que moldam a função.
Além da estrutura física, o modelo da função tônica postula três outras estruturas: a estrutura perceptiva, a estrutura coordenativaa estrutura de significado. Quando nós endereçamos a percepção, a coordenaçãoo significado, assim como sua versão física, a estrutura sugere algo que o corpo não modifica casualmente. Essas tendências não são destinadas a mudar facilmente, pois essas estruturas asseguram nossa identidadenossa sobrevivência. Elas são automáticasprevisíveis,desta maneira pode-se depender delas para nos tirar do perigonos ajudar a pegar nossa comida.
Entretanto o integrador estrutural é contratado para ajudar a modificar alguns desses padrões de função, padrões que estão causando desconfortodisfunção. O que permite mudar esses padrões?
Função tônica pré-movimento
Quando nos movemos, um movimento já aconteceu. O pré-movimento é a organização tônica do corpo ao se preparar para o movimento. A organização tônica dá significado ao movimento, sua intenção. Se for independente da organização tônica, o gesto é ambíguo. O pré-movimento é o que gostaríamos de ver na leitura corporal.
Nos momentos que precedem um movimento, o corpo se orienta em duas direções: com um senso de suporte ou peso;para um senso do espaço, ou o que poderia ser descrito como o “outro”. Esse “pré-movimento” determina o que irá acontecer em seguida.
Acreditamos que nós conseguimos mudar a coordenação ou o comportamento postural de alguém, mas isso só poderá acontecer se endereçarmos em primeiro lugar,efetivamente modificar, o pré-movimento. Depois que o movimento se inicia, já é tarde demais.
Exemplos de pré-movimento são mais abundantes do que os exemplos dos próprios movimentos. Para cada movimento, a preparação, em grande parte automática que acontece em primeiro lugar, pode ter numerosas variações. No entanto algumas formas de preparação poderão servir de ilustração.
Se eu jogar uma bola, o que acontece antes de eu jogá-la? Meu corpo pode se soltar um pouco, se afundar para o senso do chão nas pernas nos pés. Eu posso, sem a percepção consciente, amplificar meu senso de massa peso. Eu poderei receber o peso da própria bola. Por outro lado, minha atenção poderá alcançar ao ponto distante onde estou mirando minha jogada. Meu corpo poderá de maneira sutil, mas perceptível, levantar-se no peito, alongar-se no pescoço. Eu poderei perceber o espaço atrás de mim, ao qual o braço que joga irá alcançar lá atrás.
Começamos a notar o pré-movimento à medida que o trazemos à nossa atenção. Cada segmento do corpo pode se orientar de maneira diferente. A função integrada requer que eu tenha a capacidade adaptativa do pré-movimento, que eu esteja orientado às duas direções – ao peso ao espaço. A orientação equilibrada ao peso ao espaço resulta em uma função corporal ótima, com economia de força fluidez de execução. Parte do trabalho do praticante será empregar esses princípios engendrar o pré-movimento ótimo. Como isso funciona na prática clínica?
A cada estágio de intervenção, nós poderemos encontrar qualquer uma das quatro estruturas. Em cada estrutura nós encontramos as preferências de orientação do cliente. Nós usaremos o exemplo de uma cliente que empurra com seu pé contra uma parede. Em um nível perceptivo, a capacidade para permitir a percepção através do pé estará em relação direta com a maneira pela qual a pessoa fez a orientação para o pesocomo aquela pessoa habitou um mundo de sensação interna versus um mundo de orientação externa.
Em um nível coordenativo, a capacidade para deixar a impressão do pé guiar a empurrada subsequente nos conta sobre a cadeia de recrutamento muscular que é típica habitual para aquela pessoa, que irá variar pela organização tônica. Em um nível de significado, nós descobrimos quais posturas, estáticas cinéticas, têm sido permitidas pela cultura da pessoa, educação outras influências, mais uma vez refletindo a orientação para a gravidade.
Estamos acostumados com a ideia de que a fáscia é mutável. Quando endereçamos os ingredientes do pré-movimento, nós podemos encontrar mutabilidade nas outras três estruturas, na mesma maneira em que podemos encontrar mutabilidade na fáscia.
Como em todas as intervenções de movimento, algumas serão lentas contemplativas, outras serão rápidas dinâmicas. Muitas vezes, um momento de aprendizado desacelerado pode mais tarde ser desencadeado no contexto de uma atividade em passo normal. Durante o trabalho na maca em decúbito lateral, como exemplo, eu poderei pedir à minha cliente que empurre seu pé contra a parede.
Antes que a cliente empurre seu pé contra a parede, ela precisa permitir-se receber a impressão da madeira contra seu pé. Ela precisa notar o fluxo de sensaçãoa construção da
percepção antes de empurrar. Nesse momento de pré-movimento, a organização da empurrada é modificada. O recrutamento das unidades motoras musculares serão mais eficientesterão uma sensação correspondente de menor esforço por causa da mudança na percepção. A mudança na percepção permite uma mudança na coordenação. A coordenação habitual é inibida pela percepção recente.
Assim que a cliente se levanta, se ela permitir que a impressão do chão substitua a sensação da parede quando estava deitada, sua marcha poderá se reorganizar. A estrutura coordenativa para a marcha foi, pelo momento, modificada. O recrutamento de unidade motora poderá ser similar ao visto enquanto a cliente estava sobre a maca.
Enquanto ela se move pelo espaço com a marcha modificada, essa função será permitida ou inibida por sua própria estrutura de significado. Se a marcha lhe trouxer para uma relação modificada com a gravidade, talvez trazendo o centro superior de gravidade mais à frente do fio de prumo; talvez com a atitude da cabeça modificada, assim por diante, sua estrutura de significado irá determinar se aquele arranjo é aceitável. A estrutura de significado responde à questão: “tenho permissão para me mover desta maneira neste contexto?”.
Um novo movimento, vindo da modificação da fáscia, da percepção da coordenação, precisa de tempo para ser notado. A questão: “tudo bem, isso?” precisa de tempo. A oportunidade de sentir a percepção modificada, de praticar o novo movimento de sentir uma maior gama de possibilidades deve ser suficientemente explorada para que a cliente possa começar a imaginar o novo movimento em algum lugar de sua vida cotidiana.
Função tônica orientação pela gravidade
Todas as quatro estruturas compartilham do sistema corporal de reação à gravidade. Isso é conveniente. Isso amarra junto os elementos da integração estrutural. Começamos a apreciar a insistência da Dra. Rolf no pensamento sobre a gravidade, mas não apenas para um melhor empilhamento de blocos. Nós podemos aprender a ver a orientação pela gravidade como um amplo evento sistêmico em cada pessoa,podemos aprender a ver este evento comparando estilos de organização.
Gene KellyFred Astaire nos oferecem exemplos contrastantes de orientação de pré- movimento. No filme Ziegfeld Follies, nós temos a chance de observar os dois grandes dançarinos dançando os mesmos passos lado a lado. O que você vê é que o Gene Kelly vai para baixo para ir para cima. Ele é principalmente um ‘tipo’ com orientação para o peso. Fred, por outro lado, vai para cima para ir para cima. Ele é orientado para o espaço ou para o “outro”.
Gene gesticula a partir de um forte senso de si, independente do Freddo palco em que estão. Fred gesticula com uma máxima consideração de sua relação com Genecom o espaço ao redor deles. Se você assistir a seus olhos mirando à distância, Gene não é convincente. Seus olhos apontam, mas não alcançam. Fred nos faz sentir que ele realmente enxerga algo na distância. Gene pode saltar mais alto porque ele usa o chão para ir para cima. Fred parece que voa não aparenta esforço porque ele tem aquela relação forte com o espaço.
Eles têm uma ou outra orientação pura? Não. Ambos têm um equilíbrio de orientação ao pesoao espaço. Eles tinham de ter um pouco de cada, como todos nós temos, para funcionar bem. Entretanto no pré-movimento você pode observar uma forte preferência para uma orientação, um estilo de preparação para o movimento.
Há muitos testes de movimento que se podem aplicar para mostrar a preferência de orientação. Como todos os testes, eles podem rapidamente reduzir nossa visão de uma pessoa a um tipo. A tipologia não é um passo à frente. Se usada como uma diretriz para a leitura corporal, no entanto, podemos abrir nossos olhos ao pré-movimento,neste processo, aprender muito sobre a orientação pela gravidadecomo isso é o princípio subjacente para a mudança da função humana. Quando sabemos qual é a preferência, nós sabemos algo sobre o que parece ser recurso para o organismo. Nós podemos dar suporte à pessoa começando a partir de seu senso de recurso, assegurando que sua sensação sentida (felt sense) adequada de recurso é a base para a mudança.
Quando enxergamos a orientação como pano de fundo para o gestopara o movimento, nós enxergamos a estória por trás da estória do movimento. O mesmo sistema que nos apruma tão bem no caso de escorregarmos sobre o gelo pode ativar a inibição se um gesto ou postura forem considerados inapropriados por nossa psique. É o mesmo sistema da gravidade que supervisiona o controle fino coordenativo que precisamos ter para remover uma farpa de nossa mão. A organização pela gravidade cria um potencial para ação, uma previsão do que pode acontecer em seguida baseada no pré-movimento. A orientação pela gravidade também é o pano de fundo para nossa organização sensorial.
Quando vejo com meus olhos, procuro alcançar para examinar o que há no lugar, ou as visões do lugar vêm até a mim? Quando escuto, meu sistema de escuta faz uma varredura, no sentido de alcançar os sons ao meu redor, ou os sons chegam a meus ouvidos,me permito deixá-los entrar? Quando toco, pego para mim o que estou tocando, em minhas mãos, braçoespinha, ou eu toco aquela coisa ou outra pessoa, concedendo ao objeto o domínio da sensação de ser tocado? Alcançar é parte da orientação para o espaço. Deixar o mundo chegar dentro de mim é parte da orientação para o peso. Minha organização sensorial é parte de minha orientação pela gravidadeé parte do que acontece no pré- movimento.
Devemos estar orientados antes de nos mover. Na verdade, devemos estar orientados antes que possamos perceber. Não podemos desligar isso. Reação à gravidade é uma parte confiávelprimitiva do cérebrosistema nervoso. Somos imensamente apoiados em nossa missão de ajudar na integração das estruturas humanas quando nos permitimos lerfalar a linguagem da gravidade. A Dra. Rolf aconselhava seus alunos a lembrar que a gravidade é o terapeutaque “Nós não sentimos a gravidade, mas nos ajustamos a ela. Somos obrigados.”. A terapia acontece quando nossas reações corporais à gravidade estão congruentes com nossas ações. Podemos não sentir a gravidade, mas somos capazes de sentirobservar nossas reações corporais a ela. Somos capazes de nos tornar conscientes da reação onipresente à gravidade em todas as questões que envolvem a melhora da função.
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Kevin Frank é praticante avançado certificado de Rolfing IEprofessor de movimento. Estuda com Hubert Godard desde 1991, tendo sido seu assistente. Ministra aulas que tomam o ponto de vista da função tônica, é autor de artigos sobre a função tônicaa prática de integração estrutural,é cofundador do Resources in Movement em Holderness, NH, EUA.
[N. T.] O texto original, “Tonic function – gravity orientation as the basis for structural integration”, foi publicado na Hellerwork Newsletter, em abril de 2004. Está disponível online no site do autor em: http://resourcesinmovement.com/wp-content/uploads/2014/09/TonicFunctionin4-04HellerworkNews-1.pdf
[:][:pb]Função tônica – orientação pela gravidade como o fundamento para a integração estrutural[:]
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