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Xamã – Parte II

Depto. Antropologia - PUC/SP
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Year: 2007
Associação Brasileira de Rolfing

Rolfing Brasil – 07/2007

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Depto. Antropologia - PUC/SP

Tendo dominado a arte da transformação o xamã voa aos céus, ao fundo da terra, ao redor do planeta, vai até a luade volta à sua terra. Realizou a união dos opostos, tornou-se andrógino, algumas vezes literalmente,se comunica com o cosmos. A viagem do xamã termina no sol. O solo fogo domesticado são um em essência, lembra Halifax, e, por isso, o domínio do fogo é o jogo do xamã com o Absoluto. A relação entre a fricção, a combustão, o fogo, o calora luz é análoga ao processoseu resultado. O xamã é aquele que foi queimado através da fricção da iniciação e, neste processo, tornou-se pura luz. O domínio do fogo, ou de extremos de temperaturas frias, é a única prova concreta que a sensibilidade pode ser transmutada sem ser abolida, que pode-se ultrapassar a condição humana sem entretanto destruí-la, lembra Eliade. O xamã, supremo mestre do fogo, é a incorporação de um tal calor que sua luminescência espiritual é associada à purezaao conhecimento. Nas palavras de um xamã esquimó:

“Todo xamã verdadeiro deve sentir uma iluminação em seu corpo, no interior da cabeça ou em seu cérebro, algo que brilha como o fogo, que lhe dá o poder de ver com os olhos fechados na escuridão, de enxergar as coisas ocultas ou o futuro, ou mesmo o segredo de outros homens. Senti que tinha a posse desta maravilhosa habilidade”(1).

Na jornada do xamã encontram-se estruturas psico-simbólicas das mais profundas como o tema da descida ao Mundo Subterrâneo, a confrontação com forças demoníacas, o desmembramento, a prova de fogo, a ascensão pela Árvore do Mundoa volta ao mundo humano com uma mensagem para a comunidade depois de ter realizado em si uma nova identidade. A razão que leva o xamã a esta abertura da psique é o bem estar de sua comunidade, mas os temas mitológicos que vivencia, exprimem uma geraçãocriaçãonão uma regressão.

Assim, através de um processo de profunda turbulênciacombustão psíquica, as imagens míticas são despertadasatualizadas. Este tipo de realização transpessoal é conhecido da moderna psiquiatria que, em geral, a classifica como de natureza patológica. Entretanto, os trabalhos de Perry entre outros psicanalistas a respeito de episódios psicóticos, dão indícios importantes sobre a natureza arquetípica do complexo xamanístico. Perry elaborou dez tópicos como sendo característicos da re-organização do Self, a saber:

1. a geografia psíquica, cósmicapessoal é focalizada em torno de um centro;

2. a morte ocorre no processo de desmembramento ou sacrifício, a pessoa é torturada, retalhadaseus ossos são re-arrumados. Pode também sentir que está mortoconversar com espíritos;

3. há um retorno a um tempo primordial, a um Paraíso, ou ao útero;

4. surge um conflito cósmico entre o Bemo Mal, ou outro par de opostos;

5. há um sentimento de estar sendo esmagado pelo sexo oposto; a ameaça do Outro pode também se manifestar em termos de uma identificação positiva com o sexo oposto;

6. a transformação do indivíduo resulta de uma apoteose mística ante aquele que a experienciase identifica com um personagem cósmico ou real;

7. a pessoa entra num casamento sagrado, uma junção dos opostas;

8. um novo nascimento faz parte das fantasias de renascimentode suas experiências;

9. uma nova era ou a início de uma nova sociedade é antecipada;

10. o equilíbrio de todas os elementos resulta na quadratura da mundo, uma estrutura quadripartida de equilíbrioprofundidade.

Perry chama este processo de Renovação da Self e, como vimos na descrição da jornada do xamã, há paralelos notáveis entre os dois processos. Cada um dos itens por ele mencionado tem sua contraparte na psico-simbolismonos mitos xamânicos. Há a Árvore Cósmica, no centro, por onde o xamã penetra os três mundos. Ai neste Centro ou axis mundi, está a passagem onde o xamã confronta as forças demoníacas do desmembramento. Esta confrontação tem lugar no útero cósmico da Mãe Terra, nas profundezas do Mundo Subterrâneo, no início primordial antes do tempo. A batalha entre o xamãas forças elementares pode também se manifestar através de pavor do poder do contrário, a resistência do xamã siberiano, por exemplo, à androginização. Após a entrega, a apoteose é atingida através da identificação mística com o fogo. Há a reconciliação dos
opostos. Como conseqüência pode ocorrer um renascimento na Árvore do Mundo. Conforme o xamã renasce, também a sociedade renasce, pois ele manifesta a imagem de um cosmos harmonioso;este universo ordenado tem um desenho no qual os quatro ventos, as quatro estradas ou quatro direções estão equilibrados . Perry relaciona seu estudo com o processo xamanísticoas semelhanças saltam à vista. A diferença fundamental está, para aquele autor, na maneira como cada sociedade encara o fenômeno da abertura psíquica.

O xamã volta à comunidade, sua vocação é voltada para seu grupo. Como artista cantarelata o que viuviveu, traça seu cosmos interior. Mesmo durante a jornada, o relato mitológico da psique caótica é essencial. Impõe ordem, dá forma à confusão psíquica; sua jornada encontra uma direção. É exatamente nesta transição para a expressão verbal – que permite viver em forma ordenadainteligível uma experiência real que de outro modo seria caóticainexprimível – que induz a liberação do processo fisiológico, como mostra Lévi-Strauss em ?A eficácia simbólica?, texto já clássico. Através da expressão criativa os relatos da jornada interna, de tumultosconflitos, o simbolismo pessoal é condensado de maneira a englobar a experiência humana maior. Lévi-Strauss enfatiza aspecto integrativo da linguagem mitopoética. A psique que está emocionalmente saturada se organiza por meio das concepções mitológicas que formam um sistema explanatório que dá significadodireção ao sofrimento humano, lembra Halifax. O que é aparentemente irracional pode ser ordenado embora permaneça paradoxal. O que é socialmente inaceitável torna-se material de um drama sagradosocial. Muitas vezes a visão do xamã é encenada . Os perigos extraordinários encontra¬dos nas aventuras psico-fisiológicas do xamã tornam-se primeiro suportáveis e, posteriormente, heróicos.

Através de suas experiências,de sua experiência da psicopatia, o xamã recebe instrução práticateórica. Como ele ou ela se curam, podem curar os outros porque entre conhecem o mecanismo, ou melhor, a teoria da doença. O xamã aprendeu a lidar com o sagradoandar em qualquer das três zonas com a mesma naturalidade. Conhece os três caminhos do imaginário, dos sonhos, dos espíritospode percorrê-los com facilidade. O xamã, ele ou ela, é o grande especialista da alma humana. Ele é indispensável em qualquer cerimônia que diga respeito a almasuas experiências, principalmente como unidade psíquica precária inclinada a deixar o corpose tornar presa fácil de demôniosfeiticeiros. É aqui, quando há perda de alma, que o xamã desempenha sua função de curadordoutor: ao som de seu tambor ele faz o diagnóstico,sai em busca da alma fugitiva do paciente fazendo-a retornar ao corpo animado que abandonou. É ele também que como psicopompo conduz a alma do morto ao Mundo Subterrâneo. Conhecedor dos caminhos só pode desempenhar esta função porque comanda as técnicas do êxtase, Isto é, porque sua alma pode, a salvo, abandonar o corpopercorrer longas distancias, penetrarsair do Mundo Subterrâneosubir aos Céus. Através de sua própria experiência, pois já esteve lá, ele conhece os prováveis percursos. O perigo de perder sua própria alma nestas regiões permanece sempre grande, mas como foi ungido pela iniciaçãotem seus espíritos guardiões, o xamã é o único capaz de desafiar o perigo da aventura nesta geografia imaginal. Além de conhecer os caminhos tem a habilidade de controlaracompanhar a alma.(1)

A doença é causada ou pela perda da alma ou pela introdução de algo estranho no corpo. Além da seção, o xamã usa ervasmassagens, extrai os objetos introduzidos através de sucção. A recuperação está intimamente ligada a restauração do equilíbrio das forças espirituais, pois, com freqüência, a doença é causada por omissão em relação aos poderes infernais. A doença é vista como corrupção ou alienação da alma. A seção de cura é públicana ausência de outros ritos ganha importância de espetáculo.

Mas o xamã não é o sacrificador. Quando na mesma comunidade existem feiticeiros são eles que cuidam de cerimôniasoutras curas; o xamã não tem nada a ver com as cerimônias de nascimento, casamentomorte a menos que algo de incomum ocorra.

É exatamente um desses processos difíceis que narra Lévi-Strauss. O caso de um xamã trabalhando com uma mulher que está experimentando problemas no parto. O xamã através de seu canto faz com que o parto se realize. Lévi-Strauss usa a situação de cura para expor sua interpretação da funçãonatureza dos símbolos. O xamã, diz aquele autor, provê o paciente com uma linguagem através da qual o que poderia ser inexplicável se torna compreensível. É essa transição para a expressão verbal que torna possível o desenlace do parto de maneira ordenadainteligível. A dor da mulher que era privada, isoladoraconfusa se transforma em algo conhecido, num conjunto de acontecimentos narrados em termos das representações coletivas. Lévi-Strauss considera que a seção xama¬nística libera sempre uma experiência traumática originalpor isto conclui que a cura xamanística é a exata contrapartida da cura psicanalítica, com a inversão dos elementos. O objetivo do xamã é igual ao do psicanalista, isto é, induzir uma experiência,ambos tem sucesso nessa empreitada através do processo conhecido como abreação. A diferença está em que na cura psicanalítica o paciente constrói um mito individual com elementos que extrai de seu passado na seção xamanística o paciente recebe de fora um mito social que não corresponde a um estado pessoal anterior. O psicanalista escuta, o xamã fala. Quando a transferência se estabelece, o paciente coloca as palavras na boca do psicanalista atribuindo-lhe sentimentosintenções. No encantamento xamanístico, ao contrário, o xamã fala por seu paciente. Nos dois casos a cura se estabelece devido a homologia das estruturas inconscientes. Mas, se a analogia entre o psicanalista é correta, ela, como assinala Shirokogoroff, não é suficiente. O xamã age como psicanalista somente com respeito a aspectos de sua prática relacionados com tensões, medosconflitos. Mas sua prática freqüentemente inclui pacientes com lesões crônicas; ele é chamado para aplacar os elementos, para profetizarfazer adivinhações. Curandeiro, vidente, profeta, poeta, político, o curador ferido não é menos que um psicanalista, ele é mais.(1)

Brown(1) diz que o curandeiro é o sublimador original, o ancestral histórico tanto do filosofo quanto do profetado poeta. Lembra que desde o trabalho de Conford sobre a Grécia tornou-se evidente que o platonismo,em conseqüência toda a filosofia ocidental, é um xamanismo elaborado – uma continuação da busca xamanística por um modo superior de ser – por novos métodos adaptados às exigências da vida metropolitana. Os elos intermediários seriam Pi¬tágoras, com sua transmigração da alma,Parmênides, o grande racionalista cuja visão de mundo lhe era sussurrada pela Deusa após um passeio pelo firmamento até o Palácio da Noite. O descobrimento da origem da filosofia no xamanismo relaciona a investigação histórica da filosofia ocidental com a pesquisa psicanalítica. O termo sublimação, como foi usado por Freud, conserva suas conotações antigas religiosaspoéticas. Sublimação é o emprego da energia corpórea por uma alma que se mantém à parte do corpo. Ela repousa na dualismo alma-corpo, não como doutrina filosófica mas como fato psíquico implícito na conduta dos sublimado¬res, seja qual for sua filosofia consciente.

Os espíritos, invocados pelo xamã, são hipóteses que formam sistemas filosóficos. O sistema fornece uma filosofia de causas finaisuma teoria das tensões sociais assim como demonstra a importância do relacionamento entre as várias zonasos vários componentes delas. O xamanismo celebra a visão confianteigualitária das relações entre o homemo divino,perpetua o acordo original entre DeusesHomens que os que perderam os mistérios extáticos só podem relembrar nostalgicamente através dos mitos de criação, ou procurar desesperadamente nas doutrinas da salvação pessoal.

Ao mesmo tempo, os espíritos invocados pelos xamãs são também os poderes inconscientes, a jornada que empreendem percorre caminhos que não são visíveis, e, eles ou elas, chegam a bom termos com estes poderes, reestruturam sua personalidade tornando-se alguém em sintonia com o universoem bom relacionamento com seus poderes. Por isto, pode caminhar pelo mundo da realidadepelo mundo do imaginário com a mesma naturalidade. Daí lhe advém seu poder que a sociedade reconheceem relação ao qual tem uma atitude ambígua. Mas, o xamã enquanto figura políticaa relação de poder entre elea comunidade já é uma outra estória que fica para uma outra vez. Aqui quisemos tão somente abordar algumas estruturas psico-simbólicas que, assim como as cartografiastopografias elaboradas pelos xamãs, estão chamando a atenção de psicanalistas contemporâneosdo público em geral, pois, lembra Tart, há uma multiplicidade de problemas filosóficossemânticos na definição da consciênciada cognição, existem saltos qualitativos em padrões de funcionamento mental que exigem atençãopedem narrativas. Explorar os modos de vida do curandeiro-ferido que nos vem desde o Paleolítico, diz Halifax, conhecer estas tradiçõesa linhagem dos primeiros visionários talvez possa conter uma renovação ainda não muito conhecida.

Sorocaba, outubro de 1983.

BIBLIOGRAFIA

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