Membro do IASI
Sou membro Association of do IASI (International Structural Integrators) (www.theiasi.org) desde a sua criação em 2002 por que acredito em seus objetivostambém para ter, pessoalmente, maior exposição a nível internacional. A missão do IASIcongregar as escolas de integração estrutural para promover o desenvolvimento da profissão em siestabelecer um padrão mínimo de excelência. Para pertencer ao IASI você deve primeiro pertencer a uma escola de integração estrutural acreditada pelo IASIdepois passar num serio exame de múltipla escolha elaborado pelo IASI com a consultoria de experts da área, uma vez que o IASI pretende também ser um selo de qualidade. Participei da formulação deste exame que considerei muito interessante.
O Faniquito
Quando recebi ano passado o convite do IASI para o Simpósio 2010 tive um “faniquito” com o titulo do mesmo: “One World, One Work”fui logo pensando: “Como assim? “UM mundo, UM trabalho”? O mundo deles? O trabalho deles? E nos aqui? Com tudo o que os membros da ABR fazem?” E mais ainda, pensava eu: “primeiro, o trabalho de Integração Estrutural não tem um dono,segundo: o mundo nãoum mundo igualzinho para todos. E o trabalho de integração estrutural pode ser trans-posto (ao contrario de imposto) nas varias culturas exatamente por isso, porquetrabalho que pode ser de todos. E na mesma hora, sem pensar muito, propus ensinar um workshop pré-simpósio com o titulo “One World, One Work, Many Cultures” que foi rapidamente aceitome rendeu logo em seguida o convite para dar uma palestra para o plenário. Aceitei também este convite. Dois ou três dias depois tudo o que eu conseguia pensar era “onde fui amarrar o meu bode?” E resolvi me preocupar em construir uma solução para os dois eventos depois que voltasse do Japão onde daria uma Unidade 3 junto com o Pedro.
O Estímuloo Estimulador
Mas nossas deliciosas conversas a caminho da escola foram me estimulando a pensar antecipadamente sobre o assunto que ficou como um pano de fundo enquanto ensinávamos pessoas de uma cultura muitíssimo diferente da nossa. Eu me perguntava se o Rolfing que havia sido criado no Ocidente deveria ser ensinado da mesma maneira noutros lugares, como no Japão, por exemplo. E o que esperar de seus resultados? Seria ético encorajar as mulheres japonesas a darem passos que as levassem mais distante mais rápido? Que direito temos de querer mudar (rolfar) as pessoas de outra cultura? Que direito temos de não fazê-lo? Perguntasmais perguntas. Ate que um dia voltando para Kyoto de uma pequena viagem de trem bala (Shinkansen), o Pedro sentou-se ao meu ladome passou uma listinha de itens a se considerar na minha palestra. Começou então a lenta gestação do texto daquilo que eu apresentaria em Denver para umas 200 ou mais pessoas. Só de pensar na situação eu já ficava com frio na barriga (que felt sense chato!) Eu nunca havia palestrado para tanta gente. Menos ainda em inglês.
Mais PerguntasVivian Jaye
Na longa viagem de volta ao Brasil muitas perguntas me assaltaram em pleno voo sobre o Pacifico: “O queembodiment? Porque nas línguas latinas não existe uma palavra com a mesma conotação? Será que somos mais “embodados”por isso nem precisamos da palavra?” Atrelada a estas perguntas estava ainda a questão das diferenças culturais, das quais me dei conta pela primeira vez num treinamento em 1996, na Fazenda Jardim, quando fui assistente do Robert Schleip. Esta questão, presente agora de forma mais claracontundente apos a experiência japonesa, me fez enveredar por um caminho bem interessanteate divertido, o das boas maneiras nas diferentes culturas. Mas não era isso o que iria responder as minhas perguntas. E antes que respostas começassem a surgir, o que vi acontecer foram mais perguntas se enfileirando na entrada do meu perguntódromo:
Como começar a entender os povos do mundo? “Como começar a entender as escolas de integração estrutural” diferentes da nossa própria? Como começar a entender as pessoas da outra família? Como começar a entender um individuo? O que teria tudo isso a ver com o Rolfing? O que isso teria a ver com os treinamentos multiculturais? (e basta o professor ser de fora para o treinamento j a poder ser qualificado de multicultural)? O que isso tem a ver com o papel do tradutor?
Nadando em perguntas recordei Vivian Jaye, instrutora de Movement, muito dedicada ao crescimento do Rolfing no Brasil, que um dia me percebendo angustiada com o não-saber me disse: “As perguntas são mais importantes do que as repostas”. Levei todo esse tempo, uns 16 anos, para entender o que ela quis dizer…
Com o amigão no SPA Lapinha
De repente o tempo para escrever a apresentaçãopreparar o workshop pré-simpósio pareceram ter entrado numa secadoraencolheram terrivelmente. A angustia atacou.
Ai aquele amigo que todo mundo deseja, o que da a maior forca nas horas mais negras da vida, no meu caso o Alexandre, me tira de São Paulo, vai comigo ate a Lapinha, um SPA naturista no Paraná,lá cria as condições para eu poder produzir o texto da palestra. Com longasvigorosas caminhadas matinais em jejum, caminhadas noturnas não tão longas, mas de estômagos igualmente vazios, massagens que espremiam para fora do seu corpo o cansaçoo “por onde começar?dieta hipo-hipo-hipocalorica, a mente foi desanuviandoas madrugadas testemunharam uma intensa produção. Voltei para São Paulo com um texto consistente, ha dez dias da partida para os Estados Unidos.
O Escambo
A Daphne, designer gráficacliente muito querida, se interessa pelo tema da minha apresentaçãoquando me dou conta estou propondo um escambo para a Daphne: você faz o power point para mimeu lhe dou as 5 sessões desta rodada em troca. Fizemos uma seleção de fotos de gentes de diversas etnias, de muitos livros maravilhososo resultado do trabalho da Daphne me deixou mais feliz do que eu imaginava. Parece que no manual de instruções que veio com ela (e comigo) quando nasceu dizia: “funciona bem sob pressão
Os Ensaioso Workshop
E lá vou eu mais uma vez para os Estados Unidos. Primeiro visito minha filha Julie que estava terminando o MBA pela Chicago Booth Business School em Chicago. La, ha dias da apresentação começo a ensaiar… pânico! Saio para fazer umas comprinhas na Victoria Secret. Faz de conta queAno Novoeu posso desejar o que for desde que com roupas intimas novas. Não funciona! Gaguejome enrosco nas palavras apresentando a palestra para um publico paciente feito de pilhas de livros do mestrado em finançaseconomia ou para os impassíveis edifícios da cidade ao fundo. Meu genro Ibere me da uma forcamaterializa uma estratégia para mim: a minha fala em letras bem grandonas. Que sabe assim entra na minha cabeça. Leioreleio o material para representar bem 0 Brasila ABR. E vou para Denver, na casa da Heidi Massa, onde fico com LenaFernando. Por fora estou calma mas por dentro… A Lena que me conhece o suficiente me da chocolates, o Fernando me distrai ensinando ciênciasa Heidi me aconselha… a não repetir os mesmos erros que outros palestrantes cometeram: “não fique na frente dos slidesnão leia o slides”. Dou um bem sucedido (que alivio!) workshop de dois diastrabalho a relação com o outro a partir do corpo: muito exercício (a La Hubert Godard)pouca fala. E faço novos amigos, de algumas escolas de integração estrutural: Guild for Structural Integration, Hellerwork,KMY-Kinesis Myofascial Integration. Todos eles “normals”, nenhum comedor de criancinhastodos entendendo o que eu estava propondo. Como os rolfistas participantes do workshop.
Chega o dia
Estou escovando os dentes, ha duas horas da apresentação quando penso: não esta certa a maneira como vou apresentar esta palestra:
– “Leeeena! Mudei tudo! ”
– “Vichi Maria!”
Da entrada do auditório avisto o pódio que colocaram no centro, de onde eu falaria sozinha. Sorriopeco para o primeiro auxiliador que avisto para colocarem uma mesasete cadeiras. E peço permissão para meus novos amigos para chamá-los ao palco comigo: “Maso seu momento de brilhar sozinha La em cima” – dizem eles. E é o que faço. Agora, sustentada por uma estranha calma interna, sentindo a presença de muitas pessoas queridas, inclusive do meu terapeuta, subo ao palco, agradeço o convite para palestrardigo que como venho de uma cultura muito diferente, que valoriza mais o comunitário do que o individual, eu queria lhes proporcionar uma experiência a brasileira,que para isso eu chamaria algumas pessoas ao palco, para compartilhar daquele espaçodaquele tempo comigo, porque a minha palestra se trataria disto: de reconhecer as diferenças, honrá-lasintegrá-las. E chamei para junto de mim três pessoas do workshop,mais o Michael Murphyo Tom Wing. O Michael porque quando ele foi assistente de minha primeira instrutora de Rolfing (Gael Ohlgren) no equivalente da Unidade 2, segurou a minha ondanão me deixou desistir da formação (eu me desesperava porque não via nada,…)o Tom porque uma vez deu um workshop de três dias no Brasil que me abriu o olhara alma para a dimensão espiritual do Rolfing que ate então eram para mim “uma grande viagem de algumas pessoas”. E logo abaixo do palco, no canto direto da sala, estava a Lena, super atenta a minha falamonitorando os slides para mim. Impecável.
Revisitando Hubert Godard
Aos poucos, ao contrario da câmera escura de Leonardo da Vinci (1), fui “saindo de mimindo para a audiência”. Paradoxalmente fui ao mesmo tempo me ligando nas minhas sensações internas (na minha intercepção)notei que o que eu mais precisava naquele momento era encontrar a minha colunaabrir a pele dos meus pésmãos. Eu precisava estar dentro de mimfora de mim, com a audiência, ao mesmo tempo. E sabia, do que havia estudado com o Hubert Godard, que a maneira de relacionar este dois modos de ser era através da respiração. Naquele momento, mais especificamente com a expiração, com a minha expressividade, suportada inteiramente pelas minhas costas (ao que Hubert chama de “banking”),não com reto abdominal travado com os oblíquos externos numa vã tentativa de me proteger de algo ou de me agarrar a algo. É o background que faz a expressividade, se eu relaxo no background eu expiro, eu me expresso. Para expirar melhorimportante eu ter suporte da cabeça, mais pelo sistema vestibular do que pela visão. Para sair da ilusão da ótica (que eu sou um objeto olhando para outro objeto separado de mim)poder desenvolver uma visão haptica, uma visão quepalpatória. Haptos significa diferenciar: “estar com”, mas “não estar com”. Porque se eu quisesse crescer através da experiência de palestrar em inglês para uma audiência de umas 200 pessoas eu teria que fazer alguma coisa para mudar o meu jeito de estar no meu corpo para poder comunicar a minha mensagem. Eu teria que descobrir o que estava me impedindo de respirar, mais especificamente de expirar. Qual parte do meu corpo estava me impedindo de expirar? “Como eu estava” mantendo uma versão limitada de mim mesma? Ondecomo eu perdia volume? Por medo? Naquela situação, medo de representar mal os rolfistas do Brasila ABRmedo de atuar pateticamente. No fundo, no fundo, são os medos que bloqueiam a nossa respiração. Não! Lá em cima do palco resolvi que iria sair da câmera escuraque iria ver com outros olhos. Resolvi que iria mudar a minha percepção porque só então eu poderia mudar a percepção deles. O “fazer no não fazer?!
Confesso que La vivi momentos de medo de não saber… de não saber o que eu sabia, não saber me comunicar com a audiência, de não saber lidar com o “não saber”. Ate que me lembrei do desapegar-sepensei: “E se eu deixar ser o que puder ser? Imediatamente senti como minha pele, que parecia antes estar retraída foi se expandindo, como uma fronteira móvel. E tive a impressão que pouco depois o publico como um todo parecia estar também expandindo sua pele.
Thich Nhat Hanho Final
A palestra chegava ao fim comigo dizendo que o prefixo “trans” significava “ultrapassar, ir além de, transpor”que não podia ser igualado aos prefixos “multi” nem “inter”: estes prefixos denotam situações em que as pessoas se reúnem, fazem contato mas permanecem distintas. E o que me interessavaque eu estava propondo naquela palestra era algo que tinha mais a ver com o prefixo “trans”: transcendência para ir além, primeiro reconhecer as nossas diferençasentão ultrapassá-las, encontrando a unidade na nossa natureza humanaCO-CRIAR O FUTURO DA NOSSA PROFISSÃO.
E terminei pedindo a plateia que pegasse a folha de papel de arroz, alvinha, com texturatransparência muito interessantes, e… Comestíveis! E que chegaram ate mim vindas do Nordestedepois viajaram ate os Estados Unidos onde foram parar nas mãos deles. Pedi que olhassem para o seu papel de arroz enquanto eu leria um texto de 1988 do querido monge budista vietnamita Thich Nhat Hahn, adotando as arvores do texto original para o arroz deste papel.
“Quando olhamos para uma folha de papel (de arroz), a folha de papel de arrozparte da nossa percepção. Sua mente esta aquia minha também. Assim podemos dizer que tudo esta aqui com esta folha de papel. Você não pode apontar uma coisa sequer que não esteja aqui- o tempo, o espaço, a terra, a chuva, os minerais no solo, o brilho do sol, a nuvem, o rio, o calor. O homem que cortou a arvore (o arroz)a trouxe à serraria (ao moinho) para ser transformada em papel. E vemos que o trigo que tornou-seu pao de todos os dias…o pai do homem que plantoucolheu o arrozsua mãe também estão La. Tudo co-existe com esta folha de papel (de arroz)… você simplesmente não pode ficar sozinho. Você precisa inter-ser com todas as outras coisas. Esta folha de papel é por que todo o resto é”
Conclusão
Pensar, pesquisar, prepararapresentar esta palestra foi um processo intenso, um ritual de iniciação para mim, que só pode acontecer da forma que aconteceu porque todas as pessoas que mencionei ao longo deste artigo,todas as outras pessoas com quem convivocom quem já cruzei na minha jornada de vida, de um jeito ou de outro estiveram comigo neste processo. Assim como você que leu este relato que entrou para a minha historia. Muito obrigada!
Pós- conclusão
No mesmo dia da minha palestra, mais a tarde, o nosso Fernando (Bertolucci) arrasou numa apresentação sobre o Reposicionamento Muscular. Tanto que já lhe rendeu um convite para ensinar a técnica na California. Fim do Simpósio IASI 2010. Voltamos os dois bem alegrinhos para ‘casa’, com a sensação do dever (bem) cumprido. Alguém falou para o Fernando que “vocês brasileiros elevaram o nível deste Simpósio”.
E VIVA o Rolfing do Brasil! Queassim comoporque você faz parte dele também.
Notas
(1) Quando as imagens dos objetos iluminados penetram num compartimento escuro através de um pequeno orifíciose recebem sobre um papel branco situado a uma certa distância desse orifício, veem-se no papel os objetos invertidos com suas formascores próprias. (Leonardo da Vinci, in Cores Atlântico)
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