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Moro num local distante cerca de 30 km do centro da cidade de Florianópolis, em Santa Catarina. A ligação entre esses dois pontos se dá por uma rodovia denominada SC401. No sábado à noite que antecedeu os desmoronamentos à altura do km 11 dessa rodovia passei de carro pelo local. Chovia bastante; dos morros, as águas desciam como a formar pequenas cachoeiras. No trajeto, pude mais perceber do que ver com clareza, uma quantidade até então inimaginável de veículos em pane ao longo dos referidos 30 km. Parados nos acostamentos com os pisca-alertas acionados ou sendo empurrados pelos ocupantes, os veículos apresentavam avarias nas rodas, nos vidros dos parabrisas dianteiros ou se desgovernaramforam parar nas ribanceiras da estrada. Em alguns trechos a pista estava cheia de cascalhos, provenientes dos buracos que as rodas dos carros que passavam, batiam, aumentando o tamanho. Formaram-se verdadeiras crateras de até 2 metros de diâmetro por uns 30 centímetros de profundidade. Aquiacolá, sempre sob chuva forteincessante, ocupantes dos veículos, postados em pé ao longo dos acostamentos, faziam gestos com os dois braços para que se reduzisse a velocidade. Era impossível rodar a mais do que 30 km horários naquela noite. No centro da cidade muitos engavetamentos tinham acontecido. Ao lado dos carros batidos, pessoas encharcadas de água discutiam entre si ou falavam, veementes, em seus celulares. Acho que conseguimos chegar ali porque as rodas da picape em que estávamos são grandeslargas, concluí.

Mas tudo isso não era o resultado de apenas uma noite de chuva, “este é o 16° ?m de semana de mau tempo” comentou o frentista, enquanto abastecia o veículo “estamos há quatro meses sem sequer um domingo de sol!”.

Quer dizer, tudo indicava que algo excepcional estava para acontecer, desde os sinais mais óbvios no cotidiano, como calçadas empoçadas por dias seguidos, até os longos momentos de pesado silêncio que pairava de vez em quando no céu carregado de nuvens escuras, sobre o oceano, mais perceptível apenas pelos que lidam com o mar diariamente.

Armava-se a tragédia. Vivíamos todos uma longa fase de pré produção que não fora tratada com a atenção devida. Não é a primeira vez (e infelizmente talvez não tenha sido a última) que este estado, que tem santa até no nome, é alvo das intempéries. A mídia faladaescrita centra o foco no fato, as autoridades aproveitam para falar tudo o que pensammuito disso é puro despreparotoliceo povo choratenta entender o estado avassalador a que está subjugado.

A região em que moro vive do pequeno comérciodo turismo que, no verão, movimenta o setor hoteleiro. Por isso, à medida em que as temperaturas anunciam o fim do inverno, de um modo geral todos se preparam para o verão, iniciando obrasreformas durante a primavera. Quase dezembro, das providências tomadas muita coisa estava pronta, mas não para ser destruída em tão pouco tempo pelas águas.

“Foi algo que minha imaginação nunca conseguira produzir” disse um amigo, escritor: “um inferno líquido”. Não há como não concordar, foi isso mesmo o que se viu. Quando a onda é ruim, o surfista ensina, afundadeixa-a passar. Dessa vez não deu.

Em presença da desgraça, imediatamente as pessoas começam a solidarizar-se com os atingidos, oferecendo todo tipo de ajuda, materialafetiva. Abrem suas casas, recebem desabrigados, abrem suas gavetas, oferecem suas roupas, abrem suas despensas, oferecem alimentos. Logo um sentimento de comoção nacional toma conta de todosa ajuda chega de diversas partes do país. Abrigos são improvisados em associações, igrejas, escolas. Procura-se garantir o básico para a sobrevivência de todos.

Contudo, há algo menos visível que não depende’ da providência de ninguémque é bem mais difícil de ser compensado: a perda dos mortos, dos desaparecidos e, quem sabe o pior de tudo, o abalo da fé nas entidades religiosas. Com muita dificuldade de admitir isso lá no íntimo do ser, muitos sentem-se abandonados espiritualmente. A grande maioria tem uma visão criacionista do mundo, sabem-se filhos de Deus. Sempre rezaram tanto, sempre respeitaram os cânones clericais, nunca ?zeram mal a ninguém, nunca deixaram de cumprir suas obrigações familiares, portanto, como é que Deus/ Pai não viu isso? Como é que não os protegeu numa hora dessas? Mais do que a geladeira ou o fogão, mais do que as paredes que ruíram ou os tetos que afundaram, mais do que as prestações que sobraram a pagar de tudo o que foi comprado a créditojá desapareceu, o sentimento que advém é o de abandono, o de sentir-se sem a proteção de sua entidade religiosa criadoraguardadora. Em presença das reportagens, alguns dizem “faze o quê?” enquanto, olhando as câmeras, outros indagam “é, mai num tá bão?”

Não medem esforços físicos, atiram-se à reconstrução das casas, dos bairros, ã limpeza das vias públicas como se fosse apenas mais uma faxina a ser feita, das tantas que fazem durante suas vidas. Adultoscrianças, homensmulheres, jovensvelhos, sem exceção todos vão buscar dentro de si uma força insuspeitada, a de ainda existir, a de ter sobrevivido. Amontoam nas calçadas o que sobrou de seus pertences destruídos. O que ontem era de grande utilidade, hoje não passa de lixo…e vamos que vamos! “o difícil se torna fácil, quando não há alternativa” disse Don Wilson, o escritor que citei no início. Enquanto labutam, enfiados na lamaagarrados às suas pásenxadas, choram. Mesmo absortos na execução quase infinita de ações mecânicas que a situação exige, suas mentes parecem estar distantes, como se a capacidade de discernimento, o raciocínio, enfim, fora vencido pelo evento. Ficam passados, ultrapassados. Então me lembro, agora com clareza impressionante, da expressão gaúcha que eu sempre entendera só como jocosa, “os abobados da enchente”, provavelmente originada das cheias do Guaíba de 1941.

Nos dias em que as chuvas foram torrencialmente demoradas, eu invocava ensinamentos aprendidos em cursos de Rolfing que poderiam ajudar-me, no mínimo, a manter-me no eixo, a não perder a linha. Mas qual o quê! Evitava estados de tensão procurando relaxar a musculatura, como a fingir pra mim mesmo que os fatos, afinal, não eram tão atemorizantes. No entanto, as águas foram envolvendo-nos de tal forma que foi impossível não se sentir imobilizado. A umidade atravessou as paredes, manchas surgem por dentro dos aposentos. As telhas se mostraram ineficientes para as chuvas com ventogoteiras aparecem nos cômodos. O que fazer além de colocar baldes, panos, puxar a água com rodo, querer saber se está igual no vizinho. A TV perde a imagem, o telefone para de funcionar, a energia elétrica passa por fases de cortes demoradosretornos sem controle de voltagem. Inicia-se, assim, a experiência da imobilidade, pelo corte das comunicaçõespelo fato de não se poder arredar os pés de casa. Algo parecido com um congestionamento de dias, onde tem-se de pacientar, não se pode largar o veículoir-se embora a pé. As chuvas conferem uma unidade ao mundo exterior, que fica imenso se comparado ao nosso amedrontado universo interior, incluindo nossa moradia.

Nosso corpo vira nosso grande aliado quando decidimos arregaçar as mangascomeçar a arrastar os móveis para o ponto do cômodo onde não goteja, quando subimos em escadas para cobrir os livros com sacos de lixo improvisados, quando se vai pela casa toda desplugando aparelhos das tomadas, quando, enfim, entramos num verdadeiro azáfama de pequenos mas necessários afazeres domésticos visando proteger o que se tem. A noite chegaestá-se exausto. Deitado, fica-se a ouvir a chuva intensa lá forao ploc-pluc das goteiras cá dentro. “Isso é castigo!” vem ao pensamento. “Ninguém merece uma coisa dessas…” – sentia como se aquilo estivesse acontecendo comigo, que só comigo é que estava sendo ruim daquela forma. Adveio a sensação de injustiça diversas vezes, uma hora o síndico era o culpado, outra, era a mãe natureza, outra ainda, era Deus mesmo, olhava pela janelanão me conformava…tanta água caindo, tanta…e tão inutilmente…”chover no mar não é o mesmo que chover no molhado”? me perguntava. Queria estar noutro local, mas sabia que não devia abandonar tudo alifugir. Fugir pra onde? Piada! Lembro do filme (feito a partir do romance) As Chuvas de Ranchipur. Estradas bloqueadas pelas águas… navegação inviável pela ressaca marítima, vôos adiados. Balbucia-se um palavrão, inicialmente contra a chuva, depois contra raiostrovões e, em pouco tempo, está se imprecando contra tudotodos. Sozinhoa cabeça aos urros!

Vem à mente o desespero do Rei Lear, no 3° ato da tragédia shakespeareana, que vai enlouquecendo num descampado sob forte temporal. Essa memória de um outro alguém, ainda que um ser ficcional, funciona como uma chamada ã consciência: controla-te, controla-te, respira, respira fundo, expira lentamente, de forma a nem fazer balançar a luz da vela, única claridade do quarto.

Foram dias ininterruptos de chuvas muito fortes. Com o deságüe dos rios, o mar ficou marrom, barrento, feio. A terra, encharcada de água, desa?a os princípios mesmo da lei de gravidade que, por mais forte, puxa-a em lotes inteiros para baixo, como a aplainar montanhas. Trechos inteiros de mata são destruídos em meio ã terra molhadarevolvida, árvores enormes perdem suporte, tombam, expõem as raízes. Rochas imensas que sempre estiveram soterradas, aparecemrolam pelos declives dos morros, esmagando o que têm ã frente. Impotentesenvolvidos, assiste-se a essa esplendorosa demonstração das forças naturais. Surgem opiniões que nunca poderão ser checadas se reais: a causa é o desmatamento, a causa é o aquecimento global, a causa é o mau traçado da rodovia, é o descaso das autoridades administrativas, é a falta de açoreamento constante dos rios, a causa é isso, a causa é aquilo…blablabla, continuam os profetas de plantão.

À medida em que o mau tempo foi passando, as imagens da catástrofe rareando nos telejornaiso nível dos rios baixando, ficou tudo por fazer, claro. As autoridades   não falam em tragédia social mas em necessidade de uma política habitacional de ajuda aos desabrigados. Mas pra quando isso, hein? Só em Blumenau mais de 5.000 casas terão de ser construídas, em Itajaí o porto todo necessita ser açoreado. Ilhota, Palhoça, Gaspar, Tubarão, Florianópolis,  tantas cidades atingidas, tantas estradas interrompidas a serem recuperadas, barreiras de contenção a serem feitas e, das verbas prometidas, nem sombra. É o perigo da leptospirose, da dengue, de todas as formas de contaminação do meio ambiente. Esse tipo de devastação  ambiental compromete a pesca em geraltambém a extração de moluscoscrustáceos, fontes de economia da região. A população contabiliza seus mortos, suas perdas, seus desaparecidos.

Tenho, agora, pela frente, todo tipo de providência a ser tomado, tantas coisas de ordem pratica a ser resolvidas…e fico aqui nesse vareio, a lidar com meus pensamentos, minhas sensações, emoções… tentando entender-me com o que aconteceu: virei mais um abobado da enchente.[:]

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