Transcrição de capítulo do livro “Sem amarras”, da coleção Aplauso Perfil, sobre Celso Nunes. Autora Eliana Rocha, Editora Imprensa Oficial.
Florianópolis, Santa Catarina, 2007. O que o trouxe até este momento? A busca de si que ele vem empreendendo ha muito tempo. Do teatro ele conseguiu abdicar, mas o processo de autoconhecimento esta em curso ate boje. Se as condições fossem outras, ele poderia ter sido um bailarino, um músico, ou ter exercido alguma outra manifestação artística. Ele não se sente destinado a ser um diretor de teatro. Aliás, ele acha que ninguém é destinado a nada, a não ser ao autoconhecimento.
“Quem não empreendeu uma investigação de si mesmo, principalmente quem quer ser artista, não fez nada. Pode dominar um monte de técnicas, mas não enxergou por onde passa a questão da criação.”
Em geral vivemos de uma maneira egocêntrica, como se nada existisse antesdepois de nos. Mas Celso se percebe parte de um processo contínuo de aprendizagem:
“Existe em mim um aprendiz. Ser é o processo de desabrochar para a vida, de ter mais entendimento da vida, de tornar-se receptor de todo esse mundo de ofertas que estava ai antes de eu virque Vai continuar ai quando eu partir”.
Se não tivesse se tornado um diretor, se tivesse percorrido outros caminhos, ele tem a sensação de que tudo teria acontecido mais ou menos do mesmo jeito. Se não fosse o teatro, por outros caminhos ele seria o que échegaria aos mesmos lugares. O teatro foi apenas o veículo.
“Acho que, com essa identidade genética, eu tinha um processo a viver que poderia ter vivido em outras circunstancias. Alguns fatos se cumprem independentemente do roteiro.”
E o roteiro teve vários pontos de mutação. Primeiro, foi a experiência com Grotowski. Mudou não só o rumo do que ele viria a fazer no teatro, mas a direção de sua vida; transformou o suplicio de se sentir superexposto como ator na alegria da criação, tanto como diretor quanto em qualquer outra manifestação. Colocou o primeiro espelho a sua frenteo obrigou a ver que seu problema era ele mesmo. Foi uma revelação,ele percebeu que quando uma pessoa esta consigo mesma dificilmente ira se corromper em ações destrutivas.
Depois foi a tese de doutorado. Ele se afastou um pouco do trabalho para escreverpensar no seu processo de direção. Foi o segundo espelho colocado diante dele. Ele se viu de frente com o que tinha feito até ali.
A pesquisa empreendida como tese de doutorado partiu de uma interrogação que ocupava sua mente havia alguns anos. Durante uma conversa informal com vente de teatro o ator uca de Oliveira contou que pretendia produzir “Otelo” de Shakespeare. Enquanto ele falava de seu projeto Celso começou imaginar como seria dirigir aquele texto magistral. Assim que Juca terminou de falar, não se conteveperguntou:
– E quem Vai dirigir?
– Ninguém – foi a resposta do ator.
Talvez percebendo o mal-estar que se criou num dialogo tão sucinto entre um atorum diretor, Juca passou a explicar os motivos dessa decisão: sendo um ator muito experiente, conhecia o suficiente da arte da encenação; portanto, não via necessidade de se colocar sob a direção de outra pessoa, mesmo porque, naquela época atuavam muitos diretores recentemente saídos das escolas de teatro, que, segundo ele, na pratica se mostravam bastante fracos. A explicação terminou com uma pergunta:
– Por que vou me colocar sob a direção de alguém que conhece menos teatro do que eu?
O diálogo foi interrompido, mas a questão continuou ocupando um espaço nas reflexões do diretor. E Celso parou para pensar na função da direção, na sua eficácia, na sua necessidade. A tese é de certa forma resultado dessas reflexões. Com ela, ele pretendeu estabelecer um sistema de encenação que, independentemente do resultado artístico, possa servir de base para a abordagem de um texto sob a ótica do diretor.
Assim, tentando situar-se entre a reflexãoa ação, observando o que faz o diretor, com que motivaçãoatendendo a que objetivos, enquanto se processa sua encenação, ele chegou a algumas conclusões. Primeiro, que embora atue um pouco como autor( já que pode direcionar o sentido de uma fraseate mesmo suprimi-la), como ator (dado o poder que tem de interferir no trabalho do intérprete), como cenógrafo, como diretor musicalcomo figurinista, o diretoro único que não se faz representar materialmente em cena. Seria então, essa figura invisível, sem representatividade material em cena, um ser desnecessário ao processo de criação teatral?
“Então, se o diretor não é esse gigante debruçado em berço esplêndido, esse ser que sobre todostudo apóia seus membros, o que ele é? Onde ele esta no processo teatral, já que ele é o impalpável, o invisível, o inaudível?
Por outro lado,ainda refletindo sobre o mesmo enfoque, não poderíamos chegar a conclusão de que, se todos os colaboradores que integram o espetáculo _ o cenógrafo, o figurinista, o iluminador -, enfim, se todos cumprirem integralmente suas funções, a função do diretor torna-se desnecessária?
A hipótese é a de que o diretor, pela especificidade de sua ação, tenha uma função mais nobre que essa a cumprir dentro do espetáculo. Ao longo do meu trabalho como encenador, minhas pesquisas de Campo conduziram-me a constatar que o fato de o diretor não se encontrar materialmente representado na cena absolutamente não significa que ele esteja ausente delta,que, mesmo que todos os outros setores componentes da ação dramática cumpram suas funções na integra, ainda assim o diretor será a figura-chave para obtenção da unidade artísticaespiritual que toda boa montagem deve possuir”.
Figura-chave, sim, mas não absoluta. Ao longo de anos de experiência, ele aprendeu que, Sendo o teatro arte coletiva, é melhor programar, saber o que quer, delegaresperar uma resposta criativa do que impor uma visão limitadora. Mas ha quem o considere autoritário. Ele tem um lado incisivo, um modo rascante de ser, que algumas vezes deixa as pessoas melindradas. Aprendeu a observar e, quase sempre, dá muita atenção as pessoas, em especial aos atores com quem trabalha. Mas, por outro lado, devido ao seu temperamentoa sua capacidade de liderança inata, muitas vezes passa por cima da vontade de outra pessoa para impor sua vontade.
“Às vezes eu não consigo evitar. Eu tenho um objetivoesse objetivo me leva,ai, na avaliação das pessoas, parece que eu passo como um trator por cima de alguns assuntos. Em momentos em que me sinto cumprindo um objetivo, às vezes estou magoando as pessoas. E não percebo, porque minha intenção não é absolutamente ofender ou magoar. E uma falha minha. Acho que me falta uma percepção maior do efeito possível de minhas ações sobre as pessoas.”
Contraditório isso, em alguém que tem uma enorme capacidade de observação do outrodo mundo que o cercaO inspira, qualidade que ele mesmo considera fundamental num diretor.
“Só um diretor de posse de seu potencial energético, centrado, plenoem paz consigo mesmo estará apto a, sem esforço, observar o que se passa a sua Volta. Como posso, espontaneamente, interessar-me pelo que esta fora a ponto de tentar alterá-lo se me encontro excessivamente enredado no meu mundo interiorsubjetivo?”
Mas, por outro lado, se observadoabsorvido da perspectiva correta, o mundo subjetivo é a fonte maior de criação. Quando entramos no processo de criar, o subconsciente emite constantes sinais para o consciente, na forma de sonhos ou visões que podemdevem ser aproveitados na elaboração do espetáculo. Afinal, como disse Jung, “O inconsciente não pode ser ignorado; ele é natural, ilimitadopoderoso como as estrelas”.
Como diretor, Celso espera do elenco pelo menos o mesmo entusiasmo com que ele se entrega ao trabalho, um entusiasmo que se traduz, basicamente, no cumprimento de quatro “dades”: assiduidade, pontualidade, cordialidadecriatividade. Enquanto dura o processo de ensaios, ele estará sempre ali, para cobrar, incentivar, corrigir, propor. Mas, quando chega o momento em que o pano se abre para o publico, ele sabe que é hora de se afastar para a sombra da platéiase transformar num espectador.
“Na fase final de uma montagem, o bom andamento dos ensaios depende muito da qualidade do trabalho da equipe de apoio. Durante horas, ela se refugia nos cantos do palco, no escuro das coxias, no espaço exíguo das cabines de operações técnicas, nas salas de costura ou nos porões do teatro, atenta para agir quando for solicitada. São como aqueles ratinhos amorosos do desenho animado que preparam a roupa de festa da Gata Borralheira para ela poder ir ao grande baile dançar com seu Príncipe Encantadodepois se enfiam, quietos, nas tocas do palácio, a espreitafelizes de terem podido trabalhar para a felicidade dela. Não haverá um pouco disso, também, na natureza essencial do diretor? Não é ele também um ser que prepara festa para os outros se divertirem?
Terminados os ensaios, ele, que durante semanassemanas foi o termômetro do que se passava em cena, funcionando como um sensor da qualidade artística da montagem, pode agora instalar-se confortavelmente numa poltrona da saladispor-se a ser presa do fenômeno. Se a onda não passar sobre ele sem atingi-lo, mas, ao contrario, ele for arrebatado pela energiabeleza que emanam da cena, pode se dar o privilégio de retribuir a todos com o primeiro aplauso”.
Quando o processo começou, a energia viva de um grupo de artistas precisava encontrar um canal para chegar ao publico. Coube ao diretor encontrar esses canaisentão,
“como água, a energia encontrara seus percursosira ate a comunidade de espectadores sedentos, tentando saciá-los. Saciados, eles somarão suas energias à dos artistastodos se beneficiarão com a experiência. Formar-se-ão campos magnéticos entre as duas realidades enquanto elas cumprem, reciprocamente, as funções de receptorasemissoras. Tudo será vibração no ar. E o teatro, presente”.
Mas um dia, apesar de todo o prazer da criação, de todo o sucessoreconhecimento, ele decidiu se afastar do teatrose mudar para uma cidade onde ninguém o conhecia. Como ele chegou a essa mudança radical?
Ao longo dos anos, outros espelhos foram sendo colocados a sua frente por uma serie de acontecimentos que o abalaramo obrigaram a encararadministrar o que sobrou. Começou com a morte da mãe. Como ela tinha lhe mostrado a flor desabrochando, ele não sabia como ia ser a vida sem ela. Depois, um acidente estúpido levou João Batista, quase um filho, que ocupara o lugar de Gabriel depois que ele saira de casa. Depois, o pai enfartoumorreu. Chegou um momento em que, na enorme casa no Alto da Lapa em que ele vivia com a filha Nina, havia mais ausências do que presenças. Terminado um roteiro, concluída uma ação, era preciso iniciar uma outra história.
“Não adianta correr atrás do que se perdeu. Perdido esta. E nada garante que, indo atrás, vou encontrar o mesmo resultado. O diretor que fui não é mais o mesmo. O potencial pode are ser maior, mas mudou sua relação com o mundocom a arte. Por que isso? Para que? Para chegar aonde?”
Num determinado momento, ele percebeu claramente que, ao longo da vida, vinha preenchendo cargos ou exercendo funções de liderança. Ainda muito jovem, já era chefe do departamento do pessoal da empresa de transportes onde trabalhava e, por isso, tinha as pessoas sob seu comando. Depois, no trabalho acadêmico, tornou-se professorchegou a chefe de departamento de uma das universidades mais importantes do pais. No teatro, acabou se tornando diretor.
“Eu pensei: Tenho que interromper esse processofazer com que as coisas aconteçam em mim, em vez de fazê-las acontecer fora de mini. Detenção de poder traz infelicidade. Vim para Florianópolis no anonimato. Não vim para cá faturar o sucesso de São Paulo ou do Rio. Fiquei cinco anos sem ninguém saber que eu estava aquio que eu era. Aqui só tenho amizades entre as pessoas do povo. Essa é a minha trajetória. Se eu não abrir mão de poder, não consigo fazer esse trajeto em direção à simplicidade. Os postos de poder sempre te afastam da maioria das pessoas, porque a maioria das pessoas não esta no poder. Então, fui abrindo mão de postos que me davam poder. Isso não tem nada a ver com carreira teatral, isso tem a ver com uma postura minha perante a vida.”
Ainda assim, quem esta de fora vê que, por ser diferente, por ser artista, por pertencer à outra classe social, ele ainda tem poder sobre essas pessoas amigas do povo. As pessoas se colocam em suas mãos, confiam, contam-lhe historias. Para um diretor de teatro, isso é muito bom, porque os atores lhe trazem espontaneamente elementos que podem municiar sua posição de diretorlevá-los a obter o melhor de uma interpretação. li essa confiançatambém um elemento facilitador em outra de suas atividades, a que ele exerce com prioridade no presente: a de rolfista.
O Rolfing (um processo de reestruturação corporal que leva o nome de sua idealizadora, Ida Rolf) entrou na sua vida como parte do processo de autoconhecimento. De certa forma, o contato com a obra de Wilhelm Reich, o trabalho prático com Grotowski, o estudo de algumas teorias de Peter Brook tinham preparação o terreno onde iria germinar seu interesse por terapias corporais.
O início do processo foi ha muitos anos, precisamente em 1988. Era uma festa de aniversario da atriz Cristiane Torloni em São Paulo. Como quase sempre acontece nas reuniões sociais, cujo clima não favorece o que ele chama de “verdadeira presença”, ele demonstrava uma alegria que no fundo não sentia completamente. Ainda estava muito machucado pelos lutos recentes. Foi então que Cristiane lhe apontou um homem: “Esta vendo aquele cara ali? um verdadeiro bruxo”. E lhe contou que naquela dia, ao vir do Rio de Janeiro, perdera a voz por causa do ar condicionado do aviãoquase não conseguira fazer o espetáculo. Foi então que a produtora a levara ate aquele homem, que, em quarenta minutos, a fizera recuperar a voz.
Celso se interessou por conhecer seu método de trabalho. Afinal, era muito comum os atores terem problemas vocais antes da estréia. Quem sabe poderia aprender com ele uma forma de ajudar seus atores? Aproximou-se do desconhecido, que disse chamar-se Carlos Mollicatrabalhar com bionergia. Celso lhe falou de seu interesse pela obra de Reichde seu desejo de conhecer o seu trabalho. Mollica lhe deu um telefone. Durante cerca de um ano, não conseguiram se encontrar. Até que, finalmente, Mollica o convidou a ir a seu apartamento para uma conversa.
Assim que chegou, Mollica lhe perguntou:
– Você acredita em coincidências?
– Acho que é uma maneira de explicar uma sincronia entre fatos – ele respondeu.
O terapeuta pediu licençasaiu da sala. Demorou alguns minutos, durante os quais Celso imaginou estar sendo observado. Sabendo que ele trabalhava com terapia corporal, achou que deveria ter alguma maneira de observar os pacientes. Talvez houvesse um falso espelho, ou um microfone oculto num lustre. Era uma situação muito desconfortável para ele, que estava acostumado a posição de observador. Pouco depois, Mollica Voltou, trazendo um rolo de papel amarrado com uma fitinha.
– Você sabe o que é isso?
Celso olhou aquele rolo de papel amarelado pelo temposentiu que aquela imagem estava escondida em algum canto da memória. O terapeuta lhe estendeu o rolo, que ele pegou com as pontas dos dedos para evitar a poeira que o cobria. Ao desatar o pequeno laço, sentiu um tremor incrível. Era um cartaz do espetáculo “Escuta Zé” baseado na obra de Reich, que Celso dirigira onze anos antes. Ao ver aquele cartaz, Celso sentiu desaparecer por completo o desconforto que sentira enquanto esperavafoi invadido por um sentimento de irmandade, de gratidão.
– lncrível você ainda ter isto!
– Acho que você esta aqui para receber de volta algo que esse espetáculo me deu onze anos atrás.
Então, explicou que a peca mudara o Curso de sua vida. Era um empresárionada dava certo nos negócios. Suas varias tentativas de sociedade tinham terminado com uma sensação de perdade ter sido enganado. Vendo a peça, percebeu o erro em que vivia, que não tinha nascido para ser um empresárioque, como tal, o prazer não ocupava um espaço significativo em sua vida. No momento em que abriu espaço para o prazer em sua vida, mudou completamente e, consequentemente, tudo mudou. Sem formação acadêmica, era um autodidata, que utilizava varias praticasteorias para ajudar as pessoas.
Para Celso, foi incrível avaliar o alcance de um espetáculo. Um trabalho seu tinha gerado uma mudança no destino de alguém. Por isso, até hoje tem por Mollica uma enorme gratidão, embora ele seja uma figura controversa no mundo terapêutico.
Fizeram um plano de trabalho para oito encontros, uma vez por semana durante dois meses, mas o processo correu tio hem que acabou se estendendo por quase um ano.
“Foram sessões extraordinárias, iluminadas… encontros incríveis com o mito materno, com o mito paterno… revelações inacreditáveis. Minha percepção se alterava. Sem nenhum esforço, adquiri uma maneira de olharver através das coisas. O transito parecia ter tirado a roupa. Eu olhava um ônibusnão via mais a imagem que conhecia; via o que compunha o ônibus. Todas aquelas pessoas lidando com aquele emaranhado de engrenagensconduzindo tudo aquilo pelos labirintos da cidade. Eu enxergava o absurdo da situaçãome via no meio de tudo aquilo. Eu estava abismado com o processo: aos poucos, a tristeza foi cedendo lugar à tranqüilidade, à confiança.”
Após aqueles meses, Mollica resolveu parar o tratamento. Disse que já tinham chegado a um bom limite. Como Celso demonstrou desejo de aprender a praticar, foi aconselhado a procurar alguém mais credenciado ao ensino. Se quisesse aprender mais sobre processos corporais, devia procurar um rolfista.
Celso ouviu a palavraa arquivou em algum canto do cérebro. Não procurou ninguém imediatamente. Estava se sentindo muito bem, voltou a aceitar convites para dirigir. Durante o período de luto, perdera até a oportunidade de realizar um sonho: dirigir um longa-metragem.
Meses depois, na abertura da Bienal de São Paulo, num coquetel oferecido pelo Consulado Americano, outra amiga, Jane (sempre as mulheres, que, como anjos, o pegam pela mãolhe indicam um caminho), o puxou pelo braço:
– Quero te apresentar um bruxo. – Ele se lembrou de ter ouvido aquela frase dois anos antes de Cristiane. – Este é o Pedro. Ele é rolfista.
– Que incrível, alguém me aconselhou a procurar um rolfista. Queria aprender alguma coisa sobre trabalhos corporais com a bionergiame disseram que os rol?stas ensinam.
Pedro Prado explicou que havia uma Associação Brasileira de Ro1fingque lá eram oferecidos cursos. Ficou com o telefone do Celso para procurá-lonão lhe deu o seu. De novo, foram meses sem contato. Até que um dia uma secretaria da associação ligou convidando-o para fazer um curso na condição de modelo, ou seja, ele passaria pelas sessões de Rol?ng como parte do treinamento dos alunos. O curso seria ministrado durante duas semanas numa fazenda os arredores de Atibaia. Celso precisou consultar o Departamento de Teatro da Unicamp, porque o convite alteraria sua rotina de aulas. Acertados os detalhes, ele partiu para a fazenda,assim, “de bruxo em bruxo”, como ele diz, acabou mergulhando no Rol?ng.
Os cursos eram oferecidos em inglês, mas como Celso falava francês, foi designado a servir de modelo para uma francesa. Mais uma vez, ele passou por uma experiência extraordinária. Na nona sessão, no processo de fechamento do trabalho, estava sentado num banquinho, o tronco curvado para a frente, os olhos semicerrados, enquanto a terapeuta francesa trabalhava em suas costas. Ele percebeu que dois outros rolfistas se aproximaram para ajudar no trabalho, até que, num determinado momento da execução, sentiu se desprender do corpo. Não tinha mais peso. A posição com o tronco tombado para a frente não o incomodava mais. Foi uma sensação de puro prazer, de pura luz. Mais tarde, com seus estudos de Rolfing, ele entendeu que tinha entrado em harmonia c‹›m a gravidade.
“Era um fenômeno físico. Não tinha nada de místico. No momento em que consegui esse equilíbrio com a gravidade, senti uma leveza enorme. Minha percepção entrou numa zona branca de luz. Eu ria sem parar, pelo puro prazer do que estava sentindo. Mas, à medida que isso acontecia, eu mantinha a lucidez sobre o que acontecia na sala. Percebia que estava dentro de um processo,que esse processo era importante para todos, não só para mim. Eu estava alerta, mas num estado alterado de consciência, num estado de exaltação perceptiva. Eu estava em dois planos, não só no plano onde as coisas aconteciam, mas num segundo plano que só pertencia a mim, porque só eu ‹› experimentava. Foi uma revelação inacreditável. Acho que esse estado é semelhante a certos momentos do ator, quando esta dentro do universo do personagem, mas, ao mesmo tempo, em contato com a platéia. Ele está sempre em dois estados de ser, mas isso não cria nenhuma divisão, nenhuma dicotomia, nenhuma esquizofrenia. Ao contrario, cria uma enorme união. Eu percebi issosenti que estava diante de uma missão. Eu tinha que aprenderensinar esse caminho para quem quiser chegar a ele. Não que eu me julgue um escolhido, nada disso. Qualquer pessoa pode chegar. Depende de trabalho pessoal, depende de concentração, depende principalmente de querer.”
E foi assim que (Celso percorreu todos os estágios do aprendizado do Rolfing, iniciados em 1989concluídos em 1996, com o certificado de praticante. Apesar desses sete anos de formação, ele explica que no Rolfing a formação é continuanão se esgota com a obtenção de determinado grau. Para ele, é um trabalho que vale muito a penacujo resultado não é quantitativo, mas qualitativo,no qual o feedback o alimenta durante muito tempo. E diferente do teatro, no qual a quantidade pesa bastantea falta de publicodevastadora numa temporada. No Rolfing, o resultado obtido por uma única pessoa que seja já significa muitotraz muito prazer. Mas, de certa forma, tem certas afinidades com a natureza atávica do teatro.
Celso acredita que trabalhar com alguém em Rolfingmuito parecido com um encontro com um ator. Lembrando que a paisagem puxa o personagem, procura trabalhar com a pessoa para que ela perceba a sua paisagem, seja uma paisagem de excesso de trabalhoestresse. Preparar um ator para viver um personagem de Shakespeare no contexto desconhecido do período elizabetano não é muito diferente de trabalhar com uma moca que, embora seja médica, por exemplo, ainda não percebeu que a perna dói porque ela esta caminhando por uma estrada dura desde os nove anos de idade, quando o pai a abandonou.
“É maravilhoso,não depende de bilheteria. É um exercício parecido com o teatroque, ao mesmo tempo, nos leva a outro tipo de felicidade, que é a possibilidade de ajudar alguém a melhorar, físicamentalmente.”
Esse processo que contém em si a possibilidade da cura tem sido objeto de suas reflexõestalvez venha a ser tema de uma investigação acadêmica visando a livre docência. Mas isso será num próximo momento.[:][:pb]De EspelhosMudanças[:]
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