Associação Brasileira de Rolfing

Rolfing Brasil – Ano V – Nº 13 – Março de 2004

Volume: Ano V Número 13 - Março de 2004

António Damásio é um brilhante cientista pensador contemporâneo. Trabalha na Universidade de Iowa, nos Estados Unidos. Suas pesquisas têm inspirado muitas outras nas mais diversas áreas. Neurologista,  investiga de que maneira nosso cérebro toma conhecimento do mundo como nosso organismo se organiza dentro das fronteiras do corpo.

Nos livros O Mistério da Consciência O Erro de Descartes (ambos da Companhia das Letras), Damásio nos oferece uma visão integrada do ser humano, que desafia os dualismos tradicionais do pensamento ocidental: mentecorpo, razãoemoção, biologiacultura. Investiga as relações entre menteconsciência utilizando-se das mais recentes descobertas da neurobiologia.

Algumas de suas afirmações são muito inspiradoras para nós, rolfistas, que diariamente nos deparamos com questões de transformação estrutural diretamente relacionadas com alterações de consciência. Este primeiro artigo faz uma breve compilação introdutória de alguns de seus pensamentos.

 

UM PROJETO DE VIDA

A organização de um corpo permanece, em grande medida, inalterada ao longo de todo o desenvolvimento da vida. Os órgãos sistemas fundamentais são os mesmos durante toda a vida, apesar das alterações de forma tamanho.

Espantoso, para Damásio, é descobrir que essa estabilidade é continuamente reconstruída no âmbito das célulasmoléculas. Ciclos de nascimentomorte repetem-se muitas vezes durante nossa existência: algumas células do corpo sobrevivem apenas uma semana, a maioria não mais de um ano.

Nenhum componente permanece o mesmo por muito tempo. As célulasos tecidos que hoje constituem nosso corpo não são os mesmos que possuíamos naquela foto de dois anos atrás.

Embora os tijolos da construção do nosso organismo sejam regularmente substituídos, as linhas arquitetônicas são mantidas. O que permanece é o projeto de construção da estrutura de nosso organismoas características estabelecidas para a operação de suas partes. Algo como o espírito da formao espírito da função.

 

AS IMAGENS DE DAMÁSIO

Imagens, para Damásio, são estruturas construídas com os sinais sensoriaissômato-sensitivos. Sinais sensoriais são provenientes de visão, olfato, audição, paladar. Sinais sômato-sensitivos incluem várias formas de percepção: tato, temperatura, emoção, sistemas muscular, visceral, vestibular, sinalizando aspectos do estado do corpo.

Essas imagens não são, portanto, representações de caráter exclusivamente visual ou estático, como a palavra etimologicamente poderia nos sugerir.

Pensamento seria uma palavra aceitável para definir o fluxo contínuo dessas imagens,  que pode acontecer de maneira ordenada ou não, rápida ou lentamente, de maneira convergente, divergente ou sobreposta.

 

COMO CONSTRUÍMOS IMAGENS?

As imagens são construídas quando mobilizamos objetos de fora do cérebro em direção ao seu interiorquando reconstruímos objetos a partir da memóriada reflexão. A tarefa de produzir imagens nunca cessa,até mesmo enquanto dormimos produzimos imagens nos nossos sonhos.

Não há mistério na questão da proveniência das imagens: elas provêm do cérebro, originam-se de padrões neurais, formados num circuito de neurônios. A questão que a ciência ainda não desvendou é como um padrão neural se torna uma imagem. É por este motivo que Damásio mantém dois níveis de descrição, um para menteoutro para cérebro. Sem sugerir que existam substâncias separadas, uma mental, outra biológica, Damásio reconhece a mente como um nível superior de processo biológico, que merece sua própria descrição, ao mesmo tempo que descreve eventos neurais como parte do esforço para compreender como esses eventos contribuem para a criação da mente.

 

AS REPRESENTAÇÕES

Representações são sinônimos de imagens mentais ou padrão neural. O primeiro problema com este termo é que remete à metáfora inadequada do cérebro como computador. Outro problema é a implicação de que, de algum modo, a imagem mental representa com algum grau de fidelidade o objeto ao qual a representação se refere. As imagens que vemos não são cópia do objeto lá fora. Estas imagens que vemos são baseadas em mudanças que ocorreram no nosso organismo quando a estrutura física do objeto interagiu com o nosso corpo. Todos os mecanismos sinalizadores – pele, músculos, retina, etc. – ajudam a construir padrões neurais que mapeiam a interação do organismo com o objeto. A construção destes padrões baseia-se na seleção momentânea de neurônioscircuitos mobilizados pela interação.

 

O MEIO INTERNO

Um organismo simples formado de uma única célula, uma ameba, por exemplo, não apenas está vivo mas se empenha em continuar vivo. Sendo uma criatura sem cérebrosem mente, a ameba não sabe sobre as intenções de seu próprio organismo assim como nós sabemos sobre nossas intenções equivalentes. Porém, ainda assim, a criaturinha consegue manter em equilíbrio a composição química de seu meio interno, enquanto à sua volta, no ambiente externo a ela, pode estar havendo uma tremenda comoção.

O impulso involuntárioinconsciente para continuar vivo revela-se no interior de uma simples célula em uma operação complexa para que se “sinta” o estado da composição química no meio internoque exige um “conhecimento inconsciente” do que fazer quando essa impressão indica falta ou excesso de certo ingrediente num dado momento.

Portanto, é necessário algo que não difere da percepção para que os desequilíbrios possam ser sentidos, algo não diferente de uma memória implícita, na forma de disposições de ação, a fim de conservar o know-how técnico,algo semelhante a uma habilidade, para executar uma ação preventiva ou corretiva. Parece uma descrição de funções do cérebro, não? E na ameba não existe sistema nervoso ou cérebro.

A vidao ímpeto de viver nos limites da fronteira que circunscreve um organismo precedem o surgimento de sistemas nervosos ou de cérebros, que vão permitir que o ímpeto da vida seja regulado com grande eficáciaconscientemente.

Assim como ciclos de vidamorte reconstroem o organismosuas partes em conformidade com um plano, a cada momento o cérebro reconstrói o sentido do self. O self não é esculpido em pedra, imutável. Nosso sentido de self é um estado do organismo, o resultado de certos componentes operandointeragindo de certa maneira, dentro de certos parâmetros. É uma outra construção, que tem como conseqüência a representação mental de um ser vivo individual.

Damásio faz uma distinção entre “sentir”“saber que sentimos”. Nas suas palavras, “em determinada situação, com frequência nos damos conta, de repente, de que estamos ansiosos ou inquietos, satisfeitos ou descontraídos,é evidente que o estado de sentimento específico do qual tomamos conhecimento nesse instante não começou no momento em que foi conhecido,sim algum tempo antes. Nem o estado de sentimento nem a emoção que conduziu a ele haviam se manifestado “na consciência”,mesmo assim estavam ocorrendo como processos biológicos.” Damásio separa três estágios de processamento do continuum do sentir: um estado de emoção; um estado de sentimento;um estado de sentimento tornado consciente. Ele introduz a noção de consciência como elemento fundamental para que os sentimentos influenciem o indivíduo que os tem, afirmando que a emoçãoa consciência relacionam-se à sobrevivência do indivíduloestão alicerçadas na representação do corpo.

Recentemente, o neuropsiquiatra francês David Servan-Schreiber lançou o livro de medicina integral “A Nova Medicina das Emoções – o Estresse, a Ansiedade a Depressão sem Psicanálise nem Medicamentos” (Sá Editora), inspirado nas teorias de Damásio, sugerindo métodos naturais para combater nossos males modernos.

Corpos Mutantes

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