Estabilização do Core, Coordenação do Core

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Pages: 7-15
Year: 2004
Associação Brasileira de Rolfing

Rolfing Brasil ANo V Nº 14 – Julho 2004

Volume: Ano V - Número 14 - Julho de 2004

SINOPSE

Esse texto introduz os conceitos envolvidos na estabilização da coluna sob duas perspectivas: uma, a pesquisa científicaa outra, uma estrutura teóricaexperimental para o entendimento do movimento baseada nos muitos anos de estudos da autora com Hubert Godard. A importância da estabilização da coluna é reconhecida há séculos por diversas culturas. Métodos de pesquisa modernos têm a disposição informações através da eletromiografia. Os aspectos mecânicosneurológicos são descritos. A estabilização da coluna envolve uma co-contração do multifidiodo transverso do abdomeparece ser uma abordagem eficaz para resolver dores lombares . A perspectiva de movimento vivido, baseada no trabalho de Godard ? Rolfista, bailarinoeducador do movimento ? salienta o envolvimento dos diafragmas na estabilização do core,sugere uma abordagem dinâmica do conceito de ?core.? Ao invés de um centro de acumulação, ele é concebido como um centro de circulação.

A autora está mais uma vez agradecidaem débito com Hubert Godard pela sua capacidade de respeitarsintetizar as contribuições da ciênciaa sabedoria da experiência.

PERSPECTIVA HISTÓRICA

Nos últimos cinco anos, o conceito de estabilização espinhal segmentar recebeu considerável atenção da pesquisa científica (1). Algumas vezes conhecido como estabilizador do ?core?, esta abordagem enfoca o papel dos músculos abdominais na reabilitaçãoprevenção de dores lombares. Embora isso pareça uma descoberta recente no mundo ocidental, a importância deste movimento básico de estabilização tem sido reconhecida através da históriaem muitas culturas.

Na prática da yoga os estudantes aprendem a aplicar a ?bandha? para selar a energia unificada da inspiraçãoda expiração. Esses movimentos sutis com freqüência precedem a prática de uma posição específica ou asana. A bandha ?uddiyana? é descrita como: ?a barriga acimaabaixo do umbigo deveria ser levada ou pressionada para trás na direção da coluna.? Ou, mais misteriosamente: ?uddiyana é assim chamada por causa do grande pássaro, Prana, atado a ela, voa sem se cansar.? O texto é de 1915, mas é claro que a posição é de muitos séculos atrás (figuras 12).

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A bandha é descrita como tendo o potencial de trazer de volta juventudevigor,o autor nos assegura que ?a pessoa pode dominar a morte se praticar isso por seis meses.? (2)

No mundo das artes marciais, na tradição chinesa, o ?tantien? baixo é achado nesta mesma área, mais ou menos cinco centímetros abaixo do umbigo. B. K. Frantzis o descreve assim; ?O tantien é a única porta, a mais importante no que concerne à saúde física. Localizado aproximadamente no centro do corpo, todas as linhas relacionadas à saúde físicabem estar conectam-se ali.? (3) Assim como com a bandha, o movimento de pressionar essa área da barriga para trás para suavizar as costas, é a chave de todos os movimentos do Tai Chi.

A mesma idéia é visível no trabalho de Bess Mesendieck, que é considerada como tendo influenciado Ida Rolf, assim como Martha Graham, entre outros. Ela descreve, por exemplo, ?O exercício de inclinar o tronco redondo para frente? (figura 3) num texto de 1937.

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?Devagar pressione para dentro o abdome contraindo a seção mais baixa do músculo abdominal, começando no ponto mais baixo da região abaixo do umbigo?. (4)

Mais familiar para nós, hoje em dia, é o trabalho de Joseph Pilates, contemporâneocompatriota de Mesendieck. A expressão de Pilates para essa área é ?casa do poder?, também chamada de ?a cintura de força?. (5,6) Através dos tempos o movimento que traz o umbigo na direção da coluna tem sido reconhecido como suporte essencial para a boa coordenaçãosaúde.

A investigação moderna desse movimento apareceu em resposta a uma patologia, especificamente o problema de dor lombar. Com a ajuda da eletromiografia, é possível descrever mais precisamente sobre o que acontece no movimento. O entendimento corrente é que o movimento de levar o umbigo na direção da coluna envolve uma contração do multifídiodo transverso do abdome, especificamente na porção abaixo do umbigo.(figura 4; figura 5) (7; 8)

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A próxima parte desse trabalho examinará a contribuição da pesquisa moderna para o entendimento desse movimento. Em seguida, numa tentativa de ampliar nossa perspectiva, vamos nos dirigir ao mundo do movimento como o vivenciamos..

MECÂNICA DA ESTABILIZAÇÃO DA COLUNA ? O QUE É ESTABILIZAÇÃO?

É comumente aceito que o que faz uma coluna ?ruim? é algum tipo de instabilidade ou desequilíbrio. Abordagens padrão para reabilitação da coluna envolvem a mobilização das articulaçõesfortalecimento muscular. Geralmente isso toma a forma de manipulação passiva das articulações com exercícios combinados como abdominais, ou extensão lombar como no sistema Mckenzie.

Em 1992, Panjabi propôs um modelo que introduziu um refinamento no entendimento de estabilização. Ao invés de olhar a articulação como ossosligamentos, Panjabi argumentou que o envolvimento muscularo controle neurológico teriam um papel importante na estabilidade articular.(9) A influência mais importante dos ligamentos aparece na amplitude final do movimento da articulação. Na amplitude média da articulação, o que Panjabi chama de zona neutra, a ação dos músculos é necessária para manter a estabilidade da articulação (figura 6).

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O modelo de Panjabi sugere que esses três aspectos ? osteoligamentar, muscularneurológico ? têm que trabalhar juntos. Entretanto, para explorá-los aqui, temos que olhar um de cada vez. Vamos falar primeiro do aspecto mecânicoentão explorar mais profundamente o papel do sistema nervoso.

O SISTEMA DE SUPORTE PROFUNDO

Estudos sobre um joelho saudável mostram que em movimento alguns músculos controlamdão suporte a posição da articulação, enquanto outros movem a articulação.(10) Embora os músculos tenham papéis diferentes em movimentos diferentes, através da eletromiografia foi possível identificar alguns músculos como primários na função de suporte. Por exemplo no joelho, o vasto medial, que é habitualmente considerado um extensor, funciona primariamente para controlardar suporte a patela durante o movimento. (11)

O comprimento das fibras dos estabilizadores não muda muito durante a duração de um movimento. Ao invés disso elas permanecem consistentemente curtas para segurar a articulação na sua zona neutra (antes do limite final onde os ligamentos são envolvidos), para ajudar a articulação a manter a sua integridade enquanto manuseamos pesos ou fazemos movimentos mais amplos.

MÚSCULOS GLOBAIS E LOCAIS

Estabilização, nesse sentido de suporte profundo, é primeiramente o papel do que Bergmark chama de músculos ?locais?, diferentes de músculos ?globais? (12). Músculos locais são habitualmente mais profundosmais próximos da articulação do que os músculos envolvidos no movimento da articulação; os músculos globais. Músculos locais também são com freqüência, inseridos diretamente nas cápsulas articulares .(13) Músculos globais são mais superficiaistendem a ser maiores. Eles são responsáveis pela transferênciaequilíbrio de cargas externaspor movimentos maiores. O comprimento dos músculos locais muda muito poucopor isso não tem um grande impacto no movimento da articulação. O trabalho dos músculos locais é primariamente estabilizar a articulação enquanto outros músculos a movem.

MULTIFÍDIO E TRANSVERSO

Dois músculos foram identificados como estabilizadores primários da coluna lombar: O multifídioo transverso do abdome. Devido a sua localização à direção de suas fibras, esses músculos controlam especificamente as articulações lombaresa sacrolombar ao invés de agir sobre a relação entre o tóraxa pelve (figura 7).

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?Referindo-se ao tronco McGill demonstrou que as fibras profundas do multifídio lombar sofrem apenas mudanças mínimas no comprimento durante o raio de ação do movimento?. Isso acontece devido à proximidade do músculo do centro das articulações das vértebras lombaressugere que este componente específico dos músculos das costas contribui minimamente para produção de movimento. Somado a isso, devido à orientação transversal das fibras musculares do transverso do abdome, biomecanicamente, ele não pode contribuir para extensão, flexão ou flexão lateral da coluna…

?Então o transverso do abdomeo multifídio, assim como o vasto medial, tem primariamente papéis que não incluem a produção de movimento.? (14)

A responsabilidade desses músculos profundos de suporte ? transverso do abdomemultifídio ? não é mover a coluna, mas estabilizá-la para que outros músculos movam o tronco sem comprometer a integridade das articulações. O transversoo multifídio são exemplos de músculos locais para a coluna lombar, enquanto o reto abdominalo oblíquo externo são exemplos de músculos globais (figura 8).

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A ativação do reto abdominal ou do externo oblíquo junta o peito à pélvis. Ao contrário, a direção das fibras do transverso é paralela às vértebras. O transverso então será capaz de agir precisamente em cada vértebra, uma de cada vez.

A co-contração do transverso, em particular da porção sub umbilical,do multifídio em cada lado da coluna vai aumentar a firmeza da coluna lombar sem interferir nos movimentos do tronco. O resultado da sua contração não interfere na rotação, na mobilidade do tronco em geral, ou com a liberdade de movimento dos membros. Na verdade, eles mal movem a coluna: eles a seguram no lugar. A co-contração dos músculos locais, profundos pode criar suporte sem restringir grandes movimentos. Na dança, yoganas artes marciais isso é importante porque permite que a pessoa fique forte na barrigalivre acima dela.

COMPONENTE NEUROLÓGICO

A eficácia de um músculo de suporte depende de um componente neurológico assim como um componente mecânico. O músculo precisa ser forte suficiente para fazer o seu trabalho de estabilizaçãotambém precisa agir na hora apropriada. No modelo de Panjabi, problemas de joelho ou dor nas costasinstabilidade foram associados a uma zona neutra muito grande, em outras palavras os músculos estabilizadores levaram muito tempo para se ativarem. Quando os músculos profundos de suporte não fazem o seu trabalho os ligamentos estão ameaçados. Vários estudos têm mostrado que a contração do transverso do abdome normalmente precede a contração dos músculos que produzem movimento dos braços ou das pernas, mais ou menos 110 ms. Um corpo saudável automaticamente usa o transverso para estabilizar a coluna antes que qualquer movimento nos membros seja iniciado. Nos pacientes com um histórico de dor lombar, a contração do transverso do abdome tinha um retardo de 50-450ms. (15) A patologia parece resultar mais de uma estabilização inadequada, do que de um problema nos músculos globais. O bom funcionamento dos músculos estabilizadores depende não só da força: depende da coordenação, do controle do sistema nervoso. O tempo é essencial: para manter a integridade da articulação eles precisam ser ativados antes dos músculos mais importantes da ação. Estabilização é pré-movimento. (16)

O PAPEL DO MULTIFÍDIO LOMBAR E DO TRANSVERSO DO ABDOME NA REABILITAÇÃO DA DOR LOMBAR

Carolyn Richardsonseus colegas na Austrália investigaram o papel desses músculos nas dores nas costasem pacientes saudáveis.(17)

No experimento de Richardson, os pesquisadores descobriram que somente 10% daqueles com histórico de dor lombar podiam ativar o transverso do abdome, comparados com 82% dos sujeitos que não tinham dor lombar. Eles descobriram que pacientes que fizeram exercícios direcionados ao transverso do abdome durante o período de 10 semanas experimentaram uma diminuição significante na dorum aumento na habilidade funcional, comparados com o grupo de controle que recebeu tratamentos convencionais como natação, musculaçãoabdominais. Na avaliação de 30 meses depois a melhora tinha sido mantida. Quanto ao multifídio foi descoberto que nos pacientes com dor nas costas o tamanho do músculo estava reduzido no segmentono lado da dor. Descobriu-se nesses estudos que, quando o tamanho do músculo era aumentado através de exercícios específicos havia incidência de recorrência de episódios de dores nas costas significantemente mais baixas.

A pesquisa de Richardson supõe que a dor nas costas aparece mais devido a função inadequada dos músculos estabilizadores do que por deficiência dos músculos globais. Uma implicação disso é que muitos programas de estabilização não são específicos o suficiente. Abdominaisexercícios de extensão lombar na maior parte das vezes, não diferenciam entre envolvimento de músculos globaislocais. Até programas intitulados ?estabilizadores do core? talvez não levem em conta esta distinção. Isto se torna problemático porque se descobriu que o desenvolvimento muito grande dos músculos globais interfere na ação do sistema de estabilização local.

O estudo de Richardson também confirma a importância do componente neurológico. Ela reporta:

?A habilidade motora que foi praticada com muita repetição, mudou o tamanho dos níveis inibidos do multifídio rapidamente em pacientes com dor aguda nas costas; em alguns pacientes em uma semana. Neste contexto, pode-se supor que o efeito do exercício não estava relacionado a uma hipertrofia do músculo, mas talvez a eventos neurais relacionados ao músculo que restabeleceu o seu tamanho assim como o controle dos segmentos lombares em questão.? (18)

Uma parte importante da reabilitação é restabelecer a seqüência apropriada dos músculos: estabilizadores locais primeiro, músculos globais depois. Os exercícios que Richardson usou no experimento têm um componente sinestésico educativo; aprender a sentir a sensação sutil do pré-movimento. Isto parece causar impacto nas conexõesno tempo de acontecimento dos eventos no sistema nervosoleva ao desenvolvimento da função de estabilização.

OUTROS MÚSCULOS ENVOLVIDOS NA ESTABILIZAÇÃO DA COLUNA

Oblíquo Interno

A parte do oblíquo interno que se insere na fáscia toracolombar será incluída como parte do sistema de estabilização. A direção das fibras é paralela às do transverso do abdomesuas inserções são com freqüência não claramente diferenciadas das do transverso (figura 9).

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Embora tecnicamente o oblíquo interno seja um músculo separado, o cérebro vai recrutar unidades motoras que podem fazer o movimento desejado sem considerar as distinções feitas pelos anatomistas. Nesse artigo nós vamos usar o termo ?sistema do transverso? para nos referir à ação combinada dos três músculos para garantir estabilidade.

O PAPEL DO ASSOALHO PÉLVICO E DO DIAFRAGMA NA ESTABILIZAÇÃO DO CORE ? O QUE É CORE?

O diafragma, o assoalho pélvicoo sistema do transverso, são com freqüência incluídos nas estruturas envolvidas na estabilização do core. Juntos esses músculos formam o que Richardson se refere como o cilindro de compressão que influencia a pressão intra-abdominal (IAP):

?Então, conceitualmente, o transverso do abdome forma as paredes de um cilindro enquanto os músculos do assoalho pélvicodiafragma formam a sua basetampa respectivamente… Há alguma evidência inicial que esses quatro músculos agem em sinergia para prover um mecanismo de suporte da coluna. Apesar disso, mais pesquisa é necessária para confirmar a relação entre esses músculos.?

O modelo de Richardson do core é de uma estrutura com limite superiorinferior com o propósito de conter o compartimento visceral. É preliminar a evidência da contribuição do assoalho pélvicodo diafragma. Na próxima seção, nós vamos explorar a idéia de Richardson,então oferecer uma alternativa.

O assoalho pélvico

Richardson relata que registros da EMG do músculo pubococcígeo indicam início similar de atividade do diafragmado transverso do abdome.

?Estudos preliminares revelaram que quando um membro se move, a contração do pubococcígeo acontece juntamente com a do transverso do abdome. Parece haver uma ligação entre esses dois músculos.? (20)

O assoalho pélvico (figura 10) é com freqüência descrito como se constituindo de dois músculos: o elevador do ânuso músculo coccígeo. O elevador do ânus consiste-se de várias partes: puboretal, iliococcígeopubococcígeo. Curiosamente, diz-se que o músculo coccígeo está ausente em alguns casos. Gorman diz, ?Ele com mais freqüência varia nas suas fibras tendíneasmusculares. Ele corresponde quase exatamente com o ligamento sacroespinhoso.? Ele pode fechar, juntamente com o piriforme, a parte posterior da abertura superior da pelve.

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Uma maneira de exemplificar a nossa experiência do assoalho pélvico é imaginá-lo como tendo a forma de um diamante que pode ser separado em dois triângulos: ou uma metade frontaluma posterior, ou um lado direitoum lado esquerdo. Pode ser considerado que o músculo coccígeo ocupe a metade de tráso elevador do ânus à frente, embora o elevador do ânus também participe do fechamento do reto.

Na prática Godard acha útil ensinar as pessoas a fazer uma leve contração somente na parte anterior do assoalho pélvico juntamente com o sistema do transverso. Quando a distinção entre frentecostas não está clara na experiência, os pacientes tendem a confundir a contração da parte posterior do assoalho pélvico com uma contração de músculos como os rotadores laterais, glúteosisquiotibiais. Isto está associado com uma contração do músculo global reto do abdomerealmente interfere com o funcionamento do sistema de estabilização do transverso. Talvez isto aconteça em parte por que a sensação de ativação dos músculos estabilizadores seja diferente da contração voluntária usual; para os inexperientes pode parecer que não está se fazendo nada. Reagindo eles com freqüência tentam com mais forçapor causa disso há o envolvimento de músculos globais cuja contração vai restringir a extensão da perna no quadril. Interferindo com o mecanismo básicoa transmissão de energia requerida para um andar eficiente. (22) Embora tecnicamente o assoalho pélvico possa tomar parte na estabilização da coluna, na prática é essencial ajudar os pacientes a sentir a diferença entre ativar músculos globaisusar os locais para que o trabalho de estabilizaçãoo trabalho de movimento permaneçam distintos.

O diafragma

Richardson também inclui o diafragma como um músculo que influencia a pressão intra-abdominalpor está razão influencia na estabilização da coluna também, embora algumas questões permaneçam:

?Quando os sujeitos fizeram uma flexão do ombro, descobrimos que ambas as porções do diafragma contraíram-se 30ms antes do deltóide, i.e. exatamente na mesma hora que ocorre a contração do transverso do abdome. É fácil ver como este sistema pode funcionar com tarefas de curta duração. Mas é desconhecido como o diafragma pode contribuir quando a demanda postural é mantidao diafragma precisa combinar os papéis de respiraçãocontrole da estabilidade.? (23)

Na perspectiva de Godard como um bailarino profissional, os músculos que trabalham na estabilizaçãoo diafragma respiratório têm funções bem diferentes. Isto se torna particularmente aparente quando o movimento como um todo é levado em consideração: o diafragma tem que estar livre para adaptar-se às necessidades da respiração. Na prática, nós não queremos encorajar segurar o diafragma respiratório por que ele fica no caminho do movimento livreeventualmente da livre expressão. Muito envolvimento do diafragma respiratório para um bailarino pode impedir seriamente a sua criatividade.

O diafragmao sistema de estabilização interagem: A citação do Sutra Pradapika, ?uddiyana é chamado assim por causa do grande pássaro, Prana, atado a ele, voa sem ficar fatigado?, pode ser entendida por uma perspectiva biomecânica. O tendão central do diafragma torna-se um ponto fixo quando o transverso trabalha. A ação da parte muscular do diafragma na inspiraçãoexpiração, então, levanta as costelas inferiores, dando a sensação de asas num vôo. Outro exemplo surge quando levantamos um objeto pesado: há com freqüência a vocalização que acompanha o momento de força intensa. Godard sugere que da mesma forma que ajuda na organização dos trabalhadores, a produção do som também ativa a crura do diafragma. Esta ação empurra o disco para frente, minimizando a compressão nos discos que resulta do carregamento de peso.

Embora o diafragmao assoalho pélvico possam contribuir em alguns momentos para o fenômeno da estabilização, é importante na teoriana prática fazer uma distinção entre o tipo, qualidadeduração da contração dos músculos do sistema do transversoas estruturas horizontais dos diafragmas. Estabilizadores podem trabalhar por um tempo longo, enquanto a função dos diafragmas é adicionar uma explosão de energia.

No modelo de Godard, no movimento, todos os diafragmas do corpo ? o respiratóriopélvico assim como o palato,também num certo sentido os arcos dos pésmãos – podem ser vistos como parte de um sistema funcional único. Agindo juntos eles dão energia a um movimento, como pular. Ao contrário o sistema do transverso pode funcionar por longos períodos de tempo durante seu trabalho de estabilização. Os diafragmas agem numa explosão de força; de certo modo eles são mais fásicos do que tônicos. No andar, um lado do assoalho pélvico se contrai enquanto o outro está abrindo. A natureza do diafragma é dinâmica. Se eles são usados para manter uma posição por um longo período, eles perderão essa habilidade dinâmica; eles não estarão livres para responder as demandas da ação.

Ao entendermos os diafragmas como um sistema dinâmico revela-se a imagem do ?core? ? removendo-se as tampas como forma de dizer. Funcionalmente, os estabilizadores podem ser ligados num tipo de sistema que se inter-relaciona. Nesse texto, até agora, nós nos focamos na atividade em volta da coluna lombar, mas na maioria das situações a estabilização está ocorrendo em múltiplas áreas ao mesmo tempo. Por exemplo, enquanto o sistema do transverso está trabalhando para dar suporte às lombares, o longo do pescoço está fazendo um trabalho similar nas vértebras cervicais. O vasto medial estabiliza a patela, enquanto o serrátil anterior age para estabilizar a escápula para os braços.

No corpo, como um todo, em movimento, esses músculos conectam-se como um sistema estabilizador através do sistema nervoso.:

?Funcionalmente, pode-se esperar que o sistema nervoso monitore continuamente a atividade nesses músculos para controlar a posição da articulação, sem levar em conta a direção do movimento. Desta maneira, esses músculos dão suporte localizado para a articulação, enquanto, independentemente, os músculos que produzem um maior torque controlam a aceleraçãoparadas de movimento da articulação.? (24)

?O controle do contínuo recrutamento muscular para estabilidade da articulação depende não somente de padrões motores pré-programados do córtex, mas também do estado do sistema de ?feedback? que emana do ?input? sinestésico. O sistema de?feedback? é complexorelaciona-se com os receptores nos músculos que provém informação contínua ao sistema nervoso central (SNC), no que diz respeito ao comprimentotensão sendo gerada no músculo?. (25)

Através da intercomunicação dos neurônios gamma motoresos fusos musculares, a tensão (resistência à mudança de comprimento) de cada fibra muscular é continuamente monitoradaajustada. A função de estabilização também está acontecendo em relação à manutenção do equilíbrio na gravidade em todo corpo ? o que Godard chama de função tônica ?em relação ao nosso próprio senso proprioceptivo, como nos localizamos. Godard sugere que uma estratégia eficiente para acessar o sistema de estabilização é trabalhar com a função tônica na relação com a nossa sensação de peso, sensação do espaço, nosso senso de orientação. (26)

No modelo de Godard, nós usamos a estimulação de sensações nas mãospés em exercícios em cadeia fechada para ajudar a iniciar a atividade do sistema de estabilização. Mesmo que a estabilização seja funcionalmente necessária nos movimentos em cadeia aberta (o final distal está livreo final proximal está fixo)em cadeia fechada (o final distal está fixo o final proximal está em movimento), Richardson cita evidências dos estudos sobre reabilitação de joelhos em que exercícios em cadeia fechada são mais eficazes para reabilitação dos músculos estabilizadores. (27) O perigo em potencial dos exercícios em cadeia fechada é provocar compressão articular excessiva.

Quando fazemos o exercício simples de transferir o peso das mãos para os pés,dos pés para as mãos na pose do cachorro modificada ou no movimento de Empurrar as Mãos, ou num dos exercícios no Reformer do Pilates onde mãospés estão carregando peso (e.g. O Elefante, o Alongamento Longo, Alongamento Para Baixo), o foco na consciência entre pelemãos ou pés ou o que quer que seja que eles estejam em contato. Estimulando sensações nas extremidades ? em relação com o mundo a nossa volta ? nós ajudamos no movimento ativando sucessivamente os estabilizadores: da terra, através dos pés ao transverso, das mãos na mesa, ou das mãos na barra do Reformer, através do serrátil anterior ao transverso,de volta ao chão. Dessa maneira, nós recrutamos os estabilizadores como um sistema global em relação com o mundo.

Ao mesmo tempo, nós mantemos um sentido de orientação no espaçopeso, uma sensação de direções opostas. Esta ação ajuda a criar uma sensação de movimento ?excêntrico? ? no sentido de ?para fora do centro?, ao invés de ?concêntrico?, – concentrado ? tensão. O foco em duas direções opostas ajuda a minimizar uma possível compressão num movimento em cadeia fechada.

Embora as distinções pareçam sutis, os efeitos têm um grande alcance. Em muitas abordagens para a estabilização do core, a ênfase está na contração dos músculos do core com um relativo isolamento dos membros com o mundo.

Quando os membros são mobilizados, eles são primariamente usados de forma a desafiar a estabilidade, ao invés de ativá-la. Na abordagem é a interação com o mundo que ativa a estabilização do core. No movimento, como ele é experenciado, fenomenologicamente, a estabilização sempre acontece na interação com o espaço a nossa volta, com objetospessoas, através de nossos vários sentidosos pontos de contato dos nossos corpos com o mundo. O corpo se torna menos importante que o lugar de encontro do corpo com o mundo.

CENTRO DE ACUMULAÇÃO, CENTRO DA CIRCULAÇÃO

Na introdução desse texto foi apontado que através da história no Ocidenteno Oriente, o movimento de trazer o umbigo na direção da coluna foi reconhecido como um elemento chave para uma ação bem organizada. Nós exploramos a precisão que a eletromiografia tem a acrescentar à experiência. Hoje nós fomos capazes de quantificar algo que os antigos intuíram. Entretanto, como acontece com freqüência, é muito fácil perder a noção do todo enquanto perseguimos algo específico.

Algo do imaginário tradicional transmite a impressão de que o centro, o core, é um tipo de caixa, um lugar de acumulação. É a imagem do cilindro de compressão, na ?casa? da ?casa do poder?. Há um enfoque na forma do corpo. Na yoga há uma imagem similar, na qual a Jalandhara Bandha (throat lock)a Mulla Bandha (root lock) ? assoalho pélvico, são descritas como criando um vaso ou pote no centro do corpo, um lugar para o prana. As bandhas são descritas como lacres que encerram a energia no pote.

Em contraste, na tradição oriental, a qual Godard vê como mais perto da estética da dança, o centro é um espaço vazio. Na pintura chinesa a montanha está sempre parcialmente coberta pelas nuvens. Isso permite ao espectador preencher algo, participar de uma maneira ativa. Isso permite adaptação constante. Se o centro já estivesse cheio, não haveria movimento. Ao invés da forma, esse ponto de vista persegue o fluxo; ao invés de um centro de acumulação, há um centro de circulação. O movimento é uma transferência de energia entre duas direções, para cimapara baixo, céuterra. O centro mais eficiente está vazio. Visto nessa perspectiva o trabalho do sistema do transverso aparece para ajudar na transferência do movimento ? entre mãospés, entre o mundo dos objetos manipuláveisa terra que dá suporte. Hubert, de coração leve, nos repreende, neste contexto, para não ?capitalizar? nosso Chi.

NOTAS

1?Richardson, Carolyn, et al., Therapeutic Exercise for Spinal Segmental Stabilization in Low Back Pain. Churchill Livingstone, Edinburgh, 1999.

2?Major Basu, I.M.S., The Sacred Book of the Hindus, vol. XV, Part III. The Yoga Sastra: Hatha Yoga Pradipika. Published by Sudhindranatah Vasu from the Panini Office, Bhuvaneswari Asrama, Bahadurganj, Allagagad. Printed by Apurnva Krishna bose at the Indian Press, 1915.

3?Frantzis B. K., Opening the Energy Gates of Your Body. North Atlantic Books, Berkeley, 1993, p. 70.

4?Mesendieck, Bess, The Mesendieck System of Functional Exercises, Vol I. Southworth-Anthoensen Press, Portland, Maine, 1937, p.135.

5?Latey, Penelope, Journal of Bodywork and Movement Therapies, Vol 5 (4) Oct. 2001, pp. 275-282.

6?Gallagher and Kryzanowska, The Pilates Method, Bainbridge Books, Philadelphia, 1999.

7?Kendall and McCreary (Muscles Testing and Function, 3rd ed, Williams and Wilkins, Baltimore, 1983) dizem que o levar para dentro da parede abdominal acontece por causa do oblique externo, but Strohl, et al. (?Diferenças regionais na atividade do músculo abdominal durante várias manobras em humanos?, Journal of Applied Physiology 51: 1471-1476, 1981); Lacote, et al. (Clinical esvaluation of muscle function. Churchill Livingstone, Edinburg, 1987); and DeTroyer et al. (?Transversus Abdominis muscle function in humans,? Journal of Applied Physiology 68: 1010-1016, 1990) dizem que o transverse do abdomen predomina quando se leva a barriga para dentro.

8?Richardson, 1999, op. cit., p. 130.

9?Panjabi, M. ?The stabilization system of the spine?, Parts 1 and 2. Journal of Spinal Disorders 5: 383-397, 1992.

10?Richardson, 1999, op cit., p. 3

11?Ibid, p. 81

12?Bergmark A., ?Stability of the lumbar spine. A study in mechanical
engineering.? Acta Othopaedica Scandinavica, 230 (suppl): pp. 20-24.

13-Richardson, 1999, op. cit., p. 81.

14-Ibid.

15?Ibid, p. 63.

16?Este é o componente que às vezes é chamado de ?força de fechamento?.

17?Ibid.

18?Ibid, p. 96

19?Ibid, p. 95

20?Ibid, pp. 52-134.

21?Platzer, W., 1986, Locomotor System, 3rd ed. Thieme Verlag, Stuttgart, New
York, p. 106; Gorman, D., 1981, The Body Moveable, Ampersand Press, Canada, p. 75.

22?See Newton, 2003, ?Gracovetsky on Walking?. Structural Integration, Feb. 2003.

23?Richardson, 1999, op. cit., p.50.

24?Ibid, p. 81.

25?Ibid, p. 82.

26-Para mais informações sobre trabalhar com função tônica, veja minhas publicações prévias em Integração Estrutural, também disponível em www.alinenewton.com

27?Richardson, 1999, op. Cit., p. 86[:de]SINOPSE

Esse texto introduz os conceitos envolvidos na estabilização da coluna sob duas perspectivas: uma, a pesquisa científicaa outra, uma estrutura teóricaexperimental para o entendimento do movimento baseada nos muitos anos de estudos da autora com Hubert Godard. A importância da estabilização da coluna é reconhecida há séculos por diversas culturas. Métodos de pesquisa modernos têm a disposição informações através da eletromiografia. Os aspectos mecânicosneurológicos são descritos. A estabilização da coluna envolve uma co-contração do multifidiodo transverso do abdomeparece ser uma abordagem eficaz para resolver dores lombares . A perspectiva de movimento vivido, baseada no trabalho de Godard ? Rolfista, bailarinoeducador do movimento ? salienta o envolvimento dos diafragmas na estabilização do core,sugere uma abordagem dinâmica do conceito de ?core.? Ao invés de um centro de acumulação, ele é concebido como um centro de circulação.

A autora está mais uma vez agradecidaem débito com Hubert Godard pela sua capacidade de respeitarsintetizar as contribuições da ciênciaa sabedoria da experiência.

PERSPECTIVA HISTÓRICA

Nos últimos cinco anos, o conceito de estabilização espinhal segmentar recebeu considerável atenção da pesquisa científica (1). Algumas vezes conhecido como estabilizador do ?core?, esta abordagem enfoca o papel dos músculos abdominais na reabilitaçãoprevenção de dores lombares. Embora isso pareça uma descoberta recente no mundo ocidental, a importância deste movimento básico de estabilização tem sido reconhecida através da históriaem muitas culturas.

Na prática da yoga os estudantes aprendem a aplicar a ?bandha? para selar a energia unificada da inspiraçãoda expiração. Esses movimentos sutis com freqüência precedem a prática de uma posição específica ou asana. A bandha ?uddiyana? é descrita como: ?a barriga acimaabaixo do umbigo deveria ser levada ou pressionada para trás na direção da coluna.? Ou, mais misteriosamente: ?uddiyana é assim chamada por causa do grande pássaro, Prana, atado a ela, voa sem se cansar.? O texto é de 1915, mas é claro que a posição é de muitos séculos atrás (figuras 12).

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A bandha é descrita como tendo o potencial de trazer de volta juventudevigor,o autor nos assegura que ?a pessoa pode dominar a morte se praticar isso por seis meses.? (2)

No mundo das artes marciais, na tradição chinesa, o ?tantien? baixo é achado nesta mesma área, mais ou menos cinco centímetros abaixo do umbigo. B. K. Frantzis o descreve assim; ?O tantien é a única porta, a mais importante no que concerne à saúde física. Localizado aproximadamente no centro do corpo, todas as linhas relacionadas à saúde físicabem estar conectam-se ali.? (3) Assim como com a bandha, o movimento de pressionar essa área da barriga para trás para suavizar as costas, é a chave de todos os movimentos do Tai Chi.

A mesma idéia é visível no trabalho de Bess Mesendieck, que é considerada como tendo influenciado Ida Rolf, assim como Martha Graham, entre outros. Ela descreve, por exemplo, ?O exercício de inclinar o tronco redondo para frente? (figura 3) num texto de 1937.

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?Devagar pressione para dentro o abdome contraindo a seção mais baixa do músculo abdominal, começando no ponto mais baixo da região abaixo do umbigo?. (4)

Mais familiar para nós, hoje em dia, é o trabalho de Joseph Pilates, contemporâneocompatriota de Mesendieck. A expressão de Pilates para essa área é ?casa do poder?, também chamada de ?a cintura de força?. (5,6) Através dos tempos o movimento que traz o umbigo na direção da coluna tem sido reconhecido como suporte essencial para a boa coordenaçãosaúde.

A investigação moderna desse movimento apareceu em resposta a uma patologia, especificamente o problema de dor lombar. Com a ajuda da eletromiografia, é possível descrever mais precisamente sobre o que acontece no movimento. O entendimento corrente é que o movimento de levar o umbigo na direção da coluna envolve uma contração do multifídiodo transverso do abdome, especificamente na porção abaixo do umbigo.(figura 4; figura 5) (7; 8)

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A próxima parte desse trabalho examinará a contribuição da pesquisa moderna para o entendimento desse movimento. Em seguida, numa tentativa de ampliar nossa perspectiva, vamos nos dirigir ao mundo do movimento como o vivenciamos..

MECÂNICA DA ESTABILIZAÇÃO DA COLUNA ? O QUE É ESTABILIZAÇÃO?

É comumente aceito que o que faz uma coluna ?ruim? é algum tipo de instabilidade ou desequilíbrio. Abordagens padrão para reabilitação da coluna envolvem a mobilização das articulaçõesfortalecimento muscular. Geralmente isso toma a forma de manipulação passiva das articulações com exercícios combinados como abdominais, ou extensão lombar como no sistema Mckenzie.

Em 1992, Panjabi propôs um modelo que introduziu um refinamento no entendimento de estabilização. Ao invés de olhar a articulação como ossosligamentos, Panjabi argumentou que o envolvimento muscularo controle neurológico teriam um papel importante na estabilidade articular.(9) A influência mais importante dos ligamentos aparece na amplitude final do movimento da articulação. Na amplitude média da articulação, o que Panjabi chama de zona neutra, a ação dos músculos é necessária para manter a estabilidade da articulação (figura 6).

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O modelo de Panjabi sugere que esses três aspectos ? osteoligamentar, muscularneurológico ? têm que trabalhar juntos. Entretanto, para explorá-los aqui, temos que olhar um de cada vez. Vamos falar primeiro do aspecto mecânicoentão explorar mais profundamente o papel do sistema nervoso.

O SISTEMA DE SUPORTE PROFUNDO

Estudos sobre um joelho saudável mostram que em movimento alguns músculos controlamdão suporte a posição da articulação, enquanto outros movem a articulação.(10) Embora os músculos tenham papéis diferentes em movimentos diferentes, através da eletromiografia foi possível identificar alguns músculos como primários na função de suporte. Por exemplo no joelho, o vasto medial, que é habitualmente considerado um extensor, funciona primariamente para controlardar suporte a patela durante o movimento. (11)

O comprimento das fibras dos estabilizadores não muda muito durante a duração de um movimento. Ao invés disso elas permanecem consistentemente curtas para segurar a articulação na sua zona neutra (antes do limite final onde os ligamentos são envolvidos), para ajudar a articulação a manter a sua integridade enquanto manuseamos pesos ou fazemos movimentos mais amplos.

MÚSCULOS GLOBAIS E LOCAIS

Estabilização, nesse sentido de suporte profundo, é primeiramente o papel do que Bergmark chama de músculos ?locais?, diferentes de músculos ?globais? (12). Músculos locais são habitualmente mais profundosmais próximos da articulação do que os músculos envolvidos no movimento da articulação; os músculos globais. Músculos locais também são com freqüência, inseridos diretamente nas cápsulas articulares .(13) Músculos globais são mais superficiaistendem a ser maiores. Eles são responsáveis pela transferênciaequilíbrio de cargas externaspor movimentos maiores. O comprimento dos músculos locais muda muito poucopor isso não tem um grande impacto no movimento da articulação. O trabalho dos músculos locais é primariamente estabilizar a articulação enquanto outros músculos a movem.

MULTIFÍDIO E TRANSVERSO

Dois músculos foram identificados como estabilizadores primários da coluna lombar: O multifídioo transverso do abdome. Devido a sua localização à direção de suas fibras, esses músculos controlam especificamente as articulações lombaresa sacrolombar ao invés de agir sobre a relação entre o tóraxa pelve (figura 7).

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?Referindo-se ao tronco McGill demonstrou que as fibras profundas do multifídio lombar sofrem apenas mudanças mínimas no comprimento durante o raio de ação do movimento?. Isso acontece devido à proximidade do músculo do centro das articulações das vértebras lombaressugere que este componente específico dos músculos das costas contribui minimamente para produção de movimento. Somado a isso, devido à orientação transversal das fibras musculares do transverso do abdome, biomecanicamente, ele não pode contribuir para extensão, flexão ou flexão lateral da coluna…

?Então o transverso do abdomeo multifídio, assim como o vasto medial, tem primariamente papéis que não incluem a produção de movimento.? (14)

A responsabilidade desses músculos profundos de suporte ? transverso do abdomemultifídio ? não é mover a coluna, mas estabilizá-la para que outros músculos movam o tronco sem comprometer a integridade das articulações. O transversoo multifídio são exemplos de músculos locais para a coluna lombar, enquanto o reto abdominalo oblíquo externo são exemplos de músculos globais (figura 8).

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A ativação do reto abdominal ou do externo oblíquo junta o peito à pélvis. Ao contrário, a direção das fibras do transverso é paralela às vértebras. O transverso então será capaz de agir precisamente em cada vértebra, uma de cada vez.

A co-contração do transverso, em particular da porção sub umbilical,do multifídio em cada lado da coluna vai aumentar a firmeza da coluna lombar sem interferir nos movimentos do tronco. O resultado da sua contração não interfere na rotação, na mobilidade do tronco em geral, ou com a liberdade de movimento dos membros. Na verdade, eles mal movem a coluna: eles a seguram no lugar. A co-contração dos músculos locais, profundos pode criar suporte sem restringir grandes movimentos. Na dança, yoganas artes marciais isso é importante porque permite que a pessoa fique forte na barrigalivre acima dela.

COMPONENTE NEUROLÓGICO

A eficácia de um músculo de suporte depende de um componente neurológico assim como um componente mecânico. O músculo precisa ser forte suficiente para fazer o seu trabalho de estabilizaçãotambém precisa agir na hora apropriada. No modelo de Panjabi, problemas de joelho ou dor nas costasinstabilidade foram associados a uma zona neutra muito grande, em outras palavras os músculos estabilizadores levaram muito tempo para se ativarem. Quando os músculos profundos de suporte não fazem o seu trabalho os ligamentos estão ameaçados. Vários estudos têm mostrado que a contração do transverso do abdome normalmente precede a contração dos músculos que produzem movimento dos braços ou das pernas, mais ou menos 110 ms. Um corpo saudável automaticamente usa o transverso para estabilizar a coluna antes que qualquer movimento nos membros seja iniciado. Nos pacientes com um histórico de dor lombar, a contração do transverso do abdome tinha um retardo de 50-450ms. (15) A patologia parece resultar mais de uma estabilização inadequada, do que de um problema nos músculos globais. O bom funcionamento dos músculos estabilizadores depende não só da força: depende da coordenação, do controle do sistema nervoso. O tempo é essencial: para manter a integridade da articulação eles precisam ser ativados antes dos músculos mais importantes da ação. Estabilização é pré-movimento. (16)

O PAPEL DO MULTIFÍDIO LOMBAR E DO TRANSVERSO DO ABDOME NA REABILITAÇÃO DA DOR LOMBAR

Carolyn Richardsonseus colegas na Austrália investigaram o papel desses músculos nas dores nas costasem pacientes saudáveis.(17)

No experimento de Richardson, os pesquisadores descobriram que somente 10% daqueles com histórico de dor lombar podiam ativar o transverso do abdome, comparados com 82% dos sujeitos que não tinham dor lombar. Eles descobriram que pacientes que fizeram exercícios direcionados ao transverso do abdome durante o período de 10 semanas experimentaram uma diminuição significante na dorum aumento na habilidade funcional, comparados com o grupo de controle que recebeu tratamentos convencionais como natação, musculaçãoabdominais. Na avaliação de 30 meses depois a melhora tinha sido mantida. Quanto ao multifídio foi descoberto que nos pacientes com dor nas costas o tamanho do músculo estava reduzido no segmentono lado da dor. Descobriu-se nesses estudos que, quando o tamanho do músculo era aumentado através de exercícios específicos havia incidência de recorrência de episódios de dores nas costas significantemente mais baixas.

A pesquisa de Richardson supõe que a dor nas costas aparece mais devido a função inadequada dos músculos estabilizadores do que por deficiência dos músculos globais. Uma implicação disso é que muitos programas de estabilização não são específicos o suficiente. Abdominaisexercícios de extensão lombar na maior parte das vezes, não diferenciam entre envolvimento de músculos globaislocais. Até programas intitulados ?estabilizadores do core? talvez não levem em conta esta distinção. Isto se torna problemático porque se descobriu que o desenvolvimento muito grande dos músculos globais interfere na ação do sistema de estabilização local.

O estudo de Richardson também confirma a importância do componente neurológico. Ela reporta:

?A habilidade motora que foi praticada com muita repetição, mudou o tamanho dos níveis inibidos do multifídio rapidamente em pacientes com dor aguda nas costas; em alguns pacientes em uma semana. Neste contexto, pode-se supor que o efeito do exercício não estava relacionado a uma hipertrofia do músculo, mas talvez a eventos neurais relacionados ao músculo que restabeleceu o seu tamanho assim como o controle dos segmentos lombares em questão.? (18)

Uma parte importante da reabilitação é restabelecer a seqüência apropriada dos músculos: estabilizadores locais primeiro, músculos globais depois. Os exercícios que Richardson usou no experimento têm um componente sinestésico educativo; aprender a sentir a sensação sutil do pré-movimento. Isto parece causar impacto nas conexõesno tempo de acontecimento dos eventos no sistema nervosoleva ao desenvolvimento da função de estabilização.

OUTROS MÚSCULOS ENVOLVIDOS NA ESTABILIZAÇÃO DA COLUNA

Oblíquo Interno

A parte do oblíquo interno que se insere na fáscia toracolombar será incluída como parte do sistema de estabilização. A direção das fibras é paralela às do transverso do abdomesuas inserções são com freqüência não claramente diferenciadas das do transverso (figura 9).

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Embora tecnicamente o oblíquo interno seja um músculo separado, o cérebro vai recrutar unidades motoras que podem fazer o movimento desejado sem considerar as distinções feitas pelos anatomistas. Nesse artigo nós vamos usar o termo ?sistema do transverso? para nos referir à ação combinada dos três músculos para garantir estabilidade.

O PAPEL DO ASSOALHO PÉLVICO E DO DIAFRAGMA NA ESTABILIZAÇÃO DO CORE ? O QUE É CORE?

O diafragma, o assoalho pélvicoo sistema do transverso, são com freqüência incluídos nas estruturas envolvidas na estabilização do core. Juntos esses músculos formam o que Richardson se refere como o cilindro de compressão que influencia a pressão intra-abdominal (IAP):

?Então, conceitualmente, o transverso do abdome forma as paredes de um cilindro enquanto os músculos do assoalho pélvicodiafragma formam a sua basetampa respectivamente… Há alguma evidência inicial que esses quatro músculos agem em sinergia para prover um mecanismo de suporte da coluna. Apesar disso, mais pesquisa é necessária para confirmar a relação entre esses músculos.?

O modelo de Richardson do core é de uma estrutura com limite superiorinferior com o propósito de conter o compartimento visceral. É preliminar a evidência da contribuição do assoalho pélvicodo diafragma. Na próxima seção, nós vamos explorar a idéia de Richardson,então oferecer uma alternativa.

O assoalho pélvico

Richardson relata que registros da EMG do músculo pubococcígeo indicam início similar de atividade do diafragmado transverso do abdome.

?Estudos preliminares revelaram que quando um membro se move, a contração do pubococcígeo acontece juntamente com a do transverso do abdome. Parece haver uma ligação entre esses dois músculos.? (20)

O assoalho pélvico (figura 10) é com freqüência descrito como se constituindo de dois músculos: o elevador do ânuso músculo coccígeo. O elevador do ânus consiste-se de várias partes: puboretal, iliococcígeopubococcígeo. Curiosamente, diz-se que o músculo coccígeo está ausente em alguns casos. Gorman diz, ?Ele com mais freqüência varia nas suas fibras tendíneasmusculares. Ele corresponde quase exatamente com o ligamento sacroespinhoso.? Ele pode fechar, juntamente com o piriforme, a parte posterior da abertura superior da pelve.

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Uma maneira de exemplificar a nossa experiência do assoalho pélvico é imaginá-lo como tendo a forma de um diamante que pode ser separado em dois triângulos: ou uma metade frontaluma posterior, ou um lado direitoum lado esquerdo. Pode ser considerado que o músculo coccígeo ocupe a metade de tráso elevador do ânus à frente, embora o elevador do ânus também participe do fechamento do reto.

Na prática Godard acha útil ensinar as pessoas a fazer uma leve contração somente na parte anterior do assoalho pélvico juntamente com o sistema do transverso. Quando a distinção entre frentecostas não está clara na experiência, os pacientes tendem a confundir a contração da parte posterior do assoalho pélvico com uma contração de músculos como os rotadores laterais, glúteosisquiotibiais. Isto está associado com uma contração do músculo global reto do abdomerealmente interfere com o funcionamento do sistema de estabilização do transverso. Talvez isto aconteça em parte por que a sensação de ativação dos músculos estabilizadores seja diferente da contração voluntária usual; para os inexperientes pode parecer que não está se fazendo nada. Reagindo eles com freqüência tentam com mais forçapor causa disso há o envolvimento de músculos globais cuja contração vai restringir a extensão da perna no quadril. Interferindo com o mecanismo básicoa transmissão de energia requerida para um andar eficiente. (22) Embora tecnicamente o assoalho pélvico possa tomar parte na estabilização da coluna, na prática é essencial ajudar os pacientes a sentir a diferença entre ativar músculos globaisusar os locais para que o trabalho de estabilizaçãoo trabalho de movimento permaneçam distintos.

O diafragma

Richardson também inclui o diafragma como um músculo que influencia a pressão intra-abdominalpor está razão influencia na estabilização da coluna também, embora algumas questões permaneçam:

?Quando os sujeitos fizeram uma flexão do ombro, descobrimos que ambas as porções do diafragma contraíram-se 30ms antes do deltóide, i.e. exatamente na mesma hora que ocorre a contração do transverso do abdome. É fácil ver como este sistema pode funcionar com tarefas de curta duração. Mas é desconhecido como o diafragma pode contribuir quando a demanda postural é mantidao diafragma precisa combinar os papéis de respiraçãocontrole da estabilidade.? (23)

Na perspectiva de Godard como um bailarino profissional, os músculos que trabalham na estabilizaçãoo diafragma respiratório têm funções bem diferentes. Isto se torna particularmente aparente quando o movimento como um todo é levado em consideração: o diafragma tem que estar livre para adaptar-se às necessidades da respiração. Na prática, nós não queremos encorajar segurar o diafragma respiratório por que ele fica no caminho do movimento livreeventualmente da livre expressão. Muito envolvimento do diafragma respiratório para um bailarino pode impedir seriamente a sua criatividade.

O diafragmao sistema de estabilização interagem: A citação do Sutra Pradapika, ?uddiyana é chamado assim por causa do grande pássaro, Prana, atado a ele, voa sem ficar fatigado?, pode ser entendida por uma perspectiva biomecânica. O tendão central do diafragma torna-se um ponto fixo quando o transverso trabalha. A ação da parte muscular do diafragma na inspiraçãoexpiração, então, levanta as costelas inferiores, dando a sensação de asas num vôo. Outro exemplo surge quando levantamos um objeto pesado: há com freqüência a vocalização que acompanha o momento de força intensa. Godard sugere que da mesma forma que ajuda na organização dos trabalhadores, a produção do som também ativa a crura do diafragma. Esta ação empurra o disco para frente, minimizando a compressão nos discos que resulta do carregamento de peso.

Embora o diafragmao assoalho pélvico possam contribuir em alguns momentos para o fenômeno da estabilização, é importante na teoriana prática fazer uma distinção entre o tipo, qualidadeduração da contração dos músculos do sistema do transversoas estruturas horizontais dos diafragmas. Estabilizadores podem trabalhar por um tempo longo, enquanto a função dos diafragmas é adicionar uma explosão de energia.

No modelo de Godard, no movimento, todos os diafragmas do corpo ? o respiratóriopélvico assim como o palato,também num certo sentido os arcos dos pésmãos – podem ser vistos como parte de um sistema funcional único. Agindo juntos eles dão energia a um movimento, como pular. Ao contrário o sistema do transverso pode funcionar por longos períodos de tempo durante seu trabalho de estabilização. Os diafragmas agem numa explosão de força; de certo modo eles são mais fásicos do que tônicos. No andar, um lado do assoalho pélvico se contrai enquanto o outro está abrindo. A natureza do diafragma é dinâmica. Se eles são usados para manter uma posição por um longo período, eles perderão essa habilidade dinâmica; eles não estarão livres para responder as demandas da ação.

Ao entendermos os diafragmas como um sistema dinâmico revela-se a imagem do ?core? ? removendo-se as tampas como forma de dizer. Funcionalmente, os estabilizadores podem ser ligados num tipo de sistema que se inter-relaciona. Nesse texto, até agora, nós nos focamos na atividade em volta da coluna lombar, mas na maioria das situações a estabilização está ocorrendo em múltiplas áreas ao mesmo tempo. Por exemplo, enquanto o sistema do transverso está trabalhando para dar suporte às lombares, o longo do pescoço está fazendo um trabalho similar nas vértebras cervicais. O vasto medial estabiliza a patela, enquanto o serrátil anterior age para estabilizar a escápula para os braços.

No corpo, como um todo, em movimento, esses músculos conectam-se como um sistema estabilizador através do sistema nervoso.:

?Funcionalmente, pode-se esperar que o sistema nervoso monitore continuamente a atividade nesses músculos para controlar a posição da articulação, sem levar em conta a direção do movimento. Desta maneira, esses músculos dão suporte localizado para a articulação, enquanto, independentemente, os músculos que produzem um maior torque controlam a aceleraçãoparadas de movimento da articulação.? (24)

?O controle do contínuo recrutamento muscular para estabilidade da articulação depende não somente de padrões motores pré-programados do córtex, mas também do estado do sistema de ?feedback? que emana do ?input? sinestésico. O sistema de?feedback? é complexorelaciona-se com os receptores nos músculos que provém informação contínua ao sistema nervoso central (SNC), no que diz respeito ao comprimentotensão sendo gerada no músculo?. (25)

Através da intercomunicação dos neurônios gamma motoresos fusos musculares, a tensão (resistência à mudança de comprimento) de cada fibra muscular é continuamente monitoradaajustada. A função de estabilização também está acontecendo em relação à manutenção do equilíbrio na gravidade em todo corpo ? o que Godard chama de função tônica ?em relação ao nosso próprio senso proprioceptivo, como nos localizamos. Godard sugere que uma estratégia eficiente para acessar o sistema de estabilização é trabalhar com a função tônica na relação com a nossa sensação de peso, sensação do espaço, nosso senso de orientação. (26)

No modelo de Godard, nós usamos a estimulação de sensações nas mãospés em exercícios em cadeia fechada para ajudar a iniciar a atividade do sistema de estabilização. Mesmo que a estabilização seja funcionalmente necessária nos movimentos em cadeia aberta (o final distal está livreo final proximal está fixo)em cadeia fechada (o final distal está fixo o final proximal está em movimento), Richardson cita evidências dos estudos sobre reabilitação de joelhos em que exercícios em cadeia fechada são mais eficazes para reabilitação dos músculos estabilizadores. (27) O perigo em potencial dos exercícios em cadeia fechada é provocar compressão articular excessiva.

Quando fazemos o exercício simples de transferir o peso das mãos para os pés,dos pés para as mãos na pose do cachorro modificada ou no movimento de Empurrar as Mãos, ou num dos exercícios no Reformer do Pilates onde mãospés estão carregando peso (e.g. O Elefante, o Alongamento Longo, Alongamento Para Baixo), o foco na consciência entre pelemãos ou pés ou o que quer que seja que eles estejam em contato. Estimulando sensações nas extremidades ? em relação com o mundo a nossa volta ? nós ajudamos no movimento ativando sucessivamente os estabilizadores: da terra, através dos pés ao transverso, das mãos na mesa, ou das mãos na barra do Reformer, através do serrátil anterior ao transverso,de volta ao chão. Dessa maneira, nós recrutamos os estabilizadores como um sistema global em relação com o mundo.

Ao mesmo tempo, nós mantemos um sentido de orientação no espaçopeso, uma sensação de direções opostas. Esta ação ajuda a criar uma sensação de movimento ?excêntrico? ? no sentido de ?para fora do centro?, ao invés de ?concêntrico?, – concentrado ? tensão. O foco em duas direções opostas ajuda a minimizar uma possível compressão num movimento em cadeia fechada.

Embora as distinções pareçam sutis, os efeitos têm um grande alcance. Em muitas abordagens para a estabilização do core, a ênfase está na contração dos músculos do core com um relativo isolamento dos membros com o mundo.

Quando os membros são mobilizados, eles são primariamente usados de forma a desafiar a estabilidade, ao invés de ativá-la. Na abordagem é a interação com o mundo que ativa a estabilização do core. No movimento, como ele é experenciado, fenomenologicamente, a estabilização sempre acontece na interação com o espaço a nossa volta, com objetospessoas, através de nossos vários sentidosos pontos de contato dos nossos corpos com o mundo. O corpo se torna menos importante que o lugar de encontro do corpo com o mundo.

CENTRO DE ACUMULAÇÃO, CENTRO DA CIRCULAÇÃO

Na introdução desse texto foi apontado que através da história no Ocidenteno Oriente, o movimento de trazer o umbigo na direção da coluna foi reconhecido como um elemento chave para uma ação bem organizada. Nós exploramos a precisão que a eletromiografia tem a acrescentar à experiência. Hoje nós fomos capazes de quantificar algo que os antigos intuíram. Entretanto, como acontece com freqüência, é muito fácil perder a noção do todo enquanto perseguimos algo específico.

Algo do imaginário tradicional transmite a impressão de que o centro, o core, é um tipo de caixa, um lugar de acumulação. É a imagem do cilindro de compressão, na ?casa? da ?casa do poder?. Há um enfoque na forma do corpo. Na yoga há uma imagem similar, na qual a Jalandhara Bandha (throat lock)a Mulla Bandha (root lock) ? assoalho pélvico, são descritas como criando um vaso ou pote no centro do corpo, um lugar para o prana. As bandhas são descritas como lacres que encerram a energia no pote.

Em contraste, na tradição oriental, a qual Godard vê como mais perto da estética da dança, o centro é um espaço vazio. Na pintura chinesa a montanha está sempre parcialmente coberta pelas nuvens. Isso permite ao espectador preencher algo, participar de uma maneira ativa. Isso permite adaptação constante. Se o centro já estivesse cheio, não haveria movimento. Ao invés da forma, esse ponto de vista persegue o fluxo; ao invés de um centro de acumulação, há um centro de circulação. O movimento é uma transferência de energia entre duas direções, para cimapara baixo, céuterra. O centro mais eficiente está vazio. Visto nessa perspectiva o trabalho do sistema do transverso aparece para ajudar na transferência do movimento ? entre mãospés, entre o mundo dos objetos manipuláveisa terra que dá suporte. Hubert, de coração leve, nos repreende, neste contexto, para não ?capitalizar? nosso Chi.

NOTAS

1?Richardson, Carolyn, et al., Therapeutic Exercise for Spinal Segmental Stabilization in Low Back Pain. Churchill Livingstone, Edinburgh, 1999.

2?Major Basu, I.M.S., The Sacred Book of the Hindus, vol. XV, Part III. The Yoga Sastra: Hatha Yoga Pradipika. Published by Sudhindranatah Vasu from the Panini Office, Bhuvaneswari Asrama, Bahadurganj, Allagagad. Printed by Apurnva Krishna bose at the Indian Press, 1915.

3?Frantzis B. K., Opening the Energy Gates of Your Body. North Atlantic Books, Berkeley, 1993, p. 70.

4?Mesendieck, Bess, The Mesendieck System of Functional Exercises, Vol I. Southworth-Anthoensen Press, Portland, Maine, 1937, p.135.

5?Latey, Penelope, Journal of Bodywork and Movement Therapies, Vol 5 (4) Oct. 2001, pp. 275-282.

6?Gallagher and Kryzanowska, The Pilates Method, Bainbridge Books, Philadelphia, 1999.

7?Kendall and McCreary (Muscles Testing and Function, 3rd ed, Williams and Wilkins, Baltimore, 1983) dizem que o levar para dentro da parede abdominal acontece por causa do oblique externo, but Strohl, et al. (?Diferenças regionais na atividade do músculo abdominal durante várias manobras em humanos?, Journal of Applied Physiology 51: 1471-1476, 1981); Lacote, et al. (Clinical esvaluation of muscle function. Churchill Livingstone, Edinburg, 1987); and DeTroyer et al. (?Transversus Abdominis muscle function in humans,? Journal of Applied Physiology 68: 1010-1016, 1990) dizem que o transverse do abdomen predomina quando se leva a barriga para dentro.

8?Richardson, 1999, op. cit., p. 130.

9?Panjabi, M. ?The stabilization system of the spine?, Parts 1 and 2. Journal of Spinal Disorders 5: 383-397, 1992.

10?Richardson, 1999, op cit., p. 3

11?Ibid, p. 81

12?Bergmark A., ?Stability of the lumbar spine. A study in mechanical
engineering.? Acta Othopaedica Scandinavica, 230 (suppl): pp. 20-24.

13-Richardson, 1999, op. cit., p. 81.

14-Ibid.

15?Ibid, p. 63.

16?Este é o componente que às vezes é chamado de ?força de fechamento?.

17?Ibid.

18?Ibid, p. 96

19?Ibid, p. 95

20?Ibid, pp. 52-134.

21?Platzer, W., 1986, Locomotor System, 3rd ed. Thieme Verlag, Stuttgart, New
York, p. 106; Gorman, D., 1981, The Body Moveable, Ampersand Press, Canada, p. 75.

22?See Newton, 2003, ?Gracovetsky on Walking?. Structural Integration, Feb. 2003.

23?Richardson, 1999, op. cit., p.50.

24?Ibid, p. 81.

25?Ibid, p. 82.

26-Para mais informações sobre trabalhar com função tônica, veja minhas publicações prévias em Integração Estrutural, também disponível em www.alinenewton.com

27?Richardson, 1999, op. Cit., p. 86[:fr]SINOPSE

Esse texto introduz os conceitos envolvidos na estabilização da coluna sob duas perspectivas: uma, a pesquisa científicaa outra, uma estrutura teóricaexperimental para o entendimento do movimento baseada nos muitos anos de estudos da autora com Hubert Godard. A importância da estabilização da coluna é reconhecida há séculos por diversas culturas. Métodos de pesquisa modernos têm a disposição informações através da eletromiografia. Os aspectos mecânicosneurológicos são descritos. A estabilização da coluna envolve uma co-contração do multifidiodo transverso do abdomeparece ser uma abordagem eficaz para resolver dores lombares . A perspectiva de movimento vivido, baseada no trabalho de Godard ? Rolfista, bailarinoeducador do movimento ? salienta o envolvimento dos diafragmas na estabilização do core,sugere uma abordagem dinâmica do conceito de ?core.? Ao invés de um centro de acumulação, ele é concebido como um centro de circulação.

A autora está mais uma vez agradecidaem débito com Hubert Godard pela sua capacidade de respeitarsintetizar as contribuições da ciênciaa sabedoria da experiência.

PERSPECTIVA HISTÓRICA

Nos últimos cinco anos, o conceito de estabilização espinhal segmentar recebeu considerável atenção da pesquisa científica (1). Algumas vezes conhecido como estabilizador do ?core?, esta abordagem enfoca o papel dos músculos abdominais na reabilitaçãoprevenção de dores lombares. Embora isso pareça uma descoberta recente no mundo ocidental, a importância deste movimento básico de estabilização tem sido reconhecida através da históriaem muitas culturas.

Na prática da yoga os estudantes aprendem a aplicar a ?bandha? para selar a energia unificada da inspiraçãoda expiração. Esses movimentos sutis com freqüência precedem a prática de uma posição específica ou asana. A bandha ?uddiyana? é descrita como: ?a barriga acimaabaixo do umbigo deveria ser levada ou pressionada para trás na direção da coluna.? Ou, mais misteriosamente: ?uddiyana é assim chamada por causa do grande pássaro, Prana, atado a ela, voa sem se cansar.? O texto é de 1915, mas é claro que a posição é de muitos séculos atrás (figuras 12).

<img src=’https://novo.pedroprado.com.br/imgs/2004/723-1.jpg’>

A bandha é descrita como tendo o potencial de trazer de volta juventudevigor,o autor nos assegura que ?a pessoa pode dominar a morte se praticar isso por seis meses.? (2)

No mundo das artes marciais, na tradição chinesa, o ?tantien? baixo é achado nesta mesma área, mais ou menos cinco centímetros abaixo do umbigo. B. K. Frantzis o descreve assim; ?O tantien é a única porta, a mais importante no que concerne à saúde física. Localizado aproximadamente no centro do corpo, todas as linhas relacionadas à saúde físicabem estar conectam-se ali.? (3) Assim como com a bandha, o movimento de pressionar essa área da barriga para trás para suavizar as costas, é a chave de todos os movimentos do Tai Chi.

A mesma idéia é visível no trabalho de Bess Mesendieck, que é considerada como tendo influenciado Ida Rolf, assim como Martha Graham, entre outros. Ela descreve, por exemplo, ?O exercício de inclinar o tronco redondo para frente? (figura 3) num texto de 1937.

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?Devagar pressione para dentro o abdome contraindo a seção mais baixa do músculo abdominal, começando no ponto mais baixo da região abaixo do umbigo?. (4)

Mais familiar para nós, hoje em dia, é o trabalho de Joseph Pilates, contemporâneocompatriota de Mesendieck. A expressão de Pilates para essa área é ?casa do poder?, também chamada de ?a cintura de força?. (5,6) Através dos tempos o movimento que traz o umbigo na direção da coluna tem sido reconhecido como suporte essencial para a boa coordenaçãosaúde.

A investigação moderna desse movimento apareceu em resposta a uma patologia, especificamente o problema de dor lombar. Com a ajuda da eletromiografia, é possível descrever mais precisamente sobre o que acontece no movimento. O entendimento corrente é que o movimento de levar o umbigo na direção da coluna envolve uma contração do multifídiodo transverso do abdome, especificamente na porção abaixo do umbigo.(figura 4; figura 5) (7; 8)

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A próxima parte desse trabalho examinará a contribuição da pesquisa moderna para o entendimento desse movimento. Em seguida, numa tentativa de ampliar nossa perspectiva, vamos nos dirigir ao mundo do movimento como o vivenciamos..

MECÂNICA DA ESTABILIZAÇÃO DA COLUNA ? O QUE É ESTABILIZAÇÃO?

É comumente aceito que o que faz uma coluna ?ruim? é algum tipo de instabilidade ou desequilíbrio. Abordagens padrão para reabilitação da coluna envolvem a mobilização das articulaçõesfortalecimento muscular. Geralmente isso toma a forma de manipulação passiva das articulações com exercícios combinados como abdominais, ou extensão lombar como no sistema Mckenzie.

Em 1992, Panjabi propôs um modelo que introduziu um refinamento no entendimento de estabilização. Ao invés de olhar a articulação como ossosligamentos, Panjabi argumentou que o envolvimento muscularo controle neurológico teriam um papel importante na estabilidade articular.(9) A influência mais importante dos ligamentos aparece na amplitude final do movimento da articulação. Na amplitude média da articulação, o que Panjabi chama de zona neutra, a ação dos músculos é necessária para manter a estabilidade da articulação (figura 6).

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O modelo de Panjabi sugere que esses três aspectos ? osteoligamentar, muscularneurológico ? têm que trabalhar juntos. Entretanto, para explorá-los aqui, temos que olhar um de cada vez. Vamos falar primeiro do aspecto mecânicoentão explorar mais profundamente o papel do sistema nervoso.

O SISTEMA DE SUPORTE PROFUNDO

Estudos sobre um joelho saudável mostram que em movimento alguns músculos controlamdão suporte a posição da articulação, enquanto outros movem a articulação.(10) Embora os músculos tenham papéis diferentes em movimentos diferentes, através da eletromiografia foi possível identificar alguns músculos como primários na função de suporte. Por exemplo no joelho, o vasto medial, que é habitualmente considerado um extensor, funciona primariamente para controlardar suporte a patela durante o movimento. (11)

O comprimento das fibras dos estabilizadores não muda muito durante a duração de um movimento. Ao invés disso elas permanecem consistentemente curtas para segurar a articulação na sua zona neutra (antes do limite final onde os ligamentos são envolvidos), para ajudar a articulação a manter a sua integridade enquanto manuseamos pesos ou fazemos movimentos mais amplos.

MÚSCULOS GLOBAIS E LOCAIS

Estabilização, nesse sentido de suporte profundo, é primeiramente o papel do que Bergmark chama de músculos ?locais?, diferentes de músculos ?globais? (12). Músculos locais são habitualmente mais profundosmais próximos da articulação do que os músculos envolvidos no movimento da articulação; os músculos globais. Músculos locais também são com freqüência, inseridos diretamente nas cápsulas articulares .(13) Músculos globais são mais superficiaistendem a ser maiores. Eles são responsáveis pela transferênciaequilíbrio de cargas externaspor movimentos maiores. O comprimento dos músculos locais muda muito poucopor isso não tem um grande impacto no movimento da articulação. O trabalho dos músculos locais é primariamente estabilizar a articulação enquanto outros músculos a movem.

MULTIFÍDIO E TRANSVERSO

Dois músculos foram identificados como estabilizadores primários da coluna lombar: O multifídioo transverso do abdome. Devido a sua localização à direção de suas fibras, esses músculos controlam especificamente as articulações lombaresa sacrolombar ao invés de agir sobre a relação entre o tóraxa pelve (figura 7).

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?Referindo-se ao tronco McGill demonstrou que as fibras profundas do multifídio lombar sofrem apenas mudanças mínimas no comprimento durante o raio de ação do movimento?. Isso acontece devido à proximidade do músculo do centro das articulações das vértebras lombaressugere que este componente específico dos músculos das costas contribui minimamente para produção de movimento. Somado a isso, devido à orientação transversal das fibras musculares do transverso do abdome, biomecanicamente, ele não pode contribuir para extensão, flexão ou flexão lateral da coluna…

?Então o transverso do abdomeo multifídio, assim como o vasto medial, tem primariamente papéis que não incluem a produção de movimento.? (14)

A responsabilidade desses músculos profundos de suporte ? transverso do abdomemultifídio ? não é mover a coluna, mas estabilizá-la para que outros músculos movam o tronco sem comprometer a integridade das articulações. O transversoo multifídio são exemplos de músculos locais para a coluna lombar, enquanto o reto abdominalo oblíquo externo são exemplos de músculos globais (figura 8).

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A ativação do reto abdominal ou do externo oblíquo junta o peito à pélvis. Ao contrário, a direção das fibras do transverso é paralela às vértebras. O transverso então será capaz de agir precisamente em cada vértebra, uma de cada vez.

A co-contração do transverso, em particular da porção sub umbilical,do multifídio em cada lado da coluna vai aumentar a firmeza da coluna lombar sem interferir nos movimentos do tronco. O resultado da sua contração não interfere na rotação, na mobilidade do tronco em geral, ou com a liberdade de movimento dos membros. Na verdade, eles mal movem a coluna: eles a seguram no lugar. A co-contração dos músculos locais, profundos pode criar suporte sem restringir grandes movimentos. Na dança, yoganas artes marciais isso é importante porque permite que a pessoa fique forte na barrigalivre acima dela.

COMPONENTE NEUROLÓGICO

A eficácia de um músculo de suporte depende de um componente neurológico assim como um componente mecânico. O músculo precisa ser forte suficiente para fazer o seu trabalho de estabilizaçãotambém precisa agir na hora apropriada. No modelo de Panjabi, problemas de joelho ou dor nas costasinstabilidade foram associados a uma zona neutra muito grande, em outras palavras os músculos estabilizadores levaram muito tempo para se ativarem. Quando os músculos profundos de suporte não fazem o seu trabalho os ligamentos estão ameaçados. Vários estudos têm mostrado que a contração do transverso do abdome normalmente precede a contração dos músculos que produzem movimento dos braços ou das pernas, mais ou menos 110 ms. Um corpo saudável automaticamente usa o transverso para estabilizar a coluna antes que qualquer movimento nos membros seja iniciado. Nos pacientes com um histórico de dor lombar, a contração do transverso do abdome tinha um retardo de 50-450ms. (15) A patologia parece resultar mais de uma estabilização inadequada, do que de um problema nos músculos globais. O bom funcionamento dos músculos estabilizadores depende não só da força: depende da coordenação, do controle do sistema nervoso. O tempo é essencial: para manter a integridade da articulação eles precisam ser ativados antes dos músculos mais importantes da ação. Estabilização é pré-movimento. (16)

O PAPEL DO MULTIFÍDIO LOMBAR E DO TRANSVERSO DO ABDOME NA REABILITAÇÃO DA DOR LOMBAR

Carolyn Richardsonseus colegas na Austrália investigaram o papel desses músculos nas dores nas costasem pacientes saudáveis.(17)

No experimento de Richardson, os pesquisadores descobriram que somente 10% daqueles com histórico de dor lombar podiam ativar o transverso do abdome, comparados com 82% dos sujeitos que não tinham dor lombar. Eles descobriram que pacientes que fizeram exercícios direcionados ao transverso do abdome durante o período de 10 semanas experimentaram uma diminuição significante na dorum aumento na habilidade funcional, comparados com o grupo de controle que recebeu tratamentos convencionais como natação, musculaçãoabdominais. Na avaliação de 30 meses depois a melhora tinha sido mantida. Quanto ao multifídio foi descoberto que nos pacientes com dor nas costas o tamanho do músculo estava reduzido no segmentono lado da dor. Descobriu-se nesses estudos que, quando o tamanho do músculo era aumentado através de exercícios específicos havia incidência de recorrência de episódios de dores nas costas significantemente mais baixas.

A pesquisa de Richardson supõe que a dor nas costas aparece mais devido a função inadequada dos músculos estabilizadores do que por deficiência dos músculos globais. Uma implicação disso é que muitos programas de estabilização não são específicos o suficiente. Abdominaisexercícios de extensão lombar na maior parte das vezes, não diferenciam entre envolvimento de músculos globaislocais. Até programas intitulados ?estabilizadores do core? talvez não levem em conta esta distinção. Isto se torna problemático porque se descobriu que o desenvolvimento muito grande dos músculos globais interfere na ação do sistema de estabilização local.

O estudo de Richardson também confirma a importância do componente neurológico. Ela reporta:

?A habilidade motora que foi praticada com muita repetição, mudou o tamanho dos níveis inibidos do multifídio rapidamente em pacientes com dor aguda nas costas; em alguns pacientes em uma semana. Neste contexto, pode-se supor que o efeito do exercício não estava relacionado a uma hipertrofia do músculo, mas talvez a eventos neurais relacionados ao músculo que restabeleceu o seu tamanho assim como o controle dos segmentos lombares em questão.? (18)

Uma parte importante da reabilitação é restabelecer a seqüência apropriada dos músculos: estabilizadores locais primeiro, músculos globais depois. Os exercícios que Richardson usou no experimento têm um componente sinestésico educativo; aprender a sentir a sensação sutil do pré-movimento. Isto parece causar impacto nas conexõesno tempo de acontecimento dos eventos no sistema nervosoleva ao desenvolvimento da função de estabilização.

OUTROS MÚSCULOS ENVOLVIDOS NA ESTABILIZAÇÃO DA COLUNA

Oblíquo Interno

A parte do oblíquo interno que se insere na fáscia toracolombar será incluída como parte do sistema de estabilização. A direção das fibras é paralela às do transverso do abdomesuas inserções são com freqüência não claramente diferenciadas das do transverso (figura 9).

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Embora tecnicamente o oblíquo interno seja um músculo separado, o cérebro vai recrutar unidades motoras que podem fazer o movimento desejado sem considerar as distinções feitas pelos anatomistas. Nesse artigo nós vamos usar o termo ?sistema do transverso? para nos referir à ação combinada dos três músculos para garantir estabilidade.

O PAPEL DO ASSOALHO PÉLVICO E DO DIAFRAGMA NA ESTABILIZAÇÃO DO CORE ? O QUE É CORE?

O diafragma, o assoalho pélvicoo sistema do transverso, são com freqüência incluídos nas estruturas envolvidas na estabilização do core. Juntos esses músculos formam o que Richardson se refere como o cilindro de compressão que influencia a pressão intra-abdominal (IAP):

?Então, conceitualmente, o transverso do abdome forma as paredes de um cilindro enquanto os músculos do assoalho pélvicodiafragma formam a sua basetampa respectivamente… Há alguma evidência inicial que esses quatro músculos agem em sinergia para prover um mecanismo de suporte da coluna. Apesar disso, mais pesquisa é necessária para confirmar a relação entre esses músculos.?

O modelo de Richardson do core é de uma estrutura com limite superiorinferior com o propósito de conter o compartimento visceral. É preliminar a evidência da contribuição do assoalho pélvicodo diafragma. Na próxima seção, nós vamos explorar a idéia de Richardson,então oferecer uma alternativa.

O assoalho pélvico

Richardson relata que registros da EMG do músculo pubococcígeo indicam início similar de atividade do diafragmado transverso do abdome.

?Estudos preliminares revelaram que quando um membro se move, a contração do pubococcígeo acontece juntamente com a do transverso do abdome. Parece haver uma ligação entre esses dois músculos.? (20)

O assoalho pélvico (figura 10) é com freqüência descrito como se constituindo de dois músculos: o elevador do ânuso músculo coccígeo. O elevador do ânus consiste-se de várias partes: puboretal, iliococcígeopubococcígeo. Curiosamente, diz-se que o músculo coccígeo está ausente em alguns casos. Gorman diz, ?Ele com mais freqüência varia nas suas fibras tendíneasmusculares. Ele corresponde quase exatamente com o ligamento sacroespinhoso.? Ele pode fechar, juntamente com o piriforme, a parte posterior da abertura superior da pelve.

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Uma maneira de exemplificar a nossa experiência do assoalho pélvico é imaginá-lo como tendo a forma de um diamante que pode ser separado em dois triângulos: ou uma metade frontaluma posterior, ou um lado direitoum lado esquerdo. Pode ser considerado que o músculo coccígeo ocupe a metade de tráso elevador do ânus à frente, embora o elevador do ânus também participe do fechamento do reto.

Na prática Godard acha útil ensinar as pessoas a fazer uma leve contração somente na parte anterior do assoalho pélvico juntamente com o sistema do transverso. Quando a distinção entre frentecostas não está clara na experiência, os pacientes tendem a confundir a contração da parte posterior do assoalho pélvico com uma contração de músculos como os rotadores laterais, glúteosisquiotibiais. Isto está associado com uma contração do músculo global reto do abdomerealmente interfere com o funcionamento do sistema de estabilização do transverso. Talvez isto aconteça em parte por que a sensação de ativação dos músculos estabilizadores seja diferente da contração voluntária usual; para os inexperientes pode parecer que não está se fazendo nada. Reagindo eles com freqüência tentam com mais forçapor causa disso há o envolvimento de músculos globais cuja contração vai restringir a extensão da perna no quadril. Interferindo com o mecanismo básicoa transmissão de energia requerida para um andar eficiente. (22) Embora tecnicamente o assoalho pélvico possa tomar parte na estabilização da coluna, na prática é essencial ajudar os pacientes a sentir a diferença entre ativar músculos globaisusar os locais para que o trabalho de estabilizaçãoo trabalho de movimento permaneçam distintos.

O diafragma

Richardson também inclui o diafragma como um músculo que influencia a pressão intra-abdominalpor está razão influencia na estabilização da coluna também, embora algumas questões permaneçam:

?Quando os sujeitos fizeram uma flexão do ombro, descobrimos que ambas as porções do diafragma contraíram-se 30ms antes do deltóide, i.e. exatamente na mesma hora que ocorre a contração do transverso do abdome. É fácil ver como este sistema pode funcionar com tarefas de curta duração. Mas é desconhecido como o diafragma pode contribuir quando a demanda postural é mantidao diafragma precisa combinar os papéis de respiraçãocontrole da estabilidade.? (23)

Na perspectiva de Godard como um bailarino profissional, os músculos que trabalham na estabilizaçãoo diafragma respiratório têm funções bem diferentes. Isto se torna particularmente aparente quando o movimento como um todo é levado em consideração: o diafragma tem que estar livre para adaptar-se às necessidades da respiração. Na prática, nós não queremos encorajar segurar o diafragma respiratório por que ele fica no caminho do movimento livreeventualmente da livre expressão. Muito envolvimento do diafragma respiratório para um bailarino pode impedir seriamente a sua criatividade.

O diafragmao sistema de estabilização interagem: A citação do Sutra Pradapika, ?uddiyana é chamado assim por causa do grande pássaro, Prana, atado a ele, voa sem ficar fatigado?, pode ser entendida por uma perspectiva biomecânica. O tendão central do diafragma torna-se um ponto fixo quando o transverso trabalha. A ação da parte muscular do diafragma na inspiraçãoexpiração, então, levanta as costelas inferiores, dando a sensação de asas num vôo. Outro exemplo surge quando levantamos um objeto pesado: há com freqüência a vocalização que acompanha o momento de força intensa. Godard sugere que da mesma forma que ajuda na organização dos trabalhadores, a produção do som também ativa a crura do diafragma. Esta ação empurra o disco para frente, minimizando a compressão nos discos que resulta do carregamento de peso.

Embora o diafragmao assoalho pélvico possam contribuir em alguns momentos para o fenômeno da estabilização, é importante na teoriana prática fazer uma distinção entre o tipo, qualidadeduração da contração dos músculos do sistema do transversoas estruturas horizontais dos diafragmas. Estabilizadores podem trabalhar por um tempo longo, enquanto a função dos diafragmas é adicionar uma explosão de energia.

No modelo de Godard, no movimento, todos os diafragmas do corpo ? o respiratóriopélvico assim como o palato,também num certo sentido os arcos dos pésmãos – podem ser vistos como parte de um sistema funcional único. Agindo juntos eles dão energia a um movimento, como pular. Ao contrário o sistema do transverso pode funcionar por longos períodos de tempo durante seu trabalho de estabilização. Os diafragmas agem numa explosão de força; de certo modo eles são mais fásicos do que tônicos. No andar, um lado do assoalho pélvico se contrai enquanto o outro está abrindo. A natureza do diafragma é dinâmica. Se eles são usados para manter uma posição por um longo período, eles perderão essa habilidade dinâmica; eles não estarão livres para responder as demandas da ação.

Ao entendermos os diafragmas como um sistema dinâmico revela-se a imagem do ?core? ? removendo-se as tampas como forma de dizer. Funcionalmente, os estabilizadores podem ser ligados num tipo de sistema que se inter-relaciona. Nesse texto, até agora, nós nos focamos na atividade em volta da coluna lombar, mas na maioria das situações a estabilização está ocorrendo em múltiplas áreas ao mesmo tempo. Por exemplo, enquanto o sistema do transverso está trabalhando para dar suporte às lombares, o longo do pescoço está fazendo um trabalho similar nas vértebras cervicais. O vasto medial estabiliza a patela, enquanto o serrátil anterior age para estabilizar a escápula para os braços.

No corpo, como um todo, em movimento, esses músculos conectam-se como um sistema estabilizador através do sistema nervoso.:

?Funcionalmente, pode-se esperar que o sistema nervoso monitore continuamente a atividade nesses músculos para controlar a posição da articulação, sem levar em conta a direção do movimento. Desta maneira, esses músculos dão suporte localizado para a articulação, enquanto, independentemente, os músculos que produzem um maior torque controlam a aceleraçãoparadas de movimento da articulação.? (24)

?O controle do contínuo recrutamento muscular para estabilidade da articulação depende não somente de padrões motores pré-programados do córtex, mas também do estado do sistema de ?feedback? que emana do ?input? sinestésico. O sistema de?feedback? é complexorelaciona-se com os receptores nos músculos que provém informação contínua ao sistema nervoso central (SNC), no que diz respeito ao comprimentotensão sendo gerada no músculo?. (25)

Através da intercomunicação dos neurônios gamma motoresos fusos musculares, a tensão (resistência à mudança de comprimento) de cada fibra muscular é continuamente monitoradaajustada. A função de estabilização também está acontecendo em relação à manutenção do equilíbrio na gravidade em todo corpo ? o que Godard chama de função tônica ?em relação ao nosso próprio senso proprioceptivo, como nos localizamos. Godard sugere que uma estratégia eficiente para acessar o sistema de estabilização é trabalhar com a função tônica na relação com a nossa sensação de peso, sensação do espaço, nosso senso de orientação. (26)

No modelo de Godard, nós usamos a estimulação de sensações nas mãospés em exercícios em cadeia fechada para ajudar a iniciar a atividade do sistema de estabilização. Mesmo que a estabilização seja funcionalmente necessária nos movimentos em cadeia aberta (o final distal está livreo final proximal está fixo)em cadeia fechada (o final distal está fixo o final proximal está em movimento), Richardson cita evidências dos estudos sobre reabilitação de joelhos em que exercícios em cadeia fechada são mais eficazes para reabilitação dos músculos estabilizadores. (27) O perigo em potencial dos exercícios em cadeia fechada é provocar compressão articular excessiva.

Quando fazemos o exercício simples de transferir o peso das mãos para os pés,dos pés para as mãos na pose do cachorro modificada ou no movimento de Empurrar as Mãos, ou num dos exercícios no Reformer do Pilates onde mãospés estão carregando peso (e.g. O Elefante, o Alongamento Longo, Alongamento Para Baixo), o foco na consciência entre pelemãos ou pés ou o que quer que seja que eles estejam em contato. Estimulando sensações nas extremidades ? em relação com o mundo a nossa volta ? nós ajudamos no movimento ativando sucessivamente os estabilizadores: da terra, através dos pés ao transverso, das mãos na mesa, ou das mãos na barra do Reformer, através do serrátil anterior ao transverso,de volta ao chão. Dessa maneira, nós recrutamos os estabilizadores como um sistema global em relação com o mundo.

Ao mesmo tempo, nós mantemos um sentido de orientação no espaçopeso, uma sensação de direções opostas. Esta ação ajuda a criar uma sensação de movimento ?excêntrico? ? no sentido de ?para fora do centro?, ao invés de ?concêntrico?, – concentrado ? tensão. O foco em duas direções opostas ajuda a minimizar uma possível compressão num movimento em cadeia fechada.

Embora as distinções pareçam sutis, os efeitos têm um grande alcance. Em muitas abordagens para a estabilização do core, a ênfase está na contração dos músculos do core com um relativo isolamento dos membros com o mundo.

Quando os membros são mobilizados, eles são primariamente usados de forma a desafiar a estabilidade, ao invés de ativá-la. Na abordagem é a interação com o mundo que ativa a estabilização do core. No movimento, como ele é experenciado, fenomenologicamente, a estabilização sempre acontece na interação com o espaço a nossa volta, com objetospessoas, através de nossos vários sentidosos pontos de contato dos nossos corpos com o mundo. O corpo se torna menos importante que o lugar de encontro do corpo com o mundo.

CENTRO DE ACUMULAÇÃO, CENTRO DA CIRCULAÇÃO

Na introdução desse texto foi apontado que através da história no Ocidenteno Oriente, o movimento de trazer o umbigo na direção da coluna foi reconhecido como um elemento chave para uma ação bem organizada. Nós exploramos a precisão que a eletromiografia tem a acrescentar à experiência. Hoje nós fomos capazes de quantificar algo que os antigos intuíram. Entretanto, como acontece com freqüência, é muito fácil perder a noção do todo enquanto perseguimos algo específico.

Algo do imaginário tradicional transmite a impressão de que o centro, o core, é um tipo de caixa, um lugar de acumulação. É a imagem do cilindro de compressão, na ?casa? da ?casa do poder?. Há um enfoque na forma do corpo. Na yoga há uma imagem similar, na qual a Jalandhara Bandha (throat lock)a Mulla Bandha (root lock) ? assoalho pélvico, são descritas como criando um vaso ou pote no centro do corpo, um lugar para o prana. As bandhas são descritas como lacres que encerram a energia no pote.

Em contraste, na tradição oriental, a qual Godard vê como mais perto da estética da dança, o centro é um espaço vazio. Na pintura chinesa a montanha está sempre parcialmente coberta pelas nuvens. Isso permite ao espectador preencher algo, participar de uma maneira ativa. Isso permite adaptação constante. Se o centro já estivesse cheio, não haveria movimento. Ao invés da forma, esse ponto de vista persegue o fluxo; ao invés de um centro de acumulação, há um centro de circulação. O movimento é uma transferência de energia entre duas direções, para cimapara baixo, céuterra. O centro mais eficiente está vazio. Visto nessa perspectiva o trabalho do sistema do transverso aparece para ajudar na transferência do movimento ? entre mãospés, entre o mundo dos objetos manipuláveisa terra que dá suporte. Hubert, de coração leve, nos repreende, neste contexto, para não ?capitalizar? nosso Chi.

NOTAS

1?Richardson, Carolyn, et al., Therapeutic Exercise for Spinal Segmental Stabilization in Low Back Pain. Churchill Livingstone, Edinburgh, 1999.

2?Major Basu, I.M.S., The Sacred Book of the Hindus, vol. XV, Part III. The Yoga Sastra: Hatha Yoga Pradipika. Published by Sudhindranatah Vasu from the Panini Office, Bhuvaneswari Asrama, Bahadurganj, Allagagad. Printed by Apurnva Krishna bose at the Indian Press, 1915.

3?Frantzis B. K., Opening the Energy Gates of Your Body. North Atlantic Books, Berkeley, 1993, p. 70.

4?Mesendieck, Bess, The Mesendieck System of Functional Exercises, Vol I. Southworth-Anthoensen Press, Portland, Maine, 1937, p.135.

5?Latey, Penelope, Journal of Bodywork and Movement Therapies, Vol 5 (4) Oct. 2001, pp. 275-282.

6?Gallagher and Kryzanowska, The Pilates Method, Bainbridge Books, Philadelphia, 1999.

7?Kendall and McCreary (Muscles Testing and Function, 3rd ed, Williams and Wilkins, Baltimore, 1983) dizem que o levar para dentro da parede abdominal acontece por causa do oblique externo, but Strohl, et al. (?Diferenças regionais na atividade do músculo abdominal durante várias manobras em humanos?, Journal of Applied Physiology 51: 1471-1476, 1981); Lacote, et al. (Clinical esvaluation of muscle function. Churchill Livingstone, Edinburg, 1987); and DeTroyer et al. (?Transversus Abdominis muscle function in humans,? Journal of Applied Physiology 68: 1010-1016, 1990) dizem que o transverse do abdomen predomina quando se leva a barriga para dentro.

8?Richardson, 1999, op. cit., p. 130.

9?Panjabi, M. ?The stabilization system of the spine?, Parts 1 and 2. Journal of Spinal Disorders 5: 383-397, 1992.

10?Richardson, 1999, op cit., p. 3

11?Ibid, p. 81

12?Bergmark A., ?Stability of the lumbar spine. A study in mechanical
engineering.? Acta Othopaedica Scandinavica, 230 (suppl): pp. 20-24.

13-Richardson, 1999, op. cit., p. 81.

14-Ibid.

15?Ibid, p. 63.

16?Este é o componente que às vezes é chamado de ?força de fechamento?.

17?Ibid.

18?Ibid, p. 96

19?Ibid, p. 95

20?Ibid, pp. 52-134.

21?Platzer, W., 1986, Locomotor System, 3rd ed. Thieme Verlag, Stuttgart, New
York, p. 106; Gorman, D., 1981, The Body Moveable, Ampersand Press, Canada, p. 75.

22?See Newton, 2003, ?Gracovetsky on Walking?. Structural Integration, Feb. 2003.

23?Richardson, 1999, op. cit., p.50.

24?Ibid, p. 81.

25?Ibid, p. 82.

26-Para mais informações sobre trabalhar com função tônica, veja minhas publicações prévias em Integração Estrutural, também disponível em www.alinenewton.com

27?Richardson, 1999, op. Cit., p. 86[:es]SINOPSE

Esse texto introduz os conceitos envolvidos na estabilização da coluna sob duas perspectivas: uma, a pesquisa científicaa outra, uma estrutura teóricaexperimental para o entendimento do movimento baseada nos muitos anos de estudos da autora com Hubert Godard. A importância da estabilização da coluna é reconhecida há séculos por diversas culturas. Métodos de pesquisa modernos têm a disposição informações através da eletromiografia. Os aspectos mecânicosneurológicos são descritos. A estabilização da coluna envolve uma co-contração do multifidiodo transverso do abdomeparece ser uma abordagem eficaz para resolver dores lombares . A perspectiva de movimento vivido, baseada no trabalho de Godard ? Rolfista, bailarinoeducador do movimento ? salienta o envolvimento dos diafragmas na estabilização do core,sugere uma abordagem dinâmica do conceito de ?core.? Ao invés de um centro de acumulação, ele é concebido como um centro de circulação.

A autora está mais uma vez agradecidaem débito com Hubert Godard pela sua capacidade de respeitarsintetizar as contribuições da ciênciaa sabedoria da experiência.

PERSPECTIVA HISTÓRICA

Nos últimos cinco anos, o conceito de estabilização espinhal segmentar recebeu considerável atenção da pesquisa científica (1). Algumas vezes conhecido como estabilizador do ?core?, esta abordagem enfoca o papel dos músculos abdominais na reabilitaçãoprevenção de dores lombares. Embora isso pareça uma descoberta recente no mundo ocidental, a importância deste movimento básico de estabilização tem sido reconhecida através da históriaem muitas culturas.

Na prática da yoga os estudantes aprendem a aplicar a ?bandha? para selar a energia unificada da inspiraçãoda expiração. Esses movimentos sutis com freqüência precedem a prática de uma posição específica ou asana. A bandha ?uddiyana? é descrita como: ?a barriga acimaabaixo do umbigo deveria ser levada ou pressionada para trás na direção da coluna.? Ou, mais misteriosamente: ?uddiyana é assim chamada por causa do grande pássaro, Prana, atado a ela, voa sem se cansar.? O texto é de 1915, mas é claro que a posição é de muitos séculos atrás (figuras 12).

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A bandha é descrita como tendo o potencial de trazer de volta juventudevigor,o autor nos assegura que ?a pessoa pode dominar a morte se praticar isso por seis meses.? (2)

No mundo das artes marciais, na tradição chinesa, o ?tantien? baixo é achado nesta mesma área, mais ou menos cinco centímetros abaixo do umbigo. B. K. Frantzis o descreve assim; ?O tantien é a única porta, a mais importante no que concerne à saúde física. Localizado aproximadamente no centro do corpo, todas as linhas relacionadas à saúde físicabem estar conectam-se ali.? (3) Assim como com a bandha, o movimento de pressionar essa área da barriga para trás para suavizar as costas, é a chave de todos os movimentos do Tai Chi.

A mesma idéia é visível no trabalho de Bess Mesendieck, que é considerada como tendo influenciado Ida Rolf, assim como Martha Graham, entre outros. Ela descreve, por exemplo, ?O exercício de inclinar o tronco redondo para frente? (figura 3) num texto de 1937.

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?Devagar pressione para dentro o abdome contraindo a seção mais baixa do músculo abdominal, começando no ponto mais baixo da região abaixo do umbigo?. (4)

Mais familiar para nós, hoje em dia, é o trabalho de Joseph Pilates, contemporâneocompatriota de Mesendieck. A expressão de Pilates para essa área é ?casa do poder?, também chamada de ?a cintura de força?. (5,6) Através dos tempos o movimento que traz o umbigo na direção da coluna tem sido reconhecido como suporte essencial para a boa coordenaçãosaúde.

A investigação moderna desse movimento apareceu em resposta a uma patologia, especificamente o problema de dor lombar. Com a ajuda da eletromiografia, é possível descrever mais precisamente sobre o que acontece no movimento. O entendimento corrente é que o movimento de levar o umbigo na direção da coluna envolve uma contração do multifídiodo transverso do abdome, especificamente na porção abaixo do umbigo.(figura 4; figura 5) (7; 8)

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A próxima parte desse trabalho examinará a contribuição da pesquisa moderna para o entendimento desse movimento. Em seguida, numa tentativa de ampliar nossa perspectiva, vamos nos dirigir ao mundo do movimento como o vivenciamos..

MECÂNICA DA ESTABILIZAÇÃO DA COLUNA ? O QUE É ESTABILIZAÇÃO?

É comumente aceito que o que faz uma coluna ?ruim? é algum tipo de instabilidade ou desequilíbrio. Abordagens padrão para reabilitação da coluna envolvem a mobilização das articulaçõesfortalecimento muscular. Geralmente isso toma a forma de manipulação passiva das articulações com exercícios combinados como abdominais, ou extensão lombar como no sistema Mckenzie.

Em 1992, Panjabi propôs um modelo que introduziu um refinamento no entendimento de estabilização. Ao invés de olhar a articulação como ossosligamentos, Panjabi argumentou que o envolvimento muscularo controle neurológico teriam um papel importante na estabilidade articular.(9) A influência mais importante dos ligamentos aparece na amplitude final do movimento da articulação. Na amplitude média da articulação, o que Panjabi chama de zona neutra, a ação dos músculos é necessária para manter a estabilidade da articulação (figura 6).

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O modelo de Panjabi sugere que esses três aspectos ? osteoligamentar, muscularneurológico ? têm que trabalhar juntos. Entretanto, para explorá-los aqui, temos que olhar um de cada vez. Vamos falar primeiro do aspecto mecânicoentão explorar mais profundamente o papel do sistema nervoso.

O SISTEMA DE SUPORTE PROFUNDO

Estudos sobre um joelho saudável mostram que em movimento alguns músculos controlamdão suporte a posição da articulação, enquanto outros movem a articulação.(10) Embora os músculos tenham papéis diferentes em movimentos diferentes, através da eletromiografia foi possível identificar alguns músculos como primários na função de suporte. Por exemplo no joelho, o vasto medial, que é habitualmente considerado um extensor, funciona primariamente para controlardar suporte a patela durante o movimento. (11)

O comprimento das fibras dos estabilizadores não muda muito durante a duração de um movimento. Ao invés disso elas permanecem consistentemente curtas para segurar a articulação na sua zona neutra (antes do limite final onde os ligamentos são envolvidos), para ajudar a articulação a manter a sua integridade enquanto manuseamos pesos ou fazemos movimentos mais amplos.

MÚSCULOS GLOBAIS E LOCAIS

Estabilização, nesse sentido de suporte profundo, é primeiramente o papel do que Bergmark chama de músculos ?locais?, diferentes de músculos ?globais? (12). Músculos locais são habitualmente mais profundosmais próximos da articulação do que os músculos envolvidos no movimento da articulação; os músculos globais. Músculos locais também são com freqüência, inseridos diretamente nas cápsulas articulares .(13) Músculos globais são mais superficiaistendem a ser maiores. Eles são responsáveis pela transferênciaequilíbrio de cargas externaspor movimentos maiores. O comprimento dos músculos locais muda muito poucopor isso não tem um grande impacto no movimento da articulação. O trabalho dos músculos locais é primariamente estabilizar a articulação enquanto outros músculos a movem.

MULTIFÍDIO E TRANSVERSO

Dois músculos foram identificados como estabilizadores primários da coluna lombar: O multifídioo transverso do abdome. Devido a sua localização à direção de suas fibras, esses músculos controlam especificamente as articulações lombaresa sacrolombar ao invés de agir sobre a relação entre o tóraxa pelve (figura 7).

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?Referindo-se ao tronco McGill demonstrou que as fibras profundas do multifídio lombar sofrem apenas mudanças mínimas no comprimento durante o raio de ação do movimento?. Isso acontece devido à proximidade do músculo do centro das articulações das vértebras lombaressugere que este componente específico dos músculos das costas contribui minimamente para produção de movimento. Somado a isso, devido à orientação transversal das fibras musculares do transverso do abdome, biomecanicamente, ele não pode contribuir para extensão, flexão ou flexão lateral da coluna…

?Então o transverso do abdomeo multifídio, assim como o vasto medial, tem primariamente papéis que não incluem a produção de movimento.? (14)

A responsabilidade desses músculos profundos de suporte ? transverso do abdomemultifídio ? não é mover a coluna, mas estabilizá-la para que outros músculos movam o tronco sem comprometer a integridade das articulações. O transversoo multifídio são exemplos de músculos locais para a coluna lombar, enquanto o reto abdominalo oblíquo externo são exemplos de músculos globais (figura 8).

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A ativação do reto abdominal ou do externo oblíquo junta o peito à pélvis. Ao contrário, a direção das fibras do transverso é paralela às vértebras. O transverso então será capaz de agir precisamente em cada vértebra, uma de cada vez.

A co-contração do transverso, em particular da porção sub umbilical,do multifídio em cada lado da coluna vai aumentar a firmeza da coluna lombar sem interferir nos movimentos do tronco. O resultado da sua contração não interfere na rotação, na mobilidade do tronco em geral, ou com a liberdade de movimento dos membros. Na verdade, eles mal movem a coluna: eles a seguram no lugar. A co-contração dos músculos locais, profundos pode criar suporte sem restringir grandes movimentos. Na dança, yoganas artes marciais isso é importante porque permite que a pessoa fique forte na barrigalivre acima dela.

COMPONENTE NEUROLÓGICO

A eficácia de um músculo de suporte depende de um componente neurológico assim como um componente mecânico. O músculo precisa ser forte suficiente para fazer o seu trabalho de estabilizaçãotambém precisa agir na hora apropriada. No modelo de Panjabi, problemas de joelho ou dor nas costasinstabilidade foram associados a uma zona neutra muito grande, em outras palavras os músculos estabilizadores levaram muito tempo para se ativarem. Quando os músculos profundos de suporte não fazem o seu trabalho os ligamentos estão ameaçados. Vários estudos têm mostrado que a contração do transverso do abdome normalmente precede a contração dos músculos que produzem movimento dos braços ou das pernas, mais ou menos 110 ms. Um corpo saudável automaticamente usa o transverso para estabilizar a coluna antes que qualquer movimento nos membros seja iniciado. Nos pacientes com um histórico de dor lombar, a contração do transverso do abdome tinha um retardo de 50-450ms. (15) A patologia parece resultar mais de uma estabilização inadequada, do que de um problema nos músculos globais. O bom funcionamento dos músculos estabilizadores depende não só da força: depende da coordenação, do controle do sistema nervoso. O tempo é essencial: para manter a integridade da articulação eles precisam ser ativados antes dos músculos mais importantes da ação. Estabilização é pré-movimento. (16)

O PAPEL DO MULTIFÍDIO LOMBAR E DO TRANSVERSO DO ABDOME NA REABILITAÇÃO DA DOR LOMBAR

Carolyn Richardsonseus colegas na Austrália investigaram o papel desses músculos nas dores nas costasem pacientes saudáveis.(17)

No experimento de Richardson, os pesquisadores descobriram que somente 10% daqueles com histórico de dor lombar podiam ativar o transverso do abdome, comparados com 82% dos sujeitos que não tinham dor lombar. Eles descobriram que pacientes que fizeram exercícios direcionados ao transverso do abdome durante o período de 10 semanas experimentaram uma diminuição significante na dorum aumento na habilidade funcional, comparados com o grupo de controle que recebeu tratamentos convencionais como natação, musculaçãoabdominais. Na avaliação de 30 meses depois a melhora tinha sido mantida. Quanto ao multifídio foi descoberto que nos pacientes com dor nas costas o tamanho do músculo estava reduzido no segmentono lado da dor. Descobriu-se nesses estudos que, quando o tamanho do músculo era aumentado através de exercícios específicos havia incidência de recorrência de episódios de dores nas costas significantemente mais baixas.

A pesquisa de Richardson supõe que a dor nas costas aparece mais devido a função inadequada dos músculos estabilizadores do que por deficiência dos músculos globais. Uma implicação disso é que muitos programas de estabilização não são específicos o suficiente. Abdominaisexercícios de extensão lombar na maior parte das vezes, não diferenciam entre envolvimento de músculos globaislocais. Até programas intitulados ?estabilizadores do core? talvez não levem em conta esta distinção. Isto se torna problemático porque se descobriu que o desenvolvimento muito grande dos músculos globais interfere na ação do sistema de estabilização local.

O estudo de Richardson também confirma a importância do componente neurológico. Ela reporta:

?A habilidade motora que foi praticada com muita repetição, mudou o tamanho dos níveis inibidos do multifídio rapidamente em pacientes com dor aguda nas costas; em alguns pacientes em uma semana. Neste contexto, pode-se supor que o efeito do exercício não estava relacionado a uma hipertrofia do músculo, mas talvez a eventos neurais relacionados ao músculo que restabeleceu o seu tamanho assim como o controle dos segmentos lombares em questão.? (18)

Uma parte importante da reabilitação é restabelecer a seqüência apropriada dos músculos: estabilizadores locais primeiro, músculos globais depois. Os exercícios que Richardson usou no experimento têm um componente sinestésico educativo; aprender a sentir a sensação sutil do pré-movimento. Isto parece causar impacto nas conexõesno tempo de acontecimento dos eventos no sistema nervosoleva ao desenvolvimento da função de estabilização.

OUTROS MÚSCULOS ENVOLVIDOS NA ESTABILIZAÇÃO DA COLUNA

Oblíquo Interno

A parte do oblíquo interno que se insere na fáscia toracolombar será incluída como parte do sistema de estabilização. A direção das fibras é paralela às do transverso do abdomesuas inserções são com freqüência não claramente diferenciadas das do transverso (figura 9).

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Embora tecnicamente o oblíquo interno seja um músculo separado, o cérebro vai recrutar unidades motoras que podem fazer o movimento desejado sem considerar as distinções feitas pelos anatomistas. Nesse artigo nós vamos usar o termo ?sistema do transverso? para nos referir à ação combinada dos três músculos para garantir estabilidade.

O PAPEL DO ASSOALHO PÉLVICO E DO DIAFRAGMA NA ESTABILIZAÇÃO DO CORE ? O QUE É CORE?

O diafragma, o assoalho pélvicoo sistema do transverso, são com freqüência incluídos nas estruturas envolvidas na estabilização do core. Juntos esses músculos formam o que Richardson se refere como o cilindro de compressão que influencia a pressão intra-abdominal (IAP):

?Então, conceitualmente, o transverso do abdome forma as paredes de um cilindro enquanto os músculos do assoalho pélvicodiafragma formam a sua basetampa respectivamente… Há alguma evidência inicial que esses quatro músculos agem em sinergia para prover um mecanismo de suporte da coluna. Apesar disso, mais pesquisa é necessária para confirmar a relação entre esses músculos.?

O modelo de Richardson do core é de uma estrutura com limite superiorinferior com o propósito de conter o compartimento visceral. É preliminar a evidência da contribuição do assoalho pélvicodo diafragma. Na próxima seção, nós vamos explorar a idéia de Richardson,então oferecer uma alternativa.

O assoalho pélvico

Richardson relata que registros da EMG do músculo pubococcígeo indicam início similar de atividade do diafragmado transverso do abdome.

?Estudos preliminares revelaram que quando um membro se move, a contração do pubococcígeo acontece juntamente com a do transverso do abdome. Parece haver uma ligação entre esses dois músculos.? (20)

O assoalho pélvico (figura 10) é com freqüência descrito como se constituindo de dois músculos: o elevador do ânuso músculo coccígeo. O elevador do ânus consiste-se de várias partes: puboretal, iliococcígeopubococcígeo. Curiosamente, diz-se que o músculo coccígeo está ausente em alguns casos. Gorman diz, ?Ele com mais freqüência varia nas suas fibras tendíneasmusculares. Ele corresponde quase exatamente com o ligamento sacroespinhoso.? Ele pode fechar, juntamente com o piriforme, a parte posterior da abertura superior da pelve.

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Uma maneira de exemplificar a nossa experiência do assoalho pélvico é imaginá-lo como tendo a forma de um diamante que pode ser separado em dois triângulos: ou uma metade frontaluma posterior, ou um lado direitoum lado esquerdo. Pode ser considerado que o músculo coccígeo ocupe a metade de tráso elevador do ânus à frente, embora o elevador do ânus também participe do fechamento do reto.

Na prática Godard acha útil ensinar as pessoas a fazer uma leve contração somente na parte anterior do assoalho pélvico juntamente com o sistema do transverso. Quando a distinção entre frentecostas não está clara na experiência, os pacientes tendem a confundir a contração da parte posterior do assoalho pélvico com uma contração de músculos como os rotadores laterais, glúteosisquiotibiais. Isto está associado com uma contração do músculo global reto do abdomerealmente interfere com o funcionamento do sistema de estabilização do transverso. Talvez isto aconteça em parte por que a sensação de ativação dos músculos estabilizadores seja diferente da contração voluntária usual; para os inexperientes pode parecer que não está se fazendo nada. Reagindo eles com freqüência tentam com mais forçapor causa disso há o envolvimento de músculos globais cuja contração vai restringir a extensão da perna no quadril. Interferindo com o mecanismo básicoa transmissão de energia requerida para um andar eficiente. (22) Embora tecnicamente o assoalho pélvico possa tomar parte na estabilização da coluna, na prática é essencial ajudar os pacientes a sentir a diferença entre ativar músculos globaisusar os locais para que o trabalho de estabilizaçãoo trabalho de movimento permaneçam distintos.

O diafragma

Richardson também inclui o diafragma como um músculo que influencia a pressão intra-abdominalpor está razão influencia na estabilização da coluna também, embora algumas questões permaneçam:

?Quando os sujeitos fizeram uma flexão do ombro, descobrimos que ambas as porções do diafragma contraíram-se 30ms antes do deltóide, i.e. exatamente na mesma hora que ocorre a contração do transverso do abdome. É fácil ver como este sistema pode funcionar com tarefas de curta duração. Mas é desconhecido como o diafragma pode contribuir quando a demanda postural é mantidao diafragma precisa combinar os papéis de respiraçãocontrole da estabilidade.? (23)

Na perspectiva de Godard como um bailarino profissional, os músculos que trabalham na estabilizaçãoo diafragma respiratório têm funções bem diferentes. Isto se torna particularmente aparente quando o movimento como um todo é levado em consideração: o diafragma tem que estar livre para adaptar-se às necessidades da respiração. Na prática, nós não queremos encorajar segurar o diafragma respiratório por que ele fica no caminho do movimento livreeventualmente da livre expressão. Muito envolvimento do diafragma respiratório para um bailarino pode impedir seriamente a sua criatividade.

O diafragmao sistema de estabilização interagem: A citação do Sutra Pradapika, ?uddiyana é chamado assim por causa do grande pássaro, Prana, atado a ele, voa sem ficar fatigado?, pode ser entendida por uma perspectiva biomecânica. O tendão central do diafragma torna-se um ponto fixo quando o transverso trabalha. A ação da parte muscular do diafragma na inspiraçãoexpiração, então, levanta as costelas inferiores, dando a sensação de asas num vôo. Outro exemplo surge quando levantamos um objeto pesado: há com freqüência a vocalização que acompanha o momento de força intensa. Godard sugere que da mesma forma que ajuda na organização dos trabalhadores, a produção do som também ativa a crura do diafragma. Esta ação empurra o disco para frente, minimizando a compressão nos discos que resulta do carregamento de peso.

Embora o diafragmao assoalho pélvico possam contribuir em alguns momentos para o fenômeno da estabilização, é importante na teoriana prática fazer uma distinção entre o tipo, qualidadeduração da contração dos músculos do sistema do transversoas estruturas horizontais dos diafragmas. Estabilizadores podem trabalhar por um tempo longo, enquanto a função dos diafragmas é adicionar uma explosão de energia.

No modelo de Godard, no movimento, todos os diafragmas do corpo ? o respiratóriopélvico assim como o palato,também num certo sentido os arcos dos pésmãos – podem ser vistos como parte de um sistema funcional único. Agindo juntos eles dão energia a um movimento, como pular. Ao contrário o sistema do transverso pode funcionar por longos períodos de tempo durante seu trabalho de estabilização. Os diafragmas agem numa explosão de força; de certo modo eles são mais fásicos do que tônicos. No andar, um lado do assoalho pélvico se contrai enquanto o outro está abrindo. A natureza do diafragma é dinâmica. Se eles são usados para manter uma posição por um longo período, eles perderão essa habilidade dinâmica; eles não estarão livres para responder as demandas da ação.

Ao entendermos os diafragmas como um sistema dinâmico revela-se a imagem do ?core? ? removendo-se as tampas como forma de dizer. Funcionalmente, os estabilizadores podem ser ligados num tipo de sistema que se inter-relaciona. Nesse texto, até agora, nós nos focamos na atividade em volta da coluna lombar, mas na maioria das situações a estabilização está ocorrendo em múltiplas áreas ao mesmo tempo. Por exemplo, enquanto o sistema do transverso está trabalhando para dar suporte às lombares, o longo do pescoço está fazendo um trabalho similar nas vértebras cervicais. O vasto medial estabiliza a patela, enquanto o serrátil anterior age para estabilizar a escápula para os braços.

No corpo, como um todo, em movimento, esses músculos conectam-se como um sistema estabilizador através do sistema nervoso.:

?Funcionalmente, pode-se esperar que o sistema nervoso monitore continuamente a atividade nesses músculos para controlar a posição da articulação, sem levar em conta a direção do movimento. Desta maneira, esses músculos dão suporte localizado para a articulação, enquanto, independentemente, os músculos que produzem um maior torque controlam a aceleraçãoparadas de movimento da articulação.? (24)

?O controle do contínuo recrutamento muscular para estabilidade da articulação depende não somente de padrões motores pré-programados do córtex, mas também do estado do sistema de ?feedback? que emana do ?input? sinestésico. O sistema de?feedback? é complexorelaciona-se com os receptores nos músculos que provém informação contínua ao sistema nervoso central (SNC), no que diz respeito ao comprimentotensão sendo gerada no músculo?. (25)

Através da intercomunicação dos neurônios gamma motoresos fusos musculares, a tensão (resistência à mudança de comprimento) de cada fibra muscular é continuamente monitoradaajustada. A função de estabilização também está acontecendo em relação à manutenção do equilíbrio na gravidade em todo corpo ? o que Godard chama de função tônica ?em relação ao nosso próprio senso proprioceptivo, como nos localizamos. Godard sugere que uma estratégia eficiente para acessar o sistema de estabilização é trabalhar com a função tônica na relação com a nossa sensação de peso, sensação do espaço, nosso senso de orientação. (26)

No modelo de Godard, nós usamos a estimulação de sensações nas mãospés em exercícios em cadeia fechada para ajudar a iniciar a atividade do sistema de estabilização. Mesmo que a estabilização seja funcionalmente necessária nos movimentos em cadeia aberta (o final distal está livreo final proximal está fixo)em cadeia fechada (o final distal está fixo o final proximal está em movimento), Richardson cita evidências dos estudos sobre reabilitação de joelhos em que exercícios em cadeia fechada são mais eficazes para reabilitação dos músculos estabilizadores. (27) O perigo em potencial dos exercícios em cadeia fechada é provocar compressão articular excessiva.

Quando fazemos o exercício simples de transferir o peso das mãos para os pés,dos pés para as mãos na pose do cachorro modificada ou no movimento de Empurrar as Mãos, ou num dos exercícios no Reformer do Pilates onde mãospés estão carregando peso (e.g. O Elefante, o Alongamento Longo, Alongamento Para Baixo), o foco na consciência entre pelemãos ou pés ou o que quer que seja que eles estejam em contato. Estimulando sensações nas extremidades ? em relação com o mundo a nossa volta ? nós ajudamos no movimento ativando sucessivamente os estabilizadores: da terra, através dos pés ao transverso, das mãos na mesa, ou das mãos na barra do Reformer, através do serrátil anterior ao transverso,de volta ao chão. Dessa maneira, nós recrutamos os estabilizadores como um sistema global em relação com o mundo.

Ao mesmo tempo, nós mantemos um sentido de orientação no espaçopeso, uma sensação de direções opostas. Esta ação ajuda a criar uma sensação de movimento ?excêntrico? ? no sentido de ?para fora do centro?, ao invés de ?concêntrico?, – concentrado ? tensão. O foco em duas direções opostas ajuda a minimizar uma possível compressão num movimento em cadeia fechada.

Embora as distinções pareçam sutis, os efeitos têm um grande alcance. Em muitas abordagens para a estabilização do core, a ênfase está na contração dos músculos do core com um relativo isolamento dos membros com o mundo.

Quando os membros são mobilizados, eles são primariamente usados de forma a desafiar a estabilidade, ao invés de ativá-la. Na abordagem é a interação com o mundo que ativa a estabilização do core. No movimento, como ele é experenciado, fenomenologicamente, a estabilização sempre acontece na interação com o espaço a nossa volta, com objetospessoas, através de nossos vários sentidosos pontos de contato dos nossos corpos com o mundo. O corpo se torna menos importante que o lugar de encontro do corpo com o mundo.

CENTRO DE ACUMULAÇÃO, CENTRO DA CIRCULAÇÃO

Na introdução desse texto foi apontado que através da história no Ocidenteno Oriente, o movimento de trazer o umbigo na direção da coluna foi reconhecido como um elemento chave para uma ação bem organizada. Nós exploramos a precisão que a eletromiografia tem a acrescentar à experiência. Hoje nós fomos capazes de quantificar algo que os antigos intuíram. Entretanto, como acontece com freqüência, é muito fácil perder a noção do todo enquanto perseguimos algo específico.

Algo do imaginário tradicional transmite a impressão de que o centro, o core, é um tipo de caixa, um lugar de acumulação. É a imagem do cilindro de compressão, na ?casa? da ?casa do poder?. Há um enfoque na forma do corpo. Na yoga há uma imagem similar, na qual a Jalandhara Bandha (throat lock)a Mulla Bandha (root lock) ? assoalho pélvico, são descritas como criando um vaso ou pote no centro do corpo, um lugar para o prana. As bandhas são descritas como lacres que encerram a energia no pote.

Em contraste, na tradição oriental, a qual Godard vê como mais perto da estética da dança, o centro é um espaço vazio. Na pintura chinesa a montanha está sempre parcialmente coberta pelas nuvens. Isso permite ao espectador preencher algo, participar de uma maneira ativa. Isso permite adaptação constante. Se o centro já estivesse cheio, não haveria movimento. Ao invés da forma, esse ponto de vista persegue o fluxo; ao invés de um centro de acumulação, há um centro de circulação. O movimento é uma transferência de energia entre duas direções, para cimapara baixo, céuterra. O centro mais eficiente está vazio. Visto nessa perspectiva o trabalho do sistema do transverso aparece para ajudar na transferência do movimento ? entre mãospés, entre o mundo dos objetos manipuláveisa terra que dá suporte. Hubert, de coração leve, nos repreende, neste contexto, para não ?capitalizar? nosso Chi.

NOTAS

1?Richardson, Carolyn, et al., Therapeutic Exercise for Spinal Segmental Stabilization in Low Back Pain. Churchill Livingstone, Edinburgh, 1999.

2?Major Basu, I.M.S., The Sacred Book of the Hindus, vol. XV, Part III. The Yoga Sastra: Hatha Yoga Pradipika. Published by Sudhindranatah Vasu from the Panini Office, Bhuvaneswari Asrama, Bahadurganj, Allagagad. Printed by Apurnva Krishna bose at the Indian Press, 1915.

3?Frantzis B. K., Opening the Energy Gates of Your Body. North Atlantic Books, Berkeley, 1993, p. 70.

4?Mesendieck, Bess, The Mesendieck System of Functional Exercises, Vol I. Southworth-Anthoensen Press, Portland, Maine, 1937, p.135.

5?Latey, Penelope, Journal of Bodywork and Movement Therapies, Vol 5 (4) Oct. 2001, pp. 275-282.

6?Gallagher and Kryzanowska, The Pilates Method, Bainbridge Books, Philadelphia, 1999.

7?Kendall and McCreary (Muscles Testing and Function, 3rd ed, Williams and Wilkins, Baltimore, 1983) dizem que o levar para dentro da parede abdominal acontece por causa do oblique externo, but Strohl, et al. (?Diferenças regionais na atividade do músculo abdominal durante várias manobras em humanos?, Journal of Applied Physiology 51: 1471-1476, 1981); Lacote, et al. (Clinical esvaluation of muscle function. Churchill Livingstone, Edinburg, 1987); and DeTroyer et al. (?Transversus Abdominis muscle function in humans,? Journal of Applied Physiology 68: 1010-1016, 1990) dizem que o transverse do abdomen predomina quando se leva a barriga para dentro.

8?Richardson, 1999, op. cit., p. 130.

9?Panjabi, M. ?The stabilization system of the spine?, Parts 1 and 2. Journal of Spinal Disorders 5: 383-397, 1992.

10?Richardson, 1999, op cit., p. 3

11?Ibid, p. 81

12?Bergmark A., ?Stability of the lumbar spine. A study in mechanical
engineering.? Acta Othopaedica Scandinavica, 230 (suppl): pp. 20-24.

13-Richardson, 1999, op. cit., p. 81.

14-Ibid.

15?Ibid, p. 63.

16?Este é o componente que às vezes é chamado de ?força de fechamento?.

17?Ibid.

18?Ibid, p. 96

19?Ibid, p. 95

20?Ibid, pp. 52-134.

21?Platzer, W., 1986, Locomotor System, 3rd ed. Thieme Verlag, Stuttgart, New
York, p. 106; Gorman, D., 1981, The Body Moveable, Ampersand Press, Canada, p. 75.

22?See Newton, 2003, ?Gracovetsky on Walking?. Structural Integration, Feb. 2003.

23?Richardson, 1999, op. cit., p.50.

24?Ibid, p. 81.

25?Ibid, p. 82.

26-Para mais informações sobre trabalhar com função tônica, veja minhas publicações prévias em Integração Estrutural, também disponível em www.alinenewton.com

27?Richardson, 1999, op. Cit., p. 86[:ja]SINOPSE

Esse texto introduz os conceitos envolvidos na estabilização da coluna sob duas perspectivas: uma, a pesquisa científicaa outra, uma estrutura teóricaexperimental para o entendimento do movimento baseada nos muitos anos de estudos da autora com Hubert Godard. A importância da estabilização da coluna é reconhecida há séculos por diversas culturas. Métodos de pesquisa modernos têm a disposição informações através da eletromiografia. Os aspectos mecânicosneurológicos são descritos. A estabilização da coluna envolve uma co-contração do multifidiodo transverso do abdomeparece ser uma abordagem eficaz para resolver dores lombares . A perspectiva de movimento vivido, baseada no trabalho de Godard ? Rolfista, bailarinoeducador do movimento ? salienta o envolvimento dos diafragmas na estabilização do core,sugere uma abordagem dinâmica do conceito de ?core.? Ao invés de um centro de acumulação, ele é concebido como um centro de circulação.

A autora está mais uma vez agradecidaem débito com Hubert Godard pela sua capacidade de respeitarsintetizar as contribuições da ciênciaa sabedoria da experiência.

PERSPECTIVA HISTÓRICA

Nos últimos cinco anos, o conceito de estabilização espinhal segmentar recebeu considerável atenção da pesquisa científica (1). Algumas vezes conhecido como estabilizador do ?core?, esta abordagem enfoca o papel dos músculos abdominais na reabilitaçãoprevenção de dores lombares. Embora isso pareça uma descoberta recente no mundo ocidental, a importância deste movimento básico de estabilização tem sido reconhecida através da históriaem muitas culturas.

Na prática da yoga os estudantes aprendem a aplicar a ?bandha? para selar a energia unificada da inspiraçãoda expiração. Esses movimentos sutis com freqüência precedem a prática de uma posição específica ou asana. A bandha ?uddiyana? é descrita como: ?a barriga acimaabaixo do umbigo deveria ser levada ou pressionada para trás na direção da coluna.? Ou, mais misteriosamente: ?uddiyana é assim chamada por causa do grande pássaro, Prana, atado a ela, voa sem se cansar.? O texto é de 1915, mas é claro que a posição é de muitos séculos atrás (figuras 12).

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A bandha é descrita como tendo o potencial de trazer de volta juventudevigor,o autor nos assegura que ?a pessoa pode dominar a morte se praticar isso por seis meses.? (2)

No mundo das artes marciais, na tradição chinesa, o ?tantien? baixo é achado nesta mesma área, mais ou menos cinco centímetros abaixo do umbigo. B. K. Frantzis o descreve assim; ?O tantien é a única porta, a mais importante no que concerne à saúde física. Localizado aproximadamente no centro do corpo, todas as linhas relacionadas à saúde físicabem estar conectam-se ali.? (3) Assim como com a bandha, o movimento de pressionar essa área da barriga para trás para suavizar as costas, é a chave de todos os movimentos do Tai Chi.

A mesma idéia é visível no trabalho de Bess Mesendieck, que é considerada como tendo influenciado Ida Rolf, assim como Martha Graham, entre outros. Ela descreve, por exemplo, ?O exercício de inclinar o tronco redondo para frente? (figura 3) num texto de 1937.

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?Devagar pressione para dentro o abdome contraindo a seção mais baixa do músculo abdominal, começando no ponto mais baixo da região abaixo do umbigo?. (4)

Mais familiar para nós, hoje em dia, é o trabalho de Joseph Pilates, contemporâneocompatriota de Mesendieck. A expressão de Pilates para essa área é ?casa do poder?, também chamada de ?a cintura de força?. (5,6) Através dos tempos o movimento que traz o umbigo na direção da coluna tem sido reconhecido como suporte essencial para a boa coordenaçãosaúde.

A investigação moderna desse movimento apareceu em resposta a uma patologia, especificamente o problema de dor lombar. Com a ajuda da eletromiografia, é possível descrever mais precisamente sobre o que acontece no movimento. O entendimento corrente é que o movimento de levar o umbigo na direção da coluna envolve uma contração do multifídiodo transverso do abdome, especificamente na porção abaixo do umbigo.(figura 4; figura 5) (7; 8)

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A próxima parte desse trabalho examinará a contribuição da pesquisa moderna para o entendimento desse movimento. Em seguida, numa tentativa de ampliar nossa perspectiva, vamos nos dirigir ao mundo do movimento como o vivenciamos..

MECÂNICA DA ESTABILIZAÇÃO DA COLUNA ? O QUE É ESTABILIZAÇÃO?

É comumente aceito que o que faz uma coluna ?ruim? é algum tipo de instabilidade ou desequilíbrio. Abordagens padrão para reabilitação da coluna envolvem a mobilização das articulaçõesfortalecimento muscular. Geralmente isso toma a forma de manipulação passiva das articulações com exercícios combinados como abdominais, ou extensão lombar como no sistema Mckenzie.

Em 1992, Panjabi propôs um modelo que introduziu um refinamento no entendimento de estabilização. Ao invés de olhar a articulação como ossosligamentos, Panjabi argumentou que o envolvimento muscularo controle neurológico teriam um papel importante na estabilidade articular.(9) A influência mais importante dos ligamentos aparece na amplitude final do movimento da articulação. Na amplitude média da articulação, o que Panjabi chama de zona neutra, a ação dos músculos é necessária para manter a estabilidade da articulação (figura 6).

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O modelo de Panjabi sugere que esses três aspectos ? osteoligamentar, muscularneurológico ? têm que trabalhar juntos. Entretanto, para explorá-los aqui, temos que olhar um de cada vez. Vamos falar primeiro do aspecto mecânicoentão explorar mais profundamente o papel do sistema nervoso.

O SISTEMA DE SUPORTE PROFUNDO

Estudos sobre um joelho saudável mostram que em movimento alguns músculos controlamdão suporte a posição da articulação, enquanto outros movem a articulação.(10) Embora os músculos tenham papéis diferentes em movimentos diferentes, através da eletromiografia foi possível identificar alguns músculos como primários na função de suporte. Por exemplo no joelho, o vasto medial, que é habitualmente considerado um extensor, funciona primariamente para controlardar suporte a patela durante o movimento. (11)

O comprimento das fibras dos estabilizadores não muda muito durante a duração de um movimento. Ao invés disso elas permanecem consistentemente curtas para segurar a articulação na sua zona neutra (antes do limite final onde os ligamentos são envolvidos), para ajudar a articulação a manter a sua integridade enquanto manuseamos pesos ou fazemos movimentos mais amplos.

MÚSCULOS GLOBAIS E LOCAIS

Estabilização, nesse sentido de suporte profundo, é primeiramente o papel do que Bergmark chama de músculos ?locais?, diferentes de músculos ?globais? (12). Músculos locais são habitualmente mais profundosmais próximos da articulação do que os músculos envolvidos no movimento da articulação; os músculos globais. Músculos locais também são com freqüência, inseridos diretamente nas cápsulas articulares .(13) Músculos globais são mais superficiaistendem a ser maiores. Eles são responsáveis pela transferênciaequilíbrio de cargas externaspor movimentos maiores. O comprimento dos músculos locais muda muito poucopor isso não tem um grande impacto no movimento da articulação. O trabalho dos músculos locais é primariamente estabilizar a articulação enquanto outros músculos a movem.

MULTIFÍDIO E TRANSVERSO

Dois músculos foram identificados como estabilizadores primários da coluna lombar: O multifídioo transverso do abdome. Devido a sua localização à direção de suas fibras, esses músculos controlam especificamente as articulações lombaresa sacrolombar ao invés de agir sobre a relação entre o tóraxa pelve (figura 7).

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?Referindo-se ao tronco McGill demonstrou que as fibras profundas do multifídio lombar sofrem apenas mudanças mínimas no comprimento durante o raio de ação do movimento?. Isso acontece devido à proximidade do músculo do centro das articulações das vértebras lombaressugere que este componente específico dos músculos das costas contribui minimamente para produção de movimento. Somado a isso, devido à orientação transversal das fibras musculares do transverso do abdome, biomecanicamente, ele não pode contribuir para extensão, flexão ou flexão lateral da coluna…

?Então o transverso do abdomeo multifídio, assim como o vasto medial, tem primariamente papéis que não incluem a produção de movimento.? (14)

A responsabilidade desses músculos profundos de suporte ? transverso do abdomemultifídio ? não é mover a coluna, mas estabilizá-la para que outros músculos movam o tronco sem comprometer a integridade das articulações. O transversoo multifídio são exemplos de músculos locais para a coluna lombar, enquanto o reto abdominalo oblíquo externo são exemplos de músculos globais (figura 8).

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A ativação do reto abdominal ou do externo oblíquo junta o peito à pélvis. Ao contrário, a direção das fibras do transverso é paralela às vértebras. O transverso então será capaz de agir precisamente em cada vértebra, uma de cada vez.

A co-contração do transverso, em particular da porção sub umbilical,do multifídio em cada lado da coluna vai aumentar a firmeza da coluna lombar sem interferir nos movimentos do tronco. O resultado da sua contração não interfere na rotação, na mobilidade do tronco em geral, ou com a liberdade de movimento dos membros. Na verdade, eles mal movem a coluna: eles a seguram no lugar. A co-contração dos músculos locais, profundos pode criar suporte sem restringir grandes movimentos. Na dança, yoganas artes marciais isso é importante porque permite que a pessoa fique forte na barrigalivre acima dela.

COMPONENTE NEUROLÓGICO

A eficácia de um músculo de suporte depende de um componente neurológico assim como um componente mecânico. O músculo precisa ser forte suficiente para fazer o seu trabalho de estabilizaçãotambém precisa agir na hora apropriada. No modelo de Panjabi, problemas de joelho ou dor nas costasinstabilidade foram associados a uma zona neutra muito grande, em outras palavras os músculos estabilizadores levaram muito tempo para se ativarem. Quando os músculos profundos de suporte não fazem o seu trabalho os ligamentos estão ameaçados. Vários estudos têm mostrado que a contração do transverso do abdome normalmente precede a contração dos músculos que produzem movimento dos braços ou das pernas, mais ou menos 110 ms. Um corpo saudável automaticamente usa o transverso para estabilizar a coluna antes que qualquer movimento nos membros seja iniciado. Nos pacientes com um histórico de dor lombar, a contração do transverso do abdome tinha um retardo de 50-450ms. (15) A patologia parece resultar mais de uma estabilização inadequada, do que de um problema nos músculos globais. O bom funcionamento dos músculos estabilizadores depende não só da força: depende da coordenação, do controle do sistema nervoso. O tempo é essencial: para manter a integridade da articulação eles precisam ser ativados antes dos músculos mais importantes da ação. Estabilização é pré-movimento. (16)

O PAPEL DO MULTIFÍDIO LOMBAR E DO TRANSVERSO DO ABDOME NA REABILITAÇÃO DA DOR LOMBAR

Carolyn Richardsonseus colegas na Austrália investigaram o papel desses músculos nas dores nas costasem pacientes saudáveis.(17)

No experimento de Richardson, os pesquisadores descobriram que somente 10% daqueles com histórico de dor lombar podiam ativar o transverso do abdome, comparados com 82% dos sujeitos que não tinham dor lombar. Eles descobriram que pacientes que fizeram exercícios direcionados ao transverso do abdome durante o período de 10 semanas experimentaram uma diminuição significante na dorum aumento na habilidade funcional, comparados com o grupo de controle que recebeu tratamentos convencionais como natação, musculaçãoabdominais. Na avaliação de 30 meses depois a melhora tinha sido mantida. Quanto ao multifídio foi descoberto que nos pacientes com dor nas costas o tamanho do músculo estava reduzido no segmentono lado da dor. Descobriu-se nesses estudos que, quando o tamanho do músculo era aumentado através de exercícios específicos havia incidência de recorrência de episódios de dores nas costas significantemente mais baixas.

A pesquisa de Richardson supõe que a dor nas costas aparece mais devido a função inadequada dos músculos estabilizadores do que por deficiência dos músculos globais. Uma implicação disso é que muitos programas de estabilização não são específicos o suficiente. Abdominaisexercícios de extensão lombar na maior parte das vezes, não diferenciam entre envolvimento de músculos globaislocais. Até programas intitulados ?estabilizadores do core? talvez não levem em conta esta distinção. Isto se torna problemático porque se descobriu que o desenvolvimento muito grande dos músculos globais interfere na ação do sistema de estabilização local.

O estudo de Richardson também confirma a importância do componente neurológico. Ela reporta:

?A habilidade motora que foi praticada com muita repetição, mudou o tamanho dos níveis inibidos do multifídio rapidamente em pacientes com dor aguda nas costas; em alguns pacientes em uma semana. Neste contexto, pode-se supor que o efeito do exercício não estava relacionado a uma hipertrofia do músculo, mas talvez a eventos neurais relacionados ao músculo que restabeleceu o seu tamanho assim como o controle dos segmentos lombares em questão.? (18)

Uma parte importante da reabilitação é restabelecer a seqüência apropriada dos músculos: estabilizadores locais primeiro, músculos globais depois. Os exercícios que Richardson usou no experimento têm um componente sinestésico educativo; aprender a sentir a sensação sutil do pré-movimento. Isto parece causar impacto nas conexõesno tempo de acontecimento dos eventos no sistema nervosoleva ao desenvolvimento da função de estabilização.

OUTROS MÚSCULOS ENVOLVIDOS NA ESTABILIZAÇÃO DA COLUNA

Oblíquo Interno

A parte do oblíquo interno que se insere na fáscia toracolombar será incluída como parte do sistema de estabilização. A direção das fibras é paralela às do transverso do abdomesuas inserções são com freqüência não claramente diferenciadas das do transverso (figura 9).

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Embora tecnicamente o oblíquo interno seja um músculo separado, o cérebro vai recrutar unidades motoras que podem fazer o movimento desejado sem considerar as distinções feitas pelos anatomistas. Nesse artigo nós vamos usar o termo ?sistema do transverso? para nos referir à ação combinada dos três músculos para garantir estabilidade.

O PAPEL DO ASSOALHO PÉLVICO E DO DIAFRAGMA NA ESTABILIZAÇÃO DO CORE ? O QUE É CORE?

O diafragma, o assoalho pélvicoo sistema do transverso, são com freqüência incluídos nas estruturas envolvidas na estabilização do core. Juntos esses músculos formam o que Richardson se refere como o cilindro de compressão que influencia a pressão intra-abdominal (IAP):

?Então, conceitualmente, o transverso do abdome forma as paredes de um cilindro enquanto os músculos do assoalho pélvicodiafragma formam a sua basetampa respectivamente… Há alguma evidência inicial que esses quatro músculos agem em sinergia para prover um mecanismo de suporte da coluna. Apesar disso, mais pesquisa é necessária para confirmar a relação entre esses músculos.?

O modelo de Richardson do core é de uma estrutura com limite superiorinferior com o propósito de conter o compartimento visceral. É preliminar a evidência da contribuição do assoalho pélvicodo diafragma. Na próxima seção, nós vamos explorar a idéia de Richardson,então oferecer uma alternativa.

O assoalho pélvico

Richardson relata que registros da EMG do músculo pubococcígeo indicam início similar de atividade do diafragmado transverso do abdome.

?Estudos preliminares revelaram que quando um membro se move, a contração do pubococcígeo acontece juntamente com a do transverso do abdome. Parece haver uma ligação entre esses dois músculos.? (20)

O assoalho pélvico (figura 10) é com freqüência descrito como se constituindo de dois músculos: o elevador do ânuso músculo coccígeo. O elevador do ânus consiste-se de várias partes: puboretal, iliococcígeopubococcígeo. Curiosamente, diz-se que o músculo coccígeo está ausente em alguns casos. Gorman diz, ?Ele com mais freqüência varia nas suas fibras tendíneasmusculares. Ele corresponde quase exatamente com o ligamento sacroespinhoso.? Ele pode fechar, juntamente com o piriforme, a parte posterior da abertura superior da pelve.

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Uma maneira de exemplificar a nossa experiência do assoalho pélvico é imaginá-lo como tendo a forma de um diamante que pode ser separado em dois triângulos: ou uma metade frontaluma posterior, ou um lado direitoum lado esquerdo. Pode ser considerado que o músculo coccígeo ocupe a metade de tráso elevador do ânus à frente, embora o elevador do ânus também participe do fechamento do reto.

Na prática Godard acha útil ensinar as pessoas a fazer uma leve contração somente na parte anterior do assoalho pélvico juntamente com o sistema do transverso. Quando a distinção entre frentecostas não está clara na experiência, os pacientes tendem a confundir a contração da parte posterior do assoalho pélvico com uma contração de músculos como os rotadores laterais, glúteosisquiotibiais. Isto está associado com uma contração do músculo global reto do abdomerealmente interfere com o funcionamento do sistema de estabilização do transverso. Talvez isto aconteça em parte por que a sensação de ativação dos músculos estabilizadores seja diferente da contração voluntária usual; para os inexperientes pode parecer que não está se fazendo nada. Reagindo eles com freqüência tentam com mais forçapor causa disso há o envolvimento de músculos globais cuja contração vai restringir a extensão da perna no quadril. Interferindo com o mecanismo básicoa transmissão de energia requerida para um andar eficiente. (22) Embora tecnicamente o assoalho pélvico possa tomar parte na estabilização da coluna, na prática é essencial ajudar os pacientes a sentir a diferença entre ativar músculos globaisusar os locais para que o trabalho de estabilizaçãoo trabalho de movimento permaneçam distintos.

O diafragma

Richardson também inclui o diafragma como um músculo que influencia a pressão intra-abdominalpor está razão influencia na estabilização da coluna também, embora algumas questões permaneçam:

?Quando os sujeitos fizeram uma flexão do ombro, descobrimos que ambas as porções do diafragma contraíram-se 30ms antes do deltóide, i.e. exatamente na mesma hora que ocorre a contração do transverso do abdome. É fácil ver como este sistema pode funcionar com tarefas de curta duração. Mas é desconhecido como o diafragma pode contribuir quando a demanda postural é mantidao diafragma precisa combinar os papéis de respiraçãocontrole da estabilidade.? (23)

Na perspectiva de Godard como um bailarino profissional, os músculos que trabalham na estabilizaçãoo diafragma respiratório têm funções bem diferentes. Isto se torna particularmente aparente quando o movimento como um todo é levado em consideração: o diafragma tem que estar livre para adaptar-se às necessidades da respiração. Na prática, nós não queremos encorajar segurar o diafragma respiratório por que ele fica no caminho do movimento livreeventualmente da livre expressão. Muito envolvimento do diafragma respiratório para um bailarino pode impedir seriamente a sua criatividade.

O diafragmao sistema de estabilização interagem: A citação do Sutra Pradapika, ?uddiyana é chamado assim por causa do grande pássaro, Prana, atado a ele, voa sem ficar fatigado?, pode ser entendida por uma perspectiva biomecânica. O tendão central do diafragma torna-se um ponto fixo quando o transverso trabalha. A ação da parte muscular do diafragma na inspiraçãoexpiração, então, levanta as costelas inferiores, dando a sensação de asas num vôo. Outro exemplo surge quando levantamos um objeto pesado: há com freqüência a vocalização que acompanha o momento de força intensa. Godard sugere que da mesma forma que ajuda na organização dos trabalhadores, a produção do som também ativa a crura do diafragma. Esta ação empurra o disco para frente, minimizando a compressão nos discos que resulta do carregamento de peso.

Embora o diafragmao assoalho pélvico possam contribuir em alguns momentos para o fenômeno da estabilização, é importante na teoriana prática fazer uma distinção entre o tipo, qualidadeduração da contração dos músculos do sistema do transversoas estruturas horizontais dos diafragmas. Estabilizadores podem trabalhar por um tempo longo, enquanto a função dos diafragmas é adicionar uma explosão de energia.

No modelo de Godard, no movimento, todos os diafragmas do corpo ? o respiratóriopélvico assim como o palato,também num certo sentido os arcos dos pésmãos – podem ser vistos como parte de um sistema funcional único. Agindo juntos eles dão energia a um movimento, como pular. Ao contrário o sistema do transverso pode funcionar por longos períodos de tempo durante seu trabalho de estabilização. Os diafragmas agem numa explosão de força; de certo modo eles são mais fásicos do que tônicos. No andar, um lado do assoalho pélvico se contrai enquanto o outro está abrindo. A natureza do diafragma é dinâmica. Se eles são usados para manter uma posição por um longo período, eles perderão essa habilidade dinâmica; eles não estarão livres para responder as demandas da ação.

Ao entendermos os diafragmas como um sistema dinâmico revela-se a imagem do ?core? ? removendo-se as tampas como forma de dizer. Funcionalmente, os estabilizadores podem ser ligados num tipo de sistema que se inter-relaciona. Nesse texto, até agora, nós nos focamos na atividade em volta da coluna lombar, mas na maioria das situações a estabilização está ocorrendo em múltiplas áreas ao mesmo tempo. Por exemplo, enquanto o sistema do transverso está trabalhando para dar suporte às lombares, o longo do pescoço está fazendo um trabalho similar nas vértebras cervicais. O vasto medial estabiliza a patela, enquanto o serrátil anterior age para estabilizar a escápula para os braços.

No corpo, como um todo, em movimento, esses músculos conectam-se como um sistema estabilizador através do sistema nervoso.:

?Funcionalmente, pode-se esperar que o sistema nervoso monitore continuamente a atividade nesses músculos para controlar a posição da articulação, sem levar em conta a direção do movimento. Desta maneira, esses músculos dão suporte localizado para a articulação, enquanto, independentemente, os músculos que produzem um maior torque controlam a aceleraçãoparadas de movimento da articulação.? (24)

?O controle do contínuo recrutamento muscular para estabilidade da articulação depende não somente de padrões motores pré-programados do córtex, mas também do estado do sistema de ?feedback? que emana do ?input? sinestésico. O sistema de?feedback? é complexorelaciona-se com os receptores nos músculos que provém informação contínua ao sistema nervoso central (SNC), no que diz respeito ao comprimentotensão sendo gerada no músculo?. (25)

Através da intercomunicação dos neurônios gamma motoresos fusos musculares, a tensão (resistência à mudança de comprimento) de cada fibra muscular é continuamente monitoradaajustada. A função de estabilização também está acontecendo em relação à manutenção do equilíbrio na gravidade em todo corpo ? o que Godard chama de função tônica ?em relação ao nosso próprio senso proprioceptivo, como nos localizamos. Godard sugere que uma estratégia eficiente para acessar o sistema de estabilização é trabalhar com a função tônica na relação com a nossa sensação de peso, sensação do espaço, nosso senso de orientação. (26)

No modelo de Godard, nós usamos a estimulação de sensações nas mãospés em exercícios em cadeia fechada para ajudar a iniciar a atividade do sistema de estabilização. Mesmo que a estabilização seja funcionalmente necessária nos movimentos em cadeia aberta (o final distal está livreo final proximal está fixo)em cadeia fechada (o final distal está fixo o final proximal está em movimento), Richardson cita evidências dos estudos sobre reabilitação de joelhos em que exercícios em cadeia fechada são mais eficazes para reabilitação dos músculos estabilizadores. (27) O perigo em potencial dos exercícios em cadeia fechada é provocar compressão articular excessiva.

Quando fazemos o exercício simples de transferir o peso das mãos para os pés,dos pés para as mãos na pose do cachorro modificada ou no movimento de Empurrar as Mãos, ou num dos exercícios no Reformer do Pilates onde mãospés estão carregando peso (e.g. O Elefante, o Alongamento Longo, Alongamento Para Baixo), o foco na consciência entre pelemãos ou pés ou o que quer que seja que eles estejam em contato. Estimulando sensações nas extremidades ? em relação com o mundo a nossa volta ? nós ajudamos no movimento ativando sucessivamente os estabilizadores: da terra, através dos pés ao transverso, das mãos na mesa, ou das mãos na barra do Reformer, através do serrátil anterior ao transverso,de volta ao chão. Dessa maneira, nós recrutamos os estabilizadores como um sistema global em relação com o mundo.

Ao mesmo tempo, nós mantemos um sentido de orientação no espaçopeso, uma sensação de direções opostas. Esta ação ajuda a criar uma sensação de movimento ?excêntrico? ? no sentido de ?para fora do centro?, ao invés de ?concêntrico?, – concentrado ? tensão. O foco em duas direções opostas ajuda a minimizar uma possível compressão num movimento em cadeia fechada.

Embora as distinções pareçam sutis, os efeitos têm um grande alcance. Em muitas abordagens para a estabilização do core, a ênfase está na contração dos músculos do core com um relativo isolamento dos membros com o mundo.

Quando os membros são mobilizados, eles são primariamente usados de forma a desafiar a estabilidade, ao invés de ativá-la. Na abordagem é a interação com o mundo que ativa a estabilização do core. No movimento, como ele é experenciado, fenomenologicamente, a estabilização sempre acontece na interação com o espaço a nossa volta, com objetospessoas, através de nossos vários sentidosos pontos de contato dos nossos corpos com o mundo. O corpo se torna menos importante que o lugar de encontro do corpo com o mundo.

CENTRO DE ACUMULAÇÃO, CENTRO DA CIRCULAÇÃO

Na introdução desse texto foi apontado que através da história no Ocidenteno Oriente, o movimento de trazer o umbigo na direção da coluna foi reconhecido como um elemento chave para uma ação bem organizada. Nós exploramos a precisão que a eletromiografia tem a acrescentar à experiência. Hoje nós fomos capazes de quantificar algo que os antigos intuíram. Entretanto, como acontece com freqüência, é muito fácil perder a noção do todo enquanto perseguimos algo específico.

Algo do imaginário tradicional transmite a impressão de que o centro, o core, é um tipo de caixa, um lugar de acumulação. É a imagem do cilindro de compressão, na ?casa? da ?casa do poder?. Há um enfoque na forma do corpo. Na yoga há uma imagem similar, na qual a Jalandhara Bandha (throat lock)a Mulla Bandha (root lock) ? assoalho pélvico, são descritas como criando um vaso ou pote no centro do corpo, um lugar para o prana. As bandhas são descritas como lacres que encerram a energia no pote.

Em contraste, na tradição oriental, a qual Godard vê como mais perto da estética da dança, o centro é um espaço vazio. Na pintura chinesa a montanha está sempre parcialmente coberta pelas nuvens. Isso permite ao espectador preencher algo, participar de uma maneira ativa. Isso permite adaptação constante. Se o centro já estivesse cheio, não haveria movimento. Ao invés da forma, esse ponto de vista persegue o fluxo; ao invés de um centro de acumulação, há um centro de circulação. O movimento é uma transferência de energia entre duas direções, para cimapara baixo, céuterra. O centro mais eficiente está vazio. Visto nessa perspectiva o trabalho do sistema do transverso aparece para ajudar na transferência do movimento ? entre mãospés, entre o mundo dos objetos manipuláveisa terra que dá suporte. Hubert, de coração leve, nos repreende, neste contexto, para não ?capitalizar? nosso Chi.

NOTAS

1?Richardson, Carolyn, et al., Therapeutic Exercise for Spinal Segmental Stabilization in Low Back Pain. Churchill Livingstone, Edinburgh, 1999.

2?Major Basu, I.M.S., The Sacred Book of the Hindus, vol. XV, Part III. The Yoga Sastra: Hatha Yoga Pradipika. Published by Sudhindranatah Vasu from the Panini Office, Bhuvaneswari Asrama, Bahadurganj, Allagagad. Printed by Apurnva Krishna bose at the Indian Press, 1915.

3?Frantzis B. K., Opening the Energy Gates of Your Body. North Atlantic Books, Berkeley, 1993, p. 70.

4?Mesendieck, Bess, The Mesendieck System of Functional Exercises, Vol I. Southworth-Anthoensen Press, Portland, Maine, 1937, p.135.

5?Latey, Penelope, Journal of Bodywork and Movement Therapies, Vol 5 (4) Oct. 2001, pp. 275-282.

6?Gallagher and Kryzanowska, The Pilates Method, Bainbridge Books, Philadelphia, 1999.

7?Kendall and McCreary (Muscles Testing and Function, 3rd ed, Williams and Wilkins, Baltimore, 1983) dizem que o levar para dentro da parede abdominal acontece por causa do oblique externo, but Strohl, et al. (?Diferenças regionais na atividade do músculo abdominal durante várias manobras em humanos?, Journal of Applied Physiology 51: 1471-1476, 1981); Lacote, et al. (Clinical esvaluation of muscle function. Churchill Livingstone, Edinburg, 1987); and DeTroyer et al. (?Transversus Abdominis muscle function in humans,? Journal of Applied Physiology 68: 1010-1016, 1990) dizem que o transverse do abdomen predomina quando se leva a barriga para dentro.

8?Richardson, 1999, op. cit., p. 130.

9?Panjabi, M. ?The stabilization system of the spine?, Parts 1 and 2. Journal of Spinal Disorders 5: 383-397, 1992.

10?Richardson, 1999, op cit., p. 3

11?Ibid, p. 81

12?Bergmark A., ?Stability of the lumbar spine. A study in mechanical
engineering.? Acta Othopaedica Scandinavica, 230 (suppl): pp. 20-24.

13-Richardson, 1999, op. cit., p. 81.

14-Ibid.

15?Ibid, p. 63.

16?Este é o componente que às vezes é chamado de ?força de fechamento?.

17?Ibid.

18?Ibid, p. 96

19?Ibid, p. 95

20?Ibid, pp. 52-134.

21?Platzer, W., 1986, Locomotor System, 3rd ed. Thieme Verlag, Stuttgart, New
York, p. 106; Gorman, D., 1981, The Body Moveable, Ampersand Press, Canada, p. 75.

22?See Newton, 2003, ?Gracovetsky on Walking?. Structural Integration, Feb. 2003.

23?Richardson, 1999, op. cit., p.50.

24?Ibid, p. 81.

25?Ibid, p. 82.

26-Para mais informações sobre trabalhar com função tônica, veja minhas publicações prévias em Integração Estrutural, também disponível em www.alinenewton.com

27?Richardson, 1999, op. Cit., p. 86[:it]SINOPSE

Esse texto introduz os conceitos envolvidos na estabilização da coluna sob duas perspectivas: uma, a pesquisa científicaa outra, uma estrutura teóricaexperimental para o entendimento do movimento baseada nos muitos anos de estudos da autora com Hubert Godard. A importância da estabilização da coluna é reconhecida há séculos por diversas culturas. Métodos de pesquisa modernos têm a disposição informações através da eletromiografia. Os aspectos mecânicosneurológicos são descritos. A estabilização da coluna envolve uma co-contração do multifidiodo transverso do abdomeparece ser uma abordagem eficaz para resolver dores lombares . A perspectiva de movimento vivido, baseada no trabalho de Godard ? Rolfista, bailarinoeducador do movimento ? salienta o envolvimento dos diafragmas na estabilização do core,sugere uma abordagem dinâmica do conceito de ?core.? Ao invés de um centro de acumulação, ele é concebido como um centro de circulação.

A autora está mais uma vez agradecidaem débito com Hubert Godard pela sua capacidade de respeitarsintetizar as contribuições da ciênciaa sabedoria da experiência.

PERSPECTIVA HISTÓRICA

Nos últimos cinco anos, o conceito de estabilização espinhal segmentar recebeu considerável atenção da pesquisa científica (1). Algumas vezes conhecido como estabilizador do ?core?, esta abordagem enfoca o papel dos músculos abdominais na reabilitaçãoprevenção de dores lombares. Embora isso pareça uma descoberta recente no mundo ocidental, a importância deste movimento básico de estabilização tem sido reconhecida através da históriaem muitas culturas.

Na prática da yoga os estudantes aprendem a aplicar a ?bandha? para selar a energia unificada da inspiraçãoda expiração. Esses movimentos sutis com freqüência precedem a prática de uma posição específica ou asana. A bandha ?uddiyana? é descrita como: ?a barriga acimaabaixo do umbigo deveria ser levada ou pressionada para trás na direção da coluna.? Ou, mais misteriosamente: ?uddiyana é assim chamada por causa do grande pássaro, Prana, atado a ela, voa sem se cansar.? O texto é de 1915, mas é claro que a posição é de muitos séculos atrás (figuras 12).

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A bandha é descrita como tendo o potencial de trazer de volta juventudevigor,o autor nos assegura que ?a pessoa pode dominar a morte se praticar isso por seis meses.? (2)

No mundo das artes marciais, na tradição chinesa, o ?tantien? baixo é achado nesta mesma área, mais ou menos cinco centímetros abaixo do umbigo. B. K. Frantzis o descreve assim; ?O tantien é a única porta, a mais importante no que concerne à saúde física. Localizado aproximadamente no centro do corpo, todas as linhas relacionadas à saúde físicabem estar conectam-se ali.? (3) Assim como com a bandha, o movimento de pressionar essa área da barriga para trás para suavizar as costas, é a chave de todos os movimentos do Tai Chi.

A mesma idéia é visível no trabalho de Bess Mesendieck, que é considerada como tendo influenciado Ida Rolf, assim como Martha Graham, entre outros. Ela descreve, por exemplo, ?O exercício de inclinar o tronco redondo para frente? (figura 3) num texto de 1937.

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?Devagar pressione para dentro o abdome contraindo a seção mais baixa do músculo abdominal, começando no ponto mais baixo da região abaixo do umbigo?. (4)

Mais familiar para nós, hoje em dia, é o trabalho de Joseph Pilates, contemporâneocompatriota de Mesendieck. A expressão de Pilates para essa área é ?casa do poder?, também chamada de ?a cintura de força?. (5,6) Através dos tempos o movimento que traz o umbigo na direção da coluna tem sido reconhecido como suporte essencial para a boa coordenaçãosaúde.

A investigação moderna desse movimento apareceu em resposta a uma patologia, especificamente o problema de dor lombar. Com a ajuda da eletromiografia, é possível descrever mais precisamente sobre o que acontece no movimento. O entendimento corrente é que o movimento de levar o umbigo na direção da coluna envolve uma contração do multifídiodo transverso do abdome, especificamente na porção abaixo do umbigo.(figura 4; figura 5) (7; 8)

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A próxima parte desse trabalho examinará a contribuição da pesquisa moderna para o entendimento desse movimento. Em seguida, numa tentativa de ampliar nossa perspectiva, vamos nos dirigir ao mundo do movimento como o vivenciamos..

MECÂNICA DA ESTABILIZAÇÃO DA COLUNA ? O QUE É ESTABILIZAÇÃO?

É comumente aceito que o que faz uma coluna ?ruim? é algum tipo de instabilidade ou desequilíbrio. Abordagens padrão para reabilitação da coluna envolvem a mobilização das articulaçõesfortalecimento muscular. Geralmente isso toma a forma de manipulação passiva das articulações com exercícios combinados como abdominais, ou extensão lombar como no sistema Mckenzie.

Em 1992, Panjabi propôs um modelo que introduziu um refinamento no entendimento de estabilização. Ao invés de olhar a articulação como ossosligamentos, Panjabi argumentou que o envolvimento muscularo controle neurológico teriam um papel importante na estabilidade articular.(9) A influência mais importante dos ligamentos aparece na amplitude final do movimento da articulação. Na amplitude média da articulação, o que Panjabi chama de zona neutra, a ação dos músculos é necessária para manter a estabilidade da articulação (figura 6).

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O modelo de Panjabi sugere que esses três aspectos ? osteoligamentar, muscularneurológico ? têm que trabalhar juntos. Entretanto, para explorá-los aqui, temos que olhar um de cada vez. Vamos falar primeiro do aspecto mecânicoentão explorar mais profundamente o papel do sistema nervoso.

O SISTEMA DE SUPORTE PROFUNDO

Estudos sobre um joelho saudável mostram que em movimento alguns músculos controlamdão suporte a posição da articulação, enquanto outros movem a articulação.(10) Embora os músculos tenham papéis diferentes em movimentos diferentes, através da eletromiografia foi possível identificar alguns músculos como primários na função de suporte. Por exemplo no joelho, o vasto medial, que é habitualmente considerado um extensor, funciona primariamente para controlardar suporte a patela durante o movimento. (11)

O comprimento das fibras dos estabilizadores não muda muito durante a duração de um movimento. Ao invés disso elas permanecem consistentemente curtas para segurar a articulação na sua zona neutra (antes do limite final onde os ligamentos são envolvidos), para ajudar a articulação a manter a sua integridade enquanto manuseamos pesos ou fazemos movimentos mais amplos.

MÚSCULOS GLOBAIS E LOCAIS

Estabilização, nesse sentido de suporte profundo, é primeiramente o papel do que Bergmark chama de músculos ?locais?, diferentes de músculos ?globais? (12). Músculos locais são habitualmente mais profundosmais próximos da articulação do que os músculos envolvidos no movimento da articulação; os músculos globais. Músculos locais também são com freqüência, inseridos diretamente nas cápsulas articulares .(13) Músculos globais são mais superficiaistendem a ser maiores. Eles são responsáveis pela transferênciaequilíbrio de cargas externaspor movimentos maiores. O comprimento dos músculos locais muda muito poucopor isso não tem um grande impacto no movimento da articulação. O trabalho dos músculos locais é primariamente estabilizar a articulação enquanto outros músculos a movem.

MULTIFÍDIO E TRANSVERSO

Dois músculos foram identificados como estabilizadores primários da coluna lombar: O multifídioo transverso do abdome. Devido a sua localização à direção de suas fibras, esses músculos controlam especificamente as articulações lombaresa sacrolombar ao invés de agir sobre a relação entre o tóraxa pelve (figura 7).

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?Referindo-se ao tronco McGill demonstrou que as fibras profundas do multifídio lombar sofrem apenas mudanças mínimas no comprimento durante o raio de ação do movimento?. Isso acontece devido à proximidade do músculo do centro das articulações das vértebras lombaressugere que este componente específico dos músculos das costas contribui minimamente para produção de movimento. Somado a isso, devido à orientação transversal das fibras musculares do transverso do abdome, biomecanicamente, ele não pode contribuir para extensão, flexão ou flexão lateral da coluna…

?Então o transverso do abdomeo multifídio, assim como o vasto medial, tem primariamente papéis que não incluem a produção de movimento.? (14)

A responsabilidade desses músculos profundos de suporte ? transverso do abdomemultifídio ? não é mover a coluna, mas estabilizá-la para que outros músculos movam o tronco sem comprometer a integridade das articulações. O transversoo multifídio são exemplos de músculos locais para a coluna lombar, enquanto o reto abdominalo oblíquo externo são exemplos de músculos globais (figura 8).

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A ativação do reto abdominal ou do externo oblíquo junta o peito à pélvis. Ao contrário, a direção das fibras do transverso é paralela às vértebras. O transverso então será capaz de agir precisamente em cada vértebra, uma de cada vez.

A co-contração do transverso, em particular da porção sub umbilical,do multifídio em cada lado da coluna vai aumentar a firmeza da coluna lombar sem interferir nos movimentos do tronco. O resultado da sua contração não interfere na rotação, na mobilidade do tronco em geral, ou com a liberdade de movimento dos membros. Na verdade, eles mal movem a coluna: eles a seguram no lugar. A co-contração dos músculos locais, profundos pode criar suporte sem restringir grandes movimentos. Na dança, yoganas artes marciais isso é importante porque permite que a pessoa fique forte na barrigalivre acima dela.

COMPONENTE NEUROLÓGICO

A eficácia de um músculo de suporte depende de um componente neurológico assim como um componente mecânico. O músculo precisa ser forte suficiente para fazer o seu trabalho de estabilizaçãotambém precisa agir na hora apropriada. No modelo de Panjabi, problemas de joelho ou dor nas costasinstabilidade foram associados a uma zona neutra muito grande, em outras palavras os músculos estabilizadores levaram muito tempo para se ativarem. Quando os músculos profundos de suporte não fazem o seu trabalho os ligamentos estão ameaçados. Vários estudos têm mostrado que a contração do transverso do abdome normalmente precede a contração dos músculos que produzem movimento dos braços ou das pernas, mais ou menos 110 ms. Um corpo saudável automaticamente usa o transverso para estabilizar a coluna antes que qualquer movimento nos membros seja iniciado. Nos pacientes com um histórico de dor lombar, a contração do transverso do abdome tinha um retardo de 50-450ms. (15) A patologia parece resultar mais de uma estabilização inadequada, do que de um problema nos músculos globais. O bom funcionamento dos músculos estabilizadores depende não só da força: depende da coordenação, do controle do sistema nervoso. O tempo é essencial: para manter a integridade da articulação eles precisam ser ativados antes dos músculos mais importantes da ação. Estabilização é pré-movimento. (16)

O PAPEL DO MULTIFÍDIO LOMBAR E DO TRANSVERSO DO ABDOME NA REABILITAÇÃO DA DOR LOMBAR

Carolyn Richardsonseus colegas na Austrália investigaram o papel desses músculos nas dores nas costasem pacientes saudáveis.(17)

No experimento de Richardson, os pesquisadores descobriram que somente 10% daqueles com histórico de dor lombar podiam ativar o transverso do abdome, comparados com 82% dos sujeitos que não tinham dor lombar. Eles descobriram que pacientes que fizeram exercícios direcionados ao transverso do abdome durante o período de 10 semanas experimentaram uma diminuição significante na dorum aumento na habilidade funcional, comparados com o grupo de controle que recebeu tratamentos convencionais como natação, musculaçãoabdominais. Na avaliação de 30 meses depois a melhora tinha sido mantida. Quanto ao multifídio foi descoberto que nos pacientes com dor nas costas o tamanho do músculo estava reduzido no segmentono lado da dor. Descobriu-se nesses estudos que, quando o tamanho do músculo era aumentado através de exercícios específicos havia incidência de recorrência de episódios de dores nas costas significantemente mais baixas.

A pesquisa de Richardson supõe que a dor nas costas aparece mais devido a função inadequada dos músculos estabilizadores do que por deficiência dos músculos globais. Uma implicação disso é que muitos programas de estabilização não são específicos o suficiente. Abdominaisexercícios de extensão lombar na maior parte das vezes, não diferenciam entre envolvimento de músculos globaislocais. Até programas intitulados ?estabilizadores do core? talvez não levem em conta esta distinção. Isto se torna problemático porque se descobriu que o desenvolvimento muito grande dos músculos globais interfere na ação do sistema de estabilização local.

O estudo de Richardson também confirma a importância do componente neurológico. Ela reporta:

?A habilidade motora que foi praticada com muita repetição, mudou o tamanho dos níveis inibidos do multifídio rapidamente em pacientes com dor aguda nas costas; em alguns pacientes em uma semana. Neste contexto, pode-se supor que o efeito do exercício não estava relacionado a uma hipertrofia do músculo, mas talvez a eventos neurais relacionados ao músculo que restabeleceu o seu tamanho assim como o controle dos segmentos lombares em questão.? (18)

Uma parte importante da reabilitação é restabelecer a seqüência apropriada dos músculos: estabilizadores locais primeiro, músculos globais depois. Os exercícios que Richardson usou no experimento têm um componente sinestésico educativo; aprender a sentir a sensação sutil do pré-movimento. Isto parece causar impacto nas conexõesno tempo de acontecimento dos eventos no sistema nervosoleva ao desenvolvimento da função de estabilização.

OUTROS MÚSCULOS ENVOLVIDOS NA ESTABILIZAÇÃO DA COLUNA

Oblíquo Interno

A parte do oblíquo interno que se insere na fáscia toracolombar será incluída como parte do sistema de estabilização. A direção das fibras é paralela às do transverso do abdomesuas inserções são com freqüência não claramente diferenciadas das do transverso (figura 9).

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Embora tecnicamente o oblíquo interno seja um músculo separado, o cérebro vai recrutar unidades motoras que podem fazer o movimento desejado sem considerar as distinções feitas pelos anatomistas. Nesse artigo nós vamos usar o termo ?sistema do transverso? para nos referir à ação combinada dos três músculos para garantir estabilidade.

O PAPEL DO ASSOALHO PÉLVICO E DO DIAFRAGMA NA ESTABILIZAÇÃO DO CORE ? O QUE É CORE?

O diafragma, o assoalho pélvicoo sistema do transverso, são com freqüência incluídos nas estruturas envolvidas na estabilização do core. Juntos esses músculos formam o que Richardson se refere como o cilindro de compressão que influencia a pressão intra-abdominal (IAP):

?Então, conceitualmente, o transverso do abdome forma as paredes de um cilindro enquanto os músculos do assoalho pélvicodiafragma formam a sua basetampa respectivamente… Há alguma evidência inicial que esses quatro músculos agem em sinergia para prover um mecanismo de suporte da coluna. Apesar disso, mais pesquisa é necessária para confirmar a relação entre esses músculos.?

O modelo de Richardson do core é de uma estrutura com limite superiorinferior com o propósito de conter o compartimento visceral. É preliminar a evidência da contribuição do assoalho pélvicodo diafragma. Na próxima seção, nós vamos explorar a idéia de Richardson,então oferecer uma alternativa.

O assoalho pélvico

Richardson relata que registros da EMG do músculo pubococcígeo indicam início similar de atividade do diafragmado transverso do abdome.

?Estudos preliminares revelaram que quando um membro se move, a contração do pubococcígeo acontece juntamente com a do transverso do abdome. Parece haver uma ligação entre esses dois músculos.? (20)

O assoalho pélvico (figura 10) é com freqüência descrito como se constituindo de dois músculos: o elevador do ânuso músculo coccígeo. O elevador do ânus consiste-se de várias partes: puboretal, iliococcígeopubococcígeo. Curiosamente, diz-se que o músculo coccígeo está ausente em alguns casos. Gorman diz, ?Ele com mais freqüência varia nas suas fibras tendíneasmusculares. Ele corresponde quase exatamente com o ligamento sacroespinhoso.? Ele pode fechar, juntamente com o piriforme, a parte posterior da abertura superior da pelve.

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Uma maneira de exemplificar a nossa experiência do assoalho pélvico é imaginá-lo como tendo a forma de um diamante que pode ser separado em dois triângulos: ou uma metade frontaluma posterior, ou um lado direitoum lado esquerdo. Pode ser considerado que o músculo coccígeo ocupe a metade de tráso elevador do ânus à frente, embora o elevador do ânus também participe do fechamento do reto.

Na prática Godard acha útil ensinar as pessoas a fazer uma leve contração somente na parte anterior do assoalho pélvico juntamente com o sistema do transverso. Quando a distinção entre frentecostas não está clara na experiência, os pacientes tendem a confundir a contração da parte posterior do assoalho pélvico com uma contração de músculos como os rotadores laterais, glúteosisquiotibiais. Isto está associado com uma contração do músculo global reto do abdomerealmente interfere com o funcionamento do sistema de estabilização do transverso. Talvez isto aconteça em parte por que a sensação de ativação dos músculos estabilizadores seja diferente da contração voluntária usual; para os inexperientes pode parecer que não está se fazendo nada. Reagindo eles com freqüência tentam com mais forçapor causa disso há o envolvimento de músculos globais cuja contração vai restringir a extensão da perna no quadril. Interferindo com o mecanismo básicoa transmissão de energia requerida para um andar eficiente. (22) Embora tecnicamente o assoalho pélvico possa tomar parte na estabilização da coluna, na prática é essencial ajudar os pacientes a sentir a diferença entre ativar músculos globaisusar os locais para que o trabalho de estabilizaçãoo trabalho de movimento permaneçam distintos.

O diafragma

Richardson também inclui o diafragma como um músculo que influencia a pressão intra-abdominalpor está razão influencia na estabilização da coluna também, embora algumas questões permaneçam:

?Quando os sujeitos fizeram uma flexão do ombro, descobrimos que ambas as porções do diafragma contraíram-se 30ms antes do deltóide, i.e. exatamente na mesma hora que ocorre a contração do transverso do abdome. É fácil ver como este sistema pode funcionar com tarefas de curta duração. Mas é desconhecido como o diafragma pode contribuir quando a demanda postural é mantidao diafragma precisa combinar os papéis de respiraçãocontrole da estabilidade.? (23)

Na perspectiva de Godard como um bailarino profissional, os músculos que trabalham na estabilizaçãoo diafragma respiratório têm funções bem diferentes. Isto se torna particularmente aparente quando o movimento como um todo é levado em consideração: o diafragma tem que estar livre para adaptar-se às necessidades da respiração. Na prática, nós não queremos encorajar segurar o diafragma respiratório por que ele fica no caminho do movimento livreeventualmente da livre expressão. Muito envolvimento do diafragma respiratório para um bailarino pode impedir seriamente a sua criatividade.

O diafragmao sistema de estabilização interagem: A citação do Sutra Pradapika, ?uddiyana é chamado assim por causa do grande pássaro, Prana, atado a ele, voa sem ficar fatigado?, pode ser entendida por uma perspectiva biomecânica. O tendão central do diafragma torna-se um ponto fixo quando o transverso trabalha. A ação da parte muscular do diafragma na inspiraçãoexpiração, então, levanta as costelas inferiores, dando a sensação de asas num vôo. Outro exemplo surge quando levantamos um objeto pesado: há com freqüência a vocalização que acompanha o momento de força intensa. Godard sugere que da mesma forma que ajuda na organização dos trabalhadores, a produção do som também ativa a crura do diafragma. Esta ação empurra o disco para frente, minimizando a compressão nos discos que resulta do carregamento de peso.

Embora o diafragmao assoalho pélvico possam contribuir em alguns momentos para o fenômeno da estabilização, é importante na teoriana prática fazer uma distinção entre o tipo, qualidadeduração da contração dos músculos do sistema do transversoas estruturas horizontais dos diafragmas. Estabilizadores podem trabalhar por um tempo longo, enquanto a função dos diafragmas é adicionar uma explosão de energia.

No modelo de Godard, no movimento, todos os diafragmas do corpo ? o respiratóriopélvico assim como o palato,também num certo sentido os arcos dos pésmãos – podem ser vistos como parte de um sistema funcional único. Agindo juntos eles dão energia a um movimento, como pular. Ao contrário o sistema do transverso pode funcionar por longos períodos de tempo durante seu trabalho de estabilização. Os diafragmas agem numa explosão de força; de certo modo eles são mais fásicos do que tônicos. No andar, um lado do assoalho pélvico se contrai enquanto o outro está abrindo. A natureza do diafragma é dinâmica. Se eles são usados para manter uma posição por um longo período, eles perderão essa habilidade dinâmica; eles não estarão livres para responder as demandas da ação.

Ao entendermos os diafragmas como um sistema dinâmico revela-se a imagem do ?core? ? removendo-se as tampas como forma de dizer. Funcionalmente, os estabilizadores podem ser ligados num tipo de sistema que se inter-relaciona. Nesse texto, até agora, nós nos focamos na atividade em volta da coluna lombar, mas na maioria das situações a estabilização está ocorrendo em múltiplas áreas ao mesmo tempo. Por exemplo, enquanto o sistema do transverso está trabalhando para dar suporte às lombares, o longo do pescoço está fazendo um trabalho similar nas vértebras cervicais. O vasto medial estabiliza a patela, enquanto o serrátil anterior age para estabilizar a escápula para os braços.

No corpo, como um todo, em movimento, esses músculos conectam-se como um sistema estabilizador através do sistema nervoso.:

?Funcionalmente, pode-se esperar que o sistema nervoso monitore continuamente a atividade nesses músculos para controlar a posição da articulação, sem levar em conta a direção do movimento. Desta maneira, esses músculos dão suporte localizado para a articulação, enquanto, independentemente, os músculos que produzem um maior torque controlam a aceleraçãoparadas de movimento da articulação.? (24)

?O controle do contínuo recrutamento muscular para estabilidade da articulação depende não somente de padrões motores pré-programados do córtex, mas também do estado do sistema de ?feedback? que emana do ?input? sinestésico. O sistema de?feedback? é complexorelaciona-se com os receptores nos músculos que provém informação contínua ao sistema nervoso central (SNC), no que diz respeito ao comprimentotensão sendo gerada no músculo?. (25)

Através da intercomunicação dos neurônios gamma motoresos fusos musculares, a tensão (resistência à mudança de comprimento) de cada fibra muscular é continuamente monitoradaajustada. A função de estabilização também está acontecendo em relação à manutenção do equilíbrio na gravidade em todo corpo ? o que Godard chama de função tônica ?em relação ao nosso próprio senso proprioceptivo, como nos localizamos. Godard sugere que uma estratégia eficiente para acessar o sistema de estabilização é trabalhar com a função tônica na relação com a nossa sensação de peso, sensação do espaço, nosso senso de orientação. (26)

No modelo de Godard, nós usamos a estimulação de sensações nas mãospés em exercícios em cadeia fechada para ajudar a iniciar a atividade do sistema de estabilização. Mesmo que a estabilização seja funcionalmente necessária nos movimentos em cadeia aberta (o final distal está livreo final proximal está fixo)em cadeia fechada (o final distal está fixo o final proximal está em movimento), Richardson cita evidências dos estudos sobre reabilitação de joelhos em que exercícios em cadeia fechada são mais eficazes para reabilitação dos músculos estabilizadores. (27) O perigo em potencial dos exercícios em cadeia fechada é provocar compressão articular excessiva.

Quando fazemos o exercício simples de transferir o peso das mãos para os pés,dos pés para as mãos na pose do cachorro modificada ou no movimento de Empurrar as Mãos, ou num dos exercícios no Reformer do Pilates onde mãospés estão carregando peso (e.g. O Elefante, o Alongamento Longo, Alongamento Para Baixo), o foco na consciência entre pelemãos ou pés ou o que quer que seja que eles estejam em contato. Estimulando sensações nas extremidades ? em relação com o mundo a nossa volta ? nós ajudamos no movimento ativando sucessivamente os estabilizadores: da terra, através dos pés ao transverso, das mãos na mesa, ou das mãos na barra do Reformer, através do serrátil anterior ao transverso,de volta ao chão. Dessa maneira, nós recrutamos os estabilizadores como um sistema global em relação com o mundo.

Ao mesmo tempo, nós mantemos um sentido de orientação no espaçopeso, uma sensação de direções opostas. Esta ação ajuda a criar uma sensação de movimento ?excêntrico? ? no sentido de ?para fora do centro?, ao invés de ?concêntrico?, – concentrado ? tensão. O foco em duas direções opostas ajuda a minimizar uma possível compressão num movimento em cadeia fechada.

Embora as distinções pareçam sutis, os efeitos têm um grande alcance. Em muitas abordagens para a estabilização do core, a ênfase está na contração dos músculos do core com um relativo isolamento dos membros com o mundo.

Quando os membros são mobilizados, eles são primariamente usados de forma a desafiar a estabilidade, ao invés de ativá-la. Na abordagem é a interação com o mundo que ativa a estabilização do core. No movimento, como ele é experenciado, fenomenologicamente, a estabilização sempre acontece na interação com o espaço a nossa volta, com objetospessoas, através de nossos vários sentidosos pontos de contato dos nossos corpos com o mundo. O corpo se torna menos importante que o lugar de encontro do corpo com o mundo.

CENTRO DE ACUMULAÇÃO, CENTRO DA CIRCULAÇÃO

Na introdução desse texto foi apontado que através da história no Ocidenteno Oriente, o movimento de trazer o umbigo na direção da coluna foi reconhecido como um elemento chave para uma ação bem organizada. Nós exploramos a precisão que a eletromiografia tem a acrescentar à experiência. Hoje nós fomos capazes de quantificar algo que os antigos intuíram. Entretanto, como acontece com freqüência, é muito fácil perder a noção do todo enquanto perseguimos algo específico.

Algo do imaginário tradicional transmite a impressão de que o centro, o core, é um tipo de caixa, um lugar de acumulação. É a imagem do cilindro de compressão, na ?casa? da ?casa do poder?. Há um enfoque na forma do corpo. Na yoga há uma imagem similar, na qual a Jalandhara Bandha (throat lock)a Mulla Bandha (root lock) ? assoalho pélvico, são descritas como criando um vaso ou pote no centro do corpo, um lugar para o prana. As bandhas são descritas como lacres que encerram a energia no pote.

Em contraste, na tradição oriental, a qual Godard vê como mais perto da estética da dança, o centro é um espaço vazio. Na pintura chinesa a montanha está sempre parcialmente coberta pelas nuvens. Isso permite ao espectador preencher algo, participar de uma maneira ativa. Isso permite adaptação constante. Se o centro já estivesse cheio, não haveria movimento. Ao invés da forma, esse ponto de vista persegue o fluxo; ao invés de um centro de acumulação, há um centro de circulação. O movimento é uma transferência de energia entre duas direções, para cimapara baixo, céuterra. O centro mais eficiente está vazio. Visto nessa perspectiva o trabalho do sistema do transverso aparece para ajudar na transferência do movimento ? entre mãospés, entre o mundo dos objetos manipuláveisa terra que dá suporte. Hubert, de coração leve, nos repreende, neste contexto, para não ?capitalizar? nosso Chi.

NOTAS

1?Richardson, Carolyn, et al., Therapeutic Exercise for Spinal Segmental Stabilization in Low Back Pain. Churchill Livingstone, Edinburgh, 1999.

2?Major Basu, I.M.S., The Sacred Book of the Hindus, vol. XV, Part III. The Yoga Sastra: Hatha Yoga Pradipika. Published by Sudhindranatah Vasu from the Panini Office, Bhuvaneswari Asrama, Bahadurganj, Allagagad. Printed by Apurnva Krishna bose at the Indian Press, 1915.

3?Frantzis B. K., Opening the Energy Gates of Your Body. North Atlantic Books, Berkeley, 1993, p. 70.

4?Mesendieck, Bess, The Mesendieck System of Functional Exercises, Vol I. Southworth-Anthoensen Press, Portland, Maine, 1937, p.135.

5?Latey, Penelope, Journal of Bodywork and Movement Therapies, Vol 5 (4) Oct. 2001, pp. 275-282.

6?Gallagher and Kryzanowska, The Pilates Method, Bainbridge Books, Philadelphia, 1999.

7?Kendall and McCreary (Muscles Testing and Function, 3rd ed, Williams and Wilkins, Baltimore, 1983) dizem que o levar para dentro da parede abdominal acontece por causa do oblique externo, but Strohl, et al. (?Diferenças regionais na atividade do músculo abdominal durante várias manobras em humanos?, Journal of Applied Physiology 51: 1471-1476, 1981); Lacote, et al. (Clinical esvaluation of muscle function. Churchill Livingstone, Edinburg, 1987); and DeTroyer et al. (?Transversus Abdominis muscle function in humans,? Journal of Applied Physiology 68: 1010-1016, 1990) dizem que o transverse do abdomen predomina quando se leva a barriga para dentro.

8?Richardson, 1999, op. cit., p. 130.

9?Panjabi, M. ?The stabilization system of the spine?, Parts 1 and 2. Journal of Spinal Disorders 5: 383-397, 1992.

10?Richardson, 1999, op cit., p. 3

11?Ibid, p. 81

12?Bergmark A., ?Stability of the lumbar spine. A study in mechanical
engineering.? Acta Othopaedica Scandinavica, 230 (suppl): pp. 20-24.

13-Richardson, 1999, op. cit., p. 81.

14-Ibid.

15?Ibid, p. 63.

16?Este é o componente que às vezes é chamado de ?força de fechamento?.

17?Ibid.

18?Ibid, p. 96

19?Ibid, p. 95

20?Ibid, pp. 52-134.

21?Platzer, W., 1986, Locomotor System, 3rd ed. Thieme Verlag, Stuttgart, New
York, p. 106; Gorman, D., 1981, The Body Moveable, Ampersand Press, Canada, p. 75.

22?See Newton, 2003, ?Gracovetsky on Walking?. Structural Integration, Feb. 2003.

23?Richardson, 1999, op. cit., p.50.

24?Ibid, p. 81.

25?Ibid, p. 82.

26-Para mais informações sobre trabalhar com função tônica, veja minhas publicações prévias em Integração Estrutural, também disponível em www.alinenewton.com

27?Richardson, 1999, op. Cit., p. 86[:pb]SINOPSE

Esse texto introduz os conceitos envolvidos na estabilização da coluna sob duas perspectivas: uma, a pesquisa científicaa outra, uma estrutura teóricaexperimental para o entendimento do movimento baseada nos muitos anos de estudos da autora com Hubert Godard. A importância da estabilização da coluna é reconhecida há séculos por diversas culturas. Métodos de pesquisa modernos têm a disposição informações através da eletromiografia. Os aspectos mecânicosneurológicos são descritos. A estabilização da coluna envolve uma co-contração do multifidiodo transverso do abdomeparece ser uma abordagem eficaz para resolver dores lombares. A perspectiva de movimento vivido, baseada no trabalho de Godard – Rolfista, bailarinoeducador do movimento – salienta o envolvimento dos diafragmas na estabilização do core,sugere uma abordagem dinâmica do conceito de “core”. Ao invés de um centro de acumulação, ele é concebido como um centro de circulação.

A autora está mais uma vez agradecidaem débito com Hubert Godard pela sua capacidade de respeitarsintetizar as contribuições da ciênciaa sabedoria da experiência.

PERSPECTIVA HISTÓRICA

Nos últimos cinco anos, o conceito de estabilização espinhal segmentar recebeu considerável atenção da pesquisa científica (1). Algumas vezes conhecido como estabilizador do “core”, esta abordagem enfoca o papel dos músculos abdominais na reabilitaçãoprevenção de dores lombares. Embora isso pareça uma descoberta recente no mundo ocidental, a importância deste movimento básico de estabilização tem sido reconhecida através da históriaem muitas culturas.

Na prática da yoga os estudantes aprendem a aplicar a “bandha” para selar a energia unificada da inspiraçãoda expiração. Esses movimentos sutis com freqüência precedem a prática de uma posição específica ou asana. A bandha “uddiyana” é descrita como: “a barriga acimaabaixo do umbigo deveria ser levada ou pressionada para trás na direção da coluna.” Ou, mais misteriosamente: “uddiyana é assim chamada por causa do grande pássaro, Prana, atado a ela, voa sem se cansar.” O texto é de 1915, mas é claro que a posição é de muitos séculos atrás (figuras 12).

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A bandha é descrita como tendo o potencial de trazer de volta juventudevigor,o autor nos assegura que “a pessoa pode dominar a morte se praticar isso por seis meses.” (2)

No mundo das artes marciais, na tradição chinesa, o “tantien” baixo é achado nesta mesma área, mais ou menos cinco centímetros abaixo do umbigo. B. K. Frantzis o descreve assim; “O tantien é a única porta, a mais importante no que concerne à saúde física. Localizado aproximadamente no centro do corpo, todas as linhas relacionadas à saúde físicabem estar conectam-se ali.” (3) Assim como com a bandha, o movimento de pressionar essa área da barriga para trás para suavizar as costas, é a chave de todos os movimentos do Tai Chi.

A mesma idéia é visível no trabalho de Bess Mesendieck, que é considerada como tendo influenciado Ida Rolf, assim como Martha Graham, entre outros. Ela descreve, por exemplo, “O exercício de inclinar o tronco redondo para frente” (figura 3) num texto de 1937.

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“Devagar pressione para dentro o abdome contraindo a seção mais baixa do músculo abdominal, começando no ponto mais baixo da região abaixo do umbigo”. (4)

Mais familiar para nós, hoje em dia, é o trabalho de Joseph Pilates, contemporâneocompatriota de Mesendieck. A expressão de Pilates para essa área é “casa do poder”, também chamada de “a cintura de força”. (5,6) Através dos tempos o movimento que traz o umbigo na direção da coluna tem sido reconhecido como suporte essencial para a boa coordenaçãosaúde.

A investigação moderna desse movimento apareceu em resposta a uma patologia, especificamente o problema de dor lombar. Com a ajuda da eletromiografia, é possível descrever mais precisamente sobre o que acontece no movimento. O entendimento corrente é que o movimento de levar o umbigo na direção da coluna envolve uma contração do multifídiodo transverso do abdome, especificamente na porção abaixo do umbigo.(figura 4; figura 5) (7; 8)

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A próxima parte desse trabalho examinará a contribuição da pesquisa moderna para o entendimento desse movimento. Em seguida, numa tentativa de ampliar nossa perspectiva, vamos nos dirigir ao mundo do movimento como o vivenciamos..

MECÂNICA DA ESTABILIZAÇÃO DA COLUNA – O QUE É ESTABILIZAÇÃO?

É comumente aceito que o que faz uma coluna “ruim” é algum tipo de instabilidade ou desequilíbrio. Abordagens padrão para reabilitação da coluna envolvem a mobilização das articulaçõesfortalecimento muscular. Geralmente isso toma a forma de manipulação passiva das articulações com exercícios combinados como abdominais, ou extensão lombar como no sistema Mckenzie.

Em 1992, Panjabi propôs um modelo que introduziu um refinamento no entendimento de estabilização. Ao invés de olhar a articulação como ossosligamentos, Panjabi argumentou que o envolvimento muscularo controle neurológico teriam um papel importante na estabilidade articular.(9) A influência mais importante dos ligamentos aparece na amplitude final do movimento da articulação. Na amplitude média da articulação, o que Panjabi chama de zona neutra, a ação dos músculos é necessária para manter a estabilidade da articulação (figura 6).

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O modelo de Panjabi sugere que esses três aspectos – osteoligamentar, muscularneurológico – têm que trabalhar juntos. Entretanto, para explorá-los aqui, temos que olhar um de cada vez. Vamos falar primeiro do aspecto mecânicoentão explorar mais profundamente o papel do sistema nervoso.

O SISTEMA DE SUPORTE PROFUNDO

Estudos sobre um joelho saudável mostram que em movimento alguns músculos controlamdão suporte a posição da articulação, enquanto outros movem a articulação.(10) Embora os músculos tenham papéis diferentes em movimentos diferentes, através da eletromiografia foi possível identificar alguns músculos como primários na função de suporte. Por exemplo no joelho, o vasto medial, que é habitualmente considerado um extensor, funciona primariamente para controlardar suporte a patela durante o movimento. (11)

O comprimento das fibras dos estabilizadores não muda muito durante a duração de um movimento. Ao invés disso elas permanecem consistentemente curtas para segurar a articulação na sua zona neutra (antes do limite final onde os ligamentos são envolvidos), para ajudar a articulação a manter a sua integridade enquanto manuseamos pesos ou fazemos movimentos mais amplos.

MÚSCULOS GLOBAIS E LOCAIS

Estabilização, nesse sentido de suporte profundo, é primeiramente o papel do que Bergmark chama de músculos “locais”, diferentes de músculos “globais” (12). Músculos locais são habitualmente mais profundosmais próximos da articulação do que os músculos envolvidos no movimento da articulação; os músculos globais. Músculos locais também são com freqüência, inseridos diretamente nas cápsulas articulares .(13) Músculos globais são mais superficiaistendem a ser maiores. Eles são responsáveis pela transferênciaequilíbrio de cargas externaspor movimentos maiores. O comprimento dos músculos locais muda muito poucopor isso não tem um grande impacto no movimento da articulação. O trabalho dos músculos locais é primariamente estabilizar a articulação enquanto outros músculos a movem.

MULTIFÍDIO E TRANSVERSO

Dois músculos foram identificados como estabilizadores primários da coluna lombar: O multifídioo transverso do abdome. Devido a sua localizaçãoà direção de suas fibras, esses músculos controlam especificamente as articulações lombaresa sacrolombar ao invés de agir sobre a relação entre o tóraxa pelve (figura 7).

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“Referindo-se ao tronco McGill demonstrou que as fibras profundas do multifídio lombar sofrem apenas mudanças mínimas no comprimento durante o raio de ação do movimento”. Isso acontece devido à proximidade do músculo do centro das articulações das vértebras lombaressugere que este componente específico dos músculos das costas contribui minimamente para produção de movimento. Somado a isso, devido à orientação transversal das fibras musculares do transverso do abdome, biomecanicamente, ele não pode contribuir para extensão, flexão ou flexão lateral da coluna…

“Então o transverso do abdomeo multifídio, assim como o vasto medial, tem primariamente papéis que não incluem a produção de movimento.” (14)

A responsabilidade desses músculos profundos de suporte – transverso do abdomemultifídio – não é mover a coluna, mas estabilizá-la para que outros músculos movam o tronco sem comprometer a integridade das articulações. O transversoo multifídio são exemplos de músculos locais para a coluna lombar, enquanto o reto abdominalo oblíquo externo são exemplos de músculos globais (figura 8).

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A ativação do reto abdominal ou do externo oblíquo junta o peito à pélvis. Ao contrário, a direção das fibras do transverso é paralela às vértebras. O transverso então será capaz de agir precisamente em cada vértebra, uma de cada vez.

A co-contração do transverso, em particular da porção sub umbilical,do multifídio em cada lado da coluna vai aumentar a firmeza da coluna lombar sem interferir nos movimentos do tronco. O resultado da sua contração não interfere na rotação, na mobilidade do tronco em geral, ou com a liberdade de movimento dos membros. Na verdade, eles mal movem a coluna: eles a seguram no lugar. A co-contração dos músculos locais, profundos pode criar suporte sem restringir grandes movimentos. Na dança, yoganas artes marciais isso é importante porque permite que a pessoa fique forte na barrigalivre acima dela.

COMPONENTE NEUROLÓGICO

A eficácia de um músculo de suporte depende de um componente neurológico assim como um componente mecânico. O músculo precisa ser forte suficiente para fazer o seu trabalho de estabilizaçãotambém precisa agir na hora apropriada. No modelo de Panjabi, problemas de joelho ou dor nas costasinstabilidade foram associados a uma zona neutra muito grande, em outras palavras os músculos estabilizadores levaram muito tempo para se ativarem. Quando os músculos profundos de suporte não fazem o seu trabalho os ligamentos estão ameaçados. Vários estudos têm mostrado que a contração do transverso do abdome normalmente precede a contração dos músculos que produzem movimento dos braços ou das pernas, mais ou menos 110 ms. Um corpo saudável automaticamente usa o transverso para estabilizar a coluna antes que qualquer movimento nos membros seja iniciado. Nos pacientes com um histórico de dor lombar, a contração do transverso do abdome tinha um retardo de 50-450ms. (15) A patologia parece resultar mais de uma estabilização inadequada, do que de um problema nos músculos globais. O bom funcionamento dos músculos estabilizadores depende não só da força: depende da coordenação, do controle do sistema nervoso. O tempo é essencial: para manter a integridade da articulação eles precisam ser ativados antes dos músculos mais importantes da ação. Estabilização é pré-movimento. (16)

O PAPEL DO MULTIFÍDIO LOMBAR E DO TRANSVERSO DO ABDOME NA REABILITAÇÃO DA DOR LOMBAR

Carolyn Richardsonseus colegas na Austrália investigaram o papel desses músculos nas dores nas costasem pacientes saudáveis.(17)

No experimento de Richardson, os pesquisadores descobriram que somente 10% daqueles com histórico de dor lombar podiam ativar o transverso do abdome, comparados com 82% dos sujeitos que não tinham dor lombar. Eles descobriram que pacientes que fizeram exercícios direcionados ao transverso do abdome durante o período de 10 semanas experimentaram uma diminuição significante na dorum aumento na habilidade funcional, comparados com o grupo de controle que recebeu tratamentos convencionais como natação, musculaçãoabdominais. Na avaliação de 30 meses depois a melhora tinha sido mantida. Quanto ao multifídio foi descoberto que nos pacientes com dor nas costas o tamanho do músculo estava reduzido no segmentono lado da dor. Descobriu-se nesses estudos que, quando o tamanho do músculo era aumentado através de exercícios específicos havia incidência de recorrência de episódios de dores nas costas significantemente mais baixas.

A pesquisa de Richardson supõe que a dor nas costas aparece mais devido a função inadequada dos músculos estabilizadores do que por deficiência dos músculos globais. Uma implicação disso é que muitos programas de estabilização não são específicos o suficiente. Abdominaisexercícios de extensão lombar na maior parte das vezes, não diferenciam entre envolvimento de músculos globaislocais. Até programas intitulados “estabilizadores do core” talvez não levem em conta esta distinção. Isto se torna problemático porque se descobriu que o desenvolvimento muito grande dos músculos globais interfere na ação do sistema de estabilização local.

O estudo de Richardson também confirma a importância do componente neurológico. Ela reporta:

“A habilidade motora que foi praticada com muita repetição, mudou o tamanho dos níveis inibidos do multifídio rapidamente em pacientes com dor aguda nas costas; em alguns pacientes em uma semana. Neste contexto, pode-se supor que o efeito do exercício não estava relacionado a uma hipertrofia do músculo, mas talvez a eventos neurais relacionados ao músculo que restabeleceu o seu tamanho assim como o controle dos segmentos lombares em questão.” (18)

Uma parte importante da reabilitação é restabelecer a seqüência apropriada dos músculos: estabilizadores locais primeiro, músculos globais depois. Os exercícios que Richardson usou no experimento têm um componente sinestésico educativo; aprender a sentir a sensação sutil do pré-movimento. Isto parece causar impacto nas conexõesno tempo de acontecimento dos eventos no sistema nervosoleva ao desenvolvimento da função de estabilização.

OUTROS MÚSCULOS ENVOLVIDOS NA ESTABILIZAÇÃO DA COLUNA

Oblíquo Interno

A parte do oblíquo interno que se insere na fáscia toracolombar será incluída como parte do sistema de estabilização. A direção das fibras é paralela às do transverso do abdomesuas inserções são com freqüência não claramente diferenciadas das do transverso (figura 9).

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Embora tecnicamente o oblíquo interno seja um músculo separado, o cérebro vai recrutar unidades motoras que podem fazer o movimento desejado sem considerar as distinções feitas pelos anatomistas. Nesse artigo nós vamos usar o termo ?sistema do transverso? para nos referir à ação combinada dos três músculos para garantir estabilidade.

O PAPEL DO ASSOALHO PÉLVICO E DO DIAFRAGMA NA ESTABILIZAÇÃO DO CORE – O QUE É CORE?

O diafragma, o assoalho pélvicoo sistema do transverso, são com freqüência incluídos nas estruturas envolvidas na estabilização do core. Juntos esses músculos formam o que Richardson se refere como o cilindro de compressão que influencia a pressão intra-abdominal (IAP):

“Então, conceitualmente, o transverso do abdome forma as paredes de um cilindro enquanto os músculos do assoalho pélvicodiafragma formam a sua basetampa respectivamente… Há alguma evidência inicial que esses quatro músculos agem em sinergia para prover um mecanismo de suporte da coluna. Apesar disso, mais pesquisa é necessária para confirmar a relação entre esses músculos.”

O modelo de Richardson do core é de uma estrutura com limite superiorinferior com o propósito de conter o compartimento visceral. É preliminar a evidência da contribuição do assoalho pélvicodo diafragma. Na próxima seção, nós vamos explorar a idéia de Richardson,então oferecer uma alternativa.

O assoalho pélvico

Richardson relata que registros da EMG do músculo pubococcígeo indicam início similar de atividade do diafragmado transverso do abdome.

“Estudos preliminares revelaram que quando um membro se move, a contração do pubococcígeo acontece juntamente com a do transverso do abdome. Parece haver uma ligação entre esses dois músculos.” (20)

O assoalho pélvico (figura 10) é com freqüência descrito como se constituindo de dois músculos: o elevador do ânuso músculo coccígeo. O elevador do ânus consiste-se de várias partes: puboretal, iliococcígeopubococcígeo. Curiosamente, diz-se que o músculo coccígeo está ausente em alguns casos. Gorman diz, “Ele com mais freqüência varia nas suas fibras tendíneasmusculares. Ele corresponde quase exatamente com o ligamento sacroespinhoso.” Ele pode fechar, juntamente com o piriforme, a parte posterior da abertura superior da pelve.

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Uma maneira de exemplificar a nossa experiência do assoalho pélvico é imaginá-lo como tendo a forma de um diamante que pode ser separado em dois triângulos: ou uma metade frontaluma posterior, ou um lado direitoum lado esquerdo. Pode ser considerado que o músculo coccígeo ocupe a metade de tráso elevador do ânus à frente, embora o elevador do ânus também participe do fechamento do reto.

Na prática Godard acha útil ensinar as pessoas a fazer uma leve contração somente na parte anterior do assoalho pélvico juntamente com o sistema do transverso. Quando a distinção entre frentecostas não está clara na experiência, os pacientes tendem a confundir a contração da parte posterior do assoalho pélvico com uma contração de músculos como os rotadores laterais, glúteosisquiotibiais. Isto está associado com uma contração do músculo global reto do abdomerealmente interfere com o funcionamento do sistema de estabilização do transverso. Talvez isto aconteça em parte por que a sensação de ativação dos músculos estabilizadores seja diferente da contração voluntária usual; para os inexperientes pode parecer que não está se fazendo nada. Reagindo eles com freqüência tentam com mais forçapor causa disso há o envolvimento de músculos globais cuja contração vai restringir a extensão da perna no quadril. Interferindo com o mecanismo básicoa transmissão de energia requerida para um andar eficiente. (22) Embora tecnicamente o assoalho pélvico possa tomar parte na estabilização da coluna, na prática é essencial ajudar os pacientes a sentir a diferença entre ativar músculos globaisusar os locais para que o trabalho de estabilizaçãoo trabalho de movimento permaneçam distintos.

O diafragma

Richardson também inclui o diafragma como um músculo que influencia a pressão intra-abdominalpor está razão influencia na estabilização da coluna também, embora algumas questões permaneçam:

“Quando os sujeitos fizeram uma flexão do ombro, descobrimos que ambas as porções do diafragma contraíram-se 30ms antes do deltóide, i.e. exatamente na mesma hora que ocorre a contração do transverso do abdome. É fácil ver como este sistema pode funcionar com tarefas de curta duração. Mas é desconhecido como o diafragma pode contribuir quando a demanda postural é mantidao diafragma precisa combinar os papéis de respiraçãocontrole da estabilidade.” (23)

Na perspectiva de Godard como um bailarino profissional, os músculos que trabalham na estabilizaçãoo diafragma respiratório têm funções bem diferentes. Isto se torna particularmente aparente quando o movimento como um todo é levado em consideração: o diafragma tem que estar livre para adaptar-se às necessidades da respiração. Na prática, nós não queremos encorajar segurar o diafragma respiratório por que ele fica no caminho do movimento livreeventualmente da livre expressão. Muito envolvimento do diafragma respiratório para um bailarino pode impedir seriamente a sua criatividade.

O diafragmao sistema de estabilização interagem: A citação do Sutra Pradapika, “uddiyana é chamado assim por causa do grande pássaro, Prana, atado a ele, voa sem ficar fatigado”, pode ser entendida por uma perspectiva biomecânica. O tendão central do diafragma torna-se um ponto fixo quando o transverso trabalha. A ação da parte muscular do diafragma na inspiraçãoexpiração, então, levanta as costelas inferiores, dando a sensação de asas num vôo. Outro exemplo surge quando levantamos um objeto pesado: há com freqüência a vocalização que acompanha o momento de força intensa. Godard sugere que da mesma forma que ajuda na organização dos trabalhadores, a produção do som também ativa a crura do diafragma. Esta ação empurra o disco para frente, minimizando a compressão nos discos que resulta do carregamento de peso.

Embora o diafragmao assoalho pélvico possam contribuir em alguns momentos para o fenômeno da estabilização, é importante na teoriana prática fazer uma distinção entre o tipo, qualidadeduração da contração dos músculos do sistema do transversoas estruturas horizontais dos diafragmas. Estabilizadores podem trabalhar por um tempo longo, enquanto a função dos diafragmas é adicionar uma explosão de energia.

No modelo de Godard, no movimento, todos os diafragmas do corpo – o respiratóriopélvico assim como o palato,também num certo sentido os arcos dos pésmãos – podem ser vistos como parte de um sistema funcional único. Agindo juntos eles dão energia a um movimento, como pular. Ao contrário o sistema do transverso pode funcionar por longos períodos de tempo durante seu trabalho de estabilização. Os diafragmas agem numa explosão de força; de certo modo eles são mais fásicos do que tônicos. No andar, um lado do assoalho pélvico se contrai enquanto o outro está abrindo. A natureza do diafragma é dinâmica. Se eles são usados para manter uma posição por um longo período, eles perderão essa habilidade dinâmica; eles não estarão livres para responder as demandas da ação.

Ao entendermos os diafragmas como um sistema dinâmico revela-se a imagem do “core” – removendo-se as tampas como forma de dizer. Funcionalmente, os estabilizadores podem ser ligados num tipo de sistema que se inter-relaciona. Nesse texto, até agora, nós nos focamos na atividade em volta da coluna lombar, mas na maioria das situações a estabilização está ocorrendo em múltiplas áreas ao mesmo tempo. Por exemplo, enquanto o sistema do transverso está trabalhando para dar suporte às lombares, o longo do pescoço está fazendo um trabalho similar nas vértebras cervicais. O vasto medial estabiliza a patela, enquanto o serrátil anterior age para estabilizar a escápula para os braços.

No corpo, como um todo, em movimento, esses músculos conectam-se como um sistema estabilizador através do sistema nervoso.:

“Funcionalmente, pode-se esperar que o sistema nervoso monitore continuamente a atividade nesses músculos para controlar a posição da articulação, sem levar em conta a direção do movimento. Desta maneira, esses músculos dão suporte localizado para a articulação, enquanto, independentemente, os músculos que produzem um maior torque controlam a aceleraçãoparadas de movimento da articulação.” (24)

“O controle do contínuo recrutamento muscular para estabilidade da articulação depende não somente de padrões motores pré-programados do córtex, mas também do estado do sistema de “feedback” que emana do “input” sinestésico. O sistema de “feedback” é complexorelaciona-se com os receptores nos músculos que provém informação contínua ao sistema nervoso central (SNC), no que diz respeito ao comprimentotensão sendo gerada no músculo”. (25)

Através da intercomunicação dos neurônios gamma motoresos fusos musculares, a tensão (resistência à mudança de comprimento) de cada fibra muscular é continuamente monitoradaajustada. A função de estabilização também está acontecendo em relação à manutenção do equilíbrio na gravidade em todo corpo – o que Godard chama de função tônica -em relação ao nosso próprio senso proprioceptivo, como nos localizamos. Godard sugere que uma estratégia eficiente para acessar o sistema de estabilização é trabalhar com a função tônica na relação com a nossa sensação de peso, sensação do espaço, nosso senso de orientação. (26)

No modelo de Godard, nós usamos a estimulação de sensações nas mãospés em exercícios em cadeia fechada para ajudar a iniciar a atividade do sistema de estabilização. Mesmo que a estabilização seja funcionalmente necessária nos movimentos em cadeia aberta (o final distal está livreo final proximal está fixo)em cadeia fechada (o final distal está fixoo final proximal está em movimento), Richardson cita evidências dos estudos sobre reabilitação de joelhos em que exercícios em cadeia fechada são mais eficazes para reabilitação dos músculos estabilizadores. (27) O perigo em potencial dos exercícios em cadeia fechada é provocar compressão articular excessiva.

Quando fazemos o exercício simples de transferir o peso das mãos para os pés,dos pés para as mãos na pose do cachorro modificada ou no movimento de Empurrar as Mãos, ou num dos exercícios no Reformer do Pilates onde mãospés estão carregando peso (e.g. O Elefante, o Alongamento Longo, Alongamento Para Baixo), o foco na consciência entre pelemãos ou pés ou o que quer que seja que eles estejam em contato. Estimulando sensações nas extremidades – em relação com o mundo a nossa volta – nós ajudamos no movimento ativando sucessivamente os estabilizadores: da terra, através dos pés ao transverso, das mãos na mesa, ou das mãos na barra do Reformer, através do serrátil anterior ao transverso,de volta ao chão. Dessa maneira, nós recrutamos os estabilizadores como um sistema global em relação com o mundo.

Ao mesmo tempo, nós mantemos um sentido de orientação no espaçopeso, uma sensação de direções opostas. Esta ação ajuda a criar uma sensação de movimento “excêntrico” – no sentido de “para fora do centro”, ao invés de “concêntrico”, – concentrado – tensão. O foco em duas direções opostas ajuda a minimizar uma possível compressão num movimento em cadeia fechada.

Embora as distinções pareçam sutis, os efeitos têm um grande alcance. Em muitas abordagens para a estabilização do core, a ênfase está na contração dos músculos do core com um relativo isolamento dos membros com o mundo.

Quando os membros são mobilizados, eles são primariamente usados de forma a desafiar a estabilidade, ao invés de ativá-la. Na abordagem é a interação com o mundo que ativa a estabilização do core. No movimento, como ele é experenciado, fenomenologicamente, a estabilização sempre acontece na interação com o espaço a nossa volta, com objetospessoas, através de nossos vários sentidosos pontos de contato dos nossos corpos com o mundo. O corpo se torna menos importante que o lugar de encontro do corpo com o mundo.

CENTRO DE ACUMULAÇÃO, CENTRO DA CIRCULAÇÃO

Na introdução desse texto foi apontado que através da história no Ocidenteno Oriente, o movimento de trazer o umbigo na direção da coluna foi reconhecido como um elemento chave para uma ação bem organizada. Nós exploramos a precisão que a eletromiografia tem a acrescentar à experiência. Hoje nós fomos capazes de quantificar algo que os antigos intuíram. Entretanto, como acontece com freqüência, é muito fácil perder a noção do todo enquanto perseguimos algo específico.

Algo do imaginário tradicional transmite a impressão de que o centro, o core, é um tipo de caixa, um lugar de acumulação. É a imagem do cilindro de compressão, na “casa” da “casa do poder”. Há um enfoque na forma do corpo. Na yoga há uma imagem similar, na qual a Jalandhara Bandha (throat lock)a Mulla Bandha (root lock) – assoalho pélvico, são descritas como criando um vaso ou pote no centro do corpo, um lugar para o prana. As bandhas são descritas como lacres que encerram a energia no pote.

Em contraste, na tradição oriental, a qual Godard vê como mais perto da estética da dança, o centro é um espaço vazio. Na pintura chinesa a montanha está sempre parcialmente coberta pelas nuvens. Isso permite ao espectador preencher algo, participar de uma maneira ativa. Isso permite adaptação constante. Se o centro já estivesse cheio, não haveria movimento. Ao invés da forma, esse ponto de vista persegue o fluxo; ao invés de um centro de acumulação, há um centro de circulação. O movimento é uma transferência de energia entre duas direções, para cimapara baixo, céuterra. O centro mais eficiente está vazio. Visto nessa perspectiva o trabalho do sistema do transverso aparece para ajudar na transferência do movimento ? entre mãospés, entre o mundo dos objetos manipuláveisa terra que dá suporte. Hubert, de coração leve, nos repreende, neste contexto, para não “capitalizar” nosso Chi.

NOTAS

1 Richardson, Carolyn, et al., Therapeutic Exercise for Spinal Segmental Stabilization in Low Back Pain. Churchill Livingstone, Edinburgh, 1999.

2 Major Basu, I.M.S., The Sacred Book of the Hindus, vol. XV, Part III. The Yoga Sastra: Hatha Yoga Pradipika. Published by Sudhindranatah Vasu from the Panini Office, Bhuvaneswari Asrama, Bahadurganj, Allagagad. Printed by Apurnva Krishna bose at the Indian Press, 1915.

3 Frantzis B. K., Opening the Energy Gates of Your Body. North Atlantic Books, Berkeley, 1993, p. 70.

4 Mesendieck, Bess, The Mesendieck System of Functional Exercises, Vol I. Southworth-Anthoensen Press, Portland, Maine, 1937, p.135.

5 Latey, Penelope, Journal of Bodywork and Movement Therapies, Vol 5 (4) Oct. 2001, pp. 275-282.

6 Gallagher and Kryzanowska, The Pilates Method, Bainbridge Books, Philadelphia, 1999.

7 Kendall and McCreary (Muscles Testing and Function, 3rd ed, Williams and Wilkins, Baltimore, 1983) dizem que o levar para dentro da parede abdominal acontece por causa do oblique externo, but Strohl, et al. (?Diferenças regionais na atividade do músculo abdominal durante várias manobras em humanos?, Journal of Applied Physiology 51: 1471-1476, 1981); Lacote, et al. (Clinical esvaluation of muscle function. Churchill Livingstone, Edinburg, 1987); and DeTroyer et al. (?Transversus Abdominis muscle function in humans,? Journal of Applied Physiology 68: 1010-1016, 1990) dizem que o transverse do abdomen predomina quando se leva a barriga para dentro.

8 Richardson, 1999, op. cit., p. 130.

9 Panjabi, M. ?The stabilization system of the spine?, Parts 1 and 2. Journal of Spinal Disorders 5: 383-397, 1992.

10 Richardson, 1999, op cit., p. 3

11 Ibid, p. 81

12 Bergmark A., ?Stability of the lumbar spine. A study in mechanical
engineering.? Acta Othopaedica Scandinavica, 230 (suppl): pp. 20-24.

13 Richardson, 1999, op. cit., p. 81.

14 Ibid.

15 Ibid, p. 63.

16 Este é o componente que às vezes é chamado de ?força de fechamento?.

17 Ibid.

18 Ibid, p. 96

19 Ibid, p. 95

20 Ibid, pp. 52-134.

21 Platzer, W., 1986, Locomotor System, 3rd ed. Thieme Verlag, Stuttgart, New
York, p. 106; Gorman, D., 1981, The Body Moveable, Ampersand Press, Canada, p. 75.

22 See Newton, 2003, ?Gracovetsky on Walking?. Structural Integration, Feb. 2003.

23 Richardson, 1999, op. cit., p.50.

24 Ibid, p. 81.

25 Ibid, p. 82.

26 Para mais informações sobre trabalhar com função tônica, veja minhas publicações prévias em Integração Estrutural, também disponível em www.alinenewton.com

27 Richardson, 1999, op. Cit., p. 86[:]Estabilização do Core, Coordenação do Core

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