Associação Brasileira de Rolfing

Rolfing Brasil – ABR

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Esta reflexão está presente em debates, aulas, sessões com clientesacaloradas discussões com pessoas dentro fora de nossa comunidade. Estão disponíveis muitas maneiras de pensar o corpo. Mas será o corpo para ser pensado?

Pensar é apenas uma das características de um organismo vivo e, para que isto seja possível, é necessário existir um organismo que possa pensar, ou seja, que apresente recursos em seus componentes constitutivos que realizem esta possibilidade.

Existo, logo penso.

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Este é o tema de um artigo assinado por Vinicius Romaniniilustrado por S. Hesse que sugiro aos leitores investigar. Está publicado na revista os caminhos da Terra de janeiro de 2004disponível no site www.revistaterra.com.br
Aproveito o título deste artigo como referência para o que venho ponderando. Para que seja possível acontecer o pensar, em qualquer nível, é necessário existir. Existir, demanda uma corporalidade que, segundo H. Maturana , viabilize este estar no mundo. E é esta corporalidade o que eu gostaria de debater.

O Homo sapiens

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A organização corporal humana é o resultado de sua filogenia. Quero dizer com isto que o humano moderno é resultado de um processo evolutivo iniciado há milhões de anos. Transformações estruturais aconteceram para a manutenção eficiente deste indivíduo na relação com o meiosua perpetuação enquanto espécie. Uma das razões para que nossa organização corporal esteja como está hoje, segundo os antropólogos, foi adotarmos a postura bípede. O leitor pode pensar que existem outras espécies que também adotaram esta mesma atitude. Isto é verdade, mas nenhuma outra espécie consegue utilizar esta postura da maneira como nós humanos a utilizamos. Os componentes constitutivos de nossa estrutura revelam recursos que nos permitem ser extremamente adaptativoseficientes nesta atitude. Podemos viver em qualquer área do planeta, desde que em terra firme ou superfície estável. Esta maneira de estar, em relação à superfície do planeta foi ao longo do tempo modelando esta corporalidade, culminando na organização corporal que atualmente distingue o humano moderno, o Homo sapiens.

Outro fator que estes cientistas apresentam como vantagem na adoção da postura bípede é o baixo consumo energético enquanto nos deslocamos caminhando. Este aspecto, a meu ver, deve ser considerado como um dos fatores importantes na propagação da espécie pelo planeta. A miscigenação, conseqüência do encontro de diversas etnias em virtude desta capacidade de locomoção eficiente, conservou a estrutura (matriz biológica) do Homo sapiens enquanto espécie, mas modificou a organização desta de tal maneira que me impressiona.

O resultado desta miscigenação pode ser facilmente observado na diversidade de organizações corporais que se apresentam na população do planeta. Corporalmente somos bastante diferentes uns dos outros.

A velocidade de deslocamento através do planetapara além deste vem aumentando, enriquecendo ainda mais este aspecto.

O comportamento Humano

O que se conserva nesta transformação? A matriz biológica da espécie. Biologicamente falando somos praticamente iguais. Ao aceitarmos a definição de comportamento, como sendo o conjunto de atitudereações do indivíduo em face do meio ambiente ou social (Novo Aurélio 1999), podemos dizer que a maneira como uma pessoa se move em um dado contexto será observada como sendo seu comportamento.

A maneira como nós humanos nos movemos não pode ser única, pois como já foi dito não somos iguais corporalmente falando. Sendo, no entanto, biologicamente iguais apresentamos os mesmos componentes constitutivosos mesmos recursos para sermos como somos.

O comportamento irá se revelar dentro dos limites de possibilidades determinados pela organização corporal de cada indivíduo. Se o leitor tiver dúvidas com relação a isto basta observar as pessoas ao seu redor quando estiver caminhando, por exemplo. Você verá, com certeza, diferentes estilos de caminhar. Estilos estes que distinguem as pessoas enquanto indivíduos atribuindo-lhes uma identidade.

Esta singularidade acontece em parte pela informação genética que define as possibilidades anatômicasfisiológicas de cada pessoaem parte como resultado da aprendizagem que surge das estimulações presentes nas atividades de relação com a famíliacom o meio ambiente onde a criança evolui.

Esta corporalidade emergente destas atividades viabiliza portanto, como já foi dito, que o estar no mundo desta pessoa é produto de suas experiências pessoais ao longo da vida. Enquanto estrutura estamos em constante transformação, mantendo no entanto um determinado estado de ordem na organização que preserva uma identidade. Euvocê leitor seremos portanto reconhecidos por pessoas de nosso convívio mesmo quando estivermos bem velhinhos

Esta organização é passível de ser estimulada qualitativamente através do movimento mantendo o organismo em um estado de ordem molecular no qual o limiar de eficiência preserve a competência motoraconseqüente qualidade de vida.

A consciência desta corporalidade

Os trabalhos do neurobiólogo chileno H. Maturana tornaram-se fontes de pesquisa para a orientação de nosso trabalho no Espaço Jera . Em nosso núcleo de estudos em fluência corporal estamos desenvolvendo uma proposta que recebeu o nome de Ginástica Funcional. Temos como ponto de referência o conceito proposto por H. Maturana de que ? Tudo que é dito, é dito por um observador a outro observador que pode ser ele mesmo.?

Transportando esta idéia para o comportamento criamos o conceito de movimento observadomovimento percebido.

Movimento observado será sempre a interpretação do que o observador (quem está orientando a aula) vêprocura explicar. Esta atitude do observador pode ter como referência as possibilidades que a estrutura humanasua organização permitem em termos de movimento. Ao observador (orientador) cabe portando sugerir objetivos, respeitando a organização corporalas opções encontradas pelo aluno.

Movimento percebido será sempre a experiência do aluno na exploração que o tema da aula propõe sendo portanto um fenômeno interno singular. Somente quem executa pode explicar o que percebe.

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Este conceito nos levou a propor em nossas aulas uma linguagem que estivesse sempre estimulando nossos alunos a investigar o movimento percebido por eles, tornando-os observadores de si mesmos.

A evolução qualitativa da competência motora é investigada, pelo aluno a cada aulasuas possibilidades de movimento no presente, tornam-se referências pessoais de evolução.

Utilizando a capacidade humana de auto observaçãoreflexão como recurso queremos que a pessoa entenda que a referência para o movimento seja sempre ela ao invés de seguir um modelo pré-determinado. Para estimularmos a consciência desta corporalidade, despertamos o interesse das pessoas para que identifiquem os componentes constitutivos do organismo humano.

Como estamos organizados corporalmente?

Este é o aspecto que mais me fascina. Você leitor pode achar que as pessoas de modo geral sabem como estão organizadas corporalmente. Não é isto que encontramos em nossa experiência. Não faz parte de nossa educação, pelo menos não através de experiências.

Como pode, por exemplo, uma mulher, mãe de três filhos não ter a mínima noção de quantos ossos existem na organização da pelve feminina humana. Como se conecta com a coluna? Como se conecta com as pernas? Quais as possibilidades de movimento? Bem não é de admirar que a humanidade padece de dor lombar. Não acha ? E note bem não estou me referindo à apenas uma pessoa.

Sugerimos constantemente às pessoas que investiguem como estão organizadas corporalmente. Sugiro que o leitor faça esta experiência (você vai se surpreender). Mesmo pessoas que vêm de áreas profissionais relacionadas à saúde se surpreendem quando perguntamos, por exemplo, quantos ossos compõem o pé humano? Para você parece fácil ? Bem, deixe-me modificar a pergunta. Quantos ossos você percebe no pé?

Para despertar este interesse começamos por mostrar um esqueleto ?humano? didático que dê a noção de ossosarticulações. Você pode dizer que isto não é novo. Sabemos disto. Nós aproveitamos esta idéiainserimos a auto-observação.

Por exemplo: observe no esqueleto, que qualidade de movimento esta articulação sugere? Bemqual é a qualidade de movimento que você percebe nesta articulação ao caminhar? A qualidade que se apresenta no lado direito. A qualidade que se apresenta no lado esquerdo, etc. Isto também não é novo nós sabemos. O que é novo? Procuramos manter as pessoas interessadas nesta investigação. Esta é a palavra mágica. Curiosidade, interesse.

Continuamos com estas investigações passo a passo enriquecendo a noção do quão complexo é o organismo humano. Quero com isto situar as pessoas enquanto organismos despertando o interesse para um contexto ecológico profundo, onde somos apenas um fio que constrói a teia da vida. Não somos o ápice da criação!

A linguagema responsabilidade de ser

Acrescentamos uma reflexão a respeito de como habitualmente fazemos referência a CORPO na linguagem. Note que é quase sempre na terceira pessoa do singular. Ele o corpo! Ou ?MEU CORPO? que dá a idéia de que é propriedade de alguma entidade distinta do mesmo.

Propusemos então que usaríamos a primeira pessoa do singular ?EU?, sempre que cada um fosse explicar como percebia a qualidade de movimento que estivesse explorando.Nosso intuito é de que as pessoas aprendam a falar de sua experiência. Da mesma forma, que aprendam a ouvir as pessoas quando estas estão falando de suas experiênciasestabeleçam relações genuínas, de respeito mútuo.

Eis algumas das questões que utilizamos em aula e/ou sessões. De que corpo você está falando? Que corpo é este que não te obedece? A quem então ele não está obedecendo? Que outra entidade é esta a qual você está se referindo como proprietária deste corpo?

Enfatizando está individualidade propusemos em seguida a retirada de nosso discurso dos pronomes possessivos meu/minha, que reforçam a idéia dualística de que existe uma entidade distinta que é a proprietáriauma outra entidade distinta que é a propriedade. Isto é novo!

Conclusão

Uma historinha para você refletir a respeito. Uma amiga que é pedagoga perguntou-me se eu tinha alguma idéia que pudesse ser aplicada para melhorar o nível de concentração das crianças.

– Olha, eu lhe disse, não penso que seja possível melhorar o nível de concentração de uma criança.
Ela me olhou como se eu tivesse dito o maior disparatedisse.
– Como assim, Zé Augusto, ficou maluco?
Eu lhe respondi imaginando a carinha das crianças tentando se concentrarem.
– Talvez se você tornar a oferta interessante pra elas você lhes desperte a atenção para o que você está propondo.
Bem, para a felicidade das criançasde minha amiga o programa escolar foi mudado.

Sabem como? Aulas de laboratório. Onde a criança investiga como acontece o que o professor está propondo. E o professor? Bem, faz o papel que lhe cabe. Orientaauxilia a pesquisa. Esta é uma história realvocê pode experimentar em casa. Aposto que dá certo!

Bibliografia

-Maturana, H.R. (2002) Ontologia da realidade. Belo Horizonte; Editora UFMG.
-Maturana, H.R. (1999) Emoçõeslinguagem na educaçãona política. Belo Horizonte; Editora UFMG.
-Romanini, V. (2004) Existo, logo penso. Os Caminhos da Terra, 141:44-59.
-Stanford, C. (2004) Como nos tornamos humanos. Um estudo da evolução da espécie humana. Rio de Janeiro; Elsevier Editora

<img src=’https://novo.pedroprado.com.br/imgs/2004/735-4.jpg’>[:en]O Corpo – Este Ilustre Desconhecido

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