Rolfing e Lesão de Medula Óssea – Uma Experiência

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Pages: 7-9
Year: 2002
Associação Brasileira de Rolfing

Rolfing Brasil – ABR

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Vou relatar, aqui, a experiência de rolfar pessoas com lesão de medula óssea, que tive no ano de 2001, num programa chamado Shake-A-Leg.

Vou relatar, aqui, a experiência de rolfar pessoas com lesão de medula óssea,  que tive no ano de 2001, num programa chamado Shake-A-Leg.

O Programa – Shake-A-Leg

No ano passado foram anunciadas, no “Fascial Flashes”no “Rolf Forum”, vagas para rolfistas trabalharem com pessoas com lesão medular, no programa  Shake-A-Leg.

O objetivo do programa é dar maior autonomia para pessoas com lesão medular ou com outros tipos de lesões neurológicas, como paralisia cerebral. Porém, a maior parte dos participantes são pessoas com lesão de medula.

Shake-A-Leg  é um programa multidisciplinar que oferece aos participantes atividades diárias por 5 semanas, no programa adulto e, por 2 semanas, no programa infantil.

As atividades oferecidas são: fisioterapia, terapia ocupacional, condicionamento físico, mobilidade em cadeira de rodas, hidroterapia, palestras (com nutricionistas, psicólogos, de vocação profissional, de recursosequipamentos para pessoas com limites físicos, etc),  yoga, meditação, massagem,  Reiki e  Rolfing®. Além disso, oferece também uma grande gama de atividades lúdicas como: velejar, andar de caiaque, esquia aquático, bicicleta manual, empinar papagaio, ir a concertos, shows, teatro, cinema, restaurantes, praia, etc – tudo adaptado para pessoas que usam cadeira de rodas.

O programa é realizado todos os anos por uma organização não governamental, na cidade de Newport, estado de Rhode Island, nos Estados Unidos.

Eu mandei meus documentos (“application”)fui aceita como voluntária para o programa adulto de 2001.

Estivemos, por 5 semanas, terapeutasparticipantes, em convivência intensa. Dormíamos, comíamos, trabalhávamosnos divertíamos, todos, nos mesmos locais – nos dormitórios, no  refeitório, no prédio onde conduzíamos as sessões profissionaisnos locais onde aconteciam as atividades lúdicas.

 

Tipos de Lesão Medular – ParaplegiaTetraplegia

A maioria dos participantes eram pessoas que tinham lesão de medula óssea, ou seja, eram paraplégicos ou tetraplégicos. Vou explicar sucintamente algumas características deste tipo de condição.

A lesão na medula ocorre, em geral, em função de um trauma na coluna vertebral (fratura, deslocamento, etc). Esse trauma pode provocar cisão da medula – em função de deslocamento das vértebras –  ou lesão nas células nervosas da medula – em função do edema que ocorre na região traumatizada da coluna.

Quando as células nervosas são lesadas ocorre interrupção da comunicação entre o cérebroas partes do corpo enervadas da região da lesão para baixo. Ou seja,  se houve uma lesão entre as vértebras T10T11, todas as partes do corpo enervadas pelas raízes nervosas que saem desta conjunçãodas conjunções vertebrais abaixo ficam sem comunicação com o cérebro. Elas não recebem mais informaçõescomandos vindos do cérebro, assim como o cérebro não recebe mais informações vindas destas partes do corpo, ou seja, do que estas partes do corpo sentem (portanto, estas não possuem mais sensação). A comunicação nervosa eferenteaferente é cortada.

Dependendo da altura da lesão na coluna (as lesões são denominadas pelas vértebras a partir das quais a comunicação é interrompida), a pessoa fica com os membros inferiores comprometidos – paraplegia – ou com os membros inferioressuperiores comprometidos – tetraplegia. Em geral, lesões lombarestorácicas deixam as pessoas paraplégicas, ou seja, com comprometimento dos membros inferiores,as lesões cervicais deixam as pessoas tetraplégicas, comprometendo tanto os membros inferiores quanto os superiores.

Há também lesões completasincompletas. Lesão completa ocorre quando não há mais nenhuma comunicação entre o cérebroas partes do corpo enervadas pela região da lesão para baixo. Lesão incompleta é aquela onde existe algum tipo de comunicação entre o cérebroas partes do corpo enervadas na altura da lesão ou abaixo. Assim, em lesões incompletas, algumas pessoas perdem o movimento, mas possuem sensações (por exemplo de pressão, ou de temperatura); outras possuem movimento voluntário em alguns músculos específicos, mas não no conjunto deles, impedindo o movimento.

Existem outras variações especificas, como diferentes alturas de lesão de um lado ou outro das vértebras ou casos de hemiplegia, por exemplo, que não vou me aprofundar aqui.

Acho importante observar que o funcionamento das vísceras também fica comprometido pois a comunicação autônoma simpáticaparassimpática também é comprometida. Assim, por exemplo, regulação de temperatura corporalevacuação (controle dos esfíncteres urináriofecal) passam a ser alvo de tratamento diferente na vida dessas pessoas.

 

Lesão MedularRolfing®

Cada participante do programa tinha, pelo menos, 2 sessões de Rolfing® por semana,  que  ocorriam com o mesmo Rolfista ou com 2 Rolfistas diferentes. Em 2001, haviam 4 Rolfistas trabalhando.

De um modo geral, os participantes gostavam muito das sessões de Rolfing®.  Eles viam nas sessões um momento para aliviar as dores da sobrecarga muscular provocada pelo acúmulo de atividades (condicionamento físico,  fisioterapia, aulas de mobilidade em cadeira de rodas, hidroterapia, etc).

Assim, nós fazíamos um trabalho de “pronto-socorro”, um trabalho voltado para o relaxamento miofascial de membros superiorescoluna, em função da demanda dos participantesda própria dinâmica do programa.

Porém, além do trabalho de relaxamento miofascial, eu trabalhei com recursos  mais sofisticados da técnica de Rolfing® no tratamento dos participantes.

Os padrões corporais  mais presentes neste grupo eram os  de rotação interna de ombro, cifose torácica, pescoçocabeça projetados para frente. Estes padrões têm relação direta com o esforço muscular repetidocom a postura“gingado” corporal exigidos pelo trabalho de empurrar a cadeira de rodas.

Muito comum também eram as torções de pelvede coluna em função de formas repetidas de sentarse apoiar na cadeira de rodas e/ou em função de diferenças na altura da lesão em um ladooutro da coluna (o que possibilita alguns movimentos de um lado do corpo, mas não do outro, criando desequilíbrios).

Em função destes padrõesda quantidade de atividades que eles realizavam no programa, os participantes apresentavam bastante desconfortodor nos ombros, ao redorentre as escápulasna coluna cervicaltorácica.

Levando em conta os padrões posturaisrotações dos participantes, orientei meu planejamento de sessãointervenções, através dos princípios do Rolfing® – holismo, adaptabilidade, suporte, palintonicidadeintegração/fechamento.

Assim,  depois do trabalho inicial de adaptabilidade – de  abertura das camadas mais superficiais, de preparação do tecido – precisei responder a uma questão para poder prosseguir o trabalho: de onde vem o suporte das pessoas com lesão medular?

O suporte já não vem mais dos pésdas pernas. Também não dava para afirmar que o ele vinha da pelve, pois o suporte que a pelve fornece é um suporte físico passivo (pelo volume, pela anatomia, pelas articulações),não um suporte ativo, dado pela presença de movimentopela consciência.

Num primeiro momento, considerei que, para os paraplégicos – especialmente os com lesões mais baixas, em vértebras lombares ou ultimas torácicas – a coluna seria uma estrutura que forneceria suporte para eles. Algo como um “suporte axial” (se me fosse permitido assim expressar). Mas percebi que a coluna é uma estrutura muito frágil para fornecer suporte, embora ela seja um elemento importante de organização da palintonicidadedo equilíbrio para os portadores de lesão medular, assim como para os não portadores.

Depois observei que a caixa torácica como um todo (ou seja, a coluna em relação ao esterno, às costelas, o diafragma respiratóriotodas as outras estruturas relacionadas – músculos, ligamentos, fáscias, pulmões, etc) era a estrutura de suporte.

Para os paraplégicos que possuem lesões lombaresnas últimas torácicas, a caixa torácicao diafragma respiratório fornecem um bom suporte, inclusive consciente, uma vez que eles possuem sensações, propriocepção, controle movimento voluntário nesta região.

Mas a questão ainda não estava totalmente respondida:no caso de portadores de lesões torácicas mais altasde tetraplégicos, qual a estrutura ou elemento que fornece suporte?

Considerei, então, que a respiração era um elemento de suporte importante para os tetraplégicosportadores de lesões torácicas altas. Assim, o movimento de expansãoretração da caixa torácica, produzido pela inspiraçãoexpiração, aquele que acontece a partir de uma expansãoretração visceral interna dos pulmões, passou a ser um elemento chave em meu trabalho.

Trabalhei com os participantes, o acesso conscientevoluntário da respiração, assim como a sensação interna, de entradasaída de ar pelas vias respiratórias. Exploramos a percepção do movimento de expansãoretração do tóraxo efeito que isso tinha na postura, no conforto, na qualidade de movimentono equilíbrio.

A expansão da caixa torácica através da inspiração contribui para dar maior volume nas três dimensões (frente-trás, lado-ladocima-baixo)para dar maior  abertura na frente do tórax. Com um maior volume torácico, com mais dimensãomovimento no tronco, os portadores de lesão medular, tanto tetraplégicos como paraplégicos, ganham mais equilíbrio, mais suporte,uma melhorar a relação com a força da gravidade.  Esse movimento de expansãoretração possibilita um maiormelhor suporte estruturalfuncional para o pescoço, cabeçacintura escapular, assim como para os movimentos de ombrosbraços.

Outro trabalho relacionado com a respiraçãocom a caixa torácica foi o de “sintonização” dos diafragmas, o de acordarrelacionar os diafragmas – o respiratório, o anel torácico, o assoalho da boca, o céu da bocao topo do crânio. Sempre considerando os diferentes níveis de lesão e, portanto, diferentes níveis de sensação, consciênciapossibilidade de movimento, este trabalho contribui para  melhora do  suporte, assim como, da adaptabilidadeda palintonicidade dos participantes.

Importante, também, foi o trabalho de des-rotação de pelvecoluna, que envolviam encurtamentos  de músculos de um dos lados do corpo. Algumas vezes, de músculos que já não mais possuíam comunicação com o cérebro. Porém, o trabalho mecânico nestes músculosfáscias se mostrou eficiente no “release” de encurtamentos e, portanto, na restauração do equilíbrio estrutural.

Juntamente como trabalho estrutural, me utilizei também do trabalho de movimento, para despertar a consciência das rotações nos participantes. Através das técnicas de Rolfing® Movement, os participantes passavam a ter mais atenção com sua postura, com sua auto-imagem, passavam a posicionar seus corpos de maneira mais alinhada na cadeira de rodas, ganhando mais equilíbrio. Passavam, por exemplo, a deixar a pelve alinhada na cadeira,não rodada,  ou a equilibrar seus apoios de braço de modo semelhante nos dois lados da cadeira, etc.

Assim, o Rolfing®o Rolfing®  Movement, além de serem terapias importantes dentro do conjunto do programa Shake-A-Leg, são instrumentos valiosos no tratamento de pessoas com lesão medular, pois contribuem para a melhora da qualidade de vida, para maior independência, para a ampliação da consciência corporal, para o aumento da flexibilidadeda amplitude de movimento, para o desenvolvimento de movimentos mais funcionaispara o equilíbrio.

 

ContinuumSomatic Experiencing®

Não trabalhei com técnicas de Continuum neste programa, mas com certeza esta técnica traria bastante benefícios para esta população uma vez que traz e/ou mantém a vivacidade dos tecidos, a qualidade “liquida”, continuafluida dos tecidos que, no caso das pessoas com lesão medular, tendem a perder esta qualidade em função do “contágio” da paralisiada repetição de certos movimentos. Porque o Continuum permite o contágio inverso, o dos micro movimentos de áreas que os possuem para áreas que não os possuem, permitindo que os tecidos respirem, que o sangue flua, que a  “vida” se espalhe.  E, particularmente, porque o Continuum trabalha comatravés de técnicas de respiração, trazendo movimento à caixa torácica.

Outro trabalho que acredito ser muito importante para pessoas com lesão medular é o de Somatic Experiencing®. A maioria dos participantes teve sua lesão em decorrência de grandes traumas, particularmente, acidente de carro, mas também em função de cirurgia, atropelamento, acidente esportivo, etc.

Por várias vezes cheguei a presenciar  expressões de tristeza, ressentimento, inconformidade, raiva, negação, incapacidade de lidar com a situação, depressão, abandono, orgulho, desistência, vergonha, culpa …

Com certeza o trabalho com o trauma os ajudaria a superá-lo, a se abrirem novamente para a vidaa lidar com  a nova situação em que eles se encontram.

Yeda Bocaletto é Rolfista Estruturalde Movimento

Gostaria de agradecer a todas as pessoas que me deram suporteme possibilitaram participaraprender neste programa e, em especial, a todos os participantes de Shake-A-Leg.

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