Contribuições do Pensamento e Obra de Ida P. Rolf para o Trabalho com Postura em Psicologia

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Ao começar a escrever esta introdução percebo quanto tempoenergia empreguei para trabalhar em torno dos temas posturaestrutura.

Estranha paixão.

Aos poucos vou me dando conta do espaço que estes temas ocupam em toda minha vida, particularprofissional. Lentamente memórias surgiram, percorrendo caminho inverso ao tempo, chegando a épocas muito remotas de minha infância.

São memórias de prestar atenção em gente, no jeito delas, de tentar ver diferenças nos corpos das pessoas, de analisar meu corpo, de reagir à atitude, ao modo dos outros, mais que a suas palavras. Alguns destes episódios são muito vivos em minha consciênciaagora percebo que já muito pequeno – muito mesmo – operava em termos de análise de postura.

E isto não aparecia só como sinalizador para relacionamentos humanos. Também em minha intimidade lembro-me de que já tentava operar sobre minha postura, para examinar, como que brincando, como a alteração delas produziam sensaçõesexperiências diferentes em mim.

Uma vez, com meu pai em Campos do Jordão, teria eu, sei lá, talvez 4 ou 5 anos,ante uma linda vista, me sentia cansado, triste. Lembro-me de decidir respirar mais fundo, levantei a cabeçao tronco, respirei fundo,a transformação advinda desta modificação deliberada de postura me impressionou tremendamente. Foi um susto perceber transformação tão profunda no estado de humor seguida a uma modificação na postura. Bastou respirar mais fundoo mundo mudar, as cores brilharemos barulhos aparecerem.

E também lentamente me alienei desta possibilidade intuitiva que então dava seus primeiros sinais.

A entrada no mundo das explicações verbais representou uma distância que foi acontecendo paulatinamente, limitando a possibilidade de sentirperceber no contato direto com o mundo físicosensorial, com a decorrente substituição para o foco do mundo das explicaçõesdo pensamento com este uso.

Seguiram-se o que agora chamo de anos de alienação, de desintegração gradual entre o pensar, sentir, perceber, intuir, representando uma repressão gradativa destes últimosum terrível mau funcionamento do primeiro, gerando uma inabilidade cada vez maior de operar a nível sensorialtensões crônicas foram gradualmente instauradas em meu corpo.

Neste estado passei minha adolescênciapor minha primeira experiência em Psicoterapia. Nela não logrei contato com este meu mundo reprimido, ao contrário, parece que sofistiquei os truques de minha razão.

Também assim foi minha experiência na Faculdade de Psicologia.Quando cursava o 4o. ano, comecei a fazer psicoterapia com abordagem corporal. Usávamos a técnica de calatonia para recondicionamento psicofisicoanalisávamos as imagenssensações produzidas. Nesta época comecei a anotar meus sonhos, o que fiz regularmente nos anos seguintes. Também nesta época fiz exercícios de respiraçãoestiramento, diariamente, por dois anos.

Esta experiência representou o início de uma reconquista, de uma reintegração. Nesta fase, nada de teoria, só vivências nestes fenômenos.

Inegável que meu contato com esta terapêutica, que incluía calatonia, a prática dos exercícioso interesse pelos sonhos, representou imensa abertura. Não sabia como se davam, mas as correlações entre os fatosvivências me pareciam espantosas. As imagens no relaxamento refletindo estadossensações corporaiso aumento de meu bem estar ligados ao estiramentoà respiração foram experiências muito marcantes. Marcantes o suficiente para abrirem minha curiosidade. Eu que tanto tinha investido em busca de “explicações psicológicas”, “mentais”, para a compreensão de meu comportamentoestados emocionais, comecei a me confrontar com todo um universo novo, que operava em termos de uma correlação psico-física, sensorio-mental.

Pouco antes de me formar em Psicologia, me reúno a um grupo de colegas – 16 pessoas no início – liderado por Isabella De Santis, nossa professora. A proposta era estudar técnicas de relaxamento. Aprendíamos a técnica, a aplicávamos entre nós, discutíamos as vivências, líamos as teoriasas discutíamos.

Tomo então contato com J. H. Schultzo “Treinamento Autógeno”, Jacobsono “Relaxamento Progressivo”, P. Sandora “Calatonia”, M. Feldenkraisa “Consciência do Corpo”.

Desta experiência me sobram mais evidências desta relação corpo-mente a nível vivencial, uma habilitação para trabalhar com aquelas técnicaso despertar teórico de questões ligadas a esta relação corpo-mente.

Depois de graduados, o grupo se transforma num grupo de supervisão de prática clínica. Oito de nós continuam se encontrando em reuniões semanais que começavam às oito da noiteque não tinham horário para terminar, freqüentemente entrando madrugada adentro em nossas discussões. Começamos nossa prática clínica com o que tínhamos: formação acadêmica, operacionalização nestas técnicas de relaxamento, muita vontade, repletos de insegurançaboas intenções.

Buscávamos no grupo aprofundamento teórico sobre a questão da abordagem corporal em psicoterapia. Então meu contato com Pick (imagem espacial do corpo), Head (esquema postural), Schilder (esquema corporal), autores que desenvolveram especulações sobre o corpo como estrutura organizada, de um ponto de vista estático,dinâmicoplástico. Com Wallon, Merleau-PontyAjuriaguerra, numa abordagem psicobiológica, redimensionando o corpoclarificando a relação deste com o meio ambiente, trabalhando hipóteses ligadas à espacialidade do corpo, ReichLowen nas especulações sobre posturacarátersobretudo Jung com sua dimensão simbólica.

Muito sutilmente participava de vários mundos: o dos interessados na própria investigação, o dos interessados na questão teórica ligada ao assunto da integração corpo-mente, o dos que tentavam pôr esta visão a serviço dos outroso dos que aprendem a função de terapeuta, com tudo o que isto implica.

Também semanalmente três de nós nos reuníamos para aprendizagem de massagem. Aprendíamos uns nos outros com supervisãoorientaçãoparticipação de Agnes Goecze. Esta experiência começava a treinar meu toquea me abrir para perceber bloqueios e/ou fluência energética em mimnas pessoas.

Estes grupos seguiram por cinco anos. Deles saíram vários trabalhosteses de mestrado, todos eles ligados a corpo.(1)

Depois destes anos de trabalhoconvívio, Dr. Jose Ângelo Gaiarsa se liga ao grupo como supervisor.

O convívio com Gaiarsa, pessoa em contínua criatividade, abertahonesta, de pensamento arrojadocorajoso, muitas vezes polêmico, nos obrigava a reflexãocolocação constantes.

No grupo liderado por Isabella, nosso enfoque sobre o corpo era de recondicionamento neuro-psicológico,nos interessava a possibilidade de leituraa análise simbólica do matérial emergente na psicoterapia. Com a inspiração jungiana tínhamos no mestre ponto de partidade chegada. De acordo com minhas possibilidades na época, encarava o trabalho corporal como auxiliar de um trabalho interpretativo verbal, como estímulo para eliciamento de material a ser trabalhado simbolicamente.

Gaiarsa relata a influência que tiveram JungReich em sua vida, trabalhoobra. O ponto comumde partida que possibilitou uma ponte entre o grupoesta nova presença era o referencial comum jungianoo interesse por corposua inserção no contexto psicoterapêutico. Logo percebemos que a forma de se entenderde se trabalhar com a dimensão corporal de Gaiarsa apresentava muitas novidades.

Gaiarsa na ocasião (1976) tinha estudadointegrado a seu trabalho o pensamento de Reich. Alí foi meu primeiro contato, não teórico, com a análise caracterológica, já apropriada por Gaiarsa. A noção de Couraça Muscular do Caráter (CMC) adquire nova dimensão. Durante algum tempo me dediquei a sua leitura no corpo dos clientes, uma vez que me era passada a noção de correspondência entre a psicodinâmica do sujeitosua organização muscular,da postura com o prognóstico comportamental.

De um grupo de supervisão de casos clínicos (que trazíamos por escrito do consultório), o grupo passou a incluir um momento de aprendizagem de técnicas criadas por Gaiarsa para se lidar com a CMCum momento de vivência, onde empregávamos uns nos outros o que vínhamos aprendendo, de forma não diretiva.

Sei que ao relatar esta experiência me escapam muitas das trilhas por que o grupo passou. Organizo aqui as que de alguma forma se tornam figura para que relate meu caminho rumo ao tema do trabalho. Cada semana Gaiarsa apareciaaparece com uma novidade! O que torna o convívio rico, muito intensocheio de conflitoscontradições.

Certo é que numa primeira fase procurávamos reconstruir o máximo que podíamos das sessões que apresentávamos. Buscar a memória da postura do sujeito, do tom de voz, tentar ver a integração ou dissociação destes. Em seguida trouxemos este exercício para o aquiagora do grupo. Tentávamos nos exercitarestar atentos ao que captávamos corporalmente no colega que expunha. Num outro momento, começamos a tentar apontar corporalmente (com ligeiros toques, sem interromper o discurso) onde percebíamos tensão no relator. Notávamos modificações nos relatos, no tom de voz, na qualidade afetiva demonstrada, na segurança expositivaoutras emoções através destes exercícios.

No tempo dedicado a estudarmos movimentotécnicas de se trabalhar couraça muscular, íamos nos alimentando de novas formas de trabalhar corporalmente bem como tendo vivências das mesmas em nós mesmos, nos familiarizando com a criação de Gaiarsa, bem como participando dela.

A estas alturas a constituição do grupo já havia se alterado bastante.

Meu interesse se dirigia ao significado psicológico das posturasà organização corporal das pessoassua relação com o movimento, ação, expressão delas. Começava a localizar em mim padrões de comportamento, sua relação com minha organização corporal, bem como ver colegasclientes sob este foco.

Fiz diversas viagens ao exterior neste período, com passagens constantes por ESALEN, centro comunitário onde crescia a chamada Psicologia Humanística. Este lugar paradisíaco na Califórnia estava tendo papel importante nas reflexões corpo-mentefoi sítio profícuo para o estabelecimento de novas formas de pensarlidar com esta questão. Podemos dizer que foi lá a plataforma de lançamento de algumas teoriastécnicas mais defendidas hoje em dia como Gestalt, Feldenkrais, Tragger, Polarity, Deep Tissue Massage, Rolfing. Este centro oferecia serviços públicospossibilidade de convívio com estes técnicospensadores. Foi lá que me submetiaprendi algumas técnicas de abordagem corporal como Feldenkrais, TraggerPolarity,mantive contatos com autorespensadores – como Will Shuttz, Hector Prestera, Gregory Batéson, Milton Tragger.

Este foi um período muito difícil em minha vida, uma vez que ao lado de todas estas experiênciascontatos com pessoaspontos de vista que pensavam o lugar do corpo no fenômeno psicológico humano, era também fortemente influenciado pelo tipo de terapia que fazia, com orientação analíticapor Fernando Ulloa, psicanalista argentino que, por três anos (1977-1980), coordenou um grupo de que participei sobre metodologia clínicapsicopatologia, também com fundamentação analítica.

Experimentava, estudavaparticipava destes dois mundos, sempre reconhecendo a validade, possibilidadeslimitações em ambos. Isto estava presente em minhas reflexões teóricas, prática clínicaatividade acadêmica (ensinei abordagem corporal de 1977 até o presente, na faculdade de Psicologia da PUCSP).

Nesta época (1979) submeti-me ao Rolfing,me surpreendi com seus resultados. Era impressionante a sensação de bem estar fisicopsicológico que senti, a liberdade de movimentosa transformação que percebi em mim. Achei-o muito interessantepercebi que era um jeito não verbal de se mexer com CMC.

No grupo de Gaiarsa nos referíamos cada vez mais a formas de toqueseu useinstrumentação para o campo da psicoterapia. Poderoso instrumento proprioceptivodesmanchador da CMC. Os resultados que eu experimentava eram ótimos para meu desenvolvimento pessoal, mas não conseguia ver isto organizado numa proposta metodológica. Pareciam-me muito aleatórioscontrovertidos. Em suma eu ainda não estava pronto para me apropriar desta possibilidade profissionalmente ou talvez a proposta ainda não estivesse – metodizada o suficiente para minhas necessidades. Percebia a pro posta como nova, fazendo parte de um referencial filosófico, epistemológico, diferentes. Fascíniomedo.

Destas dúvidasansiedades nasceram dois trabalhos apresentados nas jornadas de Abordagem Corporal, em outubro de 19791980, no Instituto Sedes Sapientiae.

O primeiro visava mostrar como Tragger, RolfingFeldenkraiss se propunham a trabalhar o Corpo Humanochamar atenção para a afinidade destes pontos de vista com o movimento de “Abordagem Corporal” que começava a se estruturar em São Paulo.

No segundo tratava de compartilhar reflexões sobre a prática da Abordagem Corporala questão das relações humanas. Nela abordei a questão da técnica, do papel do terapeuta, do cliente, da relação entre ambos. O pano de fundo destas reflexões angustiadas foram o alerta que senti num curso curto de filosofia que fiz com Willém Flusser, em uma de suas passagens pelo Brasilonde analisava o pensamento judaico-cristão. Lá me dei conta de onde vinha esta atitude de separar corpomente, de coisificar partes do corpo, de se operar sobre o corpo como massas que fossem matérias primas de uma sociedade industrial.

A percepção a nível filosófico da gênese social da dicotomia de minha experiênciapensamentoprática profissionais, marcaram o início de uma transformação que ainda está em cursoque está possibilitando a integraçãodiferenciação destas experiências a nível teóricovivencial por que passei, passamosàs quais nos expomos.

Interessava-me por inclinação pessoal o trabalho com a postura,o trabalho com a postura como um todo. Não me interessava o relaxar de partes específicas, ou o desmanchamento sectarizado da couraça para liberação de material emocional. A experiência com Gaiarsa dava seus frutos, já acreditava no trabalho profilático com a posturaresolvi fazer o curso do Rolfing, numa busca de forma de trabalhar com a postura integradamente. Como referências tinha minha experiênciaa reputação que Rolfing apresentava nos meios de Abordagem Corporal nos USA, em meio a todas as “modernitudes” que aparecem numa época de transição cultural.

O caminho foi árduolento. Demorou dois anos até que tivesse reunido os pré-requisitos para o curso, que compreendiam entre outros, cursos de anatomia, fisiologia, cinesiologia, massagem, a elaboração de um trabalho escrito extenso interligando seis sistemas do corpo humano a nível anatômico, fisiológicouma reflexão sobre minha experiência em Rolfingsua teoria, bem como o efeito destes nestes sistemas.

O curso propriamente dito constava de duas partes de dez semanas cada. Na primeira participei como ouvinte da formação de 6 pessoas,na segunda como formando praticante. O trabalho se dava intensamente com jornadas de 10 a 12 horas, com momentos teóricospráticos supervisionados (dois professores para seis alunos).Entre as duas fases requeria-se pelo menos 3 meses de espaço para integração da experiência. Nesta segunda fase do treinamento, passávamos como clientes pelo processo de Rolfing novamente,tive outra experiência surpreendente em relação a postura.

Foi um momento quando voltava de um passeio por um bosque e as condições do caminho eram muito irregulares, como já era noite, nem sempre a luz do luar era suficientemente intensa para que pudesse adequar minha marcha usando controle visual. Experimentando muita insegurançamedo quando, de repente, sinto o oposto. Respiração calmaespontânea, equilíbrio, segurança. Estes estados se sucederam até que percebi que a alteração nas emoções a na participação consciente com a realidade internaexterna estavam vinculadas à organização do meu corpo. Quando alinhava minhas partes em torno a vertical, o esforço dispendido para andarme adaptar às condições físicas ambientais era muito menor,o prazer aumentava muito. A adaptação ao solo se deve de forma mais segura, a marcha mais fáciltranqüila, a participaçãio na natureza mais intensa, o controle do equilíbrio mais automáticoo pensar mais espontâneo.

Dou-me conta, por esta experiência, do valor do trabalho com integração estrutural. A teoria que estava estudando toma dimensão infinitamente maior depois desta experiência,também se integraram, nos pensamentos que a ela seguiram, muitas das informações – teóricasvivências por que passara em minha vida.

Disto nasce a proposta deste trabalho.

A busca das teorias daqueles que trabalham com posturaàs quais fui exposto, estudeiexperimentei (Reich, Gaiarsa).

Sua apresentaçãosituação em relação ao fenômeno psicológico (1o. capítulo)

A apresentação de Ida P. Rolf, que num trabalho humanístico, buscou a integração estrutural, a apresentação de seu ponto de vistade sua metodologia (2o. capítulo).

E a tentativa de ver no que o trabalhoobra de Ida P. Rolf podem contribuir aos pontos de vista de Reichsua CMC, Gaiarsasua teoria bio-mecânicaproprioceptiva,tentar propor o que estes podem contribuir para quem trabalha com integração estrutural (conclusão).

O trabalho segue portanto a ordem cronológica de meu contato com o tema, Reicha abertura para o trabalho que Gaiarsa concebeu, Gaiarsao trabalho com postura a nível bio-mecânicoproprioceptivo, Ida P. Rolfsua visão da estrutura humana,finalmente a tentativa teórica de integração destes.

Os capítulos IIIa conclusão foram escritos num só corpo, onde o texto se apresenta de forma construtiva, encadeando os diferentes aspectos abordados.

Neste momento o trabalho visa fazer estas apresentaçõescorrelações a nível teórico sendo que esta pesquisa, situação, revisãosíntese crítica se fundamentam não só na pesquisa bibliográfica, como também em minha experiência vivencialprofissional. Porém, abre perspectivas para o estudo prático das propostas implicadasfoi-me difícil não ceder à tentação de relatar casos clínicos, porém fugiriam ao âmbito deste trabalho.

A escolha de relatar nesta introdução a visão histórica do problema apoiada em meu desenvolvimento pessoalprofissional visa trazer ao leitor a tentativa de se fazer um trabalho que abrangesse, como de fato ocorreram, experiências a nível teóricoemocionais, de formas integradas, bem como situar o problema no âmbito histórico em que surgiu, do qual faço parte, trazendo ao leitor maior possibilidade de críticacompreensão.

CAPÍTULO I

REICH ? GAIARSA

Reich notou em sua prática psicanalítica que a resistência dos pacientes ao terapeutaa psicanálise eram fatores que limitavam ou impossibilitavam o uso da mesma. Considera que “a eliminação desta dificuldade não seria tão difícil não fosse o fato dela ser mantida pelo caráter do paciente, que a parte de sua neurose? (4, p.40). Há duas maneiras, em princípio, para enfrentar esta dificuldade “Uma é a educação direta para a análise, por informações, apoio, conversas, etc. Isto é, uma tentativa de se educar o paciente à psicanálise por algum tipo de transferência positiva. Isto corresponde à técnica proposta por Nunberg” (5, p.40). “Outra é a substituição de medidas pedagógicas por interpretações analíticas” (5, p.40).

“Este procedimento levou inesperadamente a análise do caráter”(4, p.41). “Algumas experiências clínicas fizeram necessário distinguir entre os vários tipos de resistência que encontramos um determinado grupo denominado não pelo seu conteúdo, mas pela forma específica do paciente agir ou reagir” (5, p.41).

A forma das reações típicas que diferem de caráter a caráter – apesar dos conteúdos manifestos serem os mesmos – é determinada por experiências infantis da mesma forma que o conteúdo de sintomas ou fantasias (5, p.41).

Suas observações o conduzem ao estabelecimento da seguinte colocação: “a primeira é básica antítese pessoal se estabelece na oposição entre libido (que é o movimento para o mundo externo)angústia (que representa a retratação em direção ao Ego)” (5, p.44).

Reich desenvolveu todo seu trabalho posterior orientado para o conhecimento das leis que subjazem a este processo de oposições, sua natureza, métodos terapêuticos para sua abordagem e/ou métodos profiláticos.

Em função desta dialética- instinto vital expansivorepressão da atuação deste por razões sociais, através da história do indivíduo, formar-se-ia seu caráter.

Para a formação do caráter implicariam:

1- época em que um impulso foi frustrado: i.e. cedo ou tarde no seu desenvolvimento;
2- extensãointensidade da frustração – se o instinto é reprimido ou insatisfeitoa severidade de cada uma destas possibilidades;
3- contra quais impulsos a frustração central é dirigida – i.e. qual o objeto libidinal alcançado;
4- da relação entre frustraçãopermissão;
5- do sexo da principal figura frustradora;
6- da contradição nas frustrações (5, p.150).

Estas experiências levariam o indivíduo a construir uma “armação caracterológica” contra o mundo externoimpulsos inconscientes, ?evitando o desprazerestabelecendomantendo um equilíbrio – psíquico – mesmo que seja neurótico,por fim, absorvendo energias reprimidas” (5 p.48).

Esta armação caracterológica se estrutura como o aspecto somático da repressão sendo um mecanismo de defesa,envolvendo grupos musculares que formam unidades funcionais.

Estes grupos musculares se organizam em anéis, sendo que cada segmento inclui toda a seção transversal do corpo (horizontais em relação ao eixo longitudinal) formando faixas fisicas de contrações musculares crônicas. Os sete anéis mais importantes da couraça são: ocular, oral, cervical, toráxico, diafragmático, abdominalpélvico.

À medida que o estabelecimento destes anéis representa a história do desenvolvimento psicológico do indivíduo, cada rigidez muscular que os constitui, contém a históriao significado de sua origem. Couraça Muscular de cada pessoa, é então a forma que assumem as experiências infantis de angústia,o corposua organização muscular caracterizam a pessoa a nível da forma como o fluxo de energia corre através do organismocompromete sua expressão, caracterizando-a.

O pensamento de Reich, neste nível, sugere não só a questão histórica, presente no momento do “porque” tal pessoa está assim formalmente, mas a explicação das formas de seu comportamento futuro, uma vez que a “CMC por seu caráter crônico, induziria a pessoa a determinados modos de ação” (11).

Gaiarsa que interpreta Reich em obra concluída a ser publicada, coloca que o mais importante da Couraça Muscular do Caráter é o elemento “Muscular” inserido no conceito. É ele que fornece dados a tais especulaçõessobretudo a noção de que o fenômeno inconsciente passa a ser um fenômeno visível, visível à medida que se apresenta em determinadas configuraçõesque continuará a se configurar, mostrando a forma com que o ser resolve seus conflitos psíquicos.

“Tanto quanto visível, manipulável” (11).

A proposta terapêutica de Reich seria uma abordagem sobre a expressão do corpo com manipulação direta da CMC através de massagens, exercícios, posturas, respiração, sintetizadas corn interpretação verbal. O princípio da terapia Caractero-Analítica é de remover a contração crônica que interfere com o livre fluxo da energia através do organismo, restaurando então o funcionamento natural do indivíduo.

Com esta proposta, Reich intervem no corpona organização da estrutura muscular da pessoa.

Sua teoria faz uma ponte entre os processos psicológicos do indivíduosua estruturação muscular,sua metodologia propõe caminho inverso, que é o trabalho sobre a estrutura muscular para se atingir os processos psicológicos do indivíduo.”Por isto, dissolvendo-se consistentemente a resistência de caráter, provê-se acessó imediato ao conflito infantil central” (5 p.48).

O aparelho muscular, entre outras, tem a função do movimento, da expressão do indivíduo, da atuação no meio ambiente. Ele marca a presença do indivíduoqualifica sua interação.

A análise da CMCqualquer terapêutica que se proponha a trabalhar nela, assume a noção proposta por Reich como objeto de observaçãode trabalho. Gaiarsa coloca que a alteração e/ou constituição da forma, isto é, do modo, é o único fato efetivamente observável, portanto a CMC traz a possibilidade da Psicologia lidar com o concreto, visívelobservável,especular sobre suas correlações metafísicas.

O conceito de CMC é todo baseado na história das repressões, gerandose fazendo modos de se estaragir no mundo. Lida com a qualidade de liberdade do ser. Se Couraça é a cronificação de tensões musculares, sabemos que um músculo ou grupo de músculos – crônicamente tensos terão implicações na qualidade do movimento. Tais músculos terão suas possibilidades funcionais inibidas tendo que ser substituídos por outros, ou terão algumas possibilidades de vida totalmente limitadas.

Depois da proposta da Análise Caracterológica, Reich partiu para estudar mais o que é a energia vital, e, para estudar as formas sociais de repressão. Seu foco se desloca da análise individual para estudos de sociologiapolítica,da Psicologia para a FisiologiaBiologia,seu enfoque de se lidar com o ser humano sai da terapêuticaentra na prevenção.

Gaiarsa assume que uma das grandes vantagens do conceito de CMC é “o de abrir importantes pontos de reflexão sobre a ligação do muscular ao psicológico” (11)busca um outro ponto de vista.

Comenta que a “Reich não lhe ocorreu que a musculatura não tem apenas a função de exprimir afetos” (11)sua investigação segue a via da compreensão de outras funções do sistema neuro-muscular. Parte do estudo de suas possibilidades funcionais normaisentão faz especulações sobre o efeito destasseus desvios no universo psicológicosociológico do homem.

Nesta busca de melhor entender a ligação do muscular com o psicológico, Gaiarsa comenta que em primeiro lugar toda expressão a antes de mais nada muscular, envolvendo ação mecânicaesforço, quer na expressão de um comportamento qualquer, quer na sua inibição. “Inibição também implica em esforçoação muscular” (11)

Coloca que o organismoseu movimento fazem parte de um intrincadíssimo aparelho que envolvem 200 alavancas, 300.000 unidades motoras, com uma possibilidade de 3.000.000 de esforços que podem nos mover.

Denomina o aparelho motor como aparelho estator-postural, uma vez que sua naturezafuncionamento incluem o movimentoseu oposto, que é a parada do movimento (um corpo acionadoem movimento só pararia por atrito),estator-postural sobretudo porque tem a função da estabilizaçãomanutenção das diferentes posturas que assumimos na atividade vital. “Serve ao mesmo tempo para nos manter, por, segurar ou mover” (11).

Chama atenção para a organização pareada de nosso sistema motor: temos agonistas, antagonistas, flexores-extensores, extrínsecosintrínsecos. E este sistema em seu funcionamento ótimo, oferece uma infinidade de possibilidades de ação, que para seu funcionamento requerem integração contínua de micro-esforços (11).

Já neste nível, Gaiarsa coloca que a CMC representa uma diminuição destas possibilidades. “Uma linha crônica de tensão neste sis tema, implica em primeiro lugar num esforço sendo feito constantemente, interferindo no bom funcionamento do aparelho” (11).

Segundo Gaiarsa, o aparelho locomotor provê o use de uma das “propriedades mágicas de nosso corpo, que é a sua armaçãoconsistência variáveis de instante para instante” (11),sempre chama atenção para o aspecto de que movimento implica no arranjorearranjo destas configurações musculares, com implícitas alterações na consistência do corpo. Seu aspecto dinâmico implica nestas configuraçõesdesconfigurações de conjuntos musculares (nenhum movimento se faz por ação exclusiva de uma unidade motora, mas da organização de conjuntos motores com seus mecanismos para o movimento organizado em pares opostos). Podemos compreender como a CMC limita então esta possibilidade à medida que, se um conjunto de fibras musculares está hipertônicaportanto outras hipotônicas a açãoa estabilização estão de antemão pré-determinadasdesequilibradas em parte.

O fato da natureza de nosso aparelho locomotor ser estator postural implica na noção de equilíbrio. Estator porque nos mantém em equilíbrio, nos impede de cair. Portanto, “postura pode ser vista como o esforço que dispendemos para nos mantermos na posição – em que estamos” (11).

Em seu artigo CorpoTerra,nas obras a serem publicadas onde comenta Reich, refere-se a compreensão da influência da gravidade nossa relação com ela. “A ação da gravidade é tão profundacontínualigada a tudo o que somosfazemos”. “É o primeiroo mais importante de nossos conflitos” (2, p.236).

Gaiarsa coloca que “a força gravitacional atua continuamente, man tendo a terra em sua órbita,sem a qual nenhum dos outros atributos teria sentido algum … sem ela nenhum dos outros atributos teria sequer existência. Fosse outra a órbita da terra -essa órbita é apenas função das massas em jogo -a vida não existiria aqui, ou não seria o que é” (2, p.237).

Carregamosequilibramos continuamente nosso pesoainda se con siderarmos a organização de nossa estrutura, o desafio se apresenta ainda maior.

Considerando-se a extensão da influência da gravidade, de sua onipresença, torna-se fator tão habitual que a nossa consciência não está alerta a ela o tempo todo, e, sim só pelo seu oposto, quando perdemos nosso equilíbrio. “A relação entre corpoterra é continuamente mantida por nosso equilíbrio” (2, p.246). E a “organização da manutenção de nosso sistema de equilíbrio depende do labirinto, olhos, sensibilidade profunda, propriocepção osteo-articulo-muscular, propriocepção cervical em especial” (2, p.244). Todos estes sistemas atuam integradamente. A disfunção de um deles traz imediatamente ação compensatória dos outros. Contribuem em seu funcionamento para a relação postura, movimento em sua relação com a gravidade,sua própria possibilidade integrativade funcionamento dependerá da postura em relação à gravidade”. Se existem tensões assimétricas em nosso sistema, nosso equilíbrio funcionará compensatoriamente com alteração, uns tendendo a corrigir outros na qualidade do exercício das funções. “Fora das relações ótima entre os vários indicadores, as demais, ainda que possíveis mantém o sistema sob atuações divergentes compensadoras” (2 p.245).

Nota que a nível bio-mecânico, a má distribuição das massas do corpo (divisão assimétrica das massas em relação ao eixo perpendicular à terra) implica num entortamento gradual do corpo (gravidade sempre agindo). Coloca que a postura deve ser bem aprumadabem equilibrada, simétrica. A nível bio-mecânico é aquela que se aproxima da vertical, melhor organizador de esforços. Este bom empilhamento dos blocosboa distribuição dos pesos além de organizá-la verticalmente, a organiza horizontalmente (ombro na mesma altura, pontas do ilíaco, idem, joelhostornozelos horizontais). E a coluna tem papel chave na verticalidade, sua retificação implica em facilitação de acomodações verticaishorizontais de todas as estruturas envolvidas.

Gaiarsa, faz uma distinção entre o que representa esta descrição de postura “ideal”o que é postura ideal em termos dinâmicos. A postura aprumadacom os blocos equilibrados em relação uns aos outrosse aproximando da vertical representaria uma organização “ideal”, estática. Assume que a busca ou proposta deste ideal é coisa difícilincerta uma vez que corresponde a um modelo teórico, mas que à luz de seus conhecimentos de bio-mecânica, esta postura representaria a que mais daria liberdade para o encontro das outras posturas, ideais para cada situação, dinâmicas (12). Aí a boa postura são “mil boas posturas” (11), ou seja, a melhor postura para cada atoo encontro delas dinamicamente. A postura ideal se torna situacional (para martelarmos, uma postura, para carregarmos, outra, para um gesto de carinho, uma terceira). Postura esta que se organiza em função da ação específicaque respeita todas as relações entre os objetoso campo.

Gaiarsa se preocupa mais com esta noção de que a postura na açãoé sempre uma condição de equilíbrio a ser estudada, é a forma de nos equilibrarmos a cada instante,que precisa ser bem controlada.

À luz de suas explicações bio-mecânicas, percebemos como a CMC influi em todo posicionamento do indivíduo. Em primeiro lugar limita as opções de posturas de ação (posturas de base), pre-determinando-a, uma vez que qualquer linha de tensão crônica implica no arranjo corporal, em compensações estruturais.

A infinidade de recursos de nosso aparato locomotor provê mil formas de se fazer a mesma ação, sua adaptabilidade a espantosa, mas como Gaiarsa chama atenção, de formas compensatórias, qualificando desta forma, o modoa experiência em questão.

Nada disto teria a menor importância no pensamento de Gaiarsa não fosse a simultaneidade das ações mecânicas com as funções sensoriais dos músculos (não apenas atuadores ou estatores-posturais). Uma vez que “a figura sensorial de sua ação está continuamente na consciência. De qualquer ação que pratiquemos em qualquer atitude que estejamos, temos instantaneamente na consciência uma representação proprioceptiva, representação que contém simultaneamente na consciência todas as formas em jogo, tanto as psicológicas, (intenções, desejostemores) quanto as mecânicas” (2, p.238).

Nossa propriocepção, pela natureza simultânea de sensação-consciênciapela qualidade sensorial muscular passa a dar o retrato imediato (a nível do fenômeno mental) de nossas intenções (em tensão, atividade muscular)traz a noção do eu sensorialpresente a cada momento de nossa vida, que inclui minha participação no mundo, ao mesmo tempo que se faz.

Neste sentido, formas específicas de se estar (postura) implicarão em formas específicas de experiências (bio-mecânicas proprioceptivas: quem vê o mundo de cima para baixo não experimenta o mundo como quem o vê de baixo para cima).

A CMC por incluirpredeterminar uma forma de se estar no mundo influindo no equilíbrio da pessoa não pode deixar de estar gerando efeitos cada vez mais retro-alimentativos a nível da consciência. Ao mesmo tempo que é produto produz emoções.

E este modo de estar, agir representado pela forma do corpo paradodinamicamente além de produzirser produto da consciência da pessoa, estará presente no campo social, produzindosendo produto simultâneo de relações. “Uma organização social é feita de posições” (11).

“A CMC se resolve na boa postura” (11), com isto o restabelecimento da livre fluência de energiaafetos, a noção proprioceptiva dos estados muscularesa noção do eu sensorial com outra característica.

A atividade bio-mecânica vista com esta amplitude torna-se coisa magna (simultaneidade de ação, sensação, noção do eu, equilíbrio, postura, experiência psicológicaexperiência social).

Uma vez que a “manutençãocaracterização das diferentes posturas (bem como da CMC) usam basicamente musculatura estriadaque musculatura estriada conceitualmente se refere aos músculos voluntários ou voluntarizáveis” (11), podemos usar esta característica de nossos músculos posturais para atuarmos sobre ela. “São os mesmos músculos que ao mesmo tempo nos põe de péfazem aquilo que propomos” (2 p.238).

Nossa busca de boa postura para o ato específico sempre implica em busca do equilíbrio, tarefa difícil, que pode ser facilitada – pelo desmanchamento da couraçapela educação do sistema motor.

Chama atenção ao fato de que não aprendemos a nos moverque portanto a nossa aprendizagem sobre a ação dos estriados é muito limitadafeita de maneira muito imperfeita. A couraça limitante ou os vícios de postura (relação corpo-terra) podem sofrer ação de nossa vontade (com as consequências a nível sensorialde noção de eu advindos disto). Portanto a noção das possibilidadesdo númeroqualidade das experiências advindas destas nos dariam maior flexibilidade em todos os niveis (inclusive mental)noção de equilíbriosegurança.

Os pensamentos de Gaiarsa são muito férteisabertos quanto à sua apropriação para o trabalho clínico, quer terapêutico quer profilático.

A obra teórica de Gaiarsa se localiza nesta interação da bio-mecânica com a função proprioceptiva dos músculos,esta representa a pedra fundamental de suas propostas metodológicas: o trabalho – com a dinâmica da posturaos efeitos psicológicos advindos destas experiências.

Considerando-se o aspecto limitante que a CMC representa para todo o sistema estator-postural proprioceptivo, seu trabalho busca o desmanchamento da CMCa aprendizagem, a apropriação pelo indivíduo de suas possibilidades de ação/sensação.

Tentando fazer uma divisão artificial (uma vez que estes niveis de experiência não seguem em suas propostas ordem cronológica sendo portanto uma divisão para fins expositivos) podemos colocar suas propostas em dois níveis:

a – aquelas ligadas à consciência da postura tal como se dá no momento do encontro com o terapeuta;
b – aquelas ligadas à exploração das possibilidades posturais do cliente.

Para o primeiro item podem concorrer exercícios de sensibilização,exposição por parte do terapeuta da leitura, que este faz dos modos do paciente tal como ocorridos no encontro terapêutico. Uso de instrumentos tais como espelho, gravador, video-tape, imitação de postura, toques corporais que apontemfaçam o indivíduo sentir como está a tonicidade de sua musculatura.

No segundo nível, podem ocorrer movimentos dirigidos de relaxamento, estiramento ou movimento: ginástica, dança ou práticas explorátorias da postura em ação, podendo ser utilizados instrumentos mêcanicos (tais como balanços, etc.) isoladamente ou com a participação direta do terapeuta, individualmente ou em grupo, verbalmente ou não (13).

Em minha experiência com Gaiarsa, individualmenteparticipando de seus grupos percebo que maismais sua atençãoforma de trabalho abandonam elementos interpretativosse localizam na interação bio-mecânica-proprioceptiva entre os componentes envolvidos, localizando-se nas influências recíprocas dos elementos em contato.

Suas propostas de trabalho férteis na concepçãoem abertura metodológica apresentam algumas tentativas de metodização em Futebol 2001Psicologia do Movimento, mas existe ainda muita coisa propostanão metodizada ou publicada.

CAPÍTULO II

IDA P. ROLF

Ida P. Rolf, a criadora do sistema de trabalho inicialmente chama do “Structural Integration”atualmente denominado “Rolfing” nasceu em 1896(b), na cidade de Nova Iorque. Freqüentou o Barnard College, onde, em 1916 recebeu o titulo de bacharel em química. Foi contratada pelo então Rockefeller Institute (atualmente Rockefeller University) para trabalhar nos Departamentos de QuimioterapiaQuímica Orgânica. Tornou-se professora associadalá permaneceu até o fim da década de 20. Em 1920 recebeu seu PhD em bioquímicafisiologia pela Faculdade de MedicinaCirurgia da Universidade de Columbia, N.Y.(c)

O aparecimento do “Rolfing” teve um caminho indutivo, empírico, no qual sua criadora integrou experiências pessoais casuais, estudos gerados por interesse por novas abordagens de problemas clássicos, uma grande dose de intuição, coragemtrabalho.

Cedo em sua vida, Ida P. Rolf levou um coice de um cavaloos sintomas oriundos deste acidente foram se tornando mais complexosse sucedendo. Internada num hospital em Montana, apresentava dificuldades de respiraçãosintomas de pneumonia. Seu médico – tendo usado os recursos de que dispunha, químicoscirúrgicos resolveu chamar um osteopata.(d)

De fato, houve um alívio na respiraçãouma regressão dos sintomas de pneumonia.

De volta a Nova Iorque, entra em contato com Dr. Morrison, o mais famoso dos osteopatas da época para prosseguir seu tratamento. A partir de então, interessa-seestuda este ponto de vistametodologia. Começa a formar-se nela a noção sustentada pelos osteopatas de que mudando-se a estrutura do corpo poder-se-ia mudar a função.

Ida P. Rolf também se interessava por Ioga. Praticou exercícios de postura da “Hatha-Ioga” por muitos anos, buscando, no início, seu próprio bem estar. Passou a se reunir com um gruposeu professor Pierre Barnard para estudarem teoricamente seus princípios. Isto aconteceu na década de 20, enquanto ainda trabalhava para o “Rockefeller Institute”.

Das atividades deste grupo, Ida P. Rolf tira outro princípio que mais tarde veio a ajudá-la na criação do Rolfing. Esta prática antiga na humanidade postulava que para se criar um ser mais “elevado”, mais harmônico, melhor emocionalespiritualmente, dever-se-ia trabalhar seu corpo. Corpo integrado, mente integrada; corpo livre, mente livre. Era uma noção monística, que tantas vezes aparece na história do pensamento da humanidade. Na “hatha-ioga”, buscava-se isto através de exercíciosposturas que visavam o estiramento dos músculosa liberdade das articulações.

Ida P. Rolf uma vez na Suíça fazia um curso de física em Zurich. Lá ouve falar da medicina homeopática, prática esta que seguia princípios totalmente diversos daqueles com que trabalhava a nível do ponto de vista em relação à químicaà medicina. A visão de saúde destes profissionaissua abordagem implicava em que ao invés de darem remédios que curassem os sintomas do cliente, davam-lhe remédios que levariam o próprio organismo a produzir com seus recursos bioquímicos, uma “síndrome de cura”. Foi à Genebra onde havia um homeopata,estudou o “Matéria Médica”, adquirindo a idéia de que o corpo pode se curar. Por razões particulares Ida P. Rolf deixa o Rockefeller Institute no fim da década de 20passa os 20 anos seguintes de sua vida retirada da vida profissional pública, estudandocontactando formas alternativas de educação, saúde, alimentação, etc. O que estava pronto nem sempre a satisfazia.

Em 1940 aparece Ethel, seu primeiro “caso clínico”,precursor do aparecimento do Rolfing. Ethel tinha se acidentado, era professora de pianoapresentava dificuldades motoras que a impediam de tocar. Ida P. Rolf tenta transpor os exercícios de Yogatrabalha com Ethel dando-lhe instruções verbais para movimento, para que com o estiramento muscular, suas articulações adquirissem mais liberdade. Sua recuperação foi rápidaespantosa com estes exercícios de estiramento.

Outras pessoas que também não haviam encontrado ajuda adequada para seus problemas físicos começam a procurá-la. Ela continuou aprendendo sobre posturaorganização corporal à medida que aplicava os exercícios motores de ioga em seus clientes.

Crítica com os resultados, percebe que nem sempre estes exercícios logravam a libertação das articulações.

Acontece então Grace, 45 anos, pessoa que aos 8 sofrera um acidente. Após uma queda, bateu as costas na parede de uma piscina. Saíra toda curvadavivera desde então sem possibilidades de muitas das funções motoras. Aqui Ida P. Rolf aplicou seus exercícios de estiramento (ioga), com a idéia de mudar a organização do corpo para o restabelecimento das funções (osteopatia),aliou isto a uma prática manipulativa. Trabalharam durante anos, Ida P. Rolf trabalhandoGrace orientando seus toques, dando-lhe informações sobre o trabalho, suas sensaçõesopinando sobre o que lhe parecia melhor. Ida queria reorganizaragora o fazia com as mãos.

Aí Rolfing teve seu início. Diferentemente dos osteopatas, Ida P. Rolf colocava seu foco em outro tipo de tecido conjuntivo: aquele que une os ossosenvolve os músculoscélulas: a fasciaos ligamentos.

O tecido conjuntivo (ossos, cartilagens, fascia, tendões, ligamentos) derivam a nível embrionário da mesoderme. Ainda indiferenciados, tem uma função protetora. Com sua diferenciação, passam a adquirir função de sustentação do organismo. Por suas propriedades visco-elásticas, com a aplicação de energia (pressão manipulativa) eles podem se deslocar, levando consigo seus conteúdossustentando o corpo diferentemente. Os ossos, organização mais densa dos mesmos componentes histológicos, tem a função de dividir espaçoso sistema miofascial, entre outras tem a função de sustentar os componentes do corpoo organismo como um todo nas diferentes posições. O sistema miofascial modificado, daria nova organização ao corpo humano.

Este era um ponto de vista ainda mais novo.

A ciência da época investia muito nos derivados da ectodermeda mesoderme. Havia uma lacuna imensa no estudo das funções dos derivados da mesoderme.

O fato é que Ida P. Rolf apresenta uma visão de corpo com todas as suas partes específicas agrupadassustentadas de uma determinada forma por ação do tecido conjuntivo como um todoque este tecido é contínuo no corpoque a manipulável. 0 corpo podia ser reorganizado por ação manipulativa. Com isto, mudando-se as estruturas poder-se-ia mudar as funções;como o tecido conjuntivo é contínuo, seu efeito atingiria o corpo todonão simplesmente as partes.

Nos anos seguintes trabalhou com pessoas que procuraram sua ajuda. Percebeu que seu trabalho foi adquirindo um padrãoouvia relatos que transcendiam a questão do rearranjo físico da pessoa. De alguma forma percebia atuando os princípios que aprendera na homeopatia, na Iogana osteopatia. Eram relatos de bem estar físico, de alívio de tensões, de desaparecimento de sintomas crônicos, de mudanças emocionaisde consciência.

Começou a ensinar assistematicamente, em 1950, buscando formular seu trabalho numa técnica com princípios próprios. Porém os alunos viam uma técnicanão um ponto de vista, que então já apareciase manifestava como algo estruturadoindividualizado. Não eram novos instrumentos para se fazer a mesma coisa, era um jeito novo de se conceber o trabalho com o ser humano. As partes já não tinham sentido a não ser em relação com as outras partescom o todo. Os sintomas específicos, eram manifestações do desajuste do todo. A cura, uma decorrência. Necessitava de explicações mais científicas para apoiardesenvolver o que vinha constatando.

Organiza suas idéias num artigo publicado em “Systematics”, “Gravidade, um fator inexplorado num uso mais humano por seres humanos” em junho de 1963.

“Neste artigo, outro marco na história do Rolfing, Ida P.Rolf comenta a atitude científica de nosso século como ‘um período em que as pessoas pensavam que se poderia ter o mundo sob controle pelo aumento do conhecimento dos detalhes sobre o universo’ (19, p.3), explorando o mundo com uma ferramenta de especializações, falácia esta cada vez mais aparente, e, como conseqüência muitos cientistas agora gastam tempoesforço tentando diminuir este desequilíbrio cultural, o do método analítico” (19 p.3).

Buscando sempre ver o homem como um todoa compreensão da integração de seus diferentes aspectos, dirige seus esforços para a busca de um ponto de vistatécnica que vissetrabalhasse para o desenvolvimento humano de forma integrativasintética.

“Em toda tentativa de se criar um indivíduo integrado, o começo óbvio é o corpo físico, se por nenhuma outra razão, simplesmente por se examinar a velha premissa de que o homem só pode projetar o que está dentro dele. Para o especialista médico, o corpo,só este é o homem, para o psiquiatra, o corpo é menos que o homem, simplesmente a expressão externalizada da personalidade. Nenhum destes especialistas aceitou como real uma terceira possibilidade: para denominar, mesmo que pobremente definido, o corpo físico é realmente a personalidade, em vez de sua expressão; é a unidade energética que se chama homem, como existente na realidade tridimensional. Uma vez que a organização (pattern) é só a externalização da unidade energética. Por sua vez, o nívelqualidade da energia interna é limitada por esta organização (pattern). E, ainda mais, esta organização específica é a única que esta unidade energética , neste nível atual, pode manifestar (19 p.6).

Coloca no artigo que “para os químicosos físicos”, esta idéia é muito real, uma vez que foram eles a formular as hipóteses que ligam unidade energéticasua forma material apresentada” (19 p.6). Estas teorias enfatizamdemonstram a premissa que o “arranjo no espaço é fundamental para o comportamento da substância? (19 p.6). “Comportamento portanto aparece ligado a estrutura, significando esta, relações no espaço,que, num outro plano, a comportamento” (19 p.7). Como entidades materiais sujeitas às leis da fisicada mecânica, devemos considerar que a gravidade atua numa linha perpendicular ao solo,nossa organizaçãde massas atípicanossas possibilidades de movimento tornam a relação de nossas massas na relação com a gravidade algo muito complicado.

Porém esta energia que atua na nossa estrutura, pode atuar rumo a sua organização ao invés de sua desorganização, se nossas partes estiverem relacionadas de tal forma – que inclua o poderforça da gravidade. Tal arranjo estrutural respeitaria a linha gravitacionalorganizar-se-ia a distribuição de massas simetricamente em torno a ela (vertical em relação ao solo), homogeneizando sua ação. Neste momento a gravidade passa a ser o organizador da estrutura possibilitando a diferenciaçãointegração funcional do organismo.

E como nossas partes são sustentadasorganizadas no espaço por função do tecido conjuntivo,por este ser manipulável, existe a possibilidade de intervenção humana no arranjo de nossa estrutura. Define sua busca metodológica “para tornar a força suportadora da gravidade disponível para os homens” (19 p.12). Propondo-se a “criar relações apropriadas no espaço tridimensional, momento em que o homem pode se libertar para um funcionamento mais verdadeiro” (19 p.12) a Terra é o fator integrativo que oferece um uso mais humano do ser humano.

Sugere pesquisas para “se averiguar não só o efeito da gravidade como o das relações estruturais no homem em função da gravidade” (19 p.12).”

Este ponto de vistaprática necessitavam de organização metodológica para poderem ser aplicados a todas as pessoas. Sair da dimensão de uma arte pessoal para se tornar uma arte profissional, pares que outros também pudessem aprender, usaraderir a este ponto de vista.

Organiza esta manipulação para reorganização do corpo numa direção mais simétricabalanceada em torno à linha gravitacional – em dez sessões de uma hora, proposta esta de trabalho que se mantém praticamente a mesma desde então.

Os passos seguintes no desenvolvimento do Rolfing foram de ensinodivulgação. Por dez anos ensinoudeu conferências nos Estados UnidosInglaterra. Foi uma etapa difícil porque os profissionais nem sempre compreendiam seu ponto de vista como um todoqueriam utilizar partes deles, quebrando sua integridade para usos específicos em suas práticas profissionais.

Foi em Esalen, California, na década de 60 que seu trabalho encontrou campo fecundo para divulgar-se. Como dissemos na Introdução, este instituto em Big Sur, era a sede dos então movimentos de “psicologia humanística”do “movement for human potential”. Os enfoques psicoterapêuticos estavam sendo revistos, outras abordagens do fenômeno mental se propunham. A questão corpo-mentesuas abordagens técnicas repensadas. Neste ambiente abertoexperimental, Rolfing encontra outro tipo de reflexão, qualidades de feed-back diferentesnovos adeptos das mais diversas – profissões. Fritz Pearls, Will Shuttz, Julian Silverman, Gregory Batesontantos outros expoentes o experimentaramperceberam seus valores. Pearls relata sua experiência em “In and out the Garbadge can”, Will Shuttz em “Joy”, Ken Ditchland em “Body Mind”, Hector Prestera em “Body Language”.

Este ponto de vista coletava dadosevidências empíricas incontáveisera hora da verificação científica de seus efeitos.

Em 1969 Julian Silverman(e)outros entabularam imensa pesquisa – sobre os efeitos do Rolfing. Foram medidas ondas cerebrais, perfis psicológicos, sangue, urina, potencial muscular do corpo em várias atividades antes, durantedepois das dez sessões.

Esta pesquisa, ?Stimulus Intensity Control and Structural Integration Techniques? foi publicada no Confinia Psychiatrica, 1973, 16 no.3-4 p.201-219. Seus resultados mostram que Rolfing ?traz o sistema mais perto da norma em todos estes aspectoso torna mais eficiente no uso da energia.? (1 p.22)

Segue-se em 1973 a fundação do Rolf Institute, sediado em Boulder Colorado, que centraliza o ensinodivulgação do Rolfing.

Em 1977 Ida P. Rolf publica ?Rolfing, the Integration of Human Structures?, onde explica a teoriaa prática deste trabalho. O livro é dirigido a dois tipos de leitores: o interessado, mas não treinadopara o profissional que deseja informações técnicas.

Neste período (década de 70) aparecem muitas publicações em revistas informativas onde se apresenta a técnicaponto de vista para o leigo.

Por volta deste período iniciam-se as pesquisas a nível científico que envolvem os efeitos de Integração Estrutural (I.E.)

Valerie Hunt(f) em 1971, estuda os efeitos elétrico-miográficos causados por IE em treze sujeitos antesdepois de submetidos ao processo, chegando a que ?os movimentos se tornavam mais suaves,menos constritos, que apresentavam menos movimentos estranhos, que os movimentos espaciais eram mais dinâmicosque a postura era melhorada com locomoção mais eretatensões menos evidentes para se manter posições” (14 p.3).

Julian Silvermanum grupo de psicofisiólogosbioquímicos em 1973 analisaram os efeitos exercidos por IE sobre alguns parâmetros psicológicosfisiológicos (reação EEG, medida de movimento ocular em condições controladasbateria de testes bioquímicos). As conclusões às quais chegaram procediam de um esquema – que afirma que o indivíduo modela os estímulos ambientais percebidos. As modificações encontradas vão na direção de uma receptividade maiorde uma melhor regulação da sensibilidade aos estímulos do meio ambiente (22 p.2).

Em 1977 Valerie Hunt lidera uma equipe interdisciplinar para o estudo de IE do ponto de vista neuromuscular, campo energéticoemocionais em 48 sujeitos. Usou eletrodos medindo o potencial muscular em vários lugares do corpo, deixando-os lá durante as sessões. Presentes às sessões o técnico em IE fazendo uma leitura topográfica de mudanças espaciais,um leitor de aura. Encontraram que os três tipos de leitura coincidiam,apresentaram curiosas correlações (se o leitor de aura via azul, correspondia a um tipo específico de movimento no gráfico dado pelos eletrodoso Rolfer dizia que a mudança topográfica havia se estabilizado) (14 p.1).

Além destas pesquisas, nesta década, o Rolf Institute publicou inúmeras colaborações de especulações teóricas advindas das mais variadas áreas profissionais,publicou regularmente o “Bulletin of Structural Integration”.

Em 1979, morre Ida P. Rolf, momento em que havia aproximadamente 250 praticantes de IE, o Rolf Institute exercendo suas funções de forma independenteorganizada.

Em 1980 funda-se o “Aspen Research Center” para atender de forma independente a necessidade de pesquisas ligadas ao Rolfing.

Atualmente o número de praticantes se aproxima de 300, sendo que destes 90% – 270 trabalham nos Estados Unidos, 5% – 15 no Canadáos restantes 15 em outros países.

MAIS SOBRE O PONTO DE VISTA DE IDA P. ROLF

A noção de postura de Ida P. Rolf vem junto com as noções de estruturade comportamento.

“Em qualquer sistema energético, não importa quão complicado seja, estrutura é relacionamento de unidades de qualquer tamanho – no espaço” (7 p.31)comenta que se “inclui as três dimensões do espaço comum e, algumas vezes a quarta dimensão espaçotempo, portanto estrutura sempre implica em relacionamento. O conceito nunca é absoluto, às vezes a relação implicada é entre partículas materiaisàs vezes implica na mudança por que estas partículas materiais passam no tempo” (20 p.3)que “estrutura … é experimentada como comportamento, palavra usada não no sentido comum de conduta humana mas para designar toda gama daquilo que um sistema material pode demonstrar” (20 p.4), postura “no sentido amplo implica numa interrelação dinâmica das partes do corpo no espaço, de tal forma que sempreem quaisquer condições existe um relacionamento que está a serviço da economia do corpo” (19 p.15) “a palavra postura implica em posicionamento” (7 p.30).

Os três conceitos vêm juntosapresentam leituras diferentes. A estrutura como a organização em si das partes do corpo no espaço, a postura como o posicionamento desta organização no espaço, dinamicamente,comportamento como o resultado, a atividade desta estrutura colocada no espaço. São portanto conceitos interdependentes.

Este “agregado de integrantes” traz a noção de partes, todode relação. Coloca que “o todo a maior que a soma das partes” (1 p.70). “A compreensão de cada parte só toma sentido se percebido no seu todo” (7 p.31). E a compreensão do todo da organização estrutural, postural, comportamental humana, seu funcionamento, existênciacaracterização só podem ser compreendidos levando-se em conta o contexto onde esta forma de vida acontece. Não pode ser compreendida senão como vida que acontece na Terra, no contexto em que a Terra acontece.(g)

Como agregados de partículas com massa, definindo-se um campo energético, estamos sujeitos às leis da fisicada mecânica. Temos massasomos um campo energético relacionados “ao imenso campo energético da terra que chamamos gravidade” (20 p.4).(h)

À luz deste fato, Ida P. Rolf chama atenção para o papel que a gravidade tem na organização de nossa estrutura, uma vez que “Estes dois campos, como dois campos energéticos necessariamente interagem. Em qualquer competição, o campo maior, a terra, necessariamente ganhará” (20 p.4) sendo que o “campo maior constantemente ameaça a integridade do campo menor” (20 p.4).

“Em humanos, conflitos resultantes da gravidade não podem ser compreendidos vendo-se o homem como unitárioimutável… Como um agregado de partículas com peso, o homem é plástico, segmentadomóvel. Mudanças sutissofisticadas de relações, voluntárias ou induzidas podem ocorrer em seu sistema” (7 p.31). Corpos são plásticosdesta forma capazes de serem deformados contínuapermanentemente em qualquer direção, sem ruptura. “Esta plasticidade viva é particularmente vulnerável à deteriorização, há tendência de sistemas ordenados para evoluírem de tal forma a aumentar seu grau de desordemesta mesma plasticidade que leva a deteriorização pode ser usada em sua direção oposta” (8 p. 13).

O que significa que “sob pressão ou tensão podemos ser deformadosque na remoção da tensão podemos recuperar o estado original” (20 p.6). E esta plasticidade reside na natureza dos tecidos que nos sustentam, que unem nossas partes “o suporte estrutural do homem é seu colágeno, no seu sistema miofascial, tendões, ligamentosossos” (20 p.6).

A maioria das análises de como o corpo humano se sustenta têm se focalizado nos elementos duros do corpo, o que, em termos mecânicos corresponde a um modelo de sustentação que analisa as forças compressivas no corpo,como que as estruturas esqueléticas suportam estas forças. Na literatura médica tradicional, o sistema esquelético tem sido descrito como o sistema de sustentação do organismo.

Os estudiosos do movimento, sinesiologistas, usam para sua descrição da sustentação do corpo humano, a presençaatividades dos músculos combinados com as alavancas ósseas, de suporte. Propõe o termo músculos de posturaem termos mecânicos tentam descrever a postura em termos de um modelo de forças tensionais. Em sua literatura se referem ao sistema neuro-músculo-esquelético como responsáveis por nossa sustentação.

Na literatura médica muito pouco espaço é dado a fascia,apesar de apontadas suas funções de ligação, suporteproteção celulardo organismo, os cientistas parecem não ter dado a ela a magnitude da importância de sua função como um sistema funcional (8 p.71),a operacionalização de como esta função é exercida ficou num vazio.

Quase desde o começo da anatomia descritiva registrada, a fascia tem sido vista como algo “grudentomole”, que une os órgãos uns aos outros. Ocasionalmente na história da ciência surgia uma voz solitária para dizer que este material tinha um valor muitíssimo maior que este, meramente de ligação mecânicade suporte.

“Tecido conjuntivo (do qual fascia é uma subdivisão), recebeu seu nome em 1830, dado por John Muller. Virdow em seus estudos de patologia celular deu status a este tecido, mas aí só deu importância a suas células. Só em 1890, químicosfísicos se interessaram por sua composição (celularextra-celular). A. T. Till concebe novo método de tratamento de doença, tendo o tecido conjuntivo papel central. Só em 1920 pesquisas mais intensas foram feitas com ele, abrindo-se compreensão para sua significação” (9 p.65).

Estruturalmente, consiste numa variedade de células especializadasde elementos extra-celulares (fibras proteicassubstância de fundo mucoide), com incrível complexidade químicaversatilidade biológica.

“As células do tecido conjuntivo incluem fibroblastos, células mesenquimais generalizadas, macrófagos, mastócitos, plasma, monócitos, linfáticos, células de pigmentogorduramigrantes de fontes hemopoiética” (9 p.65).

Dos componentes fibrosos do tecido conjuntivo colágeno é o mais característico da fasciaé particularmente significativo no processo da doença. Encontra-se em fibras elásticas altamente concentradas nos ligamentostambém menos densamente espalhados, nas membranas da fascia.

A substância de fundo tem uma aparência clara homogêneaviscosa. Pode ser considerada o “laboratório” da função do tecido conjuntivoa arena dos processos patológicos. A classificação do tecido conjuntivo é baseada primariamente na natureza, composiçãoquantidade de seus elementos.

Geralmente descreve-se três tipos:

1- tecido conjuntivo propriamente dito – fibras misturadas depositadas numa matriz relativamente fluída, parecendo uma geléia;
2- cartilagens – fibras comprimidas numa substância de fundo mais densa;
3- ossos – onde a matriz está infiltrada com sais orgânicos.

O tecido conjuntivo propriamente dito pode ser subdividido em três tipos:

1- frouxo (areolar), fibras formam uma malha frouxa, cujos espaços são preenchidos por uma substância de fundo semi-fluídaamorfa;
2- denso (fibroso), que em contraste com o frouxo tem as fibras mais próximasconseqüentemente menos matriz;
3- especial, que são modificações do tipo frouxocompreende os mucos, tecido adiposo, pigmentostecido hemapoiético (9 p.65,66).

Modernamente com a ampliação de recursos técnicos de investigação (submicroscópio, microscópio eletrônico, etc.)com nova orientação dos estudos da patologia, descreve-se além das já mencionadas funções estruturais para suporte intravisceralunião de todas as células do corpo, sua função na fabricação dos anticorpos, dos mecanismos anti-inflamatórios, de prevenção da propagação de infecções, de alimentação das células, de secreção celular, como mediador dos órgãos, função esta ativa na diferenciação das partes do corpo, com papel na sincronizaçãodiferenciação das ações muscularesnervosas.

Uma outra forma de se referir ao tecido conjuntivo a que ele não só une as partes do corpo, como também as especialidades da medicina. Aparece como um órgão integradordiferenciador , por suas razões espaciaispelas funções que este espaço entre células exerce.

Cadatodas as células do organismo estão envoltas por tecido conjuntivo, que preenche todos os espaços intercelulares. Ao mesmo tempo que une, separa, possibilitando assim os diferentes agrupamentos morfológicos, a organização dos sistemasseu funcionamento, discriminaçãointegração. Mais que separarunir, por suas propriedades elásticas, o tecido conjuntivo suporta os órgãossistemas em suas posições no espaço orgânico.

Assim quando falamos da forma humana, estamos falando diretamente da forma do tecido conjuntivo. Ele tem um grau de plasticidade comensurável com as condições metabólicas continuamente flutuantes,ao mesmo tempo, estabilidade suficiente para manter a formaa localização das células, individualmentecomo um todo relacionado. Isto se dá por sua constituição ao mesmo tempo fibrosafluída, fornecendo possibilidade de contençãoalteração.

Uma analogia útil para a compreensão do papelsituação da fascia seria o de visualizarmos uma inversão figura-fundo. Tradicionalmente temos a imagem de que os órgãos, músculos são a figura. Se invertermos, perceberemos que este órgão uno, contínuoininterrupto, é que dá a unidade do corpo como tal, como é o mar que dá ao arquipélago seu conceito. Não fosse o mar que as une, as ilhas não seriam um arquipélago.

À luz destes conhecimentos podemos perceber que não se pode mais falar de esqueleto ou esqueleto mais músculos como responsáveis pela sustentação do organismo. O esqueleto é parte deste sistema, mas os ossos estão ligados uns aos outros por ligamentos, que são mais molesque são uma diferenciação contínua de sua estrutura, assim como os músculos se constituem devido à união que a fascia oferece a suas células, e, de fato, eles não se inserem nos ossos. As bainhas referidas na literatura, são aponeuroses que são tecido conjuntivo, contínuos às fasciasaos ossos. “Os ossos, per si, entretanto, não são os determinantes básicos da estrutura do corpo. Os ossos estão onde estãocomo estão para separarestabilizar os tecidos mais frouxos, que, vias de fato, desempenham o papel mais significativo na organização física. Se observarmos os ossos, fica cada vez mais claro que o tecido conjuntivo frouxo precisa estar em determinadas relações organizacionais entre si para que os ossos possam desempenhar seu papel mais efetivamente como elementos separadoresrelacionadores” (21 p.2).

Torna-se necessário encontrar-se outro modelo de sustentação do corpo humano, que não o compressional (baseado só nos ossos) ou o tensional (ossos mais músculos).

Os praticantes de Integração Estrutural Ron Kirby no artigo “The Probable Reality Behind Structural Integration” (16)David Robbie em “Tensional Forces in the Human Body” (6) descrevem o modelo “Tensegrity Mast” de Buckminister Fuller. Este modelo difere dos anteriores que vêm o corpo como soma de blocos empilhados. Neste modelo, o peso é suportado por um equilíbrio entre forças tensionaiscompressivas, onde toda rede de sistema conjuntivoresponsável pela sustentação, resistindoadaptando-se à compressãoà tensão.

Na noção de estrutura humana de Ida P. Rolf o tecido conjuntivo como um todoespecialmente o tecido conjuntivo frouxo representa o órgão de suporte, o órgão da forma. Sendo que seu conceito de estrutura se define por relações de partes no espaço, é este órgão do espaço, a fascia, que dá as relações estruturais entre as partes. A fascia, como subdivisão do tecido conjuntivo, assume papel de destaque por ser o mais elástico tendo papel importante portanto na noção de plasticidade da estrutura (aí toda sua relação com a gravidadecomportamento da estrutura, de nosso ser)pela quantidade (reveste a maioria das células) situação topográfica que ocupa (quase o corpo todo, todos os lugares)(i).

Gostaria de citar alguns exemplos que a própria Ida P. Rolf usa para explicar a importância do tecido conjuntivoda fascia na organização estrutural de nosso ser: um casaco de malha pode servir como analogia. Se se puxa num ponto fixo, se ele engancha num prego, por exemplo, quando nos movemos, toda sua estrutura será modificada. O ponto de tensão muda a organização do todo.

Outro exemplo implica em imaginarmos que todos os componentes orgânicos são objetos,que estes objetos estão dentro de um saco de malha (jersei, por exemplo). Como estes objetos estão organizados dentro do saco, será a forma deste saco. Se empurrarmos um deles com o dedo, de fora para dentro muda-se a forma global do saco. E se imaginarmos que estes objetos tem jersei na sua constituição,que se liga assim ao saco envoltórioaos demais componentes internos, o tal empurrão com o dedo afeta a forma dos componentes internosa forma externa deste objeto.

Um terceiro exemplo curioso que usa é o da tenda. A tenda tem suportes de ferro ou alumínio. Sobre eles coloca-se a lonaamarrados a eles cordões que a ligarão ao solo. Se estes cordões não estiverem puxando com a mesma força nas direções opostas, a tenda não se sustenta. Qualquer diferença num, implica diferença no outro. Se o de cá está frouxo, a tenda cai ou se instabiliza num dos seus lados,no fim levará toda a tenda para o chão. Se puxarmos muito o outro, o de cá resiste, estica o máximo que pode até que arrebenta,lá vai tudo para o chão.

Se compreendermos assim nossa natureza plásticao papel da fascia na organização estrutural do nosso ser, podemos analisar a relação entre o corpoa Terra.

“Em qualquer competição, o campo maior, que é a Terra sempre ganhará? ?À medida que a gravidade é uma forma que age como se operasse através de uma linha vertical, em ângulo reto à terra, para aproveitar esta força, o homem deve estar organizado como se existisse simetricamente em torno a vertical” (19 p.2).

Se nossa estrutura não respeita esta organização, a terra como campo energético mais forte ameaça a integridade estrutural do nosso ser, deformando-o gradativamente.

No caso da estrutura humana como tal, a “fascia envolve células? músculosórgãos. O controle da posição do peso no espaço se dá através dos planos fasciais. A resposta que antes foi apropriada, mas agora transformada se reflete num gradual deslizarajuste dos planos fasciais, para que o movimento possa ocorrer. Os mecanismos compensatórios se originamoperam sob as leis da mecânica … Então, há uma alteração total da fascia para evitar que os componentes do corpo se desmantelem” (8 p.73) “há sempre um ponto de tensão inicial, mas o corpo se ajusta espalhando a tensão para lugares mais distantes através dos planos fasciais. Frequentemente o reforço se dá através do engrossamento da fascia no lugar, engrossamento este que geralmente se torna permanente,a restrição funcional envolvido, crônica.

“Há muitos padrões de desintegração. O encurtamento fascial pode causar um ligeiro deslocamento das partes do corpo. Ou as camadas de fascia podem grudar nas unidades miofasciais adjacentes, consolidando diversos destes lençóis numa única unidade de tecido menos ressonantemóvel. Ou então o problema pode se focar em restrição de movimentos nas juntas, onde os tendões se encurtam ou se deslocam. Uma vez iniciados, os padrões de desintegração são automaticamente progressivos…” (8 p.74-75).

Neste ângulo vemos a força destruidoradesintegrativa que pode representar a gravidade para nossa estrutura (vale lembrar que estrutura, num outro nível de leitura é comportamento,que determinará as possibilidades posturais desta).

Porém Ida P. Rolf coloca “a avaliação crítica da gravidade como uma força suportivaelevadora na vida humana tem recebido pouca consideração” (19 p.12).

E isto se dará à medida que em nosso arranjo estrutural as “massas sejam capazes de se contrabalancearem umas às outras gravitacionalmente,estarem livres para se ajustar a mudanças no volume muscular à medida que se altera no movimento” (19 p.10) … “o balanço muscular … é o sinal visível de que as comunicações estão funcionando livremente. Comunicações neste caso se refere ao fluxo real dos fluídos do corpo no seu papel de transmitir – substâncias metabólicashormonais, bem como a transmissão livre de correntes nervosas. Balanço muscular indica o gasto real de energia feito em qualquer trabalho… Nestas condições o trabalho está sendo executado com o mínimo de esforço, com menos dreno de energia para a execução de suas próprias funções vitais” “parece possível considerar o equilíbrio muscular … como um importante sinal de integração pessoal” (19 p.11).

À medida que a nossa estrutura se aproxima deste arranjo relacional (simétrica em torno a vertical) a mesma força que agia desintegrando o sistema passa a ser fator da integração do mesmo, uma vez que na posição vertical os conflitos de sustentação ficariam reduzidos a um mínimo,a ação da linha energética gravitacional passa através do corpo da pessoa, agindo por igual em todas suas partes, passa a manter a posição ereta, ao invés de destruí-la,possibilita o arranjo estrutural integrado dos diferentes sistemas,assim seu funcionamento integradocom eficiênciaeconomia máximas. Os mecanismos anti-gravitacionais que nosso sistema oferece ficam possibilitados de funcionamento por esta mesma força que os desorganizava.

“O homem é uma espécie que está emergindo, não é estático. Ele está emergindo inexoravelmente em direção à verticalidadequando alcançar a verticalidade a energia do campo da terra automaticamente o sustentará acrescentando-a à sua energia pessoal o que se pode observar em todo seu “comportamento”; como sente, como fica de pé, como anda, como age, como digere, como pensa, como se relaciona com o mundo, seus sentimentosseus medos” (20 p.6).

O objetivo último da IE é o desenvolvimento do potencial humano. Trata-se de um ponto de vistametodologia nascidos da preocupação com a restauraçãoapropriação pelo indivíduo de sua estrutura.

Como dissemos, as razões que justificam o presente estado de um organismo podem ser diversas, indo das conhecidas às desconhecidas, das físicas às psicológicas, das históricas às atuais, das crônicas às agudas. Todos esses fatores acrescidos da própria condição evolucionária da espécie qualificamse mostram na organização do corpo físicosua relação com a gravidade.

O trabalho em IE consiste em “reorganizar a fascia, aproveitando suas condições visco-elásticas. Busca estabelecer tonus igual em todo tecido, na frenteatrás, nos lados, nas partes superiorinferior,um outro equilíbrio importante,que é o das camadas mais profundas com as camadas mais superficiais” (1 p.212); busca portanto o relacionamentointegração das partes em todos os seus níveis de relação.

Esta busca do todo humano integrado tem como questão última não a padronização comportamental da espécie, mas uma questão em aberto que é “que tipo de organismo se desenvolverá se as partes do corpo estiverem apropriadamente integradas”(20 p.1).

Ida P. Rolf coloca que a “integração apropriada das partes dos corpos humanos no campo da gravidade a um projeto evolucionário a longo prazo, sendo que nem mesmo a primeira página foi ainda virada. É possível que estejamos vendo a primeira tentativa consciente na evolução que qualquer espécie jamais evidenciou” (20 p.2).

Seu trabalho se dirige para a tentativa de integração do homem, através de sua integração estrutural “um homem integrado poderia ser definido como uma pessoa capaz de fluxo livre, troca livre , movimento livre (que ele sente como ressonância) ambos, no corpo físicona sua expressão emocional”.

“Os padrões comportamentais do homem integrado, não podem ser formulados simplesmente por se pensar sobre eles ou se especulando sobre quais sejam eles. Felizmente só existem métodos puramente operacionais à disposiçãoestes mostram que uma aproximação pelo ponto de vista estrutural mais que pelo ponto de vista comportamental são resultados mais rápidosde alguma forma mais predizíveis. Desta forma é possível construir homens mais balanceadosentão observar as mudanças” (19 p.10).

É com esta postura filosóficacientífica que Ida P. Rolf propõe seu trabalho que representa uma intervenção, marcando o início de um processo, num dado momento da vida da pessoa. E esta intervenção foi organizada por Ida P. Rolf numa série de dez sessões de uma hora cada.

São um encadeamento sistemático de guias para manipulação. Apesar de denominada “receita” informalmente, não são mais que um referencial (uma vez que cada pessoa é um fenômeno singular).É funcional, não estática. Sua proposta oferece um referencial organizado para que o processo seja mais coerente, econômico, temporalfinanceiramente eficaz.

As sessões consistem numa combinação de manipulaçãoeducação na compreensão do use do corposeus movimentos. Sessões longas terminam por cansardistrair o cliente e/ou automatizar o terapeuta tornando-se menos eficientes em função dos objetivos.

O espaço entre elas pode ser variável, outra vez dependendo das condições da relação. Algumas pessoas preferem espaçar as sessões para que possam acompanhar todas as mudanças por que passam, outras concentrá-laspassar pelo processo como um todo, mais rapidamente. Na prática clínica o comum é espaçá-las por semana.

Neste processo estão envolvidos três aspectos: o cliente, o técnicoa metodologia que, relacionados, formam a estrutura do processo.

O corpo humano pode ser visto como uma soma de ferramentas. Algumas mais agudaspenetrantes (ponta dos dedos) outras mais largas (antebraço),amplas, algumas mais sensíveis (palma das mãos) outras menos (cotovelo). Todas podem ser usadas com o objetivo de reorganizar a fascia, e, evidentemente esta escolha é situacional.

A questão da leitura da estrutura acompanha todo o processo, dando-se em todos os momentoslugares do corpo. Faz-se de forma localizadarelacionada, uma vez que se pretende trabalhar partessua inter-relação no todo. Portanto toda leitura deve considerar o todo, mesmo que se atenha às partes.

Existem alguns procedimentos preliminares que podem ser adotados. Estes procedimentos não estão publicadosse referem a uma síntese de usos em prática clínica tal como por mim observados em contato com outros Rolfistas, como cliente, como alunocomo técnico. A observação do movimento é elemento rico, pode ser espontâneo, começando já na sala de espera (em que perna se apóia, como o tronco se movimenta, etc.) ou instruções específicas podem ser dadas pares este tipo de observação. Pode-se usar métodos analíticosdepois métodos integrativos. Também pode-se usar o recurso da subdivisão do corpo em blocos (unidades maiores: cabeça, tórax, abdômen, bacia, pernas)se examinar suas relações estaticamenteem movimento.

Concorrem para a organização destas observações informações recebidas por diferentes sistemas sensoriais. O que vi, como ouvi seu movimento, impressões causadas. Dados importantes podem vir das sensaçõesdo conhecimento que o cliente tem de seu próprio corpo.

Guias anátomo-musculares ou descrições dos planos da fascia podem ser usados como referência. Porém, o mapa não é o territórioé só quando se inicia a manipulação propriamente dita que através de informações táteis nos aproximamos da verdadeira informação. Estas sensações envolvem temperatura, cor, consistênciamaleabilidade.

Inicia-se aí a leitura que de fato dará o rumo do trabalho. A leitura do ?antes? pode sugerir mas é o que acontece na hora que dirigirá o trabalho. Neste nível a leitura inclui as reações do clientedo Rolfista em todos os níveis (sensorial, emocional, atitudinal, intuitivo, racional).

Com estas considerações sobre a leitura do fenômeno, convém salientar que o toque é o instrumento básico do contato. Apesar de se poder usar fotografias, vídeo-tapes como elementos de conscientização da posturade visão do técnico nesta relação, o toque é usado como instrumento de transformação primordial,sua eficiência técnica reside na pressão com que é exercido. Diferentes pressões atingem camadas fasciais diferentes.

Ele está em 90% de todos os encontrostem sido o instrumento mais eficiente na reorganização da fascia do cliente,escolhido por todos os Rolfistas até então. É emissorreceptor de sensações, qualificando os efeitos proprioceptivos do contatoda relação.

Estas dez sessões estão organizadas de tal forma que o corpo todo é trabalhado separadamente em suas partesem sua integração relacional .A série apresenta uma subdivisão.

Sessões 1, 2, 3 representam uma primeira aproximação. Nelas são trabalhadas as camadas mais superficiais da fascia, abrindo caminho para as sessões 4, 5, 67 onde são trabalhadas as camadas mais profundas. Nas três ultimas, busca-se a integração das partes, do superficial com o profundo, para um funcionamento harmônico do homem.

“As mudanças de estrutura se tornam permanentes através de novos padrões de movimento; reciprocamente, novos padrões de movimento se tornam possíveis pela nova organização” (8 p.69).

Portanto, o resultado desta intervenção sempre se atém as condições da estrutura do processo (técnico, cliente, técnica, com suas especificidades relacionando-se num dado tempoespaço),representam uma nova possibilidade organizacional da estrutura do indivíduo.

O rearranjo da fascia simplesmente permite o emergir da estrutura originária do indivíduo, não se tratando da “criação” de uma estrutura,é no usono exercício da liberdade do cliente que haverá a manutenção, adaptaçãoalterações em sua estrutura trabalhada. O trabalho representa uma abertura, novas possibilidades,é do cliente a responsabilidade sobre seu corpo.

Portanto, depois de uma série de Rolfing, o indivíduo necessita tempo para a estabilização de sua estrutura reorganizada,uma vez que lhe fizer sentido, em seu processo, a busca de mais trabalho neste nível, existem séries de trabalho denominado “avançado”, que representam a continuação do trabalho. Estas séries constam de três a cinco sessões,são organizadas em função dos mesmos princípiosparticularizadas para cada caso.

O cliente pode recorrer a elas quando sentir que é o momento, mas não se recomenda que o façam antes de um mínimo de seis meses, para que os efeitos da primeira série estejam integrados.

CONCLUSÃO

A elaboração desta apresentação comentada de minha apropriação de Reichsua CMC, de Gaiarsa com sua teoria bio-mecânicaproprioceptivade Ida P. Rolf com seu ponto de vista sobre integração estrutural com sua metodologia de trabalho, aliados à experiência clínica nestas abordagens à vivências pessoais não ligadas ao desempenho profissional me trouxeram reflexões sobre todos eles, sua situação, correlação, identidadediferenças no que se refere à posturaformas de abordá-la. Me proponho nesta discussão a examinar o que o ponto de vista de Ida P. Rolf pode colaborar para quem trabalha com postura em Psicologiaa trazer algumas contribuições destes últimos para quem trabalha com Integração Estrutural.

O resultado disto são algumas revisões, alguns comentáriosmuitas questões em aberto.

A primeira delas chega a uma justificativa do porque acho válido dedicar tempoenergia analisando o trabalho sob o ângulo de postura de alguém que não está diretamente ligada ao campo da Psicologia.

A questão se abre com a visão Reichiana sobre processos psicológicos. Reich trouxe a Análise do Caráter, o conceito de CMC, a noção da correspondência entre a Psicologia profundaa Organização muscular da pessoa. Trouxe a possibilidade de contato com o inconsciente através da leitura dos “modos”. Trouxe não só a leitura a este nível, mas também a possibilidade de se trabalhar em Psicologia através do corpo da pessoa, de sua “armadura muscular”. Modos são expressões musculares. As expressões musculares correspondem posições espaciais, que podem ser chamadas postura s.

Quando constatamos pontos de vista que trazem o fenômeno do psicológico tão próximo ao problema da postura, já não podemos ter preconceitos de por onde começar a abordagem,talvez até quem comece por outro ângulo tenha importantes contribuições para quem venha na direção oposta.

A meu ver é isto que faz Gaiarsa quando assume esta proximidade é parte para estudar o aparelho locomotora biomecânica. Esta foi sua base para depois fazer toda reflexão sobre o psicológico.

É nesta ótica que gostaria de discutir Ida P. Rolf, a criadora do Rolfing, não psicóloga, uma vez que neste nívelassumindo o lugar dado à postura pelos dois autores mencionados, a linha divisória entre a Psicologiaas demais ciências vai ficando cada vez mais fina, se é que existente.

Ademais, minha experiência pessoalprofissional trouxeram experiência a nível de consciênciatransformações psicológicas – importantes quer para mim quer para meus clientes pela vivência do trabalho com integração estruturalminha prática psicoterapêutica (que segui mesmo depois de iniciar a trabalhar com IE) sofreram influências de Ida P. Rolfdo contato com seu ponto de vista.

A grande contribuição da obra de Ida P. Rolf para quem em Psicologia busca a postura é a vinculação do conceito desta ao de estrutura,deste ao de comportamento.

Para Ida P. Rolf estrutura “relações de unidades de qualquer tamanho no espaço”postura “posicionamento no espaço das relações tridimensionais das unidades que nos compõem””Em qualquer sistema energético, não importa quão complicada a estrutura… é experimentada como comportamento. Estrutura é comportamento”.

A meu ver esta integraçãodiferenciação destes conceitos – estrutura como organização, postura como colocação da organizaçãocomportamento como o acontecimento, a experiência – dão a possibilidade de discriminação operacional entre eles, de compreensãosituação isoladamente no todo em que se inserem,de conceitualizaçãotrabalho integrado nestes diferentes níveis.

A CMC são caracterizações estruturais (pelo seu elemento crônico de tensão) por isto definem formas comportamentais, possibilidades bio-mecânicas que GaiarsaReich correlacionam com a vida psicológica do indivíduo.

E quando Gaiarsa analisa as “mil posturas corretas” (uma para cada ato) em termos de eficiênciaeconomia funcionais,comenta os efeitos da CMC no “por-se” de cada instante, vai se aproximando rumo à busca de uma postura que seria a “base” mais sólida para estas mil posturas. Busca a postura de origem que mais traria liberdade de ação (melhor use do aparato locomotorsuas implicações psicológicas)chega a uma definição que inclui o arranjo humano em torno à linha vertical, considerando o efeito da gravidade em nossa posturalização. Esta proposta a nível de postura corresponde ao arranjo estrutural proposto por Ida P. Rolf (arranjo simétricoequilibrado das massas em torno à linha gravitacional). Uma vez que a postura é o “por-se” da estrutura, a estrutura ?posta? desta forma é a que melhor integra nossas partesmais possibilidades posturais oferece.

Sua compreensão de integração estrutural vem com a noção de relações apropriadas de partes numa estrutura segmentada, móvelplástica (que possibilita posturas diferentes no espaço),o fato de incluir o órgão contínuo do corpo (fasciatecido conjuntivo) como elemento básico na organização estrutural leva a uma atitude de sempre se analisar qualquer postura como um todo relacional. Se o que sustentadá forma é contínuose a estrutura que se posiciona é relacionamento de partes, a análise sectarizada fica sem sentido. Seu modelo traz intrinsicamente um instrumento que possibilita esta atitude de leituratrabalho integradas, instrumento este que é o tecido conjuntivo, sua plasticidadevisco-elasticidade.

O conhecimento de sua natureza anatômica nos leva não só a compreender todos os espaços do corpo, como a perceber suas inter-relações na configuração dada. A análise da forma externa passa a adquirir profundidade. O externo apresentado é só o resultado da organização dos internos,em se falando de movimento, podemos perceber através da análise deste, como se dá o arranjo interno em suas partes relacionadas, cobrindo o corpo todo.

Também por este ser órgão contínuo, fica muito facilitada a percepção das relações entre as partessuas conseqüências funcionais,mesmo a análise das funções.

Aqueles que se referem à postura através da análise do comportamento muscular (ReichGaiarsa, que também discute os ossosmenciona os ligamentos, porém sob a ótica de que estes são continuações musculares) lidam com unidades fisiológicas independentes (um músculo tem origem aquiinserção ali, denominação forma, função específicas), o que pode facilitar um raciocínio localizadodesvinculado do geral.

Nós que somos frutos de uma cultura de especializações muito facilmente podemos incorrer no erro de perdermos a dimensão global do fenômeno observado (foi muitas vezes o meu casoestá presente na grande maioria de conversas de que participo).

Se se inclui o tecido conjuntivo como um todo participante, a possibilidade de se incorrer neste erro diminui muito, já pelas características anatômicas do mesmo.

O assumir este ponto de vista (tecido conjuntivo participante da postura como um todo) possibilita não só a percepção do todo, mas o exame específico de relações entre as partes deste todo. Neste caso não tem sentido falar-se da postura de uma parte, sendo que só há existência de uma postura global, num contexto. A análise das partes representa um artifício que pode ser rico para sua compreensão localizada (anatômicafuncional), mas que corre o risco de se perder em compreensão limitada se não analisada no contexto onde se encontra.

Referindo-se específicamente às qualidades da fascia (plasticidadevisco-elasticidade), a leitura da postura por quem a tenha assimilado como organizadora postural, toma características igualmente mais plásticas. O corpo humano, sua organizaçãosuas posturas, podem passar a ser vistas como maleáveis em sua composição organizacional, ao invés de uma visão mais “dura” ou mecânica de quem se utiliza de ossosmúsculos para sua leitura.

Resumindo, a perspectiva de leitura da postura em se incluindo o tecido conjuntivoparticularmente a fascia como fatores organizadores da estrutura traz perspectivas de leitura integradarelacional, de profundidade na leiturade plasticidade.

Ida P. Rolf encontrou na gravidade o fator determinante para o arranjo estrutural humano. Em seu ponto de vista, qualquer tensão crônica provocaria ou representaria alteração funcional do todo, sendo que o órgão da forma se adaptaria para a sustentação deste organismo com esta alteração (ou mesmo sua alteração para razões de sustentação provocariam tal disfunção), correspondendo a uma alteração formal. Qualquer tensão crônica provoca ou representa compensações em toda estrutura formal do indivíduo.

Reich descreve seus anéis da CMC como tensões crônicas com função de defesa psicológica.

Neste nível surgem duas questões interessantes. Se o fato tensão crônica – é o mesmo, segundo Rolf, isto teria implicações em toda a estrutura, então, como ficaria a leitura dos anéis Reichianos à luz desta visão estrutural? Que alterações sofreria este tipo de leitura se vistos também à luz da organização estrutural de Ida P. Rolf? Que alterações ou revisões poderiam ser feitas nas tipologias apresentadas na Análise do Caráter?

Porém a prática clínica que levou Reich ao estabelecimento de tais postuladosdos seguidores que utilizam seus ensinamentos é extensavem de longa data,se confirmam parcialmente na prática dos que trabalham com Integração Estrutural (aparecem os anéis, mas não exatamente como descritossempre acompanhados de outras desorganizações não mencionadas por Reich). O que sugere interessante questão que é o porque as defesas psicológicas tenderiam a se organizar horizontalmente no arranjo humano.

Gaiarsa que partiu da CMCda inspiração reichiana em correlacionar músculo com psicologia, vai estudarpropor metodologias de trabalho que considerem outras funções dos músculos, além das de defesa a impulsos psicológicos. Detém-se em duas delas: o de sua participação na estabilização, postura, locomoçãoexpressãoem sua participação na propriocepção destas. Além disso integra as duas funções a as correlaciona com o mundo afetivoavalia as implicações no sociológico.

Analisa extensamente os efeitos da CMC em termos das limitações que representam em relação às possibilidades expressivascinesiológicas naturais do indivíduo,sua correlação com a personalidadevida social.

Também discute, como Ida P. Rolf o faz em relação à estrutura o papel da gravidade no arranjo postural, atribuindo importância central a esta relação corpo x terra.

Fisiologicamente a compreensão da função discriminadoraunificadora que o tecido conjuntivo exerce (em destaque a fascia) traz à tona novo ângulo, o ponto de que a função muscular depende da organização do órgão da forma (tecido conjuntivo). Se este está aglutinadoencurtado em tal lugar, por razões de sustentação do corpo na gravidadepreservação da possibilidade ereta, do movimento, da vida, os músculosoutros componentes envolvidos nesta desorganização, estarão funcionalmente comprometidos. Sabemos da anatomia neuro-muscular que em regiões do corpo existem várias camadas de músculos, conseqüentemente várias camadas fasciais (interpenetrando as fibras musculares). O funcionamento independente destes grupos musculares está vinculado, depende mesmo da discriminação entre eles. Esta discriminação é função do tecido conjuntivoda fascia. Se este está desorganizado (pela frouxidão, acúmulo, aglutinação) a fisiologia muscular assim também estará.

Gaiarsa descreve o movimento através de ações muscularesnervosas. A participação do tecido conjuntivo no movimento leva a perceber que nenhum músculo do organismo está diretamente inserido nos ossos. O que se insere nos ossos são os tendõesas aponeuroses. Ora, tendõesaponeuroses são qualificações de tecido conjuntivo, feita pela gradual mudança constitucional do tecido conjuntivo (bem como a diferenciação da fascia em tendõesaponeuroses).

“Seguindo-se a compreensão deste modelo, o movimento se dá pela alteração do diâmetro das fibras musculares. Ora, estas fibras musculares são envolvidas por tecido conjuntivo. À alteração de diâmetro corresponde uma alteração da forma do tecido conjuntivo. Portanto é a alteração da forma que desempenha o acionamento das alavancas ósseas, permitindo ação das articulações. Neste nível podemos dizer que a propriocepção portanto se dá pelas sensações resultantes da alteração da forma” (15).

Movimento visto do ponto de vista externo corresponde a deslocamento de massa no espaço, visto do ponto de vista interno, à propriocepção da alteração da forma.

Inúmeros sistemas concorrem para o movimentopropriocepção, inclusive o tecido conjuntivo que tem como órgão de manutençãocaracterização da forma um papel junto aos outros sistemas envolvidos. Participa portanto da postura humana a cada instante. É responsável pela contensãoorganização dos componentes do corpo que com ele determinarãoserão determinados a nível formal.

A própria descrição das funçõesnatureza do tecido conjuntivo nos coloca ante o fato de que ele é órgão unounificador do corpo a nível formal,que é ele que fornece as diferenciações funcionais do sistemasua integração,para sua compreensão implica na compreensão dos outros sistemas. Papel unificadordiscriminador. Tal importância tem sempre duas direções: a de melhor compreensão dos sistemas em sia compreensão do próprio como função dos outros também. Portanto vimos a importância dele como órgão de formada funçãodevemos analisar o ponto de que ao mesmo tempo que forma, é formado pela ação dos outros sistemas. E que como qualquer outro sistema, apresenta especificidades.

Qualquer trabalho com postura usando quaisquer ferramentas propostas, sempre implicarão na alteração do órgão da forma (tecido conjuntivo)que sempre apresentará efeitos em todos os outros sistemas do organismo.

Esta visão unificadaunificadora propõe exame interdisciplinarintermetodológico quando do trabalho com a postura. Mesmo que não seja o foco principal do trabalho, alteraçõesinterferências sempre estarão presentes.

No caso da Psicologia escolher trabalhar com postura, me parece de suma importância a noção de que para a postura concorrem todos os elementossistemas anatômicosfuncionais do organismoque o tecido conjuntivo tem função de suporte destes todosque sua função só existe enquanto possibilidade com a concordância dos outros sistemas.

Portanto quando Reich com sua metodologia de trabalho visa mudar postura, está mudando o órgão da forma para a possibilitação do restabelecimento funcional do organismomecanismos psíquicos,quando Gaiarsa estuda o aparelho locomotordele extrai suas propostas ligadas a propriocepçãocontrole do movimento, implicitamente estão lidando com a alteração da organização do tecido conjuntivo, uma vez que explicitamente estão lidando com postura.

E Ida P. Rolf quando propõe a reorganização do tecido conjuntivo frouxo para reorganização da estrutura, está explicitamente lidando com alteração das funçõesposições de todos os órgãossistemas envolvidos.

Com esta discussão quis mostrar que a visão de Ida P. Rolf sobre arranjo estrutural baseado na função da fascia ampliaunifica a visão da fisiologia da posturaque esta ampliação produz alargamento de visão para aqueles que buscam o trabalho com postura, movimentopropriocepção, oferecendo novos modelos de leituranovos níveis de reflexão.

Vejo nesta discussão simultaneidade, especificidadessobretudo complementariedades de focos nos aspectos teóricosmetodológicos.

Gostaria neste ponto de fazer alguns comentários mais ligados à metodologia de trabalho destes autores.

Para Ida P. Rolf para o trabalho com estrutura (correspondendo a isto uma posição no espaço, uma postura correspondente) só pode ser feito de forma relacional (noção esta implícita no conceito de estrutura), que inclua a reorganização das partessua integração umas às outras, considerando-se o todo em sua relação com a gravidade.

Este ponto me parece de suma importância para o trabalho com postura, uma vez que, se não considerado a ação da gravidade se encarrega da desintegração progressiva da estrutura.

Em sua concepção de trabalho, o sistema muscular é atingido pela alteração reorganizada daquilo que o contémesta reorganização da fascia implica na alteração espacial dos músculos segundo as normas da arquitetura humana criando condições discriminadas de funcionamento independenterelacionado do sistema muscular.

Neste ponto, com seu trabalho, está se desmanchando a Couraça Muscular do Caráter, porém incluindo a noção de reorganização em relação à gravidade.

E à medida que Gaiarsa fala da postura de base que maior ofereça possibilidades para o encontro de outras posturas para as ações dinâmicas da vida, seu modelo coincide totalmente com a proposta de Ida P. Rolf, apresentando a mesma fundamentação (arranjo simétricovertical em relação ao solo). A postura de base é representada pela postura que a estrutura organizadarelacionada apresentará. A proposta metodológica de Gaiarsa é aberta,neste ponto, não vejo incompatibilidade alguma entre o que propõe Ida P. Rolf como metodologiao que postula Gaiarsa.

Seus objetivos de trabalho são diferentescoincidentes. Se encontram na proposta da busca da postura de base, que representa a colocação no espaço da estrutura organizada,diferentes porque Gaiarsa além desta proposta inclui outra que é a propriocepção das posturas nos diferentes atos,a reeducação do sistema motor. Uma pessoa que sofre ou conquista alterações em sua estrutura terá a partir de então possibilidades de movimento absolutamente novas, o que acontecerá de qualquer forma na experiência cotidiana desta pessoa. As propostas de Gaiarsa oferecem possibilidades metodizadas para esta apropriação proprioceptivaportanto objeto de trabalho profissional, com as vantagens que este oferece (contato com especialista para dirigir, organizar, sinalizarparticipar deste processo).

Percebo estas posições complementárias metodologicamente.

Existe mesmo, atualmente, nos Estados Unidos um grupo ligado ao Rolf Institute denominado “Rolfing Movement” cujos objetivos são os da aprendizagem das possibilidades de movimento. O cliente muito tem se beneficiado deste trabalho. No caso, eu conheço os dois trabalhosencontro a fórmula de Gaiarsa muito mais desenvolvida a nível conceitualde propostas técnicas, mas minha experiência em seus grupos de aprendizagem mostra que a teoria fértil não acompanha organização metodológica desenvolvidaaplicada (esta provavelmente foi a principal razão de minha ida para os Estados Unidos em busca de um método, uma vez que então não tinha condições próprias de me apropriar de tanta fertilidadedesenvolvê-lo). Sinto este um campo com matéria prima em abundância (a nível teóricoprático) esperando por quem se aventurar a desenvolver sua metodização, aplicação, experimentaçãopublicação.

Para ambos o trabalho neste nível é psicoprofilático. Ambos assumem que as alterações psicológicas advindas da prática de suas metodologias serão decorrências da organização posturalapresentam o mesmo modelo de base.

Outras semelhanças existem a nível da questão ligada ao papel da propriocepção no trabalho, aí a contradição entre a teoriaa prática desta vez dos Rolfistas é imensa. Não há nada formalizado na teoria que saliente o evento de que em se mexendo no tecido conjuntivo mexe-se nas sensações que os músculos provocam. Mas nas aulasprática-clínica este fato é mencionado a cada instante. A maior parte do tempo, a atenção é voltada para o trabalho técnico em si. E, neste nível não está nada metodizado ou incluído na proposta de trabalho o repertório sensorialsua importância no relacionamento,os efeitos a nível psicológico que representam. Fala-se muito na experiência da verticalidade, na aprendizagem da função muscular, esquecendo da dimensão proprioceptiva do próprio toque que é o instrumento básico de trabalho.

Estes toques têm como foco as diferentes camadas do tecido conjuntivo frouxo atingindo-se as mais profundas ou mais superficiais dependendo-se da pressão usada no toque. Como sua proposta é desenhada pares reorganizar o corpo todo,os toques, apesar de dirigidos ao tecido conjuntivo produzem sensações, o trabalho fornece ao cliente uma experiência sensorial intensa de seu corpo todo,isto se dá durante as sessões,em diversos níveis de profundidade. Durante o trabalho para a integração das partes, pede-se movimentos ao cliente, o que, aliados aos toques, dão propriocepção de relações entre partes.

Considero (e ouvi relatos de pacientes) este aspecto proprioceptivo poderoso,considerando-se a imensa qualidade de toques que podem ocorrer durante estas horas de trabalho, seria interessante a apropriação, metodizaçãodiscussão da dimensão proprioceptiva do contato durante o processo de IE. Este é outro tema que requeriria pesquisas mais aprofundadas – os efeitos proprioceptivos do processo de Rolfing da forma como está proposto, não se pretende como uma técnica psicológica. Sua proposta visa reorganização estrutural, os efeitos psicológicos não são controlados, estão sendo pesquisados. Minha proposta é de averiguação dos efeitos psicológicos a nível de pesquisa porém vinculando-os a estas hipóteses teóricas.

Talvez por este caminho, Rolfing poderia se apropriar explicitamente dos efeitos psicológicos de tal metodologia, uma vez que podemos percebercircunscrever que metodologia usada em Rolfingtambém seus objetivos correspondem ao que Gaiarsa propõe como trabalho psicoterapêutico ou psicoprofilático. Neste nível Rolfing, por usar toques desta forma orientados, estaria trabalhando no nível de se criar uma auto-imagem proprioceptiva operando sobre sensações (da forma como está proposto, isto acontece, quer queira quer não, uma vez que mexer na fascia implica em propriocepção).

Seria muito rico que se apropriasse desta dimensão do trabalho, não deixando que a um campo de investigação que atua noutra faixa, que é o da apropriação profissional do toque enquanto acontecem as sessões, a nível da relação técnico-cliente, uma vez que no toque está a intenção do profissional,é concretamente na qualidade da pressão exercida que colocará suas intenções. Esta apropriação me parece outro campo importante a ser pesquisado.

Ainda falando de propriocepção nas experiências dos cursos o enfoque era sempre dado à experiência da verticalidade (propriocepção da verticalidade principal mantenedor da mesma, segundo Ida P. Rolf). Definiam-se como professores, professores de sensações musculares, mas isto não me parece devidamente incorporado à proposta metodológica, o que torna o uso desta possibilidade, arte pessoal.

Vejo que numa direção ou noutra (Gaiarsa-RolfReich) a questão acaba na propriocepção, que representa atividade do sistema nervoso. Em pesquisas futuras percebo que o conhecimento de suas leis específicas bem como a apropriação de seu funcionamento integrado com a atividade muscularesta com o sistema de sustentação, muita luz poder-se-á trazer, uma vez que a dimensão psicológica, em sua especificidade no fenômeno humano parece se inserir neste sistema.

Até agora comentamos o que a visão de Ida P. Rolf contribui para aqueles que trabalham com postura em psicologia, a nível de atitudes, no sistema de concepção, de leiturametodologia de trabalho.

Uma vez que seu trabalho é sobre estrutura, ensaiamos perceber como pode se inserir no campo da psicologia, dizendo o que já foié feito,o muito que há por fazer.

Gostaria de ter podido inserir neste trabalho exemplos clínicos que ilustrassem estas contribuições, correlaçõespropostas, mas a inclusão agora destes exemplos requeririam extensa apresentação sobre a anatomiafisiologia do tecido conjuntivoilustrações que demandariam fotografiasfilmes, bem como a exposição de toda uma metodologia de leitura estrutural.

Uma vez que o objetivo deste trabalho se situa a nível da influência que a concepção de Ida P. Rolf tem para quem trabalha com postura em psicologia, nos reduziremos aos efeitos conceituaisatitudinais que sua concepção pode gerar.

Esta apresentação sugere outros trabalhos com finalidades específicas.

Aqui tentou-se uma integraçãogostaria agora de pensar de forma mais ampla no que significa esta integração,o papel da postura nesta integração.

Ciências especializadas tem se dedicado especializadamente aos estudos de seus objetos. Maismais, em minhas leiturasoutras fontes de informação vemos as ciências buscarem nas outras elementos para suas especulações.

Parece que vivemos o fim das especializações. Momento histórico que oferece novamente o desequilíbrio como estado. No desequilíbrio há o risco da queda, da desorganização.

Para mim, o desequilíbrio caótico se daria à medida que as ciências, nesta tentativa de integração perdessem seus objetos e/ou se confundissem com os objetos das ciências mais próximas.

Mas ao mesmo tempo a percepção de que nenhuma delas se basta passa a ser a foco ampliativointegrativo.

Usando-se o modelo do corpo humano, nenhum sistema pode existir sem a existência dos outros, nem funcionar sem a corroboração dos outros. Mas, ao mesmo tempo todos tem suas especificidades que no seu conhecimentodesempenho recuperarão o todo integrado.

Tendo a ver assim o panorama da experiênciado conhecimento.

Esta extrapolação semi-gratuitaque requer estudo, me faz pensar no papel da forma, da estruturadas posturas.

A organizaçãointegração formal possibilitam o funcionamento dos sistemas físicossua inter-relação com os demais. Como fazem parte de um todo, todas as partes influenciam todas as demais.

No nosso caso, psicólogos, estamos buscando na propriocepção integrada com os outros sistemas o elemento de consciência. Percebemos sua ligação profunda com o sistema muscular, com a bio-mêcanicaagora com o seu órgão de sustentação.

A apropriação comedidanão redutiva destas semi-verdades que vamos descobrindo me parece de suma importância.

Assim, mudando-se a função psicológica posso mudar o corpo material. Experiência clínica tem mostrado isto. Mas, até que ponto?

Mudando-se a forma física estarei trabalhando com as funções psicológicas. Outra vez relatos científicos,o meu mesmo, dizem que sim. A mudança de estrutura corresponde mudança psicológica. Mostramos as probabilidades deste fato teoricamente. Mas isto cobre todas as possibilidades que o sistema específico traz? Compreenderespeita suas leis?

Quando analisamos uma postura, polo apresentado neste trabalho, percebemos que a explicação desta só por causas psicológicas (e mesmo que o raciocínio não seja causalístico, seja simultaneidade de fatos) é redutivo à luz da bio-mecânicada organização estrutural de nosso corpo. Não podemos deixar de falar, pelas explicações da física sobre a gravidade de sua influência energética na postura. Muito menos, depois de Reich, de considerar que as contrações musculares crônicas não contém a história emocional do indivíduo.

Qualquer explicação única é redutivafechada. O mistério da vida sempre nos surpreendeaguça o conhecimento.

Vejo formando-se em mim uma mentalidade integrativa, que gera curiosidade, ansiedadehumildade.

Não tenho dúvidas que o contato com IdaGaiarsaatravés deles com Reich tiveram participação imensa nisto.

Vi que Reich, depois da Análise do Caráter foi buscar a vidaa vida para os humanos na biologiadepois na energia cósmica. Vi Ida buscar a gravidade para os homens. Vejo Gaiarsa ensinando aos homens todos os como de cada instante.

Perplexo, vejo-osme vejo…

NOTAS

a. Os mais significativos a nível acadêmico são:
-Maria Isabella De Santis “O discurso não verbal do corpo no contexto psicoterápico”, apresentada na PUCRJ em 1975.
-Rosamaria Toniolo “O espaço deste tempo: uma leitura da intimidade do adolescente”, apresentada na PUCRJ em 1980.
-Maria Cristina Barros Carvalho “O indivíduo, Símbolo vivo na religião Nagô”, apresentada na PUCRJ em 1980.
-Rosa Maria Tosta – trabalho em andamento sobre a visão socio-política de Reich, para o centro de pesquisa PUCSP.

b. Os dados biográficoscronológicos ligados à história de Ida P. Rolfao desenvolvimento do “Rolfing” foram apoiados principalmente na introdução que Rosemary Feitis faz em 1.

c. Como vemos no início da carreira de Ida P. Rolf, esta estava ligada à pesquisaensino em química, fisiologiaa trabalho acadêmico científico destas áreas. Nos Estados UnidosEuropa Ocidental, neste início de século a medicinaciências afins se desenvolviam orientadas para uma visão sintomatológica da saúde. A orientação geral para se tratar de problemas de saúde era a de aplicação de doses de elementos químicos que pudessem eliminar tais sintomas ou o exercício de cirurgia. A químicaa técnica cirúrgica se apresentavam como as possibilidades para o tratamento dos problemas físicosestas abordagens eram o foco dos cientistas, estando então em franco progresso.

d. “osteopatia começou com a insatisfação de um homem (Dr. Andrew Taylor Shill) com a filosofiametodologia em yoga no começo do século em se tratar doenças humanas” (15. p.95). Considera o sistema músculo-esquelético como fator etiológico de suma importânciasua avaliaçãomanipulação, canais poderosos de tratamento. Visa trabalho sob a estrutura músculo-esqueléticacom isto a alteração das funções orgânicas.

e. Julian Silverman, PhD, trabalhava no “Agnews State Hospital, San José Califórnia”foi Diretor Administrativo do Esalen Institute, Big Sur, Califórnia.

f. Valerie V.Hunt Phd. Professora titular, diretora do Laboratório de Movimento Humano Eletromiográfico, Departamento de Cinesiologia, Universidade da Califórnia, Los Angeles, USA.

g. São curiosaselucidativas as descrições dos resultados das pesquisas biomédicas do Skylab, editadas por S. JohnsonLawrence F. Dixtlein, Nasa (p.109 a 111). Neste relato, vemos alterações químicasfuncionais em todos os sistemas orgânicos dadas à entrada no campo não gravitacional, a permanência maior ou menor no espaçoa readaptação dos astronautas no campo gravitacional.

h. ?Aparece aumento na altura (até 2 polegadas), instabilidade postural, equilíbrio precário, vertigens, inabilidade de ficam em pé com olhos fechados, marcha com pernas abertas, alterações químicas no organismo, funcionamento diferente do coração, alterações dos volumes dos pulmões, retorno do sangue venoso mais rápido, alterações nervosas nos centros de controle motor, etc?, (18, p.10).

i. Para anatomia da fascia ver:
Gaullaudet, B.B. A Description of the Planes of Fascia of the Human Body. New York, Columbia, University Press, 1931.
Singer, E. Fasciae of the Human Body and Their Relations to the Organs They Envelop. Baltimore, The Williams & Wilkirs Company, 1935.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

1- FEITIS, Rosemary – Ida Rolf Talks about Rolfing and Physical Reality. New York, Harper & Row Publishers, 1978.

2- GAIARSA, Jose Angelo – O Corpoa Terra, Separata da Revista NormalPatológica. Ano VII no. 1-2-3, jan-set 1961 pp. 211-346.

3- HUNT, V.V.MASSEY W.W. – Electromyografic Evaluation of Structural Integration Techniques. Psychoenergetic Systems, no.2, pp. 199-210.

4- REICH, William – La Funccion del Orgasmo. 2ª. ed. Buenos Aires, Editorial Paidos, 1962.

5- _____ – Character Analysis. 4a.ed. Plymouth Great Britain, Vision Press, 1976.

6- ROBBIE, D.L. – Tensional Forces in the Human Body. Osteopathic Review, vol. VI, no.11, Nov. 1977 pp. 45-48.

7- ROLF, Ida P. – Rolfing, The Integration of Human Structures. New York, Harper & Row Publishers, 1978.

8- _____ – Structural Integration, a Contribution to the Understanding of Stress. Confina Psychiatrica, no.16, 1973. pp. 69-79.

9 – SNYDER, G.E. – Fasciae – Applied Anatomy and Psysiology. Academy of Applied Osteopathy, 1956, pp. 65-75.

10 – SILVERMAN, Julianoutros – Stress, Stimulus Intensity Control and the Structural Integration Technique. Confinia Psychiatrica no.16, 1973, pp. 201-219.

OUTRAS REFERÊNCIAS

11- GAIARSA, Jose Angelo – Original da coleção sobre ReichGaiarsa, atualmente no prelo.

12- ______, Conversa pessoal com o autor, discutindo seu conceito de postura de base.

13- _______, Conversa pessoal com o autor sobre sua metodologia de trabalho.

14- HUNT, V.V. – Project Report. A study of integration from Neuromuscular, Energy field and Emotional Approaches. Publicado pelo Rolf Institute of Structural Integration, Boulder, Colorado, USA, 1977.

15- FRENK, S. – Conversa pessoal sobre fasciamovimento.

16- KIRBY, R. – Probable Reality Behind Structural Integration – How Gravity Supports the Body. Rolf Institute of Structural Integration. Boulder, Colorado, USA.

17- LITTLE, K.E. – Toward more effective manipulation manejement of chronic myofascial strain and stress syndromes. Osteopathic manipulative therapy, 1968, pp. 95-105.

18- NORTON, R.D. – Gravity is a Prag. Bulletin of Structural Integration, vol. 7, no.1 maio 1980, pp.8-11.

19- ROLF, Ida P. – Structural Integration. Gravity: An Unexplored Factor in a more Human use of Human Beings. Rolf Institute for Structural Integration, Boulder, Colorado, USA,

20- _____, Structure. A new factor in Understanding the Human Condition. Boulder, Colorado, USA, Rolf Institute, publicação independente.

21- _____, The vertical. Experiential Side to Human Potention. Rolf Institute, Boulder, Colorado, USA.

22- SILVERMAN, Julianoutros – An Interpretation of the findings of Cluster Analysis of evoked response and Electomyografic Data after Structural Integration. A Summary. Ida Rolf Foundation for Structural Integration.

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