Nos últimos anos, a escola brasileira de Rolfing vem assumindo papel importante na formação de rolfistas japoneses também na constituição da associação daquele país (JRA). Os primeiros contatos foram feitos por Cornelia Rossi, em 2002, quando deu aula para a primeira classe de Unidade 3 feita naquele país. Em 2004, na primeira turma formada integralmente no Japão, ela voltou para dar a primeira etapa, que ainda era chamada de pré-curso.
Ano passado estiveram por lá, como convidados para formar uma turma de 18 alunos: Lael Keen (em maio), Pedro Prado e Monica Caspari (de outubro a dezembro). Lael deu a Semana de Princípios. Pedro, Monica deram juntos, com assistentes japoneses, a Unidade 3, completando a formação dessa turma.
Este ano (agosto) é a vez da nova professora brasileira, Raquel Motta. Ela foi encarregada de apresentar o modelo brasileiro da Unidade 1 (Cadeiras Básicas, Liberação MiofascialRelações Terapêuticas), como uma opção que poderá auxiliar na organização da escola japonesa.
Entrevistados pelo Rolfing Brasil, PedroMonica contam como foi a experiência de ensinar Rolfng num país tão diferente. Foi enriquecedor, valeu à pena,nem foi tão difícil. Mas confessam que precisaram de dois tradutores que se dispuseram a converter para os visitantes ocidentais, alem das falas, muito de seus valores hierárquicos, significados de gestos, expressões, maneiras de olhar um objeto. E, depois de muitos risinhos afetivos, ate o tipo de flor que se deve dar a uma aniversariante.
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Pedro Prado:
Rolfistas japoneses já se veem como grupo autônomo
“Éramos uma equipe de cinco pessoas. A Monica, eu, uma coordenadora de classedois tradutores, um para cada professor. O meu tradutor, Yoshiotaka Koda,o rolfista mais antigo do Japão nos o convidamos para ajudar na supervisão de mesa. Ele já tinha sido assistente dessa turma na classe anterior, de Jim AsherLael.
O que a gente encontra na comunidade japonesa, são pessoas que se formaram isoladamente nos EUA, na Austráliaate no Brasil. Mas não existia um grupo que se unisseformasse uma unidade que resolvesse ensinar divulgar o Rolfing no Japão, como esta acontecendo agora.
Nem todos são exclusivamente rolfistas, fazem varias coisas para viver. Então, ano passado, começou-se a formar um grupo, que esta começando a se perceber como entidade. E isso coincidiu com a nossa ida lá. Parte do convite deve-se a isso.
Quando fui para Tóquio, fiz uma reunião com os rolfistas japoneses, fomos jantar, são muito respeitosos. Foi quando a gente falou de comunidade, o que é agregação, o quea inserção de um grupo num panorama internacional. Eles não tinham a noção de ser uma entidade, um grupo conectado, sem serem subserviente aos EUA. Sem espaço para se expressaremse desenvolverem.
Diferenças ajudam o Rolfing a crescer
A grande tarefausar as diferenças culturais deles, como japoneses que são, para o crescimento do Rolfing. E só eles podem fazer isso. Foi um momento bacana em que o grupo se percebeu do espaço que tem, da importância deles nesse cenário. Já tem uma associa,cão, essa diretoria nova esta em contato com a gente aqui do Brasil. Não tem sede. Ainda estão naquele estagio em que as macas ficam na garagem de alguém. Eles tinham o mínimo de estrutura para um eventodepois desmanchavam tudo.
Eles têm um professor de movement, que fez um workshop sob minha supervisão, para verificar se estava pronto para tocar. E agora o Yoshiotaka também se candidatou a ser professor de estrutural. E tem mais dois ou três que estão se candidatando. Então parece que começa a germinar uma escola por lá Ainda que exista um certo descompasso entre os mais antigos, que temem a concorrência de novos rolfistas,os mais jovens, que estão mais progressistasagressivos nessa direção.
Uma ponte Brasil-Japão
Eu acho que a presença minhada Monica lá, representando a ABR, criou uma ponte Brasil-Japão, representou uma transformação na percepção deles como comunidade. Reforçando eloshábitos que são menos de baixo para cima, como acontece em rela,cão a Bolder, para uma coisa mais entre irmãos.
Eu tive uma experiência surpreendente, achando que, por ter jantado na Liberdade na adolescência, sabido o queorigamiikebana, eu já estava mais introduzido nesta cultura. Confesso que chegando lá foi muito impactante a percepção do japonês em casa. Mesmo tendo lecionado para japoneses fora do Japão, no Brasilnos EUA.
Fora de casa eles são muito resguardados recolhidos. E uma alma bastante interiorizada. Issoa base do estilo deles, esse contato com essa dimensão interna tão acessível para eles. Mas os japoneses na casa deles, com os hábitos deles, com o movimento deles, revelam um universo comportamental que eu não esperava. São mais firmes, seguros, um estilo pessoal.
Lá pareciam pessoas mais cosmopolitas, globalizadas, mais inseridas no panorama mundial, assim profundamente modernosclássicos ao mesmo tempo. Um pais numa transforma,cão de identidade.
Outra coisa que me surpreendeu muito foi o nível de afetividade. No primeiro dia. primeiro ciclo, ao perguntar “quem você éo que você quer do Rolfing”, o contato de cada com a dimensão interna foi muito profundo, muito disponível. Se citava um autor, no dia seguinte já tinham lido o texto. Achavam, liam, independentes. Bastante focados na tarefa de aprender, sem criar problemas.
Gafes engraçadas…
Claro que nos também fomos muito desajeitados, falamos bobagens, demos muita risadaforas. Teve um dia engraçado. Era o aniversario da coordenadoraa gente parou para comprar umas flores para ela. E todo mundo riu… Na verdade eu comprei algumasMonica outras. O arranjo da Monica era lindo para nos. mas para eles tinha a ver com um ritual de ancestrais, digamos “de cemitério”. Então a gente também foi aprendendo com eles. Mas era bonitinho o buquezinho.
Quanto à leitura corporal, na caminhada por exemplo,complicado. Eles tem problemas, um corpo mais atarracado, geneticamente falando, os arcos de propulsão do pé são diferentes. Ha muitos pés chatos, não muito presentes, mas eles faziam coisas também que fascinavam na perspectiva do movimentono psicobiológico junto.
Como experiência pessoal, tive uma sensação de estar em casa.
E tem a ver com encontrar uma cultura que dedicou tanto tempo a essa coisa do interno,
quando você se sente muito pouco agredido fisicamente, pelo som, pelo movimento. Vem junto, para mim, toda uma sensibilidade artística, que se revela em cada gesto, vendo o que fazem no seu dia-dia, dão o troco, pedem licença, no mercado, como atendem, fazem um pacote. Essa sensibilidaderespeitabilidade que me deixaram, nos meus aspectos parecidos com isso, assim muito calmo, muito situado, muito a vontade. Foi uma experiência bacana eu perceber coisas minhas, validar, nutrir.
Adorei essa coisa comunitária, essa atmosfera profundaleve, que foi dar aula lá, diferente de uma Alemanha, aquela coisa do europeu que critica antes de ouvir, do brasileiro meio folgado, que faz sentir que precisa catar a turma, quevocê que quer, que o aluno esta fazendo muito favor de estar lá. Não que seja todo mundo assim.
Como membro de uma comunidade internacional acho muito gostosa essa ramificação, criando essas linhas com America do Sul, África do Sul, Japão. O Brasil tem um campo proliferando, produzindo, criando ramifica,coes, explorado essa expansão esse continente de trabalho no mundoissobem atuante, não só teórico por nossa cultura. E nós temos know how, desenvolvimento, “temos etanol” para o Rolfing.
Monica Caspari:
Um embodiment diferente para cada cultura
Nos demos a Unidade 3 com dois professores, o Pedroeu, porque em determinados momentos a classe se dividia em duas turmas. Por isso também tínhamos dois tradutores. Interessante o papel deles, porque não só traduziam como ajudavam a gente a entender a cultura deles. Em parte, porque nem eles mesmos (tradutores) conseguiam entender o que estava surpreendendo a gente.
Por exemplo, o jeito de andar do japonêscompletamente diferente do jeito brasileiro, do americano, do europeu. Eles tem um padrão de caminhada único. Essa percepção inclusive me inspirou na maneira de montar a palestra que eu daria, nos EUA, com o tema “Um mundo, um trabalho? (*). Fiquei pensando: comoqueRolfing em diferentes culturas? E neste aspecto foi muito interessante essa experiência no Japão. Diferente da experiência de ensinar na Alemanha, por exemplo. Porque a cultura japonesamais diversa da nossa cultura, do quea cultura alemã.
Olhar o sombreado, não o objeto
Tive muitas conversas sobre como eles percebem, como eles olham. Aprendi com um deles, que járolfistafoi meu aluno na Austrália, uma coisa surpreendente para mim. Ele disse que os japoneses não focam o olhar diretamente para o objeto, mas para os sombreados ao redor dele. Sombreado em torno do objeto de observa,cão, um jeito diferente de ver o mundoolhar para as coisas. O que vai determinar, penso eu, um embasamento diferente no trabalho.
Eu estou agora pesquisando um pouco isso, em relação ao movement. O que significam essas diferenças, de que maneiradiferente. Diferentes culturas em relação ao corpo, ao embodiment.
No caso dos japoneses, o andardiferente esteticamente, bem diferente do ideal que conhecemos. Andam como se estivessem usando uma bota muito pesada. Eu perguntei a um deles o que acha daquele andar: bonito, normal, feio? Ele falou: de normal para bonito. Na minha opinião, era muito feio. Ai eu comecei a questionar o quebonito para eleso quebonito pra mim.
Que direitoo meu ou quem sou eu para determinar, mexer naquilo que eles acham bonito. Fiquei com essa perguntanãoprimeira vez que me acontece no movement. E ai surgiram mais perguntas do que eu tenho respostas.
Mas, me ajudou a entender que estava mexendo com coisas muito profundas, com a imagem corporal das pessoas.
Um dos momentos que eu temia era mostrar para a pessoa, como exemplo, alguma maneira como ela poderia caminhar com mais leveza, mais rendimento, menos esforço. E como isso afetaria o emocional dela. Quando o Pedroeu traçamos/montamos o jeito, a coisa começou a andar. Quando a gente puxava para o significado daquela diferença, da experiência, aí dava.
Um mundo, um trabalho, muitas culturas
Esse assunto poderia render muito. Todo mundo tem interesse nessa questão: comoo certo, comoo melhor, do ponto de vista da eficiência, da economia, etc. Mas o quebom numa cultura nãobom para todos. Se a gente coloca o titulo do simpósio “Um mundo, um trabalho”, o trabalho não fica mais para todo mundo, fica para algumas pessoas que se acham dona desse mundo, porque se eu não respeitar a particularidade de uma cultura, de um povo, esse trabalho nãomais para essa cultura, ou para esse povo. Porque o jeito, a técnica de manipulação, pode ser a mesma. Agora, como cada corpo vai receber a manipulação, vai “embolar” aquela manipulação, isso já vai ser diferente.
Agora, como eu não rolfo a pessoa para ela virar uma bela estatua no lugar, eu quero ver aquele corpo, rolfado, em movimento. E em movimento vou ter de considerar a cultura na qual aquela pessoa nasceu. Em movimento as coisas vão ficar muito interessantes, eu acho. Essa história de mundo globalizado, de Rolfing globalizado, não quer dizer que o movement vai poder ser exatamente o mesmo para todo mundo. Porque a estética de cada culturadiferente. E a estética mexe com auto-imagem, identidade, caráter. A estéticaa alma de um povo.
Época de construir pontes
De outra maneira, para ser bom rolfista, nãosuficiente conhecer a fundo uma determinada cultura. Ele pode conhecer essa cultura, mas não saber fazer a ponte entre as varias culturas. E um tempo de construir pontes.
Agora eu estou pensando isso em termos práticos. Preciso conhecer os valores da cultura da pessoa que eu estou rolfando. Perguntar: o que você pensa disso; o que você acha desse corpo alinhado; o quebonito para você? Como diz Jan Sultan, quando a gente tenta impor um padrão ao outro, em vez de torná-lo mais, a gente o faz tornar-se menos do quecapaz, do que ele pode ser.
Um lugar para o silêncio
A experiência de dar aula lá foi muito gratificante . Tanto por esse questionamento, por essas perguntas, como por conta do perfil dos alunos. Eles são diferentes. O japonês respeita o professor (sansei). E muito perceptivovem preparado para a aula.
Fiquei impressionada com o silêncio. Silêncio na aula. Na cultura deles existe um lugar para o silêncio. O silêncio nãoagressivo. Lugar para o silêncio, espaço para o silêncio. O aluno ouvefica em silêncio. Digerindo o que ouviu. Não vomita. Não tem bem ou mal estar nenhum. O silêncio faz parte da cultura deles,respeitado, tem status. O ouvidopara a aula. O silêncio da introspecção.
A gente estava dando aulaperguntava: vocês entenderam? Para os nossos padrões, o que se seguia era o silêncio. Mas a resposta estava no movimento sutil do rosto de cada um. Meio centímetro para cima, ou para baixo. Era preciso ler isso no corpo deles. Alegre, triste… Eles me ensinaram a ler isso. Se não olhar direito, vê uma porção de caras chapadas, parecendo que não esta acontecendo nada. Mas esta acontecendo. O volume da resposta vai de acordo com o silêncio. A respostamais sutil, mas existe.
(*) Monica Caspari foi uma das palestrantes do Internacional Association of Structural Integrators AS19 Symposium 2010, One World, One Work, nos dias 7, 89 de maio, no Hyatt Tech Center, Denver, Colorado. Também participaram como palestrantes Robert Schleip (via Skype, num telão), Serge Gracovetsky, dra Rosemary FeitisMichael Salveson. (Veja, na pagina…, o artigo “Historia de uma experiência iniciatica”)
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Cornelia Rossi: pioneira no ensino de Rolfing na Ásia
Sempre gostei de ciências biológicassou formada em Biologia pela USP. Encontrei no Rolfing a ciência em que eu acreditavaa mágica que imaginava ser possível. Formei-me em Rolfing em 1990,no mesmo ano fui convidada a ser assistente de varias classes do Til LuchauTom Myers nos USA. Logo em seguida passei a ser professora de diversas materias da Unidade 1 nos USA. Dei aula para vários alunos americanos, mas também de outros países, alguns deles do Japão. Tornei-me Life Sciences Faculty em 1990 dando aulas na Unidade 2na Unidade 3.
Tornei-me professora de Rolfing em 1998. No decorrer desses anos, acompanhei inúmeros alunos do Japão,observei o grande esforço que faziam para tornar-se rolfistas. Cada aluno ou cada grupo de alunos se fazia acompanhar de tradutor-interprete para o qual pagavam passagem aérea, estadia, honorários, etc.
Em 1998 tornei-me membro do Board of Directors do Rolf Institute USA,fiquei ate 2006, sendo um dos meus objetivos representar os CID, ou seja, membros rolfistas de todos os países excluindo USAEuropa. Acompanhei de perto as dificuldadesos esforços dos diversos grupos, principalmente no desejo de manter a sua individualidadeadaptação a características regionais financeiras ou não.
Primeira turma no Japão, 2002
Entre os alunos japoneses que tive nos USA, houve um grupo que fez as contasrealmente achou que valia a pena por motivos econômicospráticos levar um professor de Rolfing para o Japão em vez dos vários alunos se deslocarem. Foi assim que, em Janeiro de 2002, fui convidada para dar aula no Japão. Era uma Unidade 3, com 10 alunos japoneses. Embora a formação inicial da maioria tivesse sido nos USA, os alunos não dominavam este idioma,minhas aulas foram dadas em inglês, com uma tradutora para o Japonês.
Foi uma experiência muito rica. Euminha assistente, Valerie Berg, riamos disfarçadamente contando o numero de mesuras que aconteciam quando o cliente chegava junto ao seu rolfista. Estávamos felizes de poder observar que a cultura japonesa poderia ser preservada no decorrer do curso. Assim foi a primeira turma de Rolfistas que se formou no Japão em 2002.
Dois anos mais tarde, um grupo se organizou para um curso onde tanto a Unidade 23 fossem feitas no Japão. Foi assim que em Junho 2004 eu fui novamente ao Japão, desta vez para dar a Unidade 1. Assim, foi lançada a primeira classe integralmente realizada no Japão.
Acompanhei os movimentos para se formar uma Associação de Rolfistas no Japão, tanto através dos meus contatos no Japão como acompanhamento no Board,em 2005 foi fundada a JRA – Japanese Rolfing Association.
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