Associação Brasileira de Rolfing

Rolfing Brasil – ABR

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Tradução: Marilu A. dos Reis Revisão: Hulda Bretones e Lael K. Keen

O que constitui a ética em uma relação de ajuda? O que é a ética do toque?

Estas questões me acompanham há 30 anos, primeiro como cliente do Rolfing®, depois como rolfista, e mais tarde como professora de Rolfing. Durante estes anos eu vi, experimentei, ouvi e fiz muitas coisas que atualmente acredito serem antiéticas

– uma violação ao corpo e a psique. Também já experimentei, testemunhei e ofereci um certo tipo de toque com qualidade e presença respeitosas e que hoje acredito ser um ponto especialmente importante para o quanto e quão profundamente nosso trabalho afeta nossos clientes.

Quando falo de ética, não me refiro aos pontos mais óbvios, tais como confiança profissional, manutenção dos limites sexuais apropriados com os clientes, etc.. Estou me referindo a algo mais sutil e de difícil definição – o conjunto de atitudes subjacentes, conscientes ou inconscientes, que revelam a maneira como tocamos.

O core autorregulador versus a ideia que o praticante tem da necessidade do cliente

No esforço de compreender a natureza do toque ético tirei muita inspiração do conceito de autorregulação que o Dr. Peter Levine define como o profundo conhecimento e capacidade instintiva de autocura do corpo.

Na sabedoria inata do core autorregulador, encontra-se o conhecimento secreto que nos possibilita a liberação da tensão crônica e permite ao corpo alongar-se, abrir-se e incorporar mais graça, desenvoltura e naturalidade.

Cada um de nós tem um conhecimento corporal muito mais profundo e infinitamente mais sábio do que qualquer coisa que nosso intelecto possa imaginar. Existe uma razão para sermos o que somos, na doença e na saúde, que nossa mente consciente freqüentemente não compreende. Isto é ainda mais difícil de ser compreendido por um observador objetivo – médico, terapeuta ou rolfista.

Por exemplo, ombros suspensos e curvados podem não ser estruturalmente eficiente, mas representam a melhor forma que nosso organismo encontrou, num dado momento, para defender-se numa situação difícil.

Ninguém sabe melhor do que o core autorregulador como deixar os ombros relaxarem, descansarem e se tornarem “o jugo leve” da qual a Ida falava, em cima de uma caixa torácica que sustenta. Para nós, rolfistas, impor aos outros nossa visão, o tempo ou o caminho que acreditamos ser o certo é uma violação à singularidade de cada um. Com frequência, esta violação acontece com a melhor das intenções por parte do praticante e não é conscientemente percebida pelo cliente. No entanto, isto não significa que a violação não aconteceu, ou que não teremos que lidar com os efeitos desta interação todas as vezes que o tocarmos.

 

O Toque como Diálogo versus o Toque como Monólogo

 

Considerando que a mente/corpo do cliente contém toda informação que poderíamos necessitar para ajudá-lo, quando colocamos nosso toque a serviço do seu core auto-regulador, nos tornamos os facilitadores da mais profunda sabedoria do corpo. Porém, para fazê-lo, temos que estar aptos para escutar, e esta escuta requer que coloquemos de lado as idéias preconcebidas.
Ao iniciar uma sessão de Rolfing®, fazemos uma breve entrevista com o cliente e uma leitura corporal para determinar as áreas que desejamos trabalhar na sessão. Deste modo, quando o cliente deita na mesa, já temos uma idéia de onde queremos trabalhar e do que gostaríamos que acontecesse. Isto é ao mesmo tempo nossa maior força e nossa maior fraqueza. Uma força, porque usamos nossa visão e nosso conhecimento do corpo para entender os pontos mais passíveis de serem trabalhados, e uma fraqueza porque nos predispõe a pensar que já sabemos, quando isto não é verdade.

Basicamente, é o corpo do cliente que nos diz o que é necessário, e para receber esta mensagem nossa mente precisa estar aberta e nossas mãos receptivas. Quando tocamos pensando que sabemos o que deve ser feito, ficamos impossibilitados de receber esta informação.

oque? O tecido flui, amolece e dança com nossas mãos. O toque pode ser profundo, mas o movimento é sutil. Como o corpo diz não a uma determinada direção ou toque? O tecido resiste, retrai e se fecha nas nossas mãos. Portanto, se você estiver suando e fazendo esforço quando estiver rolfando, é quase certo que você não está escutando o corpo, que você está sobrecarregando e invadindo os seus sistemas de defesa.

Para ser ético, sempre que vamos tocar alguém, temos que lembrar que toda nossa habilidade só pode nos levar até o portal do mundo do cliente, onde devemos parar, bater e esperar pelo convite para entrar.

 

 

Exercício: O toque como Diálogo

 

Faça uma sessão completa de Rolfing®, onde cada toque, cada intervenção, comece pela colocação das mãos na parte do corpo do cliente que você está pensando em intervir. Não faça absolutamente nada além de escutar, até que você possa sentir os vários tipos de movimento que já existem neste lugar, a pulsação, a resposta respiratória, motilidade, etc. Faça a intervenção dialogando com estes movimentos já existentes, no mesmo ritmo deles. Como isto muda o seu trabalho? Isso muda a forma como você se relaciona com o seu cliente? Muda a forma como o seu cliente se relaciona com você? O tecido do cliente responde de modo diferente ao seu toque?

 

Linguagem e a “Coisificação” do Cliente

 

As palavras que usamos para descrever o que estamos fazendo quando estamos rolfando, ao nos referirmos a nós mesmos, aos nossos clientes e aos nossos colegas, definem a maneira como trabalhamos, os parâmetros de relacionamento entre o rolfista e o cliente e a qualidade do toque.
Por exemplo, o modo como estabelecemos as metas da terceira sessão, diretamente da receita que caprichosamente copiamos e estudamos como estudantes de Rolfing®: “Estabeleça uma linha lateral”, “Construa o espaço para que a 12a. costela funcione, e isto ocorrerá”. Ou na quarta sessão: “Crie palintonicidade no assoalho da pélvis”.
O que acontece quando eu digo que estou criando palintonicidade na pélvis de alguém? Ou construindo o espaço para a sua 12a. costela? Qual é a suposição implícita que as palavras que escolhi carregam? Estou dizendo que sou o construtor, o criador. Isto faz o quê do cliente? Um objeto. Matéria bruta para construção, na melhor das hipóteses.

Infelizmente, este padrão de discurso/pensamento é muito comum em nossa comunidade. Com que freqüência nós ouvimos coisas como: “abri a caixa torácica dela” ou “…depois que soltei seu diafragma e endireitei suas pernas, ele ficou simplesmente ótimo”? Toda vez que usamos termos que nos designam como escultores, construtores ou como causadores da mudança do cliente, por omissão, tornamos nossos clientes objetos e os reduzimos a um status sub-humano. E isto se reflete em nosso toque e em nosso relacionamento com o cliente.

 

Exercício: Testando a maneira como você fala sobre o seu trabalho

Tente mudar o pronome “eu” para “nós” quando você fala sobre o trabalho (a outra metade do “nós” é o seu cliente). Então, ao invés de falar, “abri a caixa torácica”, “nós abrimos sua caixa torácica”. Se você fosse o cliente, esta mudança de pronome afetaria a forma como você se sente em relação a si mesmo? E em relação a seu rolfista? E em relação a sua capacidade de mudar?
Quando você está trabalhando, ouça as palavras que usa ao pensar sobre o que vai fazer. Se você se perceber pensando, “vou soltar isto, liberar aquilo, endireitar aquele outro”, mude as palavras na sua cabeça para: “vou ajudar isto a soltar-se, ajudar a liberar-se, ajudar a endireitar-se”. Como isto afeta o seu toque? Sua visão sobre o cliente? A resposta do tecido do cliente ao seu toque?

 

O cliente como Mistério versus o Cliente como Objeto

 

Há alguns anos participei do Encontro Anual Europeu e, numa ardente discussão sobre se os efeitos do Rolfing® permanecem ou não, um rolfista de lá comparou o rolfista a um encanador. Ele disse algo como: “O encanador vai à escola de encanadores e aprende a consertar os canos. O Rolfing® deveria fazer o mesmo. Depois de freqüentar o curso de Rolfing®, eu deveria saber como consertar e fazer funcionar para sempre”.
Ainda bem que não é como a escola de encanadores! Eu teria encontrado um outro tipo de trabalho há muito tempo. Nós trabalhamos com seres humanos, que são entidades ricas e complexas, e não pedaços de canos.
Considerem, por exemplo, o caso do cliente que por alguma razão não está disponível para a mudança que estamos tentando propor. Nossa idéia é de “abrir a caixa torácica”, mas o corpo do cliente tem idéias muito diferentes. Pode ser que a caixa torácica fechada contenha memórias e emoções de algum abuso sofrido no passado e que a pessoa não tenha suporte ou recursos para enfrentá-las. Ou talvez sua esposa ou algum parente o tenha enviado para o Rolfing® e ele resiste à mudança devido a um jogo de poder com aquele membro da família. O motivo não importa. Quando a pessoa, consciente ou inconscientemente não está disponível para a mudança, ela não vai mudar. Podemos rolfá-las até cansar, podemos usar tecnologia biomecânica de ponta, podemos plantar bananeira ao pé da mesa de Rolfing®, ela não vai mudar.
Nossos clientes estão além da nossa compreensão. E paradoxalmente, quando nos lembramos disso, nos tornamos mais capazes de reverenciar o mistério fundamental que eles representam.
Não temos o poder de mudar uma outra pessoa. O que está ao nosso alcance é usar o nosso conhecimento e nossas mãos como catalisadores da mudança que o cliente deseja. O que temos é a capacidade de ajudar o cliente a elucidar o emaranhado de quereres e não-quereres da sua existência e tornar-se disponível para a mudança que quiser fazer.
A mudança acontece porque o cliente a deseja. Nós somos o instrumento que eles usam. Nosso papel como instrumento ou catalisador é mais apropriado quando colocamos nosso conhecimento à disposição do core auto-regulador do cliente e aprendemos a escutar a maneira como os tecidos dizem sim e não, e então respeitamos o que ele nos diz.

 

A diferença entre ser aquele que Ajuda e ser aquele que Salva

 

Muitos de nós (inclusive eu) chegamos ao Rolfing® com altos ideais para ajudar a aliviar o sofrimento e levar o potencial integrativo e transformador do Rolfing® para as pessoas. O que há de errado nisso? Na minha experiência, o desejo de ajudar o outro é sempre uma faca de dois gumes. O lado altruístico e humanitário está presente e é real, mas atrás dele frequentemente se escondem motivações menos nobres. Considerar-se capaz de “aliviar” a dor de alguém é “viajar no poder” e engrandecer a autoimagem do praticante. A personalidade do salvador extrai muito do seu senso de autoestima do efeito positivo que ele consegue “gerar” no outro.
Empowerment1 é uma palavra muito usada no Rolf Institute. Esperamos que nosso trabalho com nossos clientes não apenas os ajude a ter uma estrutura mais integrada e equilibrada, mas que no processo de trabalho eles aprendam o suficiente sobre si mesmos para se harmonizarem e não dependerem de nós para manter contato com o seu recém-descoberto bem-estar. A maneira como nós, enquanto profissionais, nos relacionamos com nossos clientes tem muito a ver com o quanto eles se responsabilizarão por suas próprias mudanças e o quanto eles irão transferir esta responsabilidade para nós. Quando o contrato implícito de relacionamento é de que o rolfista está salvando o cliente (ou arrumando-o, ou aplacando a sua dor), os papéis polarizam entre um superpoderoso-rolfista-herói e um cliente impotente e “objeto”. Sempre que o rolfista ou o cliente, ou ambos iniciarem este tipo de interação, o cliente não estará sendo atendido. Uma outra maneira de dizer é que, no relacionamento em que o rolfista atua no papel daquele que ajuda, o cliente é o foco principal. O rolfista é um companheiro fiel na viagem heróica do cliente (agradeço a Tom Wing e Heather Starsong por esta metáfora). Quando o rolfista se identifica com o papel de salvador, o foco da sessão muda para a brilhante missão do Rolfista de salvar o mundo e o cliente é relegado ao papel de companheiro na viagem heróica do rolfista.
Num recente workshop que ministrei sobre A Ética do Toque no Brasil, apresentei este pequeno esquema:

 

O medo da morte – A sombra do curador
Fazer o papel de salvador é uma defesa frequentemente encontrada nas profissões de “cura”. Quando sentimos que somos a causa da cura do cliente, estamos na ilusão de que temos poder sobre outra pessoa. Quando estamos no reino de nossa própria negação inconsciente, acreditar que temos o poder de curar o outro é estar a um passo de pensar que temos o poder de ultrapassar a velhice, o ferimento ou a decrepitude de nosso próprio corpo.
O fim da viagem no plano físico é o fim do nosso corpo físico. Todos morremos. Cedo ou tarde, este corpo, que é o nosso instrumento de trabalho, e com o qual nos identificamos, vai nos faltar. Ou, como disse uma vez um rolfista e amigo, Bill Smythe: “Não importa o quanto você consiga endireitar o seu corpo, ainda assim, vai morrer”. Este conhecimento é inerente a nossa matéria e, apesar de muitos de nós não o percebermos conscientemente, ele vive dentro de nós. Está sempre ali.
Para aqueles entre nós que tem crenças espirituais, ou que tiveram o privilégio de vivenciar algumas mortes iluminadas, a imortalidade da alma pode ser uma questão de fé. Mas nosso corpo teme a morte. Mostre-me uma pessoa que diz não ter medo de morrer e eu lhe mostrarei alguém que vive na ilusão.
Outra defesa, largamente encontrada nos círculos da New Age, é uma crença simplista de que você ”cria a sua própria realidade”. Neste caso, se você está doente ou ferido, existe uma relação causa/efeito muito rígida entre alguma atitude interior, que precisa ser corrigida, e a condição física externa. A cura é uma simples questão de encontrar um sistema de crenças que precisa mudar, ou de emoções que precisam se expressar. Ao fazer isso, o corpo físico voltará a ser saudável.
É uma solução tentadora e fácil adotar a crença de que somos completamente responsáveis pela condição de nosso corpo físico e transmiti-la aos nossos clientes. Ser confrontado com doença e perda de capacidade física de outra pessoa é assustador porque nos coloca em contato com nossa própria impotência. Uma parte de mim sabe que amanhã poderei ser eu, ou alguém que amo, a sofrer um acidente de carro e ficar paralisado do pescoço para baixo, ou receber o diagnóstico de câncer. A crença de que somos os únicos criadores de nossa própria realidade nos dá a ilusão de sermos capazes de controlar coisas que não controlamos. Ela empurra a onipresente sombra da morte para o fundo da escuridão do inconsciente.
Isto não quer dizer que não exista correlação entre o que nos aflige e a maneira como vivemos; usamos nossos corpos e nosso sistema de crenças e emoções. Em meu trabalho com o Rolfing®, o Rolfing Movement e o Somatic Experiencing®, eu tive a honra de estar junto a pessoas quando elas tocavam lugares onde pensamento, emoção, símbolo e realidade física estão interligados. Mesmo assim, dizer que podemos vencer a doença e a dor mudando a nossa maneira de pensar é uma grande simplificação e não faz justiça ao mistério que somos. As camadas mais profundas do nosso ser, onde a mente e o corpo fluem juntos e indistintos, não são acessíveis por via do córtex cerebral.
Nós não alcançamos o lugar onde podemos promover uma mudança na nossa ordem física por nossa vontade ou controle. Nós o alcançamos pela entrega e aceitação. Quando alcançamos os nós profundos do nosso ser e testemunhamos com compaixão o que encontramos, uma nova alquimia emerge. No momento em que observamos sem julgamento a estrutura de nossos pontos de sustentação, diferentes opções se tornam disponíveis e o core autorregulador pode e frequentemente produz uma solução nova e espontânea. Deste mesmo ponto de vista, ideias preconcebidas e um desejo rígido de mudar são duas condições que barram nosso acesso a níveis de corpo/mente/espírito, onde a transformação pode acontecer. É um paradoxo: no mesmo momento em que pensamos que vamos “criar nossa realidade” por um ato de volição, estamos nos aprisionando dentro dela.
Estar incorporado significa que nós somos vulneráveis aos “desígnios do destino” e que um dia vamos deixar este corpo. Esta é uma verdade não apenas para nossos clientes, mas também para nós mesmos. É preciso coragem e um contínuo relacionamento com nossa própria mortalidade para estarmos verdadeira e profundamente presentes com a dor do outro. E é deste estado de presença compassiva (do latim, “sofrer junto”) que a cura real pode emergir. Uma cura que, devo acrescentar, afeta tanto o cliente quanto o praticante.

 

Limites e Trauma

Um dos fundamentos da ética do toque é o respeito pelo limite do outro. E o tema do limite está invariavelmente interligado com o tema do trauma.
Limites saudáveis se assemelham à membrana celular. Elas são seletivamente permeáveis. Elas deixam fora o que é tóxico e permitem a entrada do que é nutritivo.
O trauma afeta nossos limites. A definição freudiana do trauma é: “Uma ruptura na barreira contra os estímulos, levando a esmagadores sentimentos de desamparo”. Peter Levine e Anngwyn St. Just definem o trauma como um acontecimento devastador na vida de uma pessoa. Em ambas as definições, o trauma faz parte da condição humana.
Nossos limites mudam em conseqüência do trauma. O lugar onde nossa membrana protetora foi rompida pelo trauma torna-se um buraco na nossa percepção de nós mesmos e na nossa integridade. Podemos defender este buraco tão vigorosamente que a vida e os outros não possam mais nos tocar (limites rígidos) ou este buraco pode se tornar uma porta aberta inconsciente, onde não temos escolha nem controle sobre quem e o que possa entrar (limites difusos). Em qualquer caso a nossa membrana celular seletiva e permeável não funciona mais como deveria: e isto provoca uma dor imensa no nível emocional tanto quanto num nível puramente instintivo e fisiológico, onde sabemos que algo vai mal com nossa capacidade de sobrevivência.
Como reparar os limites que foram rompidos? De dentro para fora. Mais uma vez, este é o trabalho do core autorregulador – a percepção natural de integridade e de saúde que é inerente a todos os seres humanos.
Nós, como rolfistas, podemos estimular o core autorregulador de nosso cliente ou podemos reprimi-lo. É frequente que, mesmo sem querer, nós acabemos por atropelá-lo e ainda o levemos a se esconder. Nossa atenção aos limites de nossos clientes é um fator decisivo no rumo que as coisas irão tomar.
Muitas vezes, quando os limites de uma pessoa não estão intactos, ela vai encorajar o outro a rompê-lo. Este encorajamento pode ser estar oculto ou ser totalmente explícito. No Rolfing® isto frequentemente aparece na forma de sofrimento silencioso enquanto o Rolfista trabalha profundamente na área que causa desconforto emocional ou físico no cliente. Também pode aparecer quando o cliente nos pede para pressionar com mais força e mais profundamente uma área do corpo onde o tecido se fecha para nós ou onde o cliente sente dor.
Quando respeitamos o “não” que o corpo de nosso cliente nos diz, criamos uma condição onde o seu core autorregulador é estimulado a começar o seu trabalho de consertar a ruptura. Da mesma forma, quando ignoramos esta mensagem, a tendência que isto cria é a de que nosso cliente se dissocie ainda mais de seu corpo e da noção de si mesmo como uma totalidade.

 

Limite e Dor

A dor é um limite. É a maneira do corpo dizer “muito rápido”, “muito profundo”, “muito cedo” e outras inúmeras mensagens como estas. Algumas vezes, a dor significa simplesmente um “não”. Em resposta à teoria de que o rolfista não causa a dor, mas que a dor é uma dor que já está no corpo do cliente, acho importante notar que se nós estamos trabalhando numa área onde existe dor, não importa se ela já estava lá ou se nós a provocamos. Dor significa que chegamos ao limite. Respeite o limite.
distribuição interna ROLFING® BRASIL 14
Nos anos 60, quando recebi meu primeiro Rolfing®, a minha rolfista me deu um cobertor para morder quando o trabalho ficasse muito doloroso. Eu fiz mais de um furo no cobertor. Sim, minhas pernas (que eram muito tortas) endireitaram e, na ocasião, eu achei que o que eu tinha vivenciado como uma violentação, valia a pena pelo resultado que deu. Hoje, acredito que aquilo que entendi ser um caminho certo naquele momento – “no pain, no gain” (sem dor, sem ganho) – era na verdade uma simples falta de opção. Se eu pudesse ter escolhido mudança e respeito para as minhas limitações, isto é o que eu teria escolhido. Por diversas vezes pude perceber, no meu próprio corpo quando sou rolfada, e no corpo de meus clientes quando estou praticando, que quando a dor é percebida como um limite e respeitada como tal, a mudança é mais profunda e o cliente participa mais desta mudança.

Exercício: Limite e Dor

O que acontece quando você faz uma sessão de Rolfing® completa sem forçar o limiar de dor do cliente? Isto desafia seu sistema de crenças sobre a eficácia do trabalho? E o sistema de crença do cliente? Como isso muda o seu trabalho?

 

Limite e Toque

Nos 25 anos em que faço parte da comunidade do Rolfing®, ouvi muito sobre trabalhar com intenção, ou, em outras palavras, trabalhar imaginando que sua energia está fluindo dos seus dedos para o corpo do cliente para efetivar uma mudança estrutural desejada. Trabalhei desta forma por anos e nunca pensei em questionar, até que nos meus estudos de Somatic Experiencing® eu comecei a receber informações bastante específicas sobre a importância de respeitar os limites.
Os limites do corpo físico são muito claros. No local onde nossos dedos tocam a pele do cliente, descobrimos onde nós terminamos e o cliente começa. O que acontece então, quando projetamos nossa energia através da pele para dentro das camadas de músculos, tecidos e órgãos, para atingir uma estrutura específica? Nós colocamos nossa energia dentro do cliente. Nós não estamos mais estimulando o cliente para a auto-regulação, nós já invadimos seus limites e o transformamos num objeto.
Um outro mito que se espalha em alguns círculos de cura alternativa e que por vezes chega à comunidade do Rolfing® é a idéia de que “tornar-se um com o cliente” é algo desejável. Peter Levine recentemente apresentou a distinção entre o que ele chamou de fundir-se (merging) e de estar com (joining). Fundir-se é um estado no qual perdemos nossos limites e a noção de nós mesmos separados do cliente. Quando estou ensinando Rolfing®, sempre posso dizer quando um estudante está fundindo-se com o seu cliente porque, mesmo do outro lado da sala, eu vou ver seu peito cair, sua cabeça desconectar-se do resto da espinha dorsal, dando a impressão de que seu corpo cai levemente em direção ao cliente. Sei quando estou fundindo-me com meu cliente (isso ainda acontece!) porque começo a me sentir atordoada e confusa. Estar com, por outro lado, é um estado onde nós estamos presentes em nós mesmos, nos nossos próprios corpos e ao mesmo tempo com os nossos clientes. Um estado em que sabemos onde nós terminamos e eles começam.
Nunca devemos subestimar o efeito que exercemos nos nossos clientes quando projetamos nossa intenção sobre seus corpos e permitimos nos fundir com eles. Há alguns anos, uma psicoterapeuta chamada Nan Narboe esteve no Encontro Anual e fez uma palestra sobre limites no contexto psicoterapêutico e em como eles se relacionavam com o Rolfing®. Um dos muitos pontos interessantes que ela apontou foi de que numa sessão de Rolfing® temos uma pessoa despida e deitada, e outra pessoa vestida e em pé; uma situação que por si só já está bastante carregada de emoção e significado. Nesta situação, a pessoa despida e na horizontal está duplamente vulnerável e predisposta a criar uma projeção parental e de autoridade em relação ao rolfista (no reino animal, exibir o abdômem é frequentemente um ato de submissão). É uma situação onde qualquer deslize do rolfista terá um efeito ampliado no cliente e onde a posição do rolfista como especialista e como a figura vestida e vertical vai dificultar que o cliente articule qualquer sensação de violação que possa sentir. Na verdade, se o Rolfing® traz outros benefícios, como frequentemente faz, o cliente pode desconsiderar outros sentimentos menos perceptíveis de algo que não está bem.
O estado que Bill Smythe chama de ressonância somática é o fundamento energético da manutenção de nossa integridade quando trabalhamos com outra pessoa. A ressonância somática é algo como o fenômeno da vibração sincrônica em um instrumento de corda, cuja corda vibra quando a mesma nota é emitida por um outro instrumento. Da mesma forma, quando estamos trabalhando e de repente nos vemos suspirando junto com nosso cliente, que teve um alivio espontâneo em seu corpo, estamos comumente em estado de ressonância somática com ele. A ressonância somática não deve ser confundida com fundir-se. Ressonância, por definição, precisa de dois.
Quando trabalhamos com um toque delimitado, estamos fora dos sistemas de nosso cliente. Nosso toque pode agir como um catalizador de mudança, mas a mudança em si será orquestrada pelo corpo do cliente. O relacionamento que se forma é de aliança terapêutica.

Tanto o rolfista quanto o cliente estão energizados e capacitados.
Quando tocamos e permanecemos nos limites, camadas de movimento e informação virão à superfície para falar com nossas mãos. Se suportarmos a espera, a informação se apresentará e nós não precisaremos nos precipitar atrás dela. Tocando a pele, podemos sentir as formas e estruturas por baixo dela e nossa pressão pode encontrar aquilo com que queremos trabalhar. Quando a estrutura que esperamos afetar for encontrada através de pressão externa, nós ainda estaremos trabalhando profundamente no corpo, mas estaremos fazendo isso sem entrar com a nossa própria energia. O corpo do cliente se estimula em resposta ao nosso impulso desde a pele.
A diferença que este tipo de toque pode fazer é enorme. De repente, ao invés de forçar uma mudança, nos vemos testemunhando uma mudança que catalisamos – uma mudança que é frequentemente muito mais extensa do que qualquer outra que tivéssemos planejado. Neste ponto, nossa visão de rolfistas e nossa compreensão de estrutura tornam-se o apoio, que nos diz onde tocar para estimular o core autorregulador do cliente de forma mais eficiente.
Na verdade, descobrimos, mais uma vez, que apenas contatar a pessoa desde o exterior e ficar ali, sem nela penetrar ativamente, é uma interação tão incomum, que o sistema do cliente irá mobilizar grandes mudanças, desde os níveis mais energéticos até os mais estruturais. Com que frequência temos a experiência de sermos encontrados por uma outra pessoa sem preconceitos, condições ou invasão, mas simplesmente encontrados? Há algo de poderoso e transformador neste encontro.

 

Exercício: Limite e Toque
“O lugar onde terminamos e eles começam”: faça uma sessão de Rolfing® com um amigo ou colega, ou alguém com quem você se sinta à vontade para realizar uma experiência. Ao tocá-lo, sinta sua própria pele, no ponto de contato. Isto visa manter sua energia/intenção em seu próprio contêiner. Então, experimente o contraste. Sinta a pele do cliente no ponto de contato. Isto tende a abrir uma passagem por onde a sua energia/intenção escoa para corpo do cliente. Que diferença você percebe?

Conclusão
Ética é um tema com vários desdobramentos. A ética do praticante do Rolfing® ou de qualquer outra profissão de ajuda requer uma prática contínua e cada vez mais profunda. No momento que pensamos ter tudo calculado, invariavelmente nos deparamos com outros níveis de nossas próprias contradições e falta de comportamento ético. Isto não é um sinal de fracasso, mas antes uma indicação de que continuamos a crescer e nos conscientizar de níveis mais sutis.
Quando tocamos outra pessoa, colocamos nossas mãos no Mistério da Vida. Nunca podemos saber e isto é a infinita alegria e fascinação de nosso trabalho. Fiz o melhor que pude neste artigo para compartilhar as questões e surpresas que moldaram minha viagem nestes últimos vinte anos. Espero que os meus próximos anos de trabalho sirvam para aprofundar minha capacidade de ceder ao desconhecido, que é a base do que nos permite conhecer verdadeiramente outra pessoa.
Agradecimentos
Muitas das idéias que compartilhei neste artigo e muitos dos insights que tive foram um resultado de meus estudos de Somatic Experiencing e Somatic Traumatoloy, com o Dr. Peter Levine e Dra. Anngwyn St. Just. Tentei dar a eles o crédito citando-os diretamente, mas sua influência vai além das poucas vezes em que os mencionei neste artigo.

ROLFING BRASIL (s/ data)

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